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Pela Roma, Marco Delvecchio se consagrou como ‘homem dérbi’

O homem dérbi. Em quase 20 anos de carreira, o atacante Marco Delvecchio foi reverenciado pela torcida da Roma, ainda que não tivesse a mesma qualidade de ídolos máximos do clube, como Francesco Totti, Bruno Conti ou Daniele De Rossi. O atacante, porém, foi abraçado por sua dedicação de 10 anos às cores dos giallorossi e pelo poder de decisão nos clássicos contra a Lazio. Delvecchio é um dos principais artilheiros do confronto.

Nascido em Milão, Marco Delvecchio foi formado pelas categorias de base da Internazionale, clube pelo qual estreou em 1992, antes de completar 19 anos. Sua primeira oportunidade pelos nerazzurri veio em alto estilo: o atacante estava disputando uma das maiores competições sub-20 da Europa, a Copa Viareggio, e foi convocado para integrar o elenco que enfrentaria a Juventus, pelas quartas de final da Coppa Italia, ao lado de craques como Lothar Matthäus e Andreas Brehme. Ele entrou em campo ainda no primeiro tempo, substituindo Davide Fontolan, e cinco dias depois estreou também na Serie A, diante da Fiorentina.

Considerado uma das joias da base interista, o atacante teve pouquíssimo espaço na equipe nerazzura: fez apenas cinco jogos em sua primeira temporada como profissional, antes de rodar por Venezia e Udinese para ganhar mais experiência e tempo de jogo. Apesar de ter feito poucos gols pelos vênetos na Serie B e de ter sido pouco utilizado pelos friulanos na elite, Delvecchio era presença constante nas convocações da seleção sub-21 da Itália e retornou ao clube que o formou para ser aproveitado pelo técnico Ottavio Bianchi.

Marco fez uma temporada atuando com frequência, quase sempre como um substituto do uruguaio Rubén Sosa ou do holandês Dennis Bergkamp. O jogador canhoto, de 1,86m, preferia atuar como centroavante, para aproveitar seu bom poder de finalização (inclusive o cabeceio) e as qualidades como pivô, mas marcou somente cinco vezes em 39 partidas pela Inter. Dessa forma, os nerazzurri o negociaram em novembro de 1995 com a Roma, em troca do também atacante Marco Branca.

Sob os olhares do público do Olímpico, Delvecchio enfim despontou, mas o caso de amor com a Roma não começou de imediato. Em um primeiro instante, o jogador lombardo foi muito contestado, pois a torcida romanista não acreditava muito em seu potencial e esperava um jogador de peso, que pudesse alçar o patamar da equipe – na primeira metade da década de 1990 o clube romano não vivia momento de grandes resultados. Bastava que o atacante tocasse na bola para que as vaias tomassem o estádio.

Inconformado com a situação, Delvecchio passou a comemorar seus gols colocando as mãos nas orelhas, ironizando as vaias que recebia. Com o passar do tempo, o atacante mostrou sua utilidade e após conversar com um grupo de torcedores no centro de treinamentos de Trigoria, a situação foi resolvida e seu jeito de celebrar foi mantido – dessa vez com o intuito de pedir os aplausos. A primeira temporada, que começou mal, terminou com o centroavante anotando 10 gols em 24 jogos e fazendo uma dupla promissora com outra joia daquele time, Francesco Totti, que também começava a ter suas primeiras chances como profissional. A dupla, inclusive, faria parte de uma geração promissora da Itália, campeã europeia sub-21 em 1996 e participante da Olimpíada no mesmo ano.

Delvecchio passou uma década na Roma e conquistou um scudetto pelo clube (Tiscali)

A segunda temporada de Delvecchio na Cidade Eterna, porém, foi marcada por poucos gols e pela volta das dúvidas em torno de sua capacidade. O lombardo poderia ser um grande centroavante giallorosso, assim como foi seu antecessor, Rudi Völler, ou vinha sendo Abel Balbo, seu contemporâneo? Com isso, Delvecchio chegou a ser oferecido como “moeda de troca” por David Trezeguet, então destaque no Monaco, mas o negócio não vingou. Em 1997-98, Marco foi relegado à reserva com Zdenek Zeman e balançou as redes somente vezes, mas começou a escrever sua história no Dérbi da Capital. Apesar de ter feito gols importantes e que valeram vitórias diante de Fiorentina e Milan, foi o tento anotado na derrota por 3 a 1 contra a Lazio que marcou sua carreira.

Ainda sob o comando do treinador checo, Delvecchio se tornou titular na temporada 1998-99, atuando como centroavante no 4-3-3 zemaniano, ao lado de Totti e Paulo Sérgio. Nessa função, o atacante finalmente explodiu, aos 25 anos: anotou 23 gols (18 na Serie A), que o fizeram cair nas graças da torcida e se sagrar artilheiro da Roma naquela campanha. Delvecchio foi festejado especialmente pelos três gols anotados contra a arquirrival Lazio, que lhe renderam a alcunha de Uomo Derby – ou seja, o homem dérbi. Isso porque, ao longo da história, o milanês foi um verdadeiro carrasco dos laziali, tendo marcado nove vezes no clássico capitolino e igualado a marca que pertencia ao brasileiro Dino da Costa – feito superado somente por Totti.

