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Os tentáculos da máfia e do crime organizado no futebol italiano: o jogo subterrâneo

É um fato espinhoso de se reconhecer, mas não há dúvidas de que a Itália é o país que descobriu mais casos de influência do crime organizado em qualquer nível do futebol, se considerarmos as nações com as principais ligas da Europa. Muito além de insinuações ou de piadas fora de lugar, os elos entre o esporte e os indivíduos fora da lei (incluindo aí, integrantes de máfias) são uma questão estrutural no país e merecem ser discutidas dentro de uma perspectiva socioeconômica.

O futebol está tão entranhado na sociedade italiana que parece até que ele está inserido nela há milênios. Bom, um dos antepassados do esporte, o calcio florentino, até se difundiu por regiões do país, no século XVI, mas o futebol propriamente dito só chegou ao Belpaese no fim do século XIX, com imigrantes ingleses. O crime organizado é um pouco mais antigo: a máfia tem origem na passagem do feudalismo para a modernidade no sul da Itália.

Segundo o jornalista Leandro Demori, editor-executivo do The Intercept Brasil e autor de “Cosa Nostra no Brasil: a história do mafioso que derrubou um Império”, o movimento que impulsionou o estabelecimento das organizações mafiosas, tão ligadas a manifestações populares, teve início com os nobres sicilianos. Os senhores passaram cada vez mais a deixar o campo e a se fixar em Palermo e, por isso, confiaram a proteção de suas terras a pequenos fazendeiros, que ficaram encarregados de manter os servos na roça. Estas milícias utilizavam da violência para atingir os objetivos dos patrões e tinham carta branca para usar a força e outros meios escusos em benefício próprio.

Não demorou para que este “serviço” começasse a se tornar um verdadeiro negócio, geralmente tocado por núcleos familiares. Também foi rápido que os clãs assumiram a premissa de que seu trabalho servia para proteger o povo: consequentemente, ficaram cada vez mais conhecidos e multiplicaram o número de sócios. Isso aconteceu inicialmente por toda a Sicília, em meados do século XIX – época em que há o primeiro registro da palavra “máfia” –, e depois pelo sul do país. Neste contexto, se estabeleceram duas das cláusulas pétreas da máfia: o pizzo (pagamento por proteção, usualmente mediante extorsão) e a omertà, forma de justiça paralela aplicada a quem age com deslealdade com contribuintes ou não segue o código de honra da organização – normalmente sob a forma de homicídios ou outras formas de intimidação.

Após a II Guerra Mundial, a máfia expandiu seus horizontes. Deixou os negócios rurais e as pequenas cidades para, definitivamente, agir onde a iniciativa privada era incipiente, o decadente reino italiano não havia agido e a nova república não chegara. Contrabando, tráfico de armas, lobby bancário, especulação imobiliária e os negócios legais em que se imiscuía e, por último, as drogas: a máfia espalhou seus tentáculos por quase todos os setores da economia do Belpaese e ganhou território, atuando também no centro e no norte da Bota.

As ramificações da máfia podem até ser mais evidentes no sul da Itália, mas se estendem a todo o país. Em 2000, estimava-se que 20% dos negócios do país eram controlados pelos mafiosos. Até mesmo gente importante, como Silvio Berlusconi, pagaria por proteção. E agentes públicos faziam acordos ilegais, por baixo dos panos, para tentar coibir as ondas de violência.

O crime italiano também se tornou um player internacional, graças às suas principais organizações mafiosas: primeiro a Cosa Nostra (Sicília) e depois a Camorra (Campânia) e a ‘Ndrangheta (Calábria), que fazem negócios com foras da lei de todos os continentes. Com tal capilaridade, não é de se estranhar que a máfia chegaria ao futebol, uma das maiores paixões do povo italiano. Poder, notoriedade, lavagem de dinheiro, manipulação de resultados, apostas ilegais e infiltração em torcidas: tudo isto interessa aos criminosos no esporte.

