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Sebastiano Nela empolgava a torcida da Roma com estilo ‘durão’

Muitos dos ídolos da Roma são romanos de nascimento. Outros, no entanto, adotaram e foram adotados pela cidade e pela torcida, desenvolvendo um amor verdadeiro ao longo dos anos. É o caso de um dos maiores laterais da história do clube, que mostrou em campo uma entrega raramente vista no esporte: Sebastiano Nela, o Sebino, se tornou um dos ídolos romanistas na década de 1980 e, devido à identificação com La Maggica, virou dirigente anos depois.

Sebino Nela nasceu em Rapallo, cidade da região metropolitana de Gênova, e começou sua carreira como profissional no Genoa, aos 17 anos. Pelos grifoni, seu time do coração, Nela jogava como meio-campista e disputou três edições da Serie B – duas delas como titular – e logo chamou a atenção da elite italiana.

Nils Liedholm, histórico técnico da Roma nos anos 1970 e 1980, foi rápido no gatilho: o sueco morava no Piemonte, e sempre que deixava a capital para passar uns dias em casa, seu avião fazia escala em Gênova. Lá, ouviu várias pessoas dizerem que Nela era muito promissor. Então, um belo dia, ele decidiu ficar um dia a mais na cidade para vê-lo jogar pessoalmente e se impressionou. Em 1981, Nela se transferia para a Cidade Eterna e mudaria a sua vida. Primeiro, mudaria de posição: o canhoto Sebino jogaria preferencialmente como lateral direito.

Para se adaptar à nova função, Nela foi submetido a treinamentos extras por Liedholm. Superando as primeiras dificuldades em Roma, Sebino se tornou titular assim mesmo, embora inicialmente se esperava que ele teria sido contratado para suprir a precoce aposentadoria do lateral esquerdo Francesco Rocca, um dos grandes ídolos romanistas – Luciano Marangon foi adquirido para fazer este papel, mas não teve sucesso. Para se adaptar à nova realidade, Nela demonstrou parte do poder de superação e a coragem que o acompanhariam no restante da carreira. O jogador também nunca escondeu que fumava, e mesmo assim era um dos mais resistentes do time: seus pulmões funcionavam em dobro por causa de sua abnegação.

Nela, segundo agachado (da direita para a esquerda) começou a carreira no Genoa (Storie di Calcio)

Logo em sua primeira temporada, Nela foi um pilar da Roma de Liedholm. No esquema 1-3-5-1 do sueco, o defensor lígure atuava pela direita, e subia com frequência ao ataque, se valendo de sua potência física. Muito duro na marcação e disposto a comprar brigas e entrar em discussões, Sebino estava presente em quase todas as famosas “cenas lamentáveis”.

Se alguns jogadores viram ídolos do futebol por sua elegância, educação e espírito esportivo, outros, como Nela, ocupam esse lugar por sua passionalidade e agressividade. Dessa forma, sua garra e verve agonística o transformaram em um dos jogadores preferidos da torcida, que lhe dedicaram o cântico “Picchia Sebino” – em bom português significa “bate, Sebino”. Não demorou muito para que o defensor ganhasse o apelido de Hulk.

Após atuar em todos os jogos e marcar dois gols na temporada 1981-82, que terminou com a terceira posição da Roma, Sebino Nela foi também importante no ano seguinte, no qual a Roma foi campeã nacional, contando não só com o lateral na defesa, mas também com chegadas ao ataque: chutava forte com a canhota e, embora não fosse muito alto (tinha 1,77m), cabeceava bem. Curiosamente, o scudetto romano foi conquistado justamente diante do seu ex-clube, o Genoa, após um empate no estádio Luigi Ferraris.

No campeonato seguinte, a Roma, com o scudetto no peito, voltaria a enfrentar a Lazio no dérbi capitolino – há três anos, por causa da queda dos celestes para a Serie B, o clássico não acontecia. Foi um dia especial para Nela: muito provocado pela torcida adversária antes do jogo, Sebino apenas ficou ouvindo os insultos e observando de onde vinham. Após quatro minutos de jogo, Nela apareceu na área e anotou o primeiro da vitória por 2 a 0, de cabeça. “Depois da comemoração, olhei para as arquibancadas (de onde vinham os gritos) e fiquei satisfeito de ver que o número de gente que me xingava tinha triplicado”, disse o jogador, ao site Roma News.

