Brasileiros no calcio

Julio Cesar chegou ao auge na Itália e se tornou um dos maiores goleiros da Inter

Na noite deste sábado, Julio Cesar encerrou sua carreira com um desempenho semelhante ao de seus sete anos de Itália. Vestindo a camisa do Flamengo, seu time do coração, o goleiro de 38 anos teve uma brilhante atuação contra o América-MG e se despediu dos gramados revivendo o seu auge, quando defendeu a Inter.

Garoto prodígio da Gávea, Julio se tornou titular do Flamengo antes de completar 22 anos e ganhou suas primeiras convocações para a Seleção em 2002, embora não tenha participado da Copa do Mundo daquele ano. Quando foi contratado pela Inter, em 2005, o goleiro já tinha um currículo relativamente extenso e recheado: havia vencido competições estaduais, nacionais e internacionais pelo Fla, do qual foi titular por três temporadas.

O jogador nascido na Baixada Fluminense também foi destaque na Copa América de 2004, da qual o Brasil saiu vitorioso. A final contra a Argentina ficou marcada pelo gol salvador de Adriano, que levou a partida para os pênaltis, já nos acréscimos, mas o camisa 1 canarinho brilhou: defendeu as duas primeiras cobranças albicelestes e tirou a pressão dos batedores brasileiros, sendo responsável direto pela conquista.

Na Itália, Julio Cesar não foi um imperador, tal qual Adriano, mas foi “L’Acchiappasogni” (literalmente “o apanhador de sonhos”), ou simplesmente “Julione” para os interistas. Antes de conquistar tanto prestígio em Milão, o goleiro precisou passar alguns meses no Chievo, já que a Inter não tinha espaço para extracomunitários em janeiro de 2005. Neste curto estágio em Verona, foi relacionado apenas para três partidas, não jogou em nenhuma e aproveitou para conhecer mais da língua e da cultura italianas.

O primeiro desafio do brasileiro na Inter foi tomar o lugar de Francesco Toldo, com quem tanto cresceu. As oportunidades de Julio Cesar vieram com uma excelente preparação de pré-temporada para 2005-06, aliada à confiança de Roberto Mancini e aos excelentes resultados obtidos em campo. Em pouquíssimo tempo, o homem que havia barrado o experiente Clemer no Flamengo, deixava para trás outro goleiro gabaritado – e bem superior a seu concorrente anterior. Logo em seu primeiro ano, Julio conquistou três troféus com a Inter (incluindo a Serie A no tapetão, em consequência do Calciopoli) e foi convocado para a Copa de 2006, mas não entrou em campo.

O dono da bola: Julio Cesar foi inquestionável em seus anos de Inter (Getty Images)

O Calciopoli foi um catalisador para o estabelecimento da hegemonia da Inter na Itália, da qual o camisa 12 – Julio só utilizou a 1 em 2010-11 e 2011-12, após a aposentadoria de Toldo – foi protagonista. Em sete temporadas, conquistou 15 títulos, incluindo um pentacampeonato da Serie A. Não é exagero dizer que o brasileiro fez história num clube de tantos goleiros marcantes: disputou 300 partidas com a camisa nerazzurra e sofreu 273 gols – retrospecto inferior apenas ao de Walter Zenga, maior arqueiro da história do clube.

Julio Cesar teve média inferior de um gol/partida em seis dos anos em que foi titular da Inter – a única exceção foi a temporada 2011-12, sua última, na qual a Beneamata viveu diversos problemas extracampo. Mesmo concorrendo com uma lenda como Gianluigi Buffon, o interista não se intimidou e ficou com o posto de goleiro menos vazado da Itália por cinco vezes seguidas – além de ter sido eleito como melhor goleiro da Serie A em 2009 e 2010. Embora tenha brilhado em cada uma das campanhas, foi em 2009-10, com a conquista da Tríplice Coroa, que o brasileiro alcançou maior destaque – a ponto de ser considerado o melhor do mundo em sua posição.