Em 1999, a chegada de Fabio Capello alterou o jeito de Delvecchio jogar, pois a Roma contratou Vincenzo Montella para atuar como centroavante, a pedido do novo treinador. Graças a sua versatilidade, Delvecchio passou a atuar mais recuado, como segundo atacante ou até como meia ofensivo pelo flanco esquerdo. Em sua nova tarefa, a média de gols diminuiu, mas Super Marco continuou a ser fundamental na equipe, ajudando Totti a preparar as jogadas para o Aeroplanino e para Gabriel Batistuta, adquirido pelos giallorossi em 2000. Através de seus dribles, bom controle de bola e também do seu preparo físico para recompor na defesa, Delvecchio foi um dos pilares do time campeão italiano em 2000-01, no terceiro e último scudetto da história da Roma.

Justamente nesse período, Delvecchio iniciou sua trajetória na Squadra Azzurra. Foram poucas  convocações, mas suficientes para disputar os dois principais campeonatos de seleções: a Eurocopa, em 2000, na qual ele até deixou sua marca, mas não conseguiu fazer a Itália bater a França na final. Em 2002, Super Marco também participou da Copa do Mundo, mas não entrou em campo.

Totti e Delvecchio construíram história juntos na Roma e na seleção (Getty)

Após a conquista do scudetto, Delvecchio ainda levantou a Supercopa Italiana, mas passou a ser menos utilizado e marcou menos gols, ano após ano – ainda assim, ele não deixou de ser carrasco da Lazio e balançou as redes mais duas vezes contra os celestes. Embora jogasse pouco, Super Marco também recebeu algumas convocações esporádicas para a seleção italiana, tendo realizado seu último jogo com os azzurri em 2004.

Naquele mesmo ano, Delvecchio faria suas últimas partidas pela Roma. Era uma temporada ruim do clube da capital, que chegou até a brigar contra o rebaixamento, mas assim mesmo o atacante só havia atuado em quatro jogos, o que fez com que ele solicitasse sua transferência em janeiro de 2005. Acabava ali uma história rica, com 83 gols anotados em 300 partidas.

Após deixar a Cidade Eterna, Super Marco passou brevemente por Brescia, Parma e Ascoli, mas sem conseguir desempenhar um bom futebol. A camisa bianconera, que já havia sido ostentada anos antes por Walter Casagrande, foi  última que vestiu profissionalmente, entre 2006-07. Esta passagem foi marcada uma curiosidade: um de seus dois únicos gols pelo time de Ascoli Piceno foi anotado contra a Roma. Ao final da partida, terminada em empate por 2 a 2, Delvecchio foi até a Curva Sud e se desculpou com a torcida romana, recebendo aplausos.

Após uma temporada aposentado, Delvecchio recebeu uma oferta do Pescatori Ostia, clube amador da liga regional do Lácio, onde Roma está localizada. Na quinta divisão do futebol italiano, anotou nada menos que 34 gols em 35 jogos, mas optou por pendurar as chuteiras de vez, aos 36 anos, após uma expulsão polêmica em um acirrado clássico local. Foi sua forma de protestar contra a arbitragem.

Depois disso, Super Marco retornou à mídia em 2012, no papel de pé de valsa e Don Juan: ficou em segundo lugar no “Dançando com as Estrelas”, programa de televisão em que apaixonou-se pela sua professora de dança, dando início ao divórcio com sua antiga esposa. No ano seguinte, foi um dos protagonistas do programa “Bobo & Marco – Os Reis da Dança”, juntamente com outro matador, seu amigo Christian Vieri. Para completar a incursão no showbiz, Delvecchio ainda dublou um personagem na versão italiana do filme Kung-Fu Futebol Clube.

Delvecchio também se dedicou à filantropia depois de se aposentar do futebol. Em 2014, durante a Copa do Mundo, ele esteve no Brasil para promover uma ação social realizada através de uma parceria entre a ONG ActionAid e com o Centro das Mulheres do Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. Um de seus golaços.

Marco Delvecchio

Nascimento: 7 de abril de 1973, em Milão, Itália
Posição: atacante
Clubes como jogador: Inter (1991-92 e 1994-95), Venezia (1992-93), Udinese (1993-94), Roma (1995-2005), Brescia (2005), Parma (2005-06), Ascoli (2006) e Pescatori Ostia (2008-09)
Títulos conquistados: Serie A (2001), Supercopa Italiana (2001) e Europeu Sub-21 (1996)
Seleção italiana: 14 jogos e 3 gols

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