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Se todos os jovens forem pra Juve, o que será da Serie A e da seleção?

As notícias da última semana dão conta que a Juventus está bastante interessada em duas promessas do Cagliari. Han Song-Kwang, 19 anos, é o jovem norte-coreano que faz sucesso pela nacionalidade e a qualidade que tem mostrado no empréstimo ao Perugia. Nicolò Barella, 20, vai para a segunda temporada de futebol acima da média e é exatamente por ele que este texto existe: o quão bom é para a Serie A e seleção italiana se todos os pequenos talentos forem contratados pelo bianconero?

Juve, Milan, Inter, Roma e Napoli são os clubes ricos do Belpaese – os partenopei, apesar de não ter investimento estrangeiro ou ser escorado por uma indústria gigante, como a Fiat, têm material humano que o inclui aqui. Estas são as equipes que tendem a contratar a maioria dos atletas promissores das bases vizinhas.

Pegue a Atalanta, um dos melhores vivaios da Itália, como exemplo: Mattia Caldara foi criado em Bérgamo e vendido para a Juve depois de uma ótima época; Alessandro Bastoni mal jogou pelo time titular e foi negociado – e posteriormente emprestado a Dea – com a Inter; Giacomo Bonaventura, Andrea Conti e Manuel Locatelli saíram do Azzurri d’Italia para o Milan. E isso acontece sempre: Marco Tumminello saiu da base do Palermo para a Roma, Gianmarco Zigoni foi do Treviso ao Milan, Elseid Hysaj foi do Empoli ao Napoli… Nada tão diferente do que acontece há décadas: quem tem dinheiro, leva.

Tratando especificamente da Velha Senhora, ela precisa destes jovens? Sim ou não, dependendo de qual ótica você compreende o futebol. O balanço positivo com as vendas das promessas nos últimos sete anos mostra que, ao optar por esse caminho e essa política, o bianconero teve retorno. O preço a pagar, no entanto, é deixar escapar alguém com qualidade a ser revelada – Ciro Immobile e Antonio Nocerino ou, fora de Turim, Leonardo Bonucci, por exemplo. Aos que ficam, o problema é outro.

O clube tem relações bem estreitas com a linha do tempo da seleção italiana, com o recorde de convocados. Povoar o elenco com esses moleques vale a pena para eles? Levantei essa dúvida na apresentação de Federico Bernardeschi, que deixou a titularidade na Fiorentina para entrar na rotação no Piemonte. Ele respondeu nesta quinta-feira (18): “eu nunca tive dúvida. Assim que ouvi a proposta e eles me disseram que tinham o desejo de me contratar, falei ‘sim’ imediatamente”. Daniele Rugani, por outro lado, vai completar 24 anos e segue como uma promessa. A situação é ainda mais incômoda: como chegar à presença constante na Azzurra se é a quarta opção de zaga no clube para os próprios concorrentes a nível nacional?

Imagine uma pelada de fim de ano entre os melhores do mundo. Escolha teu time. Tem algum italiano? Se sim, você escalou Gianluigi Buffon?

Numa observação macro, observa-se a ausência de italianos de renome nos grandes clubes das principais ligas do continente. Na atual temporada, são 20 os italianos divididos entre Premier League, La Liga, Ligue 1 e Bundesliga, de Stefano Okaka, no Watford, à exceção Marco Verratti, do Paris Saint-Germain. Mas isso significa que falta talento a eles? A Calciopédia desmistificou. Portanto…

De vez em quando mudam a lei dos extracomunitários no Campeonato Italiano – quando é conveniente à politicagem ou quando tentam apontar a culpa por insucesso, seja da seleção ou das equipes em competições continentais, aos gringos. Porém, atualmente, a regra permite que as equipes recebam somente dois estrangeiros que vêm de fora do país por temporada: a Juventus conseguiu Douglas Costa porque vendeu Neto ao Valencia – a outra vaga está ocupada por Rodrigo Bentancur –; Franck Kessié, apesar de ser marfinense, não ocupa a posição do Milan porque ele pertencia a Atalanta.

Um levantamento do Centro Internacional de Estudos de Esporte (CIES) mostrou que os gringos representaram mais da metade dos jogadores escalados na Serie A e Premier League em março de 2017. Estes são os únicos campeonatos que passaram ou chegaram próximos da marca de 60%. O Belpaese, aliás, foi o país solitário que teve mais expatriados ao fim da análise em relação ao início da pesquisa (em janeiro de 2010). O observatório também publicou que a liga transalpina era 6ª com o maior número de estrangeiros até outubro do ano passado, atrás somente de Turquia, Chipre, Bélgica, Inglaterra e Portugal.

A chegada dos estrangeiros não é semelhante ao número de jogadores locais que saem para os outros centros. CIES confirmou que a Itália tinha apenas 150 atletas em associações diversas – para comparação, França e Argentina somaram, respectivamente, 781 e 753; o Brasil liderou com 1.202. Olhando de perto, os extracomunitários “atrapalham” os jovens (Bentancur como opção a Sami Khedira e Patrick Cutrone bancando para Nikola Kalinic), contudo, nenhuma outra liga além da Serie A tem usado a meninada local com mais frequência. Em 2010, 5,4% dos jogadores que atuaram no Italiano cresceram nos clubes; atualmente, o índice praticamente dobrou. No ano seguinte, os sub-21 eram usados em 4,8% do tempo e, em janeiro último, foi atingida a marca de 11,1%.

Em suma, Barella entraria nesse meio: uma oportunidade em um clube grande e rico, mas com chances diminutas de crescer em campo. Alguns, como Bernardeschi, não veem problema em galgar para ganhar espaço; outros, como Kingsley Coman, não têm paciência. Permanecer na Juve (ou em qualquer outro time como promessa no banco) é um atraso na carreira. Não tem lado certo ou errado, mas a história do jogador é curta em relação ao clube. Muito curta.

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Publicado originalmente em janeiro de 2018 no ESPN FC.

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