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Albert Gudmundsson, o primeiro homem de gelo na Itália

Albert Gudmundsson é um nome conhecido basicamente entre os nerds e hipsters do futebol – os mais exaltados representantes destes grupos, inclusive, já devem estar chiando porque não escrevemos “Guðmundsson”. Pois bem, Albert é a figura que iniciou a bela história do esporte na Islândia, que vive seu ápice com a chegada às quartas de final da Euro 2016. O primeiro jogador profissional da história da ilha nórdica também atuou na Itália e teve história entrelaçada com a França, adversária dos vikings no jogo mais importante de sua história.

Quando Gudmundsson começou a jogar futebol, na década de 1940, a Islândia era um país mais isolado do que é hoje. Na verdade, nem era uma nação ainda: ao longo de sua história, a ilha dos gêiseres e vulcões teve presença escocesa e sueca, união com a Noruega e também fez parte da monarquia dinamarquesa. Entre 1918 e 1944, a Islândia era um reino com leis soberanas, mas atrelado à Dinamarca, e só no penúltimo ano da II Guerra Mundial é que se tornou independente. Foi justamente em 1944 que Gudmundsson, de 21 anos, se mudou para a Escócia, país no qual foi estudar administração de empresas.

Naquele momento, o meio-campista já havia vencido o amador campeonato islandês três vezes com a camisa do Valur. Ao chegar em Glasgow, Gudmundsson acabou chamando a atenção do Rangers por causa de seu futebol e ficou um ano na equipe, antes de se transferir para o Arsenal. O islandês foi o segundo jogador estrangeiro da história dos Gunners, mas não obteve uma licença de trabalho e atuou em apenas dois jogos oficiais pelos londrinos. Forçado a deixar a Inglaterra e procurar outro clube, o meia teve sorte. Em um amistoso, ele chamou a atenção do Racing de Paris, mas fechou mesmo com outro time da França: o Nancy, no qual permaneceu por dois anos.

Em 1948, Gudmundsson trocou de país outra vez. A Itália vivia um momento de tendência favorável à contratação de jogadores da Suécia e da Dinamarca, iniciado pelas ótimas campanhas das seleções na Olimpíada de Londres – este fluxo durou até meados dos anos 1960. Apesar de não ser sueco, dinamarquês e de a Islândia mal ter uma seleção, Gudmundsson acabou aproveitando a onda e desembarcou no Milan, por indicação do atacante irlandês Paddy Sloan, seu amigo dos tempos de Arsenal.

O islandês chegou a um clube que ainda não era gigante, mas já era importante. Os rossoneri tinham três títulos nacionais (hoje são 18), mas viviam um longo período de jejum: não conquistavam o scudetto havia 41 anos. Em um time recheado de italianos, Gudmundsson era um dos poucos estrangeiros, ao lado de Sloan e do uruguaio Ettore Puricelli – este último, porém, era descendente de italianos e até atuou pela seleção da Itália. Em janeiro de 1949, o quarto não italiano chegava: o sueco Gunnar Nordahl, futuro ídolo da tifoseria.

Terceiro jogador em pé (esq. para a dir.), o islandês dividiu vestiários com jogadores importantes, como Nordahl, Puricelli e Carapellese (Site oficial Gunnar Nordahl)

O reforço, porém, era um total desconhecido – a ponto de, no primeiro dia de Milan, ter sido barrado pelos funcionários na sede do clube. O “Perla Bianca” (“Pérola Branca”, em português), porém, começou sua trajetória nos gramados de maneira mais auspiciosa: com um belo chute de direita, fez o primeiro gol na vitória por 3 a 0 sobre a Atalanta.

Apesar de tudo, Gudmundsson foi criticado. Apesar de ser bastante técnico e ter boas ideias, ele tinha um físico frágil para os padrões do já estabelecido campeonato italiano e também acabava antecipado pelos marcadores, que tinham mais cultura tática. Com o passar do tempo, ele perdeu posição para um envelhecido Puricelli e para Riccardo Carapellese, mais indicados para conduzir o Milan à terceira posição na Serie A 1948-49. Na única temporada em que atuou na Itália, o islandês contribuiu com 14 partidas e dois gols – além da Atalanta, anotou contra o Modena.