Capítulo 1 – O cérebro: a máfia que controla clubes ou influencia dirigentes
Capítulo 2 – As vértebras: os agentes duplos ligados aos clubes
Capítulo 3 – O braço: as torcidas que servem ao crime organizado
Capítulo 4 – Os pés: as partidas manipuladas e os jogadores que já tiveram problemas com a lei

O cérebro: a máfia que controla clubes ou influencia dirigentes

Um garotinho observa as Velas de Scampia, na periferia de Nápoles. Nestes locais, os mafiosos tentam usar o futebol para obter mais influência (Salvatore Maiorano)

Embora as diversas associações mafiosas da Itália atuem em áreas que movimentam grandes montantes, a participação de criminosos no futebol não alcança a mesma relevância, em termos financeiros – nem mesmo em termos de lavagem de dinheiro, já que existem formas mais eficazes de limpar capitais. Por que, então, o esporte interessa tanto às organizações mafiosas?

“O maior medo deles [dos mafiosos] é estar no centro das atenções. Eles querem ser, como disse um arrependido camorrista, pessoas muito importantes em nível local. Famosos em seus territórios, mas anônimos nos cenários nacional e internacional”, disse Roberto Saviano, em entrevista ao jornal inglês The Guardian. Saviano sabe bem do que fala: nascido em Nápoles, o jornalista é o autor do best-seller “Gomorra”, que deu origem a um premiado filme e a uma série televisiva, ambos com o mesmo nome. Desde as primeiras ameaças de morte recebidas, em 2006, pelo clã dos Casalesi (uma dissidência da Camorra), o escritor vive sob um protocolo de segurança que prevê escolta contínua e, para sua própria proteção, mora em um local não revelado.

Nas cidades menores do sul da Itália e nas periferias das cidades grandes, a influência que a máfia exerce sobre os territórios é notória e se espalha como uma colônia de bactérias. A lógica aqui é a da capilaridade territorial, da possibilidade de o crime organizado estar entranhado e ter poder sobre as mais diversas áreas da sociedade, como explica Leandro Demori.

“Em muitas cidades pequenas você ainda vai ver que a máfia ainda pode atuar em negócios minúsculos, como cobrar pizzo de comércio ou feiras. Não é um grande filo financeiro, que vá gerar grandes volumes de dinheiro, como o tráfico internacional de qualquer coisa, mas é uma forma de manter o poder da máfia, capilar e vertical. Os caras mantêm o controle sobre aquela área”, diz o jornalista. O futebol entra nessa lógica, desde as suas manifestações mais comezinhas. “A máfia não é um tipo de poder que frequenta salões refinados: os mafiosos costumam ter um contato muito grande com a população local, mais ou menos como na lógica do tráfico nos morros do Brasil”, completa.

É natural que a máfia esteja enfiada em lugares em que haja qualquer manifestação popular. Nada melhor do que o futebol para isso.
Leandro Demori

Nápoles é uma das poucas cidades grandes da Europa em que ainda é comum ver garotos jogando bola nas ruas: ainda que seja uma metrópole, conserva hábitos que persistem em toda a parte meridional da Bota. Enquanto muitos destes garotos acabam cooptados para atuarem em serviços pequenos do tráfico, como o de olheiros das bocas, é comum que a máfia aja como “patrocinadora” do esporte local, sobretudo em locais em que o estado atue menos e em que a iniciativa privada enfrente enormes dificuldades financeiras. “É natural que a máfia esteja enfiada em lugares em que haja povo ou qualquer manifestação popular. Nada melhor do que o futebol para isso: trazer um jogador para um clube, ser dirigente, benemérito, ajudar a reformar um campo, um estádio”, explica Demori.

