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Fernando De Napoli, a glória do sul da Itália que acabou derrotada pelo próprio joelho

Todo grande time tem o seu maestro. O Napoli dos anos 1980 tinha Diego Maradona como o seu craque e definidor de jogadas, mas havia também quem criasse para El Diez brilhar. Esse cara era Fernando De Napoli. Regista clássico e um dos grandes meio-campistas italianos entre as décadas de 1980 e 1990, Nando teve uma carreira brilhante e venceu quase tudo o que um atleta pode conquistar com a camisa de um clube. E tudo isso começou muito cedo para o meia.

O garoto que jogava nas ruas de Chiusano de San Domenico, minúsculo vilarejo da Campânia, quebrando as janelas das casas e do bar de seu pai, não demorou a ganhar os campos oficiais – e justo em seu time do coração. Nando foi descoberto na escolinha da Mirgia di Mercogliano e convencido pelo presidente do Avellino a juntar-se à equipe Primavera. Foram poucos meses nos biancoverdi até ser emprestado para o Rimini, clube em que teria sua primeira experiência profissional.

Àquela época, o Rimini militava na Serie C, mas tinha um técnico revolucionário em seus quadros: Arrigo Sacchi, aos 36 anos, também dava seus primeiros nas categorias profissionais. Com metade da idade do treinador, De Napoli não se acanhou e logo mostrou sua qualidade para ganhar uma vaga de titular no meio-campo biancorosso. As 31 atuações e os dois gols foram fundamentais para a boa campanha do Rimini, quinto colocado em seu grupo naquela terceirona, mas também para seu retorno ao Avellino, dessa vez para jogar a Serie A e se tornar estrela no período de ouro do clube.

De Napoli marca Maradona, que se tornaria seu companheiro anos depois (Trivela)

De volta à casa, De Napoli ficou conhecido como Rambo. Não apenas pelos longos cabelos, mas pela garra e entrega a cada jogo, que tratava como se fosse uma batalha: era comum que Nando terminasse as partidas com a camisa enlameada. Sua dedicação e qualidade no centro do campo ajudou os lobos a consolidar a permanência na primeira divisão nas três temporadas em que defendeu a equipe.

De Napoli também ajudou a equipe a faturar o Torneo Estivo, um torneio de verão, mas de caráter oficial. A competição era organizada pela FIGC e com a participação de todos os clubes da Serie A, com exceção aos quatro semifinalistas da Coppa Italia. Feitos extremamente importantes para um time como o Avellino, que estreara na elite apenas em 1978 e tinha como principal proeza o título compartilhado da terceirona de 1973.

Os anos como titular do meio-campo irpino foram muito importantes para Nando. Afinal, ele torcia para a equipe, representante maior da província em que sua cidade está localizada. Além disso, toda a Irpinia havia sofrido com um gravíssimo terremoto na década de 1980. “Cada partida, para mim, era como se fosse uma estreia. A primeira partida foi contra a Roma: perdemos por 3 a 2, mas foi um grande jogo. Foi uma emoção indescritível. É inexplicável vestir a camisa de sua própria região na Serie A”, disse em entrevista, no ano passado, a um portal de notícias italiano.

Depois de se destacar pelos lobos, De Napoli recebeu diversas convocações para a seleção sub-21 da Itália, vice-campeã europeia em 1986. E não só: foi notado por Enzo Bearzot e, em maio daquele ano, aos 22 anos, ganhou a primeira chance na equipe principal da Nazionale. A estreia aconteceu num amistoso contra a China, em Nápoles, às vésperas do embarque para a Copa do Mundo, que seria disputada no México. Duas semanas depois de estrear pela Squadra Azzurra, Rambo já coordenaria o meio-campo ao lado de Salvatore Bagni e seria titular nas quatro partidas italianas no torneio. Até hoje, De Napoli é o único jogador do Avellino que vestiu o manto sagrado da Itália – e, consequentemente, o único que disputou um Mundial pela seleção.

De Napoli é o único jogador do Avellino a ter disputado uma Copa do Mundo pela Itália (Getty)

Após as grandes atuações pelo Avellino e pela seleção, De Napoli recebeu algumas propostas. Juventus, Inter e Sampdoria quiseram contar com seu futebol, mas o meia optou pelo Napoli, sobretudo porque não se distanciaria de casa. No clube partenopeu, Nando viveu os melhores momentos da carreira como auxiliar do protagonista Diego Maradona, que se tornaria seu amigo. “Joguei com Diego por seis anos. É uma pessoa boa, humilde. Era belíssimo vê-lo nos treinamentos. Quando o time não ia bem, Diego organizava jantares com a família de todos e voltávamos a vencer”, contou.

