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Dennis Bergkamp na Inter: nem perto do artilheiro do Arsenal

Talvez o mais talentoso jogador holandês depois de Marco van Basten, Dennis Bergkamp fez parte da geração pós-Euro 1988, competição em que a Holanda faturou o título. Foi com o atacante que entrou para a história do Arsenal, que a Oranje fez seu melhor desempenho em Copas desde o mítico “Carrossel Holandês” – superado pela geração de 2010 e igualado em 2014. Uma promessa que despontou cedo, nas categorias de base do Ajax, uma das mais promissoras da Europa, que tinha tudo para brilhar no maior campeonato do mundo nos anos 1990, a Serie A. Infelizmente, para a Inter, isso não se confirmou.

Bergkamp subiu ao time principal do Ajax com apenas 17 anos, graças ao aval de Johan Cruyff. Após quatro gols na temporada de estreia, pouco a pouco foi desfilando categoria e belos tentos pelos campos holandeses e de toda a Europa, alcançando a artilharia da liga nacional em três oportunidades – em 1991, anotou 29 gols e dividiu os louros com Romário. Bergkamp ganhou fama por um drible até então único no futebol, na qual chamava dois jogadores para a marcação, segurava a bola entre os pés e pulava no meio deles para sair com a bola à frente.

O jogador batizado em homenagem ao escocês Denis Law rapidamente chegou à seleção holandesa, logo depois da queda repentina da Oranje na Copa do Mundo de 1990. Com apenas 22 anos, o atacante fez parte do time semifinalista na Eurocopa de 1992, ao lado de van Basten, Ruud Gullit e Frank Rijkaard, e marcou três gols na competição. No mesmo ano, apareceu internacionalmente com o título da Copa Uefa, vencida contra o Torino em finais bastante duras.

A boa impressão deixada com as camisas de Ajax e Holanda chamou a atenção de diversos clubes, entre eles Milan e Barcelona (então treinado por Cruyff), mas foi a Internazionale que levou o atacante, que assinou juntamente com o compatriota Wim Jonk, meia que também atuava pelos Godenzonen. A escolha pela Bota foi uma forma de repetir o sucesso de muitos conterrâneos, segundo o próprio atacante: “Eu sempre tive a vontade de atuar na Itália. Não quis ir ao Milan porque lá já tinha Gullit, van Basten e Rijkaard. Fiquei entre Juventus e Inter e escolhi o time de Milão confiando nas pessoas que me contrataram”, disse em 2011, numa entrevista para a revista inglesa Four Four Two.

Como era de seu costume, Cruyff deu um pitaco sobre a transferência: à época, ele disse que a escolha do seu pupilo era precipitada, uma vez que o estilo de jogo de Bergkamp “não se encaixava no estilo defensivo do nerazzurri”. O jogador, porém, considerou que os sete anos e 122 gols pelo clube de sua cidade eram suficientes para que ele pudesse se adaptar a um esquema de ataque similar ao do Ajax e, então, brilhar na Itália.

Em agosto de 1993, Bergkamp, principal reforço dos nerazzurri, fez sua estreia pela equipe, diante a Reggiana, mas passou em branco. O primeiro gol na Itália só sairia uma semana depois, numa partida ante a Cremonese, antecipando as dificuldades previstas por Cruyff. O holandês não conseguia se entrosar e não tinha um bom relacionamento com o técnico Osvaldo Bagnoli, criticado pelo esquema defensivista e por uma série de erros táticos.

Na Serie A, a técnica do ótimo atacante não foi suficiente para que a parceria com o uruguaio Rubén Sosa desse certo. Bergkamp, terceiro colocado na Bola de Ouro de 1992 e segundo em 1993, fez oito gols no campeonato, mas somente três com a bola rolando – os outros cinco foram de pênalti – e foi afetado pelo momento muito negativo da Inter. Bagnoli foi demitido por conta dos maus resultados e deu lugar a Gianpiero Marini, treinador da equipe sub-20, responsável por conduzir a Beneamata a uma 13ª posição e à permanência na primeira divisão por apenas um ponto. Foi a pior campanha dos nerazzurri em toda a história.

Em nível europeu, porém, a Inter teve o que comemorar – Bergkamp também, visto que oito de seus 18 gols em 1993-94 foram marcados na Copa Uefa. O alto atacante loiro foi o grande destaque dos milaneses na conquista do título continental (segundo na história do clube) e se sagrou artilheiro da competição. Entre os melhores momentos do holandês no torneio, destacam-se a tripletta na primeira fase, contra o Rapid Bucareste, e também os gols fundamentais contra Norwich (oitavas de final) e Cagliari (semifinal).

