Serie A

Fiorentina vive dilema: seu caminho de incertezas leva ao pessimismo ou à inovação?

Se tem um lugar na Itália em que paira o clima de pessimismo é em Florença. Os moradores da cidade estão entre os mais fanáticos do país quando o assunto é futebol e não estão nada felizes com o início de temporada da Fiorentina. A equipe violeta passa por incertezas nos bastidores e uma grande reformulação de elenco, o que tem preocupado a torcida. Mas poderia não ser assim – há quem diga até que os gigliati estão exagerando.

Após um ano de altos e baixos com Paulo Sousa no comando, a Fiorentina terminou a temporada 2016-17 dando esperanças de melhora com o anúncio da contratação de Stefano Pioli como substituto do português. O treinador tinha tudo para ser uma aposta certeira: teve boa passagem no clube como zagueiro, fez ótimos trabalhos por Bologna e Lazio e vinha de alguns momentos positivos à frente da Inter. Cerca de um mês depois, um abalo sísmico: os irmãos Andrea e Diego Della Valle anunciaram que estavam dispostos a aceitar propostas de interessados em adquirir as ações do clube. O motivo seria o cansaço pelas constantes críticas dos torcedores, que desejavam uma equipe mais competitiva e de objetivos mais ambiciosos.

A oficialização de um boato que já circulava nas ruas de Florença há anos foi o estopim para que uma revolução do plantel ganhasse corpo. O iminente fim de ciclo na gestão alavancou o encerramento de vínculo com algumas das peças mais importantes do elenco. Borja Valero pediu para ser negociado; Kalinic e Bernardeschi deram recados mais fortes e nem participaram de grande parte da pré-temporada. No final das contas, os três saíram – o espanhol foi para a Inter, o croata para o Milan e o italiano para a rival Juventus. Outros titulares e jogadores com muitas presenças na última temporada se foram juntamente com eles: casos de Vecino (Inter), Tatarusanu (Nantes), Rodríguez (San Lorenzo), Tello (Betis) e Ilicic (Atalanta).

A debandada ligou o alerta: a Fiorentina pode viver o maior período de redimensionamento desde que chegou à falência, em 2002. Os torcedores deram uma amostra de falta de otimismo com a situação do clube na compra dos abbonamenti, os carnês de ingressos válido para os jogos que a equipe faz em casa durante todo o ano. Foram vendidos 16.568 pacotes, 3.500 a menos que na última temporada (cerca de 18% de queda) e 80 a menos que 2002-03, época em que os toscanos disputavam a Serie C2, correspondente à quarta divisão.

Os resultados da Fiorentina nas primeiras partidas oficiais também não foram nada bons – duas derrotas, algo que não acontecia desde 2006. Na estreia, domínio total da Inter, que não tomou conhecimento do time do qual tanto apanhou nos últimos cinco anos; no primeiro jogo em casa, o fim de um tabu de 12 anos sem perder para a Sampdoria no estádio Artemio Franchi. A última vez que a equipe caíra para os blucerchiati em seu estádio havia sido exatamente na temporada de sua pior colocação na Serie A pós-bancarrota. O campeonato 2004-05 marcava o retorno do clube à elite e, na ocasião, a viola flertou com a queda, ficando com o 16º posto. Depois disso, Cesare Prandelli foi contratado e conseguiu reerguer a reputação de temido adversário que os gigliati construíram em sua história.

Adeus, trio das maravilhas: Borja Valero, Kalinic e Bernardeschi deixaram Florença (Getty)

A saída do treinador, em 2010, deixou um grande vácuo e abriu uma crise similar à que o clube vive atualmente. A diretoria era muito criticada por não ter mantido o nível de anos anteriores, nos quais a Fiorentina chegou a disputar a Liga dos Campeões. Tal qual os ídolos florentinos neste mercado, o capitão Riccardo Montolivo pediu para ser negociado – e perdeu a braçadeira por isso. Toda a equipe fez um melancólico Campeonato Italiano em 2011-12 e o resultado foi apenas a 13ª posição. No ano seguinte, com energias renovadas, a Fiorentina treinada por Vincenzo Montella teve a primeira de três temporadas consecutivas concluídas no 4º lugar.

Bem antes disso, no início da década de 1990, a viola também já havia passado por uma situação parecida, e ainda pior. Técnicos como Sebastião Lazaroni e Luigi Radice não conseguiram dar jeito na equipe, que caiu para a segundona em 1993. Um Claudio Ranieri ainda em início de carreira tirou a equipe da Serie B e, em dois anos na elite, conseguiu também um 4º lugar, além do título da Coppa Italia.

Este resgate histórico serve para alertar os que acham que a maior equipe da Toscana pode vir a sofrer por período indeterminado. Cair e levantar é algo cíclico em Florença. O contexto atual é negativo, mas não é um obstáculo que possa assustar um torcedor que já viu a Fiorentina se reerguer algumas vezes. Pior, que viu seu time desaparecer e ser refundado; que não desistiu e lotou o Artemio Franchi na quarta divisão.

É verdade que os apaixonados pelas cores da Fiorentina estão mais exigentes hoje em dia, mas a equipe formada após a saída dos seus principais jogadores tem bons valores. Entre os que permaneceram, Sportiello, Astori, Tomovic, Badelj, Sánchez, Mati Fernández, Saponara, Babacar e Chiesa formam uma espinha dorsal de nível. O elenco ainda ganhou os reforços de jovens como Gil Dias, Benassi, Veretout, Milenkovic, Biraghi, Hristov e Zekhnini, além de peças mais rodadas, como Cholito Simeone, Vitor Hugo, Laurini, Bruno Gaspar, Eysseric, Pezzella e Théréau.

O atraso na montagem do time certamente compromete os resultados do início do campeonato e a baixa média de idade do plantel pode atrapalhar em alguns momentos mais complicados do ano, em que a experiência acaba servindo para superar percalços de forma mais fácil. No entanto, a Fiorentina tem uma base interessante para alcançar resultados em médio prazo. Pioli foi contratado para trabalhar com um elenco cheio de peças consagradas e agora precisará lapidar algumas pedras preciosas – algo que ele também sabe fazer, mas que demanda tempo e tranquilidade. Pessimismo e imediatismo não vão ajudar. O ano é de entressafra, mas a colheita pode ser das mais fartas.

1 comentário

  • Que bom ter um texto dedicado à viola no Calciopédia! Concordo com o tom geral do texto, me parece que é o clima é esse mesmo. Apenas faria duas observações complementares, um elogio e uma crítica à gestão atual dos Della Valle. O elogio é que o clube fez um redimensionsamento para zerar a plusvalenza, o que significa que hoje a Fiorentina, ao lado do Torino, são os dois times tradicionais com as finanças mais em dia (ambos estão no azul!). Com exceção da Juventus, todos os demais tradicionais ou estão endividados (Lazio, Roma), ou dependem de mecenas para manter times competitivos (Napoli, Inter e Milan). A crítica é que os Della Valle, sobretudo o Andrea, e muito inábil no trato, tanto nos bastidores como na mídia: declarações polêmicas fora de hora, excesso de passionalidade na tomada de decisões e alguns caprichos no momento das negociações. Isso acaba por gerar um clima de instabilidade no clube de Florença.

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