Na Liga dos Campeões 2009-10, o goleiro foi um dos líderes do time de José Mourinho e foi essencial para a conquista europeia, a maior do clube nos últimos 50 anos. Uma de suas defesas na partida de volta das semifinais contra o Barcelona, em chute de fora da área efetuado por Lionel Messi, se tornou a mais emblemática de sua carreira. Não à toa, Julio foi eleito o melhor goleiro da Europa naquela temporada e chegou à Copa do Mundo de 2010 no auge de sua forma.

Com a equipe de Dunga, Julio não foi tão bem: um dos gols marcados pelo companheiro Wesley Sneijder, na eliminação canarinho nas quartas de final contra a Holanda, era defensável. Apesar disso, “o apanhador de sonhos” continuou atuando em alto nível na Inter e conservou seu espaço na Seleção – foi até titular na Copa América de 2011.

Julio Cesar só perdeu espaço em Milão em 2012, quando a Inter passou por um processo de renovação e contratou Samir Handanovic, atual titular da meta nerazzurra. No final de agosto daquele ano, Julio e o clube rescindiram o contrato de maneira amigável e o goleiro ganhou uma despedida pública no estádio Giuseppe Meazza, com direito a muitas lágrimas e ovação da torcida.

Dos brasileiros que participaram das conquistas do clube de Milão na última década, Julione foi o único que recebeu tal tratamento, o que mostra quão grande foi sua identificação com as cores interistas. Entre os nascidos em nosso país, só Jair da Costa e Ronaldo foram alvo de tanta idolatria por parte da tifoseria da Inter.

Depois de deixar Milão, Julio Cesar teve uma experiência de dois anos na Premier League, pelo Queens Park Rangers, mas embora tenha feito algumas boas atuações, em seu segundo ano no clube, foi relegado à Reserva de Robert Green pelo técnico Harry Redknapp. Como queria manter seu posto de titular da Seleção – reconquistado em 2013, após ter perdido espaço no ano anterior –, Julio acabou aceitando um empréstimo ao Toronto FC, da MLS.

Os meses no Canadá o mantiveram em forma e fizeram com que Luiz Felipe Scolari lhe desse a titularidade na fatídica Copa de 2014. Julio Cesar teve boas atuações na competição e não teve culpa alguma nos gols sofridos no 7 a 1 frente à Alemanha. Sua última partida com a camisa verde e amarela acabou sendo a derrota contra a Holanda, na decisão pelo terceiro lugar.

A Copa do Mundo devolveu o brasileiro ao cenário internacional e Julio acabou sendo contratado pelo Benfica. O goleiro foi titular dos encarnados por dois anos e se tornou extremamente respeitado pela torcida. Em seu último ano e meio em Lisboa, compôs elenco e foi um tutor dos titulares Éderson e Bruno Varela, respectivamente. Até que, em 2018, foi convidado pelo Flamengo para encerrar a carreira no clube rubro-negro, abraçado por um Maracanã.

Julio Cesar Soares de Espíndola
Nascimento: 3 de setembro de 1979, em Duque de Caxias (RJ)
Posição: goleiro
Clubes: Flamengo (1997-2004 e 2018), Chievo (2005), Inter (2005-12), Queens Park Rangers (2012-14), Toronto FC (2014) e Benfica (2014-17)
Títulos: Copa Mercosul (1999), Copa dos Campeões (2001), Campeonato Carioca (1999, 2000, 2001 e 2004), Taça Rio (2000), Taça Guanabara (2001, 2004 e 2018), Serie A (2006, 2007, 2008, 2009 e 2010), Coppa Italia (2006, 2010 e 2011), Supercopa Italiana (2005, 2006, 2008 e 2010), Liga dos Campeões (2010), Copa do Mundo de Clubes (2010), Copa América (2004), Copas das Confederações (2009 e 2013), Campeonato Português (2015, 2016 e 2017), Taça da Liga (2015 e 2016), Supertaça de Portugal (2016) e Taça de Portugal (2017)
Seleção brasileira: 87 jogos

1 comentário

  • Com todo respeito, mas ele não foi convidado pelo flamengo. O Júlio César que foi ao clube e apresentou o projeto. No Benfica, ele foi tutor pq estava muito mal tanto na Champions fez péssimas partidas e no 7 x 1, ele pode não ter tomado um frango, mas já não tinha mais explosão e poderia sim ter evitado alguns gols. Abraço.

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