Esse tipo de relação confere aos criminosos poder suficiente para influenciar votações municipais e, assim, eleger políticos que façam vista grossa para os seus negócios ou que atuem diretamente junto ao crime, trabalhando para aprovar matérias de interesse da máfia. “Em cidades pequenas, o presidente de um clube costuma ter um poder enorme e mais influência do que o próprio prefeito”, salienta Daniele Poto, jornalista autor do livro “Mafia nel pallone” (“A máfia no futebol”), sem tradução para o português.

Seguindo essa linha, há relatos de torneios infantis realizados como homenagem a mafiosos assassinados na Calábria. Segundo um informante chamado Armando De Rosa, desde 2002 acontecem campeonatos anuais financiados pelo crime organizado em Scampia, um dos subúrbios mais conhecidos de Nápoles. Criminosos procurados internacionalmente costumam dar o ar da graça para prestigiar as partidas e, de quebra, relembrar a algum desavisado quem é que detém o poder por ali. Os clãs disputam entre si e até contratam jogadores semiprofissionais para dar uma força aos amadores locais, que competem por drogas e não por prêmios em dinheiro ou troféus.

Eventualmente, os mafiosos deram um passo à frente e, com o uso de “laranjas”, deixaram a esfera do esporte local em alguns casos. Raffaele Cantone, ex-procurador da divisão antimáfia de Nápoles, lembra que o futebol não é apenas uma excelente ferramenta para manter o controle dos territórios. Comandar um clube serve para que os criminosos possam manter sua influência e capilaridade, mas tem uma grande vantagem: a chance de lavar o dinheiro proveniente de seus negócios ilegais. “Ao redor do esporte há um grande movimento de capital, ligado, por exemplo, ao mundo das apostas. O futebol também é um veículo importante para unir mundos distantes, tendo em conta as relações que as agremiações têm com a política e o empreendedorismo”, declarou em entrevista ao Affari Italiani.

A compra de empresas falidas, destinadas a uma falsa recuperação financeira, é uma das formas mais comuns de lavagem de dinheiro. Para quem não está habituado ao tema, o princípio é simples: ao investir nestas corporações, o verdadeiro intuito dos criminosos é dar uma aparência de legalidade a um patrimônio obtido de formas escusas, “limpando-o” e tornando-o disponível para investimentos e a obtenção de novas riquezas. Como na história do futebol italiano não faltam casos de clubes que entraram em bancarrota, não é novidade que a prática mafiosa, antes vista em outros empreendimentos, chegaria ao esporte.

Se considerarmos apenas situações em que criminosos ou pessoas diretamente ligadas a eles ocupem o primeiro ou o segundo nível administrativo de um clube (ou seja, exercendo função como presidente, diretor ou conselheiro), perceberemos que tal envolvimento entre o mundo do crime e o esporte acontece atualmente (de maneira confirmada) apenas nas divisões inferiores, em equipes semiprofissionais ou amadoras. Como lembra Cantone, “um escalada formal da máfia nos clubes da elite é mais difícil”, já que nos níveis mais profissionais do futebol existe uma maior fiscalização – transações obscuras para aquisições de jogadores já chamam a atenção e geram desconfianças sobre a sua idoneidade, mas são identificadas com mais facilidade, por exemplo. Por sua vez, as categorias diletantes são uma verdadeira terra de ninguém.

Raffaele Vrenna, presidente do Crotone, já foi investigado por ligações com a ‘Ndrangheta (LaPresse)

O Crotone tem um lugar peculiar neste contexto. Flutuando nas divisões profissionais há quase 20 anos e desde 2016 na Serie A, a equipe da Calábria faliu no início dos anos 1990 e, em 1992, foi assumida pela família Vrenna, na figura dos irmãos Raffaele e Gianni. Atuais mandatários do clube, os dois têm um dos sobrenomes mais importantes da cidade: afinal, a ‘ndrina Vrenna é uma das mais fortes representantes da ‘Ndrangheta em Crotone. Raffaele é, ainda, um empreendedor do ramo de descarte de resíduos sólidos – setor historicamente ligado às organizações mafiosas, que cobram preços menores para a indústria e descartam o lixo de maneira ilegal.

