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Alberigo Evani: operário de luxo num Milan cheio de estrelas

Todo time marcante tem os seus coadjuvantes, as formiguinhas que fazem o trabalho comezinho e fazem os craque brilharem. São aqueles jogadores que talvez fossem pouco notados em equipes menores e que crescem exponencialmente nas mãos de grandes técnicos e cercados de talento dentro dos campos. Este é o caso do meia Alberigo Evani, titular absoluto do Milan de Arrigo Sacchi e Fabio Capello.

Nascido em Massa, cidade toscana próxima a Pisa, Evani foi descoberto pelo Milan muito cedo, quando ainda tinha 14 anos. O jogador concluiu sua formação nas categorias de base dos rossoneri e estreou como profissional em 1980, atuando como lateral esquerdo em uma partida da Serie B – o Milan havia sido rebaixado como punição por envolvimento de jogadores no escândalo Totonero. Após um ano na elite e novo descenso, Evani ganhou a titularidade da faixa esquerda da defesa do Diavolo em 1982-83, quando tinha apenas 19 anos.

Já inserido no grupo milanista, Evani foi apelidado pelos companheiros como Chicco ou Bubu, pela semelhança com o personagem conhecido no Brasil por Catatau – na Itália, o amigo do urso Zé Colmeia é conhecido pelo nome original, dado pela dupla Hanna-Barbera. Naqueles anos o Milan não vivia grande fase, mas o jovem jogador manteve a titularidade na lateral e passou a ser convocado para a seleção sub-21 da Itália, com a qual disputou a Eurocopa da categoria, em 1984.

Tudo ia bem para Chicco, que já tinha vencido dois títulos da Serie B, uma Copa Mitropa e esperava que o Milan crescesse com a chegada de Berlusconi ao poder, em 1986. Porém, naquele mesmo ano, ele sofreu uma lesão e abriu espaço para que uma joia da base rossonera aparecesse: Paolo Maldini. Apesar disso, Evani continuou sendo escalado no onze inicial com a chegada de Sacchi, em 1987. O treinador decidiu adiantá-lo e o adaptou à posição de meia pela esquerda de seu 4-4-2.

Meia de muita potência e inteligência tática, Evani se adaptou facilmente à complexa filosofia de jogo sacchiana. Por causa de suas características biológicas, Bubu se adaptou ao ritmo intenso pedido pelo treinador e executava muito bem a marcação por pressão, executada à perfeição por uma equipe que foi pioneira ao propor um futebol compacto, com jogadores distribuídos em um espaço de 30 metros. Além de tudo, o milanista – que também atuava pelo lado direito do meio-campo – tinha excelente toque de bola e um chute forte de canhota, arma letal em cobranças de falta.

Foi exatamente com as cobranças de falta que Evani marcou os dois gols mais importantes de sua carreira, em 1989. Primeiro, marcou contra o Barcelona, no segundo jogo da decisão da Supercopa Uefa, e, dias depois, na disputa do Mundial Interclubes: uma pancada da meia-lua deu a vitória ao Milan no final da prorrogação contra o duríssimo Atlético Nacional. No ciclo de Sacchi, Chicco conquistou uma Serie A e uma Supercopa Italiana, em 1988, e levantou por duas vezes os títulos da Copa dos Campeões, da Supercopa Europeia e do Mundial, em 1989 e 1990.

Na fase final da carreira, o toscano participou de um momento vitorioso da Sampdoria (Getty)

A partir de 1991, com a chegada de Capello ao Milan, Bubu passou a jogar quase sempre como meia centralizado. Mudou de função e perdeu espaço, o que culminou em sua saída do clube, em 1993, antes dos maiores títulos daquela geração. Depois de vencer mais dois scudetti e duas supercopas italianas pelo Diavolo, Evani deixou Milão após 393 partidas e acertou com a ambiciosa Sampdoria do presidente Paolo Mantovani, campeã nacional em 1991. O jogador estava em busca de minutos para ser convocado para a seleção italiana.

Pudera, o técnico da Itália era Sacchi, que adorava seu futebol: o toscano ganhou sua primeira chamada para a seleção italiana principal ainda em 1991, quando começava a ser colocado para escanteio por Capello. Bubu, que em 1988, tinha ajudado a Nazionale olímpica a ficar com o quarto lugar nos Jogos de Seul, foi convocado para 15 jogos na gestão do ex-comandante milanista. O técnico até lhe deu a chance de jogar a Copa do Mundo de 1994: o meia atuou em dois jogos da campanha do vice-campeonato, inclusive entrando na final diante do Brasil e convertendo sua penalidade.

Evani viveu os últimos bons momentos e anos de alto nível com a camisa da Sampdoria. Em Gênova, sua melhor temporada foi a de estreia, na qual teve Ruud Gullit, velho conhecido de Milan, como companheiro: a dupla chegou ao clube juntamente com o inglês David Platt e rapidamente se inseriu em uma equipe forte, que já tinha Gianluca Pagliuca, Moreno Mannini, Pietro Vierchowod, Srecko Katanec, Vladimir Jugovic, Attilio Lombardo e Roberto Mancini. O time comandado por Sven-Göran Eriksson foi terceiro colocado na Serie A e ainda venceu a Coppa Italia. Titular em toda a campanha, Chicco ainda anotou um gol na final da copa sobre o Ancona, vencida por um incrível 6 a 1.

Em 1997, Evani deixou a Samp juntamente com Eriksson, Mancini e tantos outros, em um desmonte que acabou levando ao rebaixamento da equipe dois anos depois. Já aos 34 anos e longe do seu auge físico, Bubu foi jogar a segundona pela Reggiana. No entanto, só atuou pelos granata por três meses e assinou com a Carrarese, maior equipe da província de Massa-Carrara, onde nasceu. Depois de 12 jogos pela equipe gialloazzurra na Serie C1, o meia decidiu se aposentar.

Logo que encerrou a carreira como jogador, Evani voltou ao Milan para colaborar com as divisões de base, o que fez até 2009. O ex-meia treinou a equipe sub-20 do clube em que deu seus primeiros passos, mas obteve maior destaque com a sub-17, com a qual chegou a ser campeão nacional da categoria. Após um breve período como técnico do San Marino, Evani assumiu as seleções de base da Itália: passou pelos azzurrini sub-18 e sub-19 e, desde 2013, ocupa o cargo de comandante da sub-20. Muito querido no Milan, Evani é um dos 54 jogadores que fazem parte do Hall da Fama rossonero.

Alberigo Evani
Nascimento: 1º de janeiro de 1963, em Massa, Itália
Posição: lateral esquerdo e meio-campista
Times como jogador: Milan (1980-93), Sampdoria (1993-97), Reggiana (1997) e Carrarese (1997-98)
Títulos conquistados: Serie A (1988, 1992 e 1993), Coppa Italia (1993), Copa dos Campeões (1989 e 1990), Supercopa da Europa (1989 e 1990), Mundial Interclubes (1989 e 1990), Supercopa Italiana (1988, 1992 e 1993), Copa Mitropa (1982) e Serie B (1981 e 1983) Carreira como técnico: Milan (juvenis; 1998-2009), San Marino (2009-10), Itália sub-18 (2010-13), Itália sub-19 (2011-13) e Itália sub-20 (2013-hoje)
Seleção italiana: 15 jogos e nenhum gol

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