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Ídolo do povo da Sardenha, Pietro Paolo Virdis contribuiu para grande fase do Milan

Grosso modo, quanto mais velho é um vinho, melhor ele é. O ex-atacante Pietro Paolo Virdis aprendeu na prática a valiar esta regra (e suas exceções) ao degustar e também ao indicar rótulos aos clientes de seu restaurante, em Milão. Ele também soube envelhecer e foi humilde ao saber quando parar: pouco depois dos 30 anos, notou que já não conseguiria jogar em alto nível, tal como fez com as camisas de Cagliari, Juventus e Milan, e pendurou as chuteiras. Algo que só mesmo alguém com sua personalidade seria capaz de fazer.

Virdis começou sua carreira profissional muito cedo e, aos 16 anos, já era peça importante do modesto Nuorese, que disputava a quarta divisão em 1973-74. Em seu ano de estreia, Virdis fez 25 partidas e anotou 11 gols, demonstrando que as divisões inferiores futebol italiano já eram pequenas para ele, um atacante que sabia como marcar gols. Após apenas uma temporada na equipe verdeazzurra da Sardenha, o atacante se transferiu para o maior clube da ilha: vestiria a camisa rossoblù do Cagliari, seu time do coração.

Para um jogador sardo, atuar no Cagliari era uma honra – sobretudo após o scudetto conquistado pelo time, em 1970. Virdis – nascido em Sassari, noroeste da ilha, e criado em Sindia, mais ao centro –, ainda teria um incentivo a mais. O atacante jogaria ao lado de seu grande ídolo de infância, o grande Gigi Riva. “Jamais esquecerei a primeira vez que o encontrei. Jogava no Nuorese e ele no Cagliari. A partida terminou em 2 a 2, com dois gols dele e dois meus e daquele dia conservo com muito carinho uma foto”, lembra o ex-jogador.

Riva e Virdis foram companheiros ao longo de dois anos e o veterano acabou sendo uma espécie de tutor daquele jovem recém-chegado. Os dois tinham características diferentes e complementares, mas poucas vezes atuaram juntos, já que Riva teve um fim de carreira marcado por lesões e se aposentaria em 1976, após a queda da equipe para a Serie B. Sem seu maior craque e agora na segundona, a diretoria do Cagliari resolveu apostar mais em Virdis, que ganhou espaço e formou uma bela dupla com Luigi Piras. Pietro Paolo anotou 18 gols na categoria e por pouco não ajudou os cagliaritanos a retornarem à elite: Pescara e Atalanta acabaram o torneio com os mesmos 49 pontos dos sardos e garantiram o acesso após o spareggio, disputado em um triangular.

O bigodudo Virdis reclama com a arbitragem em um duelo entre Cagliari e Inter (Mundialistas y Mitos)

Mesmo no segundo escalão do futebol italiano, Virdis, ainda com 20 anos, não queria deixar o clube que sempre amou, tampouco a região onde vivia. Com tamanha personalidade, não surpreendeu o sonoro “não” que deu quando recebeu a proposta da Juventus. Se inspirando em Riva ou não, fato é que, fosse por vontade própria, o camisa 11 provavelmente jamais teria deixado os casteddu e, tal qual seu ídolo, recusaria todas as ofertas de grandes equipes da Bota.

“Tinha 20 anos e preferia permanecer perto da minha mãe e da minha irmã, logo após o falecimento de meu pai. Além disso, queria levar o Cagliari de volta à Serie A. Giampiero Boniperti (diretor da Juve) veio até a Sardenha me convencer a aceitar o contrato, enquanto o presidente do Cagliari repetia-me que precisava me vender porque o clube não tinha dinheiro. Por fim, minha mãe me fez entender que deveria partir à Turim”, declarou o atacante, anos depois de ter se aposentado.

No norte da Itália, Virdis viveu tempos difíceis. Não se acertava em campo e não conseguia esquecer suas origens. Fez apenas 45 jogos e oito gols pelos bianconeri em três temporadas e nem mesmo a conquista do 19º scudetto da equipe levantou sua autoestima. No início da temporada 1980-81, pediu para ser emprestado a seu ex-time. Com Riva na diretoria e Mario Tiddia como treinador, conseguiu recuperar o bom futebol e ajudar os rossoblù a permanecerem na elite italiana, com cinco gols marcados.

Virdis ganharia uma vaga no time titular em seu retorno à Juve e conquistaria outro campeonato italiano, dessa vez como protagonista: o sardo marcou nove gols na campanha do título em 1981-82, conquistado com a vantagem de apenas um ponto frente à Fiorentina. Ainda assim, Virdis acabaria o torneio com amargor em sua boca. Apesar das boas atuações, o sardo não recebeu chances na seleção italiana que seria tricampeã mundial – Enzo Bearzot não o convocou nem mesmo para amistosos – e foi surpreendido com a notícia de que Boniperti queria cedê-lo à Udinese. O motivo era o fim da suspensão de Paolo Rossi, que voltou aos gramados antes do Mundial de 1982 e, após as grandes exibições na Espanha, não tinha como ser reserva da equipe bianconera.

Virdis comemora gol na Copa dos Campeões contra o Glentoran, da Irlanda do Norte (Il Pallone Racconta)

Após um primeiro ano marcado por uma série de infortúnios, até hoje não compreendidos, Virdis só pode agradecer por ter ido ao Friuli. Embora tenha jogado muito pouco em seu ano de estreia pela equipe de Údine, na segunda temporada teve o prazer de atuar ao lado de ninguém menos do que Zico. Dez de seus 12 gols com a Udinese vieram justamente nos tempos em que o Galinho de Quintino foi o cérebro da equipe e a parceria com o brasileiro acabou lhe rendendo uma reviravolta na carreira.

No verão de 1984, Virdis trocou a Udinese para jogar no Milan, que se reestruturava após o segundo rebaixamento e vinha com sede de retomar o caminho das vitórias. “A Juve foi uma grande escola, mas foi no Milan em que venci tudo”, destacou o ex-jogador, que aterrissou em Milão após completar 27 anos. Nas cinco temporadas em que defendeu a equipe rossonera, o atacante sardo finalmente conseguiu manter a regularidade e atingiu o auge da carreira.

Sob o comando de Nils Liedholm, primeiro, e de Arrigo Sacchi, depois, Virdis superou a marca de 50 gols com a camisa do Milan. Pelo Diavolo, o atacante faturou a tão sonhada Copa dos Campeões em 1989, 20 anos depois da última conquista rossonera – inclusive, substituiu Ruud Gullit nos minutos finais da final contra o Steaua Bucareste.

A melhor temporada do atacante lembrado pelos cabelos grisalhos e por seu vasto bigode foi a de 1986-87. Na ocasião, o Milan não conseguiu brigar pelo título, mas Virdis anotou 17 gols e foi artilheiro do Campeonato Italiano – marcou mais da metade dos gols do rossoneri no certame.

No entanto, os dois gols inesquecíveis de sua carreira aconteceram em maio de 1988, quando o sardo comandou a remontada sobre o Napoli, em pleno San Paolo. Aquela vitória foi fundamental para garantir o scudetto para a equipe de Milanello, que deixava para trás a incômoda fila de nove anos sem conquistas. Parecia improvável, mas aquele pobre jovem saído de Sassari conseguiu encontrar o brilho entre estrelas como Gullit, Paolo Maldini, Franco Baresi, Carlo Ancelotti, Marco van Basten e Frank Rijkaard.

Embora leve o Milan em seu coração, Virdis não nega a mágoa pela forma como deixou o clube, sem qualquer posicionamento da direção do clube. Coube a Silvio Berlusconi agradecer pelo trabalho realizado em cinco anos e deixar as portas do clube abertas. “Ninguém teve coragem de dizer que eu não servia mais”, lamenta.

Goleador, Virdis conseguiu destaque em um Milan cheio de estrelas (Interleaning)

Foi no Lecce que Virdis anotou seus últimos gols na Serie A – oito, para ser mais exato. Após deixar Milão, em 1989, o sardo defendeu a equipe salentina por duas temporadas, nas quais foi sempre titular, ao lado do argentino Pedro Pasculli. A queda do clube para a segundona, em 1991, marcou o precoce fim de sua carreira: afinal, Virdis tinha apenas 34 anos.

Mesmo com mais de 100 gols na Serie A, Virdis jamais vestiu a camisa da seleção principal da Itália – outra mágoa em sua carreira. “Evidentemente não mereci. Mas defendi a Azzurra Olímpica”, recorda. O atacante foi convocado para a disputa dos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, e marcou três gols na competição, concluída com o quarto lugar da Nazionale. Outro fato importante sobre sua trajetória é que Virdis foi um exímio batedor de pênaltis e só desperdiçou uma cobrança em quase 20 anos como profissional.

Após deixar os gramados, o ex-atacante até tentou seguir no futebol como treinador, mas nunca teve regularidade no ofício. Passou por equipes pequenas, como Atletico Catania, Viterbese e Nocerina, mas nunca realizou um trabalho marcante. A partir de então, adotou o vinho como seu novo hobby e abriu uma enoteca em Milão. Hoje, entre vinícolas, sommerliers e taninos, guarda boas lembranças do futebol, especificamente dos anos de Sardenha. “Eu gosto quando as pessoas de minha terra sentem carinho por mim e pelo que eu dei ao Cagliari”, conta.

Antonio Pietro Paolo Virdis
Nascimento: 26 de junho de 1957, em Sassari, Itália
Posição: atacante
Clubes como jogador: Nuorese (1973-74), Cagliari (1974-77 e 1980-81), Juventus (1977-80 e 1981-82), Udinese (1982-84), Milan (1984-89) e Lecce (1989-91)
Títulos conquistados: Campeonato Italiano (1978, 1982 e 1988), Coppa Italia (1979), Supercoppa (1988) e Copa dos Campeões (1989)
Clubes como treinador: Atletico Catania (1998-99), Viterbese (1999-2000) e Nocerina (2000-01)
Seleção italiana (olímpica): 15 jogos e 9 gols

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