Em 1983-84, Nela e a Roma conquistaram a Coppa Italia, mas amargaram o vice-campeonato italiano e europeu, ficando atrás da Juventus e caindo para o Liverpool, respectivamente. Os giallorossi, no entanto, tiveram algumas grandes atuações na temporada, como a partida de volta das semifinais da Copa dos Campeões, contra os escoceses do Dundee United.

A Roma havia perdido por 2 a 0 na ida e, na entrevista coletiva que antecedeu o confronto, o técnico adversário, Jim McLean, provocou e ofendeu os romanos e os italianos. A resposta da Loba foi na bola: o time de Liedholm fez 3 a 0 na volta – poderiam ter sido cinco, se dois gols não tivessem sido mal anulados – e, após o apito final, Sebino e outros jogadores foram para cima de McLean. Em uma foto que roda o mundo até hoje, Nela foi flagrado mostrando o dedo médio para o escocês. Claro, caiu mais ainda nas graças da torcida.

Cenas lamentáveis! Na semifinal da Copa dos Campeões, Nela se revolta contra o técnico do Dundee United (Mediaset)

Entre 1984 e 1987, o Incrível Hulk ganhou convocações para a seleção da Itália. Nela representou a Nazionale na Olimpíada de 1984, competição em que a Squadra Azzurra ficou na quarta posição, e também na Copa do Mundo de 1986, na qual foi reserva de Antonio Cabrini e não entrou em campo.

Apesar de estar na seleção, foram anos frustrantes para Sebino: primeiro, a Roma perdeu a chance de conseguir uma inédita dobradinha nacional. O time, já treinado por Sven-Göran Eriksson, foi ultrapassado pela Juve na reta final da temporada 1985-86, ficou com o vice e teve de se contentar com a Coppa Italia. No final do campeonato seguinte, em maio de 1987, Nela rompeu os ligamentos cruzados do joelho em um jogo contra a Sampdoria e teve de ficar afastado por um ano. Dessa forma, ele perdeu a chance de ser titular da seleção italiana após a aposentadoria de Cabrini – Paolo Maldini assumiu a posição ainda garoto e Luigi De Agostini era o reserva. Como “consolação”, o importante cantor Antonello Venditti, torcedor da Roma e autor do hino do clube, escreveu uma música em sua homenagem: “Correndo Correndo”.

Sebastiano Nela voltou aos gramados no final da temporada 1987-88 e ainda foi um dos líderes da defesa romanista por mais quatro temporadas, jogando em qualquer uma das laterais ou mesmo como zagueiro. Em seu penúltimo ano no Olímpico, Hulk ainda conquistou mais uma Coppa Italia e foi finalista da Copa Uefa, em 1991. Em 1992-93, porém, a Roma contratou o técnico Vujadin Boskov, com o qual Nela se desentendeu. Assim, o lateral deixou a Roma depois de 394 partidas vestindo giallorosso, e, em novembro de 1992, se transferiu para o Napoli. Curiosamente, iria jogar por sua vítima favorita: o lateral marcou três gols sobre a equipe azzurra.

Nela gostou muito de morar em Nápoles e do calor da torcida partenopea, muito similar ao da romanista. No entanto, já em fim de carreira e com problemas de relacionamento com o técnico Marcello Lippi, Sebino acabou passando mais tempo na reserva em que em campo. Então, aos 33 anos, Nela pendurou as chuteiras. Se não entrou para a história napolitana, gravou seu nome entre os ídolos do Genoa e da Roma, que o inseriram em seus respectivos halls da fama.

Depois da aposentadoria, Sebastiano Nela continuou se superando: sobreviveu a um infarto e a um câncer no intestino grosso. Apesar da saúde comprometida, continuou na ativa, como comentarista, e em fevereiro assumiu um cargo de dirigente na Roma: é responsável por gerenciar a relação entre clube e
torcedores. Nada mais apropriado para um jogador que desenvolveu uma relação tão próxima com os fanáticos pelo clube. “Em Roma, a torcida mostra afeto até nos momentos mais difíceis. A grandeza do torcedor giallorosso se vê nessas horas, e foi nesse momento que compreendi o que quer dizer torcer para a Roma”, disse o diretor, ao site do clube.

Sebastiano Nela
Nascimento: 13 de março de 1961, em Rapallo, Itália
Posição: lateral esquerdo, lateral direito e zagueiro
Clubes: Genoa (1978-81), Roma (1981-92) e Napoli (1992-94)
Títulos conquistados: Serie A (1983) e Coppa Italia (1984, 1986 e 1991)
Seleção italiana: 5 jogos

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