Nando rapidamente ganhou importância na hierarquia do clube azul. No time de Ottavio Bianchi, De Napoli reeditou a dupla de meio-campo que formou com o experiente Bagni no Mundial de 1986 e tornou o setor um dos mais fortes da equipe. Em seu primeiro ano em Nápoles, Rambo marcou dois gols e comemorou uma dobradinha, já que o levantou o primeiro scudetto de sua história e ainda conquistou a Coppa Italia.

Nos dois anos seguintes, o Napoli foi duas vezes vice-campeão italiano e uma vez vice da Coppa Italia. Em 1989, porém, a equipe teve uma glória europeia, ao levantar a Copa Uefa. De Napoli fez uma temporada regular, como era de praxe, mas na segunda partida da final contra o Stuttgart, marcou um gol contra e deu um presente para Olaf Schmäler fazer o gol do 3 a 3 nos acréscimos – os azzurri já haviam vencido por 2 a 1 na ida. No ano seguinte, Rambo também foi importante para o bicampeonato italiano dos napolitanos.

Durante os seis anos em Nápoles, De Napoli fez 176 partidas e marcou oito gols pelo clube. Nesse meio tempo, continuou a receber convocações para a seleção: integrou o elenco italiano na Eurocopa de 1988 e na Copa de 1990, realizada em casa. Após o terceiro lugar da Nazionale, Rambo manteve seu lugar no meio-campo da Itália, mas se aposentou após a Squadra Azzurra não conseguir a classificação para a fase final da Euro de 1992.

De saída do Napoli, o meio-campista de 28 anos se juntou ao grande esquadrão que o Milan formara, em 1992. Rambo, porém, nunca se tornou uma peça em que Fabio Capello podia confiar: logo em sua chegada, um problema no joelho comprometeu boa parte da parte final de sua carreira. “Permaneci machucado por muito tempo devido a um problema na cartilagem. Marco Van Basten tinha o mesmo problema, mas no tornozelo. Estávamos sempre juntos na recuperação, mas nunca conseguimos ficar 100%”, explicou.

As últimas glórias de De Napoli foram conquistadas em Milão (Wikipedia)

Foi assim durante os dois anos em que permaneceu em Milão. De Napoli atuou apenas nove vezes com a camisa rossonera, sem ter conseguido anotar um gol sequer. Apesar de ter ficado no banco na final europeia contra o Barcelona, vendo de perto Daniele Massaro e Dejan Savicevic arrasarem o time de Romário e Hristo Stoichkov, por 4 a 0, Rambo não estava feliz. “Quando não se vence algo como protagonista, você sente que aquilo não é teu”, analisou. Pelo Milan, De Napoli conquistou duas Serie A, duas Supercopas Italianas, a citada Liga dos Campeões e uma Supercopa Uefa.

Emprestado à Reggiana, em 1994, conseguiu voltar a atuar por boa parte da temporada, mas não conseguiu evitar o rebaixamento do time da Emília-Romanha à Serie B. Já sem contrato com o Milan, recebeu o convite de Giovanni Trapattoni e assinou com o Cagliari, mas os problemas físicos que o perseguiram anteriormente voltaram a aparecer e o meia sequer conseguiu estrear.

Poucos meses depois, Rambo retornou à Reggiana, onde jogou mais 27 partidas, entre as séries A e B. A segunda experiência pelo clube grená durou pouco mais de um ano e meio e foi a última de De Napoli como profissional antes de encerrar a carreira, com apenas 33 anos. Mesmo sendo um atleta exemplar, infelizmente o joelho não deu trégua e Nando decidiu parar muito cedo. “Ser profissional exige grande sacrifício. Sempre tive uma vida moderada, sem discotecas ou divertimentos. Mas um jogador precisa também de sorte e eu não tive”, lamentou. Após deixar o futebol, De Napoli decidiu investir em outra de suas paixões, o vinho. Junto a um amigo sommelier, abriu uma enoteca em uma cidadezinha próxima a Bolonha.

Fernando De Napoli
Nascimento: 15 de março de 1964, em Chiusano di San Domenico
Posição: meia
Clubes: Rimini (1982-83), Avellino (1983-86), Napoli (1986-92), Milan (1992-94), Reggiana (1994-95 e 1995-97) e Cagliari (1995)
Títulos conquistados: Torneo Estivo (1986), Serie A (1987, 1990, 1993 e 1994), Coppa Italia (1987), Supercopa Italiana (1990, 1993 e 1994), Copa Uefa (1989), Liga dos Campeões (1994) e Supercopa Uefa (1994)
Seleção italiana: 54 jogos e 1 gol

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