Parece fácil juntar lé com cré, não é? No entanto, até agora nada foi provado contra Raffaele, que é um parente distante de Luigi Vrenna, fundador do clã no início do século XX. Neto do chefão e primo de Vrenna, Luigi Bonaventura prestou depoimento à justiça em 2013 e, no inquérito, acusou o presidente do Crotone de envolvimento com a ‘Ndrangheta – fato negado pelo cartola.

Outros delatores também acusaram o dirigente de intrínseco contato com a organização: supostamente, empregava parentes de criminosos em troca de segurança para si e seus negócios. Segundo Domenico Bumbaca, um dos colaboradores, Vrenna também utilizava de meios para ameaçar adversários no futebol e manipular resultados de partidas, além da influência da família como trunfo para controlar os ultras ou garantir aos jogadores que ninguém mexeria com eles. Diante de tantas denúncias, no início de 2016 a promotoria de Catanzaro (sede administrativa da Calábria), através de sua divisão antimáfia, acusou Raffaele Vrenna de associação mafiosa e solicitou o sequestro de 800 milhões em bens – incluindo, aí, o próprio Crotone.

O cartola acabou inocentado e pode comemorar mais uma vitória em uma batalha judicial: anteriormente, já havia sido absolvido na última instância outra vez por associação mafiosa e também por extorsão, corrupção e compra de votos. Mais recentemente, em primeira instância, se livrou da acusação de ocultação de patrimônio. Em janeiro deste ano, porém, a história ganhou um novo capítulo, depois que um delator, ex-membro da ‘Ndrangheta, afirmou que utilizou um caminhão da empresa de Vrenna para transportar uma quantidade de lixo hospitalar que foi enterrada num local impróprio, perto de uma escola de Crotone. As investigações estão em curso: terminarão em mais uma absolvição?

A trajetória de absolvição tardou, mas chegou para Pasquale Casillo, presidente do Foggia nos tempos de ouro do clube – fim dos anos 1980 e início dos 1990, quando chegou a encantar na Serie A. O dirigente do time apuliano foi processado em 1993 por associação mafiosa, chegou a ser preso em 1994 e só em 2007 foi inocentado na corte federal. A longa tramitação do caso no judiciário do Belpaese acabou prejudicando suas empresas, que nunca se recuperaram do baque: faliram e deixaram centenas de desempregados. Casillo até tentou retomar a vida como dirigente em outros clubes e voltou ao Foggia após a bancarrota dos satanelli, em 2012, ocupando a presidência por dois anos.

Atualmente, a agremiação rossonera se encontra na segunda divisão, mas voltou a se ver envolta em problemas: em dezembro, o ex-vice-presidente Massimo Curci e, no fim de janeiro, seu dono, Fedele Sannella, foram presos por fraude e lavagem de dinheiro. Os cartolas teriam consciência de que a quantia investigada era de origem ilícita e aceitavam limpar o capital da máfia através de pagamentos por fora do balanço, em espécie, a vários funcionários – entre eles, o técnico Roberto De Zerbi (hoje no Benevento), o atacante Pietro Iemmello (Benevento) e o zagueiro brasileiro Alan Empereur (Bari). Todos podem ser condenados na esfera cível por receptação e correm o risco de cumprir uma suspensão de três a seis meses se forem considerados culpados pela justiça desportiva.

Enquanto o Crotone ainda militava nas divisões inferiores e Casillo estava prestes a ser absolvido, porém, houve uma ambiciosa tentativa de infiltração mafiosa na crème de la crème do futebol italiano – caso considerado pelo promotor Cantone como um “forte sinal, que não deveria ser subestimado”. Em uma investigação coordenada pelo Ministério Público da República e pela administração distrital Antimáfia de Nápoles, iniciada em 2006, se descobriu que um grupo de empresários da Europa Oriental vinculado ao clã dos Casalesi tentou adquirir uma cota de ações da Lazio. O inquérito mostrou como a operação foi idealizada de forma a disfarçar a identidade dos compradores reais através do uso de laranjas e de um complexo esquema corporativo.