Melhor momento de Bergkamp com a camisa interista foi na Copa Uefa (Getty)

Na temporada seguinte, Bergkamp não se encontrou em Milão. Quando se esperava que ele se ambientasse mais ao time após o bom desempenho na Copa Uefa e na Copa do Mundo de 1994, o holandês praticamente se apagou. Em uma temporada de baixo rendimento do ataque nerazzurro, em que apenas Sosa foi bem, Bergkamp e Darko Pancev decepcionaram: cada um fez somente quatro gols. Apesar de tudo, a Inter concluiu a Serie A na 6ª posição.

A imprensa italiana era bastante crítica de Dennis, que tinha sido uma contratação badalada, mas não rendia vestindo azul e preto – a pressão se intensificou especialmente após a boa campanha com a seleção holandesa no Mundial de 1994. Sua má relação com a mídia teve como estopim o momento em que o prêmio “Bonde da semana” passou a se chamar “Bergkamp da semana”. Definitivamente, seu estilo de dribles curtos e chutes de média distância não encaixou no futebol italiano.

O clima também não estava bom nos bastidores da Inter, já que Bergkamp potencializou sua fobia por voar nos Estados Unidos e toda uma logística tinha de ser montada ao redor dele. O pavor de viajar de avião se instaurou de vez na vida do atacante quando, um jornalista que viajava junto com o elenco da Holanda brincou que uma bomba estaria a bordo da aeronave, após um problema na decolagem. Desde então, passou a ir aos jogos por meio terrestre ou então deixava de jogar para não ter de viajar.

Após a compra do clube por Massimo Moratti, em 1995, a saída do holandês foi colocada como possibilidade para a reformulação do elenco. Sem ambiente na Itália e com uma proposta em mãos, Dennis trocou Milão pelo Arsenal, em um negócio que rendeu cerca de 7,5 milhões de libras para os italianos – que ainda lucraram com sua venda. Bergkamp não se importou nem um pouco em ter uma redução salarial por abrir mão de voar.

Os torcedores do Arsenal também não se importaram. Em 11 anos e 423 jogos, entre 1995 e 2006, Dennis Bergkamp marcou 120 gols. Mais que isso, a contratação mais cara do clube à época fez história sob o comando de Arsène Wenger e através de uma fantástica parceria com Thierry Henry. Foi com essa tríade que os Gunners dividiram a soberania da Premier League nos anos 1990 e 2000 com o Manchester United.

Alcançando sua melhor forma com a camisa do Arsenal, Bergkamp foi o grande destaque da seleção holandesa que chegou até as quartas de final da Euro 1996 e às semifinais da Copa de 1998, ocasião em que caiu nos pênaltis para o Brasil. Em 2000, a Holanda sediou a Eurocopa e Bergkamp esteve novamente junto com a Oranje, naquela que foi sua última competição com a laranja. Por ironia do destino, sua seleção foi eliminada nos pênaltis contra a Itália.

O holandês continuou jogando no Arsenal (e fazendo golaços) até se aposentar em 2006, com 37 anos. Em sua autobiografia, ele descartou qualquer possibilidade de seguir carreira como treinador pelo simples fato de jamais querer viajar de avião novamente. Seu único trabalho após pendurar as chuteiras tem sido como auxiliar técnico do Ajax, onde ajuda a formar craques da sua estirpe. Se qualquer um que sair da base da equipe de Amsterdã for 10% do que Bergkamp foi, já teremos um jogador de alto nível.

Dennis Nicolaas Maria Bergkamp
Nascimento: 10 de maio de 1969, em Amsterdã, Holanda
Posição: atacante
Times em que atuou: Ajax (1986-93), Inter (1993-95) e Arsenal (1995-2006)
Títulos conquistados: Campeonato Holandês (1990), Copa da Holanda (1987 e 1993), Copa dos Campeões da Uefa (1987), Copa Uefa (1992 e 1994), Campeonato Inglês (1998, 2002 e 2004), Copa da Inglaterra (1998, 2002, 2003 e 2005) e Supercopa da Inglaterra (1998, 1999, 2002 e 2004)
Seleção holandesa: 79 jogos e 37 gols

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