Seleção italiana

O futuro da Itália, sem Conte

Contrariado: atual técnico da Itália deixará o cargo por sentir falta do dia a dia de clubes (Radio Goal 24)

O trabalho de treinador de seleção nacional não é fácil. Ou melhor, do comissário técnico: são funções tão diferentes que a imprensa italiana faz questão de fazer essa distinção na atribuição das nomenclaturas. A passagem de Antonio Conte pela Itália deixa isso bem claro: contratado há dois aos, escrevemos sobre como seria o futuro da seleção com ele; hoje falamos como será após a iminente saída do comandante nascido em Lecce.

O que Conte deixou claro sobre as diferenças entre ser treinador de clube e um CT? Para ser comissário técnico, é preciso abandonar o dia a dia de treinos, deixar de orientar e coordenar durante as práticas, além de não ter o contato diário com seus jogadores e a preleção e estudo dos adversários a cada semana. Ao contrário, o trabalho consiste em passar meses observando e analisando convocáveis, acompanhar o futebol de base e se reunir apenas a cada dois ou mais meses com uma equipe reduzida para jogar até duas partidas a cada período. Antes disso, no máximo duas semanas de poucos treinos táticos, muito trabalho físico e de recuperação, para que não haja desgaste e lesões – administrando a relação dos jogadores com seus clubes. Enfim, é um ritmo totalmente diferente.

O atual treinador da Itália sentiu isso por dois anos. Nessa terça-feira, deu entrevista à Gazzetta dello Sport e contou suas desilusões na função, que assumiu no auge da carreira, depois de anos fantásticos na Juventus. Ele decidiu por algo novo, definitivamente não se adaptou e deixará o cargo após a Euro 2016. “Eu, Conte, general na garagem”: assim começa a matéria do jornal milanês. Conte afirma que sente falta do campo. “Sofreria muito se passasse mais dois anos assim, sem sentir o cheiro da grama”. Além da perda do convívio com a bola e seus jogadores, ficou frustrado com o comportamento de Carlo Tavecchio – presidente
da federação italiana de futebol (FIGC) –, irredutível a seus pedidos, e também com o contato com a liga e os treinadores dos times.

Enquanto o ex-treinador da Juventus arranja um lugar no Chelsea, se juntando a uma leva de treinadores badalados que comandarão os times da Premier League na próxima temporada, a FIGC também já pensa em substitutos no comando da Nazionale. Se discute um nome menos gabaritado e não tão custoso quanto Conte, que tem parte de seu salário pago pela parceira Puma.

Os primeiros candidatos são Roberto Donadoni, Gian Piero Gasperini e Gian Piero Ventura, treinadores experientes na Serie A. O primeiro citado, comandante do Bologna, parece comprometido com o trabalho que assumiu em novembro e tem vínculo com os felsinei até 2018 – ano da próxima Copa do Mundo, na Rússia. Gasperini e Ventura, por sua vez, estão em fim de contrato.

De outro lado, mas seguindo quase a mesma linha de raciocínio, outro candidato é o jovem Luigi Di Biagio. O ex-volante nunca treinou uma equipe principal, mas está ligado à FIGC desde 2011, passando dois anos na seleção sub-20, e outros dois na sub-21, onde está atualmente, fazendo ótimo trabalho e ajudando a desenvolver uma boa geração de jogadores de qualidade técnica.

Di Biagio conduz trabalho
alinhado com as premissas traçadas por Arrigo Sacchi ainda na gestão
passada, quando era o coordenador técnico das seleções juvenis. O ex-jogador também trabalhava
próximo de Cesare Prandelli, então CT italiano. Vale lembrar que a solução de um técnico ligado à federação é bem comum na Itália e já foi utilizada diversas vezes na história: entre 1977 e 1998, foi assim, com Enzo Bearzot, Azeglio Vicini e Cesare Maldini – todos treinaram as seleções de base por um longo período e depois foram alçados à “Nazionale A”.

Ainda há outra opção, considerando o curto prazo do trabalho pós-Euro para a preparação para o Mundial, quando a Itália virá sob pressão para se recuperar das últimas duas participações, em 2010 e 2014. Por isso, também cogitam o veteraníssimo Fabio Capello, de 69 anos. Reconhecido não apenas no futebol italiano, mas em todo o mundo, ele está sem emprego há um ano, depois de passagem ruim pela seleção da Rússia. Experiente em futebol de seleções e prático nos trabalhos, poderia entregar um time rapidamente para disputar a competição, mas não haveria aproximação alguma com o trabalho desenvolvido na base. Ou seja, seria uma solução puramente imediatista, o que também não deixa de ser uma aposta.

