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[Especial Romadas #1] Uma semana perfeita de iniciação ao romanismo

Pintura rupestre de 15 mil anos atrás retrata caçador que esqueceu de afiar a própria lança: primeira romada?

Vamos tirar logo um impulso do peito: a Roma é patética. Doa a quem doer – dói em quem escreve –, mas mais vale carregar a verdade como um fardo a trazer contorcionismos lógicos que neguem o explícito. A Roma é, sim, patética. Talvez o tenha sido desde sempre; talvez seja coisa da pós-modernidade, ou da Revolução Cultural Chinesa. Tanto faz. Acontece que “pipocar”, “amarelar” e “entregar a paçoca” não traduzem precisamente a dramédia que alicerça toda a capacidade de fechamento narrativo do clube em questão. Apenas o romar sintetiza o romar.

Há anos, talvez já mais de uma década, propusemos – eu e Braitner Moreira, criador e arquiduque do Quattro Tratti –, a romada, do verbo romar, como o subgênero das infelicidades súbitas quando tudo parece conspirar a favor, do 2 a 0 imperdível à classificação encaminhada. Desde então, com inúmeros casos contabilizados, a romada se tornou popular entre alguns quatorze fãs de futebol italiano por aqui. Pois nada, nada é mais característico aos giallorossi do que um bom e velho desastre, e não há semana de introdução ao romanismo mais precisa do que esta. Vejam a derrota para o Porto, na terça-feira, valendo vaga na fase de grupos da Liga dos Campeões. Diante de um empate fora de casa em 1 a 1, bastaria segurar um placar fechado, ou vencer em casa. Aqui entram os meandros:

  • Romar não significa perder para o Porto;
  • Romar não significa cair da Liga dos Campeões antes mesmo de ela começar;
  • Romar não significa nem mesmo ser goleado em casa pelo Porto, com a vaga (e, subsequentemente, o orçamento) mais importante da temporada em jogo;

Romar significa entrar em campo com a classificação a seu favor, levar um gol aos oito minutos; perder o capitão com cartão vermelho no primeiro tempo; perder outro defensor com outro cartão vermelho aos 50 minutos; sofrer o gol definitivo porque o goleiro emulou Fábio Costa na final da Libertadores e abandonou a meta que deveria proteger e, por fim; receber o golpe final num lance em que o principal zagueiro adquire escoliose. Oras, todo o processo dos noventa minutos se configura como um tragédia conceitual de humor autodepreciativo – da angústia se extrai a romada.

Processo esse que se completou no domingo, quando a Roma abriu dois a zero de vantagem sobre o Cagliari. Enganou-se quem havia interpretado a aposentadoria de Daniele Conti, ex-romanista e, claro, eterno carrasco capitolino, como um bom presságio: o Cagliari naturalmente empatou. O primeiro gol do adversário veio do ex Borriello (quarto nos últimos quatro jogos contra a Roma); o segundo, quase nos acréscimos (!), após entregada bisonha do próprio capitão Florenzi (!!), da cabeça do jogador mais baixo em campo (1.69m!!! Curiosamente, não o primeiro gol de cabeça de Sau nos giallorossi). Se a Roma fosse um filósofo prussiano de séculos atrás, esta semana seria o livro Introdução ao filósofo prussiano de séculos atrás.

Imagens das mais recente romadas: tudo seria chocante se fosse novidade. (EPA)

Sczczesny: difícil de escrever; impossível de entender.

Após o 2×2, Spalletti aproveita o arrependimento da existência para treinar prancha abdominal.

(Se a Roma fosse um convidado no jantar de sogros que ainda não conhece, ela se comportaria perfeitamente até a sobremesa, e então proporia uma discussão sobre o aborto. Se a Roma fosse a carreira de um músico, seria a carreira de Syd Barrett. Se a Roma fosse uma compra pela internet, ela seria um produto extraviado. Se a Roma fosse um momento da Fórmula-1, seria o “hoje não, hoje não, hoje sim!”. Se a Roma fosse um Deus ex machina olímpico, seria o padre irlandês em Atenas. Se a Roma fosse um desfecho de videogame, seria o desfecho de Mass Effect 3. Se a Roma fosse um atentado terrorista, seria nenhum atentado terrorista, pois atentados são coisa séria, e a Roma é uma gigantesca piada.)