Um dos cabeças da negociata seria Giorgio Chinaglia, uma das grandes bandeiras celestes. Long John foi atacante da equipe que venceu o scudetto em 1974 e presidente do clube entre 1983 e 1986, numa gestão controversa: uma década depois, ele acabaria condenado a dois anos de prisão (transformados em multa) por fraude contábil e por responsabilidade direta na bancarrota da empresa que gerenciava a agremiação. Mesmo assim, o ex-artilheiro não deixou de trabalhar com gestão esportiva e, ao longo dos anos 2000, participou de negócios (concluídos ou frustrados) com Ferencváros (Hungria) e Lanciano, além de ter sido presidente de fato do Foggia e honorário do Marsala.

Bandeira e ex-presidente da Lazio, Chinaglia se envolveu em vários problemas com a justiça no final da vida (EPA/Maurizio Brambatti)

Chinaglia voltou à cena romana quando falou publicamente sobre o suposto interesse de uma companhia farmacêutica húngara em comprar a cota majoritária de ações da Lazio. Isto fez com que os títulos do clube na bolsa de valores oscilassem de forma anormal nos meses de fevereiro e março de 2006. De bate-pronto, a empresa do Leste Europeu negou veementemente o interesse em administrar um clube de futebol, a Comissão de Valores Mobiliários italiana acabou intervindo com medidas restritivas para impedir qualquer manobra indevida – mais ou menos o que não foi feito no Brasil após as delações premiadas de executivos do grupo JBS, que se beneficiou de tais oscilações no mercado financeiro.

Segundo a acusação, Chinaglia sabia que as verbas para a compra do clube procediam da Camorra e acobertava os chefões. Durante toda a investigação, foram expedidos mandados de prisão para o ex-cartola por organização criminosa com agravante de uso de métodos mafiosos, manipulação do mercado financeiro e tentativa de extorsão – o alvo da chantagem era Claudio Lotito, que já era o mandachuva da Lazio àquela época. Chinaglia, porém, residia nos Estados Unidos havia alguns anos. Considerado foragido da Justiça, sempre negou todas as acusações, mas nunca mais pisou na Itália e nem cumpriu pena: morreu em 2012, aos 65 anos, após sofrer um ataque cardíaco na Flórida.

Entre outras medidas, as autoridades fiscais italianas emitiram outros mandados de prisão, bloquearam parte dos milhões de euros que Camorra queria injetar no clube e também revelaram a participação de membros da Irriducibili, maior organizada da Lazio, nas ameaças feitas a Lotito e a sua família – isto, porém, é assunto para depois. O relatório conjunto da procuradoria e do órgão antimáfia também dava conta de que os Casalesi tinham um plano de investimento de grande escala no futebol: através do mesmo esquema, os criminosos desejavam adquirir cotas ou a integralidade de equipes como Benevento, Lanciano e Marsala. Chinaglia teve alguma ligação com as duas últimas mencionadas, vale lembrar.

Apesar do plano de tomar o controle acionário da Lazio, equipes do mesmo porte das citadas no parágrafo acima eram consideradas ideais pelos mafiosos. Afinal, em categorias menos badaladas, o risco para esse tipo de reinvestimento de capital sujo é definitivamente menor do que na Serie A. De acordo com a Comissão Parlamentar Antimáfia, as agremiações que ocupam estes níveis do futebol local têm maior possibilidade de sofrer “infiltração” de mafiosos por brechas no processo de inscrição de um clube nas categorias menores e na pequena possibilidade de fiscalização feita pelos órgãos competentes.

O processo de inscrição junto à Lega Nazionale Dilettanti, que organiza as competições da quarta até a última divisão, é muito mais simples do que nos campeonatos profissionais – embora haja sérias deficiências também nestas instâncias, como já falamos aqui. A documentação obrigatória pedida para os sócios é mínima, verdadeiramente incipiente, o que gera um efeito dominó para os mecanismos de controle posteriores.