Thug life? Capello é um dos candidatos a substituírem Conte na Nazionale após a Euro (The Guardian)

O presente ainda importa

De qualquer forma, independentemente do futuro a médio prazo de Conte e da Nazionale, o objetivo no momento é a Eurocopa. Estamos a poucos menos de três meses da competição, que será disputada na França entre junho e julho, e Itália terá pela frente adversários espinhosos no Grupo E: Bélgica, Suécia e Irlanda. Antes disso, nesta quinta, 24, a Squadra Azzurra entra em campo na primeira data Fifa do ano, em amistoso contra a Espanha, e terá pela frente outros “amigáveis”: Alemanha, no dia 29 deste mês; e Escócia e Finlândia em 29 de maio e 6 de junho, respectivamente. Serão as únicas quatro partidas antes da estreia contra a Bélgica, no dia 13/6.

Segundo a Gazzetta dello Sport, Conte tem em Buffon, Bonucci, Verratti e Pellè a espinha dorsal da sua equipe, cada um líder em seu setor. As partidas grandes desta Fifa ajudarão o treinador a solucionar suas últimas dúvidas, que são poucas depois de dois anos de trabalho, mesmo com as mudanças no esquema tático – que, na verdade, não são tão importantes assim. O time tem uma identidade e joga assim independentemente da formação.

O próprio treinador afirma na entrevista para a Gazzetta, que quer “uma máquina de guerra na França”. Conte diz que, por se tratar de um torneio curto, deve escolher jogadores versáteis, que podem jogar em mais de uma função. “Passamos do 3-5-2 ao 4-3-3 até chegar ao 4-2-4 ou 4-4-2. E não terminamos ainda. Quando há um torneio curto assim e apenas 20 jogadores, sem contar os
três goleiros, precisa-se de gente que pode se adaptar a diversas
situações táticas. Não é uma questão de quem é melhor ou pior, mas
diferentes, que podem encaixar com o que penso. Também é fundamental
observar o comportamento no trabalho de esse ou aquele jogador”, completa.

O CT italiano quer avaliar como o time se portará diante de adversários
duros e muito técnicos, como Espanha e Alemanha, e mesmo que não tenha
todos os jogadores que gostaria de observar à sua disposição, fará
testes. Como conta o diário róseo, Conte também cogita outro esquema tático, o 3-4-3. Na edição dessa terça-feira, a Gazzetta dello Sport até especulou um time ideal na formação, com Buffon no gol, Barzagli, Bonucci e Chiellini atrás, Florenzi e Darmian nos lados, Marchisio e Verratti no centro, e Candreva e El Shaarawy em suporte a Zaza. Um sistema que também seria adaptável a jogadores como Bernardeschi, Giaccherini, Bonaventura, Insigne, Éder e Pellè – todos convocados pelo comissário técnico.

A ideia seria aliar a força do trio juventino Barzagli, Bonucci e Chiellini, base e razão do 3-5-2 ser tão utilizado, assim como tentar aproveitar o melhor do time do meio-campo para frente, como os tantos pontas que têm se destacado no campeonato. Cumprindo as expectativas, segundo a Sky, o time chegou a treinar assim no primeiro treino tático antes dos amistosos – embora sem Barzagli, Chiellini, Verratti e Marchisio, lesionados. No treinamento para a partida contra a Espanha, que será disputada no estádio Friuli, Conte foi de Buffon no gol; Darmian de volta às origens na zaga, ao lado Bonucci e Acerbi; Florenzi e Antonelli nos lados do meio-campo; Jorginho e Montolivo no centro do setor; e Candreva e Éder juntamente ao centroavante Pellè.

Esta é uma formação que se alinha ao que planeja Conte, que pode normalmente alterar o esquema tático sem fazer substituições. Ou mesmo jogar em outro módulo, como o 4-4-2 dos últimos jogos, com Darmian e Antonelli nas laterais e Florenzi e Candreva mais à frente. Quem sabe o 4-3-3, não utilizado há algum tempo, novamente com Darmian e Antonelli nas laterais e dessa vez Florenzi no meio-campo, com Jorginho e Montolivo – isso, claro, se limitando ao time que treinou na terça. São muitos os jogadores disponíveis para testes, a exemplo de Rugani, Thiago Motta, Soriano, Bonaventura, Giaccherini, Bernardeschi, Insigne, Okaka e Zaza.

Com tantas opções no elenco de convocados – sem esquecer que o treinador leccese deixa de fora alguns jogadores talentosos, como Berardi, Sansone, Vázquez, Pavoletti, Saponara, Romagnoli, Rossi ou Belotti – é difícil saber como Conte vai colocar o time em campo, quiçá imaginar o quanto será aproveitado com o próximo treinador. O que dá para cravar é que a classificação da Itália para o Mundial de 2018 e o seu eventual desempenho na Rússia dependerá da rápida adaptação do substituto de Conte.

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