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Destaque do Livorno, atacante Murilo conta suas aventuras na terceira divisão italiana

Murilo Mendes. Se você já ouviu esse nome, provavelmente foi em aulas de literatura, quando estudava o modernismo. Afinal, Mendes foi um dos principais poetas brasileiros dessa vertente, em meados do século XX, e se tornou muito conhecido em Portugal, onde morreu. Hoje, outro Murilo Mendes toma este espaço: o atacante de 22 anos é um os destaques do Livorno, líder do Grupo A na Serie C do futebol italiano.

Tal qual o seu homônimo poeta, Murilo é mineiro, deixou o Brasil para morar em Portugal e se destacou em Viareggio. Enquanto o artista viveu em Lisboa e conquistou um prêmio com o nome da cidade litorânea da Itália, o futebolista saiu das categorias de base do Grêmio Barueri, passou pelos juvenis do Napoli e atuou no Olhanense. Após um curto empréstimo para disputar a Copa Viareggio, pelo Livorno, foi contratado em definitivo junto aos tugas pelos labronici, em 2016. Desde então, Murilo tem sido um dos principais jogadores da equipe, que está muito perto de retornar à Serie B.

Por e-mail, o atacante conversou com a Calciopédia sobre a campanha do Livorno e seu ótimo momento na Toscana. Confira.

Você, como tantos outros jogadores, nunca atuou profissionalmente no Brasil. Como foi mudar de país tão cedo? Quais as diferenças e semelhanças sociais e futebolísticas que já notou entre o nosso país, Portugal e a Itália?

Primeiramente, mudar de país cedo foi a realização de um sonho. Acho que toda criança, todo jogador, tem um sonho de jogar na Europa. Mas as diferenças são muitas em relação a clima, cultura, gastronomia. Falando de futebol, também muda bastante, na Europa são mais rigorosos taticamente. É um modelo de jogo diferente ao que somos acostumados no Brasil.

Como foi disputar com o Livorno a Copa Viareggio, um dos torneios de base mais importantes do futebol mundial?

Viareggio é um torneio super disputado, com equipes de base do topo do futebol mundial. Disputei uma edição, tive o prazer de fazer gol também no torneio, mas nosso time acabou saindo na primeira fase do torneio com um empate, uma vitória e uma derrota.

O Livorno é um dos times mais tradicionais e importantes desta Serie C e tem liderado o torneio desde o início da temporada. Quais os segredos para este domínio? O quanto ter batido na trave na briga pelo acesso em 2016-17 ajudou no amadurecimento da equipe?

O Livorno na Itália é um time bem tradicional, três anos atrás estava disputando a primeira divisão do campeonato italiano, sempre disputou Serie A e Serie B, mas já há dois anos está na C. E, como um time tradicional, é sempre o favorito para o acesso. O segredo para o domínio do campeonato acho que além da força, estrutura e projeto da equipe, vem também o treinador [Andrea Sottil, ex-zagueiro de Torino e Udinese], a torcida que faz a diferença fora de campo e o nosso time que é muito competitivo. O ano passado fizemos um bom campeonato, tivemos o azar de cinco jogadores titulares terem se machucado no mesmo período e isso acabou desequilibrando um pouco. Teve também a dificuldade do campeonato, que é muito competitivo. Mas tem males que vêm para bem às vezes. Aprendemos bastante a jogar o campeonato no ano passado, pra não cometer os mesmos erros que cometemos.

O elenco do Livorno tem jogadores experientes, como Andrea Luci, Daniele Vantaggiato e Francesco Valiani. Como eles têm ajudado na campanha e em sua adaptação ao futebol italiano?

São jogadores experientes, que ajudam bastante a equipe, contribuem com a experiência deles e com conselhos fundamentais pra nós, os mais jovens.

Na sua opinião, qual foi o seu melhor momento no clube até agora?

Posso dizer que meu melhor momento no clube está sendo essa temporada. No ano passado não tive tantas oportunidades, mas acabei o campeonato com seis gols e fiquei feliz pelo campeonato que fiz. Já esse ano tive algumas oportunidades a mais, fiz sete gols e faltam ainda 12 jogos para o fim do campeonato. Espero ser campeão e chegar aos 10 gols, se Deus quiser. O meu jogo mais marcante aqui até hoje foi o desse ano contra o Pontedera. Estávamos perdendo o jogo até os 75 minutos, entrei no jogo e, nos 15 minutos que restavam, pude fazer três gols e virar o jogo para o Livorno. Esse foi o jogo mais marcante até hoje pra mim no clube.

Murilo comemora um de seus gols na Serie C (Livorno Calcio)

A Itália tem um fenômeno interessante no futebol, que é o da enorme rivalidade entre torcidas de times de cidades pequenas. Como você tem notado o comportamento dos torcedores do Livorno em relação a outros clubes da Toscana que disputam a terceirona, como Pisa, Siena, Lucchese, Arezzo e Pistoiese?

É verdade. Aqui na Itália eles têm amor pelos clubes da cidade. Antes de torcerem por Napoli, Juventus, Roma, Milan, Inter, eles torcem pelo time da cidade. E isso é bem legal, o que dá um clima interessante para os jogos. O nosso dérbi aqui é contra o Pisa. É um clima diferente de todos os outros jogos do campeonato. No primeiro jogo fomos acompanhados por alguns de nossos torcedores. Eram cerca de 1.500 motos com bandeiras, tambores, que foram junto com a gente nos 20 quilômetros de Livorno até o estádio do Pisa.

A torcida do Livorno, aliás, é provavelmente o motivo pelo o qual o clube é mais conhecido internacionalmente: orientada à esquerda e com diretrizes antifascismo, lembra a do St. Pauli, da Alemanha. Você sente a politização vinda das arquibancadas?

Em relação à politização e a este movimento antifascismo ainda se vê um pouco, mas o que sei é que se via muito mais antigamente, alguns anos atrás.

O presidente Aldo Spinelli é conhecido por ser uma figura controversa, até folclórica. Como é a relação do elenco com o cara que comanda o clube há quase 20 anos?

O Aldo Spinelli, nosso presidente, é um cara que mesmo pouco presente, demonstra sempre o seu apoio pelo elenco e a sua vontade de retornar à elite do futebol italiano.

As boas atuações pelo Livorno devem ter chamado a atenção de outros clubes. Você pensa em, por exemplo, atuar no Brasil? Qual o seu objetivo a longo prazo?

Sim. Já nessa janela de transferências de janeiro tive oportunidades para deixar o clube, mas o Livorno acabou não me liberando devido à importância que tive até o momento no campeonato. Conversamos, abracei o projeto e acabei ficando pra conquistar o objetivo que foi determinado. Com certeza é um sonho voltar a jogar no meu país, mas agora ainda é cedo. Pretendo ficar aqui mais alguns anos, fazer o meu nome e depois quem sabe retornar ao Brasil.

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