“A natureza jurídica das empresas registradas as desobriga de certas formalidades contábeis, fiscais e orçamentárias. Isto abre caminho para a execução de operações nebulosas, a inserção de capital ilícito e o uso de dinheiro em espécie e outros instrumentos de pagamento não rastreáveis. Em suma, o mundo do futebol amador é deixado à mercê do crime organizado, pela ausência de controle eficaz sobre os planos esportivo, fiscal e penal, já que os clube não possuem documentação contábil e balanços financeiros confiáveis”, diz relatório publicado pela comissão em dezembro de 2017.

O mundo do futebol amador é deixado à mercê do crime organizado, pela ausência de controle eficaz sobre os planos esportivo, fiscal e penal.
Comissão Parlamentar Antimáfia

Em 2012, o procurador de Lecce, Cataldo Motta, até sugeriu à Federação Italiana de Futebol (FIGC) um protocolo de checagem e atribuição de uma certificação antimáfia aos sócios e funcionários dos clubes, mas esta estruturação teria como entraves os custos relativamente altos e a dificuldade de operação. Ademais, os mafiosos aperfeiçoam os seus métodos de ocultação de patrimônio a cada dia e o que não lhes faltam são laranjas.

Um dos casos mais nefastos que já ocorreram nas divisões inferiores deixa nítidos o aperfeiçoamento das práticas dos criminosos e a fragilidade do controle fiscal. Em 2017, o tradicional Mantova, que já contou com craques como Dino Zoff, Angelo Sormani e Karl-Heinz Schnellinger em suas fileiras, disputava a terceirona e estava à beira da falência quando, misteriosamente, foi adquirido por um grupo de acionistas. O que seria a salvação do clube acabou virando uma novela, nos moldes da que culminou na falência do Parma, em 2015.

Entre os beneméritos, supostos empresários sem fluxo de caixa e atividade econômica inexistente, homens de negócios suspeitos e perseguidos por dívidas, velhinhas aposentadas e até mesmo um professor de matemática que havia se tornado ator pornô e se frustrado com a nova profissão. Em suma: pessoas com ganhos incompatíveis para sanar as dívidas de um clube que nem mesmo pagava salários para os jogadores. O alarme foi disparado quando se descobriu que um dos investidores, proveniente da província de Caserta, mantinha negócios com familiares de Antonio Iovine, um dos principais chefes do clã dos Casalesi – que está atrás das grades.

Outra característica em comum entre os sócios do Mantova é que nenhum deles tinha uma cota acionária superior aos 10%, o que impedia a Lega Pro, organizadora da terceira divisão, de ir atrás da ficha corrida de cada um deles. Por regulamento, acionistas que possuem menos de 10% de um clube não são obrigados a provar a liquidez de seus investimentos ou atestar a sua idoneidade em relação a envolvimento com a máfia – cota que a AIC, a Associação Italiana de jogadores, deseja reduzir para 1% ou 2%.

“Através de uma divisão artificial nas ações da sociedade, sujeitos ligados a um clã da Camorra buscavam evitar a possibilidade de rastreio de suas relações com a organização criminosa”, relatava um documento da Comissão Parlamentar Antimáfia. O relatório ainda afirmava categoricamente que todos os acionistas eram laranjas do esquema. Luca Tassinari, o ator pornô citado, chegou a admitir que havia assinado o contrato por ser um mero fiador. A quem emprestou a sua confiança, porém, ele não disse.

