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O uruguaio Daniel Fonseca esbanjou categoria durante sua longa trajetória pela Itália

Durante a época de ouro do futebol italiano, muitos bons jogadores passaram pelo Belpaese sem o devido reconhecimento. O uruguaio Fonseca é um exemplo. Atacante voluntarioso e de boa técnica, jogou no país por toda a década de 1990 e em apenas duas temporadas conseguiu destaque, ambas em um Napoli ressentido pelas travessuras de Maradona. Apesar disso, mesmo na reserva de Roma e Juventus mostrou valor, e se não foi tão memorável, teve seus momentos de glória.

Como grande parte dos uruguaios, Fonseca tem origem italiana. Como seus avós haviam nascido na Velha Bota, foi fácil conseguir a cidadania europeia. O atacante dentuço desembarcou na Itália ainda jovem e sem muita experiência, após ser revelado pelo Nacional, clube com o qual havia vencido a Recopa Sul-Americana – e também Libertadores e Mundial Interclubes, mas sem entrar em campo. Seu destino era o Cagliari, que havia estabelecido laços com vários olheiros uruguaios durante a Copa do Mundo de 1990, que Fonseca disputou.

A equipe sarda havia acabado de retornar para a primeira divisão após sete anos de ausência e recheou seu elenco de jogadores charruas. Além de Fonseca, reforçaram o clube os compatriotas Enzo Francescoli e Pepe Herrera. O trio sul-americano ficaria à disposição de um iniciante Claudio Ranieri.

Conhecido como “Castoro” (castor) por causa de seus dentes, Fonseca foi ofuscado por Francescoli e jogou fora de posição, principalmente no segundo ano, sob o comando de Carlo Mazzone. Mesmo assim, foi artilheiro por duas temporadas de uma equipe que prometia entregar muito no campeonato, especialmente pela presença de El Príncipe, mas manteve poucos pontos de vantagem para a zona de rebaixamento. Por ironia do destino, os rossoblù acabaram tendo grandes resultados no ano seguinte, quando Fonseca não estava mais na Sardenha.

Fonseca começou sua trajetória na Itália com a camisa do Cagliari (Tumblr)

Enquanto Fonseca buscava seu espaço com Mazzone, na Sardenha, Ranieri já havia assumido o comando do Napoli. Depois de um começo promissor, com a quarta posição em 1992, o treinador romano foi mantido como treinador do time azzurro e o uruguaio chegou à Campânia a seu pedido. A parceria voltou a durar pouco, já que Ranieri foi demitido meses depois, o que não afetou o futuro do charrua em Nápoles. Pelo contrário: Fonseca aproveitou a queda técnica de Careca para assumir o protagonismo ao lado de Gianfranco Zola. Contudo, os resultados não foram bons e a equipe teve que suar pela salvezza, conquistada por apenas dois pontos.

Outra desilusão foi a eliminação para o Paris Saint-Germain de George Weah na segunda fase da Copa Uefa, que veio após a classificação com autoridade sobre o Valencia. Fonseca, aliás, marcou todos os seis gols do duelo contra os espanhóis, cinco deles em um só jogo, no Mestalla. Decepção superada na temporada seguinte, quando continuou como artilheiro da equipe, mesmo sem Careca e Zola ao lado.

Os problemas financeiros do Napoli começavam a se agravar na época, levando às vendas de Zola e Massimo Crippa para o Parma, e a diretoria liderada por Corrado Ferlaino apostou no ainda jovem Marcello Lippi, que havia feito um trabalho surpreendente na Atalanta, em 1992-93. Resultado positivo: Fonseca manteve a cota de gols (foram 16 na Serie A no primeiro ano e 15 no segundo) e a equipe se tornou mais equilibrada, apesar das perdas consideráveis e a baixa média de idade do grupo.

Careca e Fonseca comemoram gol napolitano na Copa Uefa (Soccer Nostalgia)

A regularidade na Campânia também significou um contrato melhor para o atacante, que foi negociado com a Roma por 10 milhões de liras a mais do que o Napoli tinha gastado dois anos antes. Na capital, reencontrou o treinador Mazzone, que voltou a utilizá-lo em outra função em detrimento do artilheiro Abel Balbo. Menos próximo da meta adversária e novamente coadjuvante, passou a fazer menos gols, mas ainda viveu alguns momentos importantes.