Outro grande motivo que Gudmundsson teve para não guardar boas lembranças dos tempos na Itália foi uma séria lesão, que quase o levou a encerrar a carreira. Em maio de 1949, já na reta final do campeonato, ele rompeu os ligamentos do joelho em um jogo contra a Lazio e viu o Milan optar por não pagar a sua cirurgia. Naquela época, um trauma do gênero significava o fim da atividade profissional para um atleta, pois as operações custavam caro e raramente eram bem sucedidas.

Dessa forma, Gudmundsson decidiu pagar sua rescisão contratual e, curiosamente, foi operado por um médico da Inter. A intervenção foi bem sucedida e o islandês voltou à França, país em que ainda atuou pelo Racing parisiense e pelo Nice. O meia mal entrou em campo nos anos de ouro da equipe da Riviera, mas mesmo assim conquistou dois campeonatos nacionais e uma copa. Antes de encerrar a carreira, tentou ajudar a Islândia em seus primeiros jogos oficiais, válidos nas Eliminatórias para a Copa de 1958.

Meia islandês fez carreira na França, país com o qual ficou muito ligado (The Guardian)

Durante os tempos de Nice, Gudmundsson abriu uma loja de roupas femininas, o que acabou se tornando sua verdadeira fonte de renda – naqueles tempos futebol não era sinônimo de fortuna. Depois de fazer seu pé de meia, o jogador voltou para a Islândia e, enquanto jogava pelo Valur, se tornou comerciante de roupas de grifes francesas para as senhoras da ilha. Como teve sucesso financeiro, tinha curso de administração e popularidade alcançada pelo futebol, decidiu entrar para a política.

No mundo dos burocratas, Albert se encontrou e até fez do filho, o também ex-atleta Ingi Björn Albertsson, seu herdeiro político. Em mais de três décadas de vida pública, foi vereador de Reykjavík, parlamentar islandês e ministro das Finanças e da Indústria – teve de deixar o último cargo depois da quebra de uma indústria do setor naval. Gudmundsson também foi candidato à presidência, em 1980, mas perdeu as eleições para Vigdís Finnbogadóttir, primeira mulher eleita para o cargo no mundo. O ex-jogador ainda foi cônsul da França na Islândia por quase 20 anos e, na fase final da vida, ocupou o cargo de embaixador islandês em Paris. Morreu em 1994, aos 70 anos.

Na Islândia, a memória de Gudmundsson está mais viva do que nunca, por causa da ótima fase da seleção. Em 2004, o ex-jogador já havia sido homenageado com uma estátua localizada na sede da Federação Islandesa de Futebol (KSI) e, antes de os descendentes dos vikings embarcarem para a França, ele foi lembrado no belo comercial da empresa aérea Icelandair.

Em relação à presença islandesa no futebol italiano, foram necessários quase 60 anos após a passagem de Gudmundsson pelo Milan para que um de seus conterrâneos voltasse a atuar na Bota. O primeiro dos três outros que seguiram os passos do ex-rossonero foi Emil Hallfredsson, que assinou com a Reggina em 2007. O meia, que hoje defende a Udinese, é um dos três islandeses com carreira na Itália que fazem parte da histórica e heroica campanha da Islândia na Euro. Os outros são Birkir Bjarnason (ex-Pescara e Sampdoria) e Hördur Magnússon (ex-Juventus e atualmente no Cesena).

Albert Sigurður Guðmundsson
Nascimento: 5 de outubro de 1923, em Reykjavík, Islândia
Morte: 7 de abril de 1994, em Reykjavík, Islândia
Posição: meio-campista
Clubes como jogador: Valur (1941-44 e 1957), Glasgow Rangers (1944-45), Arsenal (1945-47), Nancy (1947-48), Milan (1948-49), Racing de Paris (1949-51) e Nice (1951-56)
Títulos como jogador: Campeonato Islandês (1942, 1943 e 1944), Campeonato Francês (1952 e 1956) e Copa da França (1952 e 1954)
Seleção islandesa: 6 jogos e 2 gols

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