É de se espantar que não haja a necessidade de documentação complementar nem mesmo quando os indícios de negociata são evidentes. No caso do Mantova, isso ficou ainda mais claro quando o senhor Marco Claudio De Sanctis assumiu como presidente: De Sanctis é um empresário romano processado inúmeras vezes por ilícitos fiscais, estelionato e outras trapaças. No comando do clube da cidade de Virgílio, o pilantra passou meses prometendo o paraíso e, no final das contas, emitiu um comunicado em que informava que os sócios não poderiam arcar com as dívidas do clube e não apresentariam recurso à decisão da liga, que excluiria o time da Serie C 2017-18 por dificuldades financeiras. O Mantova foi usado como mecanismo de lavagem de dinheiro e, após servir aos fins do crime, foi deixado à míngua: faliu e teve de recomeçar a sua caminhada a partir da Serie D.

Para demonstrar o quão comuns são essas operações nas divisões inferiores, o já citado procurador Motta, como chefe do Ministério Público regional da Apúlia, foi ainda mais longe. À época que conduziu investigações sobre futebol e crime organizado, em 2012, o promotor afirmou que sete dos 16 clubes que disputavam o grupo local da Eccellenza (quinta divisão, disputada em grupos em cada região) eram controlados por pessoas ligadas à Sacra Corona Unita – conhecida popularmente como “quarta máfia”, por ter surgido depois de Camorra, Cosa Nostra e ‘Ndrangheta.

A família Citarella, que comandava a Nocerina. Giovanni (de branco, ao centro) era o presidente (Forza Nocerina)

Durante o último ano, a situação não era tão diferente. Procuradores associados à Comissão Parlamentar Antimáfia apontaram que cinco clubes poderiam estar sendo usados como instrumentos do crime organizado: Polisportiva Laureanese, Fronti di Lamezia Terme, Isola Capo Rizzuto (os três são da Calábria), Città di Foligno (Úmbria) e Ilva Maddalena (Sardenha).

Na Campânia, por exemplo, a máfia ainda dominou equipes como Boys Caivanese, cujo estádio servia como esconderijo de armas para as guerras entre as famílias. Também podemos citar o Giugliano Calcio, comandado por Giuseppe Dell’Aquila, conhecido como Peppe ‘o Ciuccio (o popular Zé Chupeta, do clã Mallardo), que foi confiscado pelas autoridades; a Virtus Baia (clã Pariante) e a Albanova, apoiada muito de perto por Walter Schiavone. Ele é irmão de Francesco Schiavone, o Sandokan, camorrista do topo da cadeia alimentar do clã dos Casalesi – os dois caíram nas garras do magistrado Raffaele Cantone.

Ainda nas proximidades de Nápoles, outros casos de destaque envolvem a Nocerina e a Paganese. Sob o comando de Giovanni Citarella, entre 2009 a 2013, a equipe de Nocera Inferiore chegou a disputar a Serie B pela terceira vez em sua história, após mais de 30 anos de ausência. Citarella é um dos rei da fabricação de concreto no sul da Bota e filho de Gino, um expoente da Nuova Famiglia que foi assassinado em 1990. Ele foi condenado por participação em uma tentativa de homicídio e suspeito em vários casos por associação com a Camorra, mas só foi preso em 2014, por fraude e falsidade ideológica. 42% das ações do clube foram sequestradas e a Nocerina, já falida, passou para as mãos de torcedores, que iniciaram uma campanha para associação em massa. Hoje, o clube disputa a Serie D.

A prisão também foi o destino de Alberico Gambino, ex-prefeito de Pagani, ligado à Paganese. Gambino foi para o xadrez por, juntamente a membros dos clãs Petrosino e D’Auria, extorquir empresários e obrigá-los a patrocinar o clube azzurrostellato, considerado pela polícia como uma “verdadeira obsessão” para o alcaide. Com investimento robusto, a equipe chegou à Serie C, onde atualmente está. Paradoxalmente, a equipe manda seus jogos no estádio intitulado em homenagem a Marcello Torre, ex-prefeito e presidente do clube, assassinado por capangas de Raffaele Cutolo, fundador da Nuova Camorra Organizzata, em dezembro de 1980.