No primeiro ano, marcou contra Lazio e Juventus, além de ter participado da conquista da Copa América em 1995, ao lado de Francescoli. No segundo devolveu as provocações feitas pela torcida do Cagliari de forma mais profissional, ao anotar uma doppietta no Sant’Elia. Ainda no Napoli, quando voltou à Sardenha pela primeira vez, o uruguaio não reagiu bem às vaias e mostrou o dedo médio para a torcida.

O terceiro ano em Roma tinha tudo para ser promissor, já que Fonseca herdou a camisa 10 de Giuseppe Giannini. No entanto, os problemas físicos começaram a aparecer e um certo garoto chamado Francesco Totti diminuiu a quantidade de minutos disputados pelo uruguaio. De qualquer forma, Fonseca conseguiu um contrato ainda melhor: voltou a se juntar a Lippi, dessa vez assinando pela Juventus, então campeã italiana e vice europeia.

O “castor” ficou quatro anos em Turim, onde foi coadjuvante (LaPresse)

O uruguaio se contentou com a posição de coadjuvante e se mostrou um jogador valioso, através de gols importantes, que marcava ao sair do banco de reservas. Assim foi o seu primeiro pelo clube, justamente contra o Napoli, aos 88 minutos, numa vitória por 2 a 1 no San Paolo, na temporada em que ganhou seu único scudetto. O “castor” virou titular após a lesão de Alessandro Del Piero em 1998, mas não convenceu a direção, que contratou Juan Esnáider e Thierry Henry no inverno. Ao mesmo tempo, Lippi foi substituído por Carlo Ancelotti e seu espaço foi ainda mais reduzido.

Contudo, foi uma lesão em 1999 que realmente acabou com sua passagem em Turim. Foram dois anos entre o estaleiro e o banco até a rescisão de contrato. De volta para a América do Sul, Fonseca chegou no River Plate com pompa, mas os problemas físicos seguiram e a aventura na Argentina durou somente dois meses, sem que o uruguaio disputasse uma partida oficial sequer. Com isso, retornou a sua terra natal para participar do título do Nacional.

A passagem pelo clube em que foi revelado também durou pouco: Fonseca recebeu convite para retornar à Itália em 2002. O Como tinha acabado de subir para a elite e também contratou seus ex-companheiros Nicola Amoruso e Fabio Pecchia, além de outros conhecidos, como Fabrizio Ferron, Pasquale Padalino, Benoît Cauet e Benito Carbone. A aposta nos medalhões não deu certo e a equipe acabou rebaixada como penúltima colocada. Fonseca jogou apenas duas partidas e se aposentou em 2003, com 78 gols em 213 partidas na Serie A.

O uruguaio continuou morando na cidade lombarda, conhecida por seu gigante lago, cercado por mansões em que vivem muitos jogadores de futebol e astros do showbiz. Como é vizinha de Milão, onde seu caçula tenta repetir seus passos: Matías, nascido em 2001, joga no setor juvenil da Inter e é o vice-artilheiro do campeonato sub-17, com 14 gols. O filho mais velho, Nicolas, nasceu em 1998 e também é jogador, atualmente titular do sub-19 do Novara. Hoje agente de jogadores, Daniel Fonseca representa alguns compatriotas famosos, como Luís Suárez, Martín Cáceres e Fernando Muslera.

Daniel Fonseca Garis
Nascimento: 13 de setembro de 1969, em Montevidéu, Uruguai
Posição: atacante
Clubes: Nacional-URU (1988-90; 2002), Cagliari (1990-92), Napoli (1992-94), Roma (1994-97), Juventus (1997-01), River Plate (2001-02) e Como (2002-03)
Títulos: Copa Libertadores (1988), Mundial Interclubes (1988), Copa Interamericana (1988), Recopa Sul-Americana (1989), Campeonato Uruguaio (2002), Serie A (1998), Copa Intertoto (1999), Copa América (1995)
Seleção uruguaia: 30 partidas e 11 gols

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