Podemos elucubrar justificativas racionais para a natureza da romada. A imensa pressão da cidade, por exemplo, não corresponde ao tamanho médio do clube, o qual sem Totti seria apenas uma Lazio. Roma vive de expectativas imensas em orçamentos baixos; anseios calorosos em elencos limitados; críticas severas em boatos fofoqueiros. Isso tudo certamente atrapalha.

Podemos, também, sugerir explicações mais simples e, portanto, divertidas: a Roma é amaldiçoada, fornecendo argumentos anuais para que ateus reconsiderem a existência. Como aquela simples analogia na qual se alteram as moscas, mas não o dejeto, o diarreico DNA romanista permanece o alvo da piada – técnico algum é capaz de incutir a famosa mentalità vincente no elenco. Para reforçar como isso tudo não é viagem nossa, os anglófonos da Chiesa Di Totti hoje tratam o fenômeno pela frase “Roma happened”, isto é, Roma aconteceu.

Romadas são explicação parcial para a condição de eterno vice da equipe giallorossa. Se analisarmos atentamente, seu desempenho na Serie A no século 21 é o mais regular da Itália: desconsiderando 2000, o time da capital foi vice em 2002, 2004, 2006, 2007, 2008, 2010, 2014 e 2015. Oito é coisa pra cacete, ainda mais quando comparado ao número títulos da Roma no século 21, isto é, um. Em 2001. Desde então, Inter, Milan e Juventus passaram o bastão entre si várias vezes, com o grupo Totti & Os Esquecíveis sempre chegando com milissegundos de distância.

Aos que sonham com alguma mudança de paradigma, esqueçam. O campeão, pois, é sempre “x”, e a Roma é sempre o resultado de “x – y”, sendo “y” uma variável mística diretamente envolvida com a perda de pontos bobos. Esse número tem intrigado os matemáticos italianos desde Leonardo da Vinci. Na temporada 2016/17, não será diferente: invista em casas de apostas quando o dois a zero for favorável; invista em derrotas elásticas nos confrontos decisivos, principalmente se europeus. Quando essa equipe (talentosa, reforçada, numerosa) cair nas oitavas de final da Liga Europa para algum clube eslovaco – não que algo congênere já tenha acontecido –, lembraremos de que, afinal, a Roma é patética. O fim de agosto foi mera amostra.

Na parte 2 do Especial Romadas, uma lista masoquista de situações expressivas em que a equipe romou. Ao contrário da defesa romanista, fique atento.

3 comentários

  • Ola, tudo bem que, realmente, a Roma não é esse time vitorioso e bem sucedido como sua torcida parece pensar e mostrar. Mas acho que a Lazio merece mais respeito, pois nao é tão medíocre nem aparece no calcio da serie A só pra cumprir tabela. Alias, sempre faz clássico com os grandes, está sempre entre os melhores classificados e sempre briga pelas primeiras posições na tabela de classificação, além de ter jogadores fundamentais para a azzurra, como parolo, candreva (este agora na inter) . Enfim, por tudo isso e muito mais, a Lazio sempre foi e será um dos principais times da Itália.

  • O Braitner Moreira deve ficar muito triste com as seguidas eliminações do time dele em competições européias(rindo muito) Gialorosso doente como é.Sejamos sinceros a Roma tem um elenco mediano para padrões continentais,mesmo contando com muitos jogadores com experiência Internacional,na virada da temporada Dezembro/Janeiro/fevereiro onde o elenco e importante a Roma costuma vacilar na competição onde se exige mais do elenco(competições continentais), Abraço galera do QT. ������

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