Cutolo, aliás, foi um personagem bastante comentado naquela década – e não só pela matança que comandava nas guerras entre máfias e o poder judiciário. No plano do esporte, o boss foi o pivô de um acontecimento que teve o brasileiro Juary, ex-Santos, como um protagonista de paraquedas.

Dois meses antes de ordenar o assassinato de Torre, Cutolo recebeu a visita de Antonio Sibilia, então presidente do Avellino, em uma das muitas audiências judiciais do processo que o colocou atrás das grades. Durante um intervalo, ele se dirigiu ao mafioso levando a tiracolo o Menino da Vila, principal contratação do clube biancoverde para a temporada. Sibilia cumprimentou o mafioso com três beijos na bochecha e lhe entregou, através de Juary, uma medalha de ouro com uma dedicatória: “Para Raffaele Cutolo, com estima, de Avellino Calcio”.

Antonio Sibilia, presidente do Avellino, tinha forte amizade com um chefe da Nuova Camorra Organizzata (Avellino Calcio)

Várias décadas depois, as homenagens a mafiosos continuaram no futebol da Itália. Em 1997, o Locri lamentou a morte de Cosimo Cordì, chefão da ‘Ndrangheta. Em 2004, o árbitro Paolo Zimmaro foi suspenso após ser instado a prestar um minuto de silêncio em homenagem a Carmine Arena, outro chefe da organização morto com tiros de AK-47, após a blindagem de seu carro ser detonada por uma bazuca. Cinco anos depois, foi a vez de Gioacchino Sferrazza, então presidente do Akragas (time que milita na Serie C e que disputava a sexta divisão na época), dedicar uma vitória a Nicola Ribisi, capo da Cosa Nostra em Agrigento. A pressão foi tanta que Sferrazza se viu obrigado a entregar o cargo.

A lista continua. Em 2012, a minúscula Folgore convidou Marsala (Serie D) para realizar um torneio amistoso em deferência a Paolo Forte, padrinho de crisma de Matteo Messina Denaro, maior chefe da Cosa Nostra – Forte havia, inclusive, emprestado seus documentos para que o boss foragido pudesse circular pela Itália e ordenar atentados durante a década de 1990. Em 2017, o Catania também prestou um minuto de silêncio para recordar a memória de Ciccio Famoso, ultra ligado ao crime organizado. Nenhum destes casos, porém, teve o desfecho dramático causado pelo “inocente” presentinho dado por Sibilia a Cutolo.

Sibilia e Cutolo não contavam que Luigi Necco, célebre repórter da Rai no sul da Itália entre os anos 1970 e 1990, observava a entrega da medalha com olhos bastante atentos. Na TV, o jornalista relatou tudo o que viu e surpreendeu os telespectadores. Com a repercussão, Sibilia disse que o mafioso recebeu a medalha por ser um “super torcedor do Avellino” e que a entrega foi uma “decisão tomada pelo conselho de administração do clube”. Cutolo, por sua vez, negou que pudesse ordenar qualquer revanche contra Necco. “Em jornalistas não se toca. E Necco é até um tipo simpático”, declarou o chefão.

A recomendação de Cutolo, porém, não foi seguida por Enzo Casillo, ‘O Nirone (“o Negão”). O general da Nuova Camorra Organizzata, responsável por todas as ações armadas do bando, quis ganhar mais prestígio na associação e preparou uma emboscada para Necco, em meados de 1981. O jornalista deixava um restaurante em Mercogliano, feudo do presidente Sibilia, quando sicários de Casillo lhe deram três tiros nas pernas. Ainda picharam seu carro com uma frase enigmática: “você não queria criticar?”. Segundo o jornalista Roberto Saviano, em entrevista ao Corriere della Sera, o episódio sacudiu a organização criminosa mais sangrenta e poderosa da Campânia naqueles anos. “Foi o suficiente para fazê-la reagir. Naquele momento, os mafiosos tinham mais medo da coragem de um repórter esