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Fulvio Bernardini: unanimidade entre as torcidas romanas e inventor de um Bologna celestial

Romano, romanista e laziale. Pode? Fulvio Bernardini provou que sim. Possivelmente, Fuffo é a única unanimidade entre os torcedores os dois clubes da capital italiana: foi ídolo da Lazio e da Roma, sem manchar a imagem do outro lado. Aclamado como grandíssimo jogador nos anos 1920 e 1930, construiu também uma carreira maravilhosa como treinador de grandes equipes.

A biografia de Fulvio é um retrato de devoção às vitórias, que saíram sempre dos seus pés e da sua cabeça – em um breve período, também das suas mãos. Um colosso no país que respira o futebol e tem nele um dos barões mais respeitados da história. Por onde passou, Bernardini deixou um rastro de glória e admiração.

A história começa na Lazio, em 1919. O jovem Fuffo jogava em um time de bairro e estava decidido a fazer um teste para a Fortitudo, mas encontrou os portões do centro de treinamentos fechado. O destino acabou levando o garoto, que não tinha nem 14 anos, até o clube celeste. Antes mesmo de fazer aniversário, estreou como goleiro pelo clube – posição que deixaria para trás em 1921.

No início da carreira, quando ainda ficava debaixo das traves, um choque na cabeça contra um atacante da Fortitudo fez Fulvio repensar seu ofício em campo – embora outros digam que ele teria optado por mudar de função após levar quatro gols-relâmpago do Naples em uma partida pelo Italiano. De qualquer forma, foi no ataque que Bernardini se firmou vestindo a camisa biancoceleste, numa década que consolidou a Itália como uma força mundial no esporte.

Bernardini recebe um vaso de flores antes de uma partida da Lazio (fulviobernardini.it)

No ataque, Bernardini vingou em definitivo como um grande arquiteto dos gols e, mesmo jovem, foi um dos maiores destaques da equipe vice-campeã italiana em 1923. Na final, contra o Genoa, Fulvio arrancou elogios do lateral esquerdo Renzo De Vecchi, capitão rossoblù e da seleção. Após ostentar a faixa de capitão da Lazio em seu último ano no clube, o coringa se mudou para Milão, a fim de defender a Internazionale, antes que os nerazzurri se transformassem por alguns anos em Ambrosiana.

Bernardini era cortejado também pela Juventus, mas pesou na decisão de assinar com a Inter o fato de o clube lombardo ter lhe oferecido uma oportunidade de estudar economia na Universidade Luigi Bocconi e também um trabalho num banco. Em dois anos de Milão, Fuffo marcou 27 gols, mas ficou conhecido principalmente por ter ajudado a descobrir Giuseppe Meazza.

O romano assistia os treinamentos das divisões de base e, após ter se encantado com o futebol de Peppìn, insistia para que o técnico Árpád Weisz desse uma chance ao menino de 16 anos no time titular. Assim foi: em 1927-28, Meazza assumia o lugar de Luigi Cevenini, cedido à Juventus, e a Inter entrava em campo com uma dupla formada por ele e Bernardini. Fuffo foi o artilheiro da equipe, com 17 tentos, e formou um ataque de muito respeito, mas não conquistou título algum.

Após o início na Lazio, Bernardini alcançou a maturidade na Roma (fulviobernardini.it)

Em 1928, Bernardini retornou à cidade eterna para vestir as cores da Roma, que havia sido fundada, após a fusão entre três clubes, apenas na temporada anterior. Foram onze anos de dedicação aos giallorossi, que não conquistaram nenhum troféu de grande projeção neste período. Mesmo assim, jogando no meio-campo ou no ataque, Fulvio se tornou um dos primeiros grandes ídolos da equipe capitolina, juntamente a Attilio Ferraris.

Se os títulos não chegaram em termos clubísticos, em compensação Bernardini foi medalhista de bronze nos Jogos Olímpicos de 1928 e, também pela seleção, venceu a Copa Internacional Centro-Europeia, em 1930. Certamente poderia ter sido multicampeão com a Itália em 1934 e 38, mas uma decisão bizarra de Vittorio Pozzo privou o meia-atacante de uma participação naquele esquadrão.

Alegando que o atacante romanista era muito superior ao resto do time, Pozzo desistiu de convocar o artilheiro, pois entendia que ele destoava demais e acabava desequilibrando o time. “Bernardini joga de forma perfeita em nível de atuação individual, a tal ponto que os outros jogadores acabam se sujeitando e dependendo do que ele produz. Sacrifico-o ou sacrifico todos os outros?”, teria dito o treinador, segundo Bernardini contou em sua autobiografia. E assim acabava, em 1931, a passagem de um gênio pela Squadra Azzurra.

Já pela Roma, o craque se deslocou para o meio-campo, diluindo sua média de gols. Sua classe incomparável era referência para os colegas. Habilidoso e cerebral, Fulvio sempre sabia o que fazer com a bola em um piscar de olhos. E deixou saudade quando anunciou sua despedida, em 1939. Aos 33 anos, assinou com a MATER, também da capital, e exerceu as funções de jogador e treinador da equipe durante seis anos, nas séries C e B. O fim de sua carreira como atleta coincidiu também com os fins da MATER como agremiação e da II Guerra Mundial, em 1945.

A sorte de Bernardini mudou definitivamente quando ele se tornou treinador. Toda a experiência e a visão que tinha do futebol se converteram para o posto de comandante. Em 1949, após um hiato de quatro anos (nos quais, num período de seis meses, trabalhou na Federação Italiana), Fulvio voltou à Roma.

Formado em Ciências Econômicas, Bernardini ganhou o apelido de “O Doutor”. Outros o chamaram de “Professore”, pela simplicidade e gentileza que cultivou por toda a vida. Para os íntimos, era simplesmente Fuffo. Não demorou muito para que Bernardini mostrasse seu valor também como estrategista. Depois de passagem rápida pela Roma e trabalhos nas divisões inferiores por Reggina e Vicenza, o mestre chegou à Fiorentina para mudar de vez a alma da equipe violeta e entrar no seleto grupo dos grande técnicos do país.

Bernardini comandou a Fiorentina em seu primeiro scudetto (L’Unità)

Fulvio focava seu estilo no toque de bola e na agressividade dentro do campo adversário. Colocando seu time para seguir uma filosofia que chegou a ser comparada com a do Brasil campeão mundial em 1958, o treinador fez da Fiorentina campeã italiana em 1956, pela primeira vez na história. Nascia uma lenda, crescia um gigante em solo toscano. Tudo o que veio depois, de Giancarlo De Sisti a Gabriel Batistuta, só foi possível graças a Bernardini, o engenheiro do scudetto.

Foram cinco anos à frente da viola, nos quais o treinador deu espaço a jovens jogadores, como o goleiro Giuliano Sarti e o zagueiro Sergio Cervato, além de estrangeiros desconhecidos na Itália, como o atacante argentino Miguel Montuori, contratado junto à Universidad Católica do Chile, e o meia brasileiro Julinho Botelho, da Portuguesa. Julinho, aliás, seria reconhecido, décadas mais tarde, como o maior craque que já passou pelo clube de Florença. Juntos, foram duas vezes vice-campeões da Serie A, em 1957 e 1958, e uma vez vice da Copa dos Campeões, em 1957. No mesmo ano, também levantaram a Copa Grasshoppers, um torneio modesto entre clubes europeus.

A passagem de Botelho acaba justamente ao mesmo tempo que a de Bernardini, em 1958. O craque foi para o Palmeiras e o treinador seguiu para a Lazio, para dois anos de um reencontro especial. Não demorou para que o mestre conduzisse os aquilotti ao primeiro troféu de sua história: a honraria veio na Coppa Italia, em 1958, justamente contra a Fiorentina, vencida por 1 a 0. Assim como nos tempos de Florença, Fulvio tinha a companhia de um brasileiro – desta vez, o goleador Humberto Tozzi, que viera do Palmeiras em 1956.

Depois de duas semifinais da Coppa, Bernardini deixou a Lazio em 1960, entregando muito mais do que poderia com um grupo que não despontava entre os favoritos e que teria crescimento notável apenas nos anos 1970. Em 1961, o comandante partiu para mais um período bem sucedido, agora no Bologna. Deu quatro anos de sua vida aos felsinei e produziu mais um esquadrão de estilo elogiável. A torcida até vaticinou, após um 7 a 1 aplicado sobre o Modena em um dos clássicos emilianos: “só se joga dessa forma no paraíso”. Sob o comando de Fuffo, o Bologna realmente foi celestial.

Um homem que mexia com as massas: a foto deixa clara a idolatria que Fulvio Bernardini conquistou durante os quatro anos na Emília-Romanha (Bologna FC)

Gigante nas décadas de 1930 e 1940, quando conquistou quatro títulos da Serie A, o Bologna quase optou pelo caminho do catenaccio quando trocou de técnico, em 1961. Nereo Rocco era a primeira opção do presidente Renato Dall’Ara, o que gerou atritos nas relações entre diretoria e treinador, e o cartola tardou a entender que havia feito a escolha certa. Felizmente para os bolonheses, Bernardini encantou com sua filosofia e emplacou mais uma façanha.

Mesmo com a mudança considerável de jogo, o Bologna do Doutor levantou o título da Copa Mitropa logo de cara. O motorzinho do meio-campo rossoblù era baseado na técnica refinada de Giacomo Bulgarelli – que ganhou a companhia do alemão Helmut Haller a partir de 1962. Na frente, a dupla Ezio Pascutti e Harald Nielsen se encarregava de botar a bola na rede.

Pela Serie A, após duas temporadas em que ficou com o quarto lugar, o Bologna foi se sagrar campeão em 1963-64, demolindo a dupla Inter e Milan, que dominava a década com times estelares. Atrapalhado por uma conspiração bizarra de bastidores, o time de Bernardini lutou até o fim para superar os interistas na tabela final, graças a um jogo extra. Neste intervalo, o elenco foi acusado de ter jogadores dopados com anfetamina, algo que era muito comum na época, com uma pequena diferença: as provas utilizadas na investigação foram adulteradas por policiais, a pedido de figurões do Milan. O Bologna chegou a perder pontos na tabela, mas ignorou a adversidade e se manteve no topo da disputa.

A absolvição veio na hora certa, embora os felsinei tenham sido envolvidos em outro tipo de drama. Não bastasse a trama milanesa para derrubar os azarões, o presidente do clube, Renato Dall’Ara, caiu morto às vésperas do spareggio, o jogo de desempate final, contra a Inter. Como a Federação Italiana se recusou a remarcar o duelo em virtude da morte do cartola, os jogadores rossoblù não conseguiram comparecer ao velório. Possessos com toda a situação, se vingaram na bola: Giacinto Facchetti (contra) e Nielsen deram os números do 2 a 0 que rendeu o último scudetto da história do Bologna.

O último ano do Professor em Bolonha acabou marcado por uma campanha abaixo do esperado no Italiano e também na Copa dos Campeões, o que ocasionou a não renovação do seu contrato. Mesmo assim, o velho Bernardini, com quase 60 anos, ainda tinha alguma lenha para queimar. Deixou o Bologna em 1965 para treinar a Sampdoria, que sonhava em manter seu lugar na elite.

George Knobel e Bernardini, em partida disputada entre Holanda e Itália (Wikipedia)

A princípio, Bernardini fez dupla com Giuseppe Baldini no comando da equipe. Experiência que não deu muito certo, já que experimentou seu único rebaixamento na carreira, em 1966. Tudo isso para que desse a volta por cima imediatamente, em 1967, conquistando a Serie B. Quando teve a chance de lidar com a Samp novamente na primeira divisão, Fulvio deu espaço a jovens que se destacaram no clube, como o meia Roberto “Bob” Vieri (pai de Christian Vieri) e o zagueiro Marcello Lippi, e deixou a equipe em boa situação na tabela em quatro temporadas. Em 1971, encerrou temporariamente sua segunda vida no futebol.

Uma breve passagem como diretor esportivo do Brescia, entre 1971 e 1973, antecedeu a última experiência de Fuffo no banco de reservas. Ele assumiu a Itália, para fazer justiça a todas as vezes em que foi menosprezado pelos dirigentes da FIGC. Encarregado de fazer uma renovação na Nazionale, Bernardini comandou a seleção sozinho até junho de 1975, quando ganhou a companhia de Enzo Bearzot.

A dupla foi muito criticada, porque nem sempre obteve bons resultados. Bernardini não conseguiu levar a Itália a nenhum torneio internacional e deixou a Squadra Azzurra em outubro de 1977, na reta final das Eliminatórias para a Copa da Argentina. Seu legado foi uma base sólida, que nas mãos de Bearzot ficou com o quarto lugar em 1978 e o tricampeonato, em 1982.

No fim da década de 1970, prestou serviços à Sampdoria, também como diretor esportivo. Em 1979, acabava a saga do Professore. Longe do futebol, Fulvio Bernardini não viveria mais por muito tempo: o lendário homem do esporte morreu de esclerose lateral amiotrófica (Doença de Lou Gehrig) em 1984. Apenas algumas décadas depois é que estudos puderam comprovar que a ocorrência desta patologia é mais comum em atletas.

Como últimas homenagens, Fulvio Bernardini foi eleito como membro do hall da fama do futebol italiano, em 2011, e da história romanista, no ano seguinte. O ex-treinador também empresta seu nome ao centro de treinamentos da Roma, em Trigoria.

Fulvio Bernardini
Nascimento: 28 de dezembro de 1905, em Roma, Itália
Morte: 13 de janeiro de 1984, em Roma, Itália
Posição: goleiro, meia e atacante
Clubes como jogador: Lazio (1919-26), Inter (1926-28), Roma (1928-39) e MATER Roma (1939-45)
Carreira como treinador: MATER (1939-45), Roma (1949-50), Reggina (1950-51), Vicenza (1951-53), Fiorentina (1953-58), Lazio (1958-60), Bologna (1961-65), Sampdoria (1965-71) e Seleção italiana (1974-77)
Títulos como jogador: Medalha de bronze (1928, Amsterdã), Copa Internacional Centro-Europeia (1930)
Títulos como treinador: Serie A (1953, 1964), Coppa Italia (1958), Copa Grasshoppers (1957), Copa Mitropa (1962) e Serie B (1967)
Seleção italiana: 26 jogos, três gols

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