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Paolo Cannavaro construiu uma carreira sólida e orgulhou o irmão mais famoso

O final de 2017 trouxe consigo o último parágrafo da carreira de um jogador icônico no futebol da Itália nos anos 2000. Aos 36 anos, Paolo Cannavaro optou por interromper seu contrato com o Sassuolo seis meses antes do término para se aposentar e assumir o cargo de auxiliar técnico no Guangzhou Evergrande. Na China, ele se unirá mais uma vez a seu irmão mais velho, o tetracampeão mundial Fabio Cannavaro, treinador da equipe.

Durante seus anos como profissional, Paolo só foi alvo de comparações com Fabio no início da carreira. Ambos nasceram em Nápoles, eram zagueiros, tiveram passagens pelas seleções de base da Itália e defenderam as camisas de Napoli e Parma, porém as semelhanças acabam por aí – e no sobrenome, é claro. O Cannavaro mais famoso se destacou por ser um jogador técnico e veloz, que competiu em alto nível pela seleção e por clubes, chegando ao topo do mundo individual e coletivamente, enquanto Paolo foi um zagueiro mais fixo e físico, que conquistou respeito e idolatria em realidades mais modestas.

Paolo Cannavaro fez todo o percurso de base nos juvenis do Napoli e estreou pelo time principal em 1999, numa partida acirrada contra o Verona, pela Serie B. O defensor de 17 anos faria apenas mais um jogo pelos azzurri antes de ser negociado com o Parma: como a situação econômica do clube era muito ruim à época, num processo que culminou em falência, em 2004, a venda de uma de suas revelações acabou se fazendo inevitável.

Os irmãos Cannavaro dividiram vestiários no Parma (Marca)

Na Emília-Romanha, a pouca idade fez Paolo ser utilizado mais vezes na equipe Primavera do que na principal, da qual seu irmão era titular absoluto: entre 1999 e 2001, fez 12 partidas pelos crociati, até ser emprestado ao Verona. No Vêneto, Cannavaro ganhou suas primeiras oportunidades como titular e até inaugurou sua contagem de gols, aos 20 anos. O zagueiro amargou o rebaixamento de sua equipe para a segundona, mas teve boas conquistas no âmbito pessoal: a começar pelo tento anotado sobre o Milan, o mesmo adversário sobre o qual seu irmão marcou o primeiro como profissional. Ainda em 2002, o napolitano fez parte da seleção italiana que ficou com o terceiro lugar na Euro sub-21.

Cannavaro retornou ao Parma após o final do empréstimo, mas demorou dois anos para ganhar a titularidade – no meio tempo, acabou se machucando e ficando de fora da seleção italiana que levantou a Euro sub-21, em 2004. Opção de banco para Cesare Prandelli, o zagueiro só assumiu lugar cativo no onze inicial depois que a bancarrota da Parmalat obrigou os gialloblù a se desfazerem de grande parte do elenco. O zagueiro ficou e se tornou peça importante da equipe, que surpreendeu ao ser semifinalista da Copa Uefa 2004-05 mesmo com toda a situação caótica nos bastidores – Paolo atuou em 12 dos 14 jogos da campanha. O jogador também ajudou o time a não cair para a Serie B em duas oportunidades.

O Parma não caiu, mas Cannavaro foi jogar a segundona. Ao fim de 2005-06, o zagueiro assinou um contrato de cinco anos com o Napoli e voltou para sua cidade natal com o intuito de integrar um projeto de renascimento do clube, comprado dois anos antes por Aurelio De Laurentiis. Paolo não só fez parte da recuperação da instituição e do moral dos cidadãos de Nápoles como também se tornou capitão e ídolo azzurro.

O amor da torcida napolitana por Cannavaro começou bem cedo, ainda em seu primeiro mês de clube. No terceiro turno da Coppa Italia, o Napoli enfrentou a Juventus, sua maior rival, em um jogo eletrizante: os azzurri venciam por 2 a 1, mas Alessandro Del Piero empatou e, no último minuto da prorrogação, virou para a Velha Senhora. Foi aí que o zagueiro apareceu e, no último respiro, marcou de bicicleta, levando o jogo para os pênaltis no San Paolo. Cannavaro desperdiçou sua cobrança, mas o Napoli avançou na competição.

Líder em campo, Cannavaro virou bandeira do Napoli (Getty)

Depois disso, Paolo assumiu a titularidade absoluta na linha de três zagueiros montada por Edoardo Reja, que se sagrou como a menos vazada da Serie B. Cannavaro também foi o jogador mais presente na campanha do vice-campeonato napolitano, que devolveu os partenopei à elite após seis anos de ausência. As boas atuações na segundona e no início do campeonato da primeira divisão renderam ao camisa 28 até mesmo uma convocação para a seleção italiana, à época treinada por Roberto Donadoni. No entanto, Cannavaro não foi utilizado pelo técnico na Nazionale.

Em 2007-08, o zagueiro manteve a titularidade e ganhou mais importância na hierarquia azzurra: quando o goleiro Gennaro Iezzo não atuava, era Cannavaro que utilizava a faixa de capitão. A braçadeira ficou em definitivo com o defensor a partir da temporada seguinte. Paolo foi titular e capitão do Napoli até 2013, quando Rafa Benítez chegou ao clube e deixou de utilizá-lo. O campano foi descartado graças a uma estratégia habitual do espanhol, que tem costume de minar lideranças de gestões anteriores para evitar problemas na construção do seu time.

Dono da vaga de zagueiro central do Napoli com Reja e Donadoni, Cannavaro se destacou ainda mais após a chegada de Walter Mazzarri ao comando do time, em outubro de 2009. Com WM – e Marek Hamsík, Ezequiel Lavezzi e Edinson Cavani –, o Napoli se tornou um time mais temível e competitivo. O nível do futebol de Paolo subiu também e ele se tornou um dos zagueiros mais regulares do futebol italiano, sendo raramente superado em jogadas aéreas ou no corpo-a-corpo.

Sob a sombra do Vesúvio, Cannavaro levantou o título da Coppa Italia em 2012 e ainda foi vice da Supercopa local, no mesmo ano, e da Serie A, no seguinte – sem contar a participação na Liga dos Campeões e um terceiro lugar na elite. Somando as duas passagens pelo Napoli, o defensor ficou nove anos no clube e vestiu a camisa azul em 278 oportunidades: é o sétimo jogador com mais presenças pelos partenopei, à frente de ídolos como Diego Maradona, Careca, José Altafini e Fernando De Napoli. Além disso, apenas Antonio Juliano, capitão por 12 temporadas, utilizou a braçadeira napolitana mais vezes do que Cannavaro.

Paolo Cannavaro encerrou a carreira como um pilar do Sassuolo (AFP)

Em janeiro de 2014, Paolo Cannavaro chegou a ser oferecido por empresários ao Fluminense, mas ficou no futebol italiano. O zagueiro assinou por empréstimo com opção de compra pelo Sassuolo, que estreava na Serie A naquela temporada e ainda se acostumava com a elite. Quando o camisa 28 chegou à Emília-Romanha, os neroverdi estavam na zona de rebaixamento, mas a sua contratação ajudou a equipe a deixar a situação e conseguir a tão sonhada salvezza. Ao fim da temporada, o zagueiro foi contratado em definitivo pelo Sassuolo.

Desde então, Cannavaro se tornou uma das pedras fundamentais para a trajetória dourada do Sassuolo, em seus anos mais gloriosos. As ótimas campanhas do clube emiliano, inicialmente sob o comando de Eusebio Di Francesco, tiveram a enorme contribuição do veterano, que disputou 121 partidas com a camisa verde e preta e dividiu a faixa de capitão com o volante Francesco Magnanelli. No melhor desempenho do Sassuolo na Serie A – o sexto lugar, em 2015-16 – Paolo esteve em campo em 31 dos 38 jogos.

Paolo Cannavaro entrou em campo pela última vez no último sábado, no empate por 1 a 1 entre a sua equipe e a Roma, no Olímpico, e foi homenageado pelos jogadores e pelo estafe do Sassuolo após a partida. Agora, na China, dividirá mais uma experiência com seu irmão, aprendendo e, quem sabe, ensinando. Resta saber se, tal qual conseguiu dentro de campo, também logrará êxito em sua nova carreira independentemente do destino de Fabio.

Paolo Cannavaro
Nascimento: 26 de junho de 1981, em Nápoles, Itália
Posição: zagueiro
Clubes como jogador: Napoli (1998-99 e 2006-14), Parma (1999-2001 e 2002-06), Verona (2001-02) e Sassuolo (2014-17)
Títulos: Coppa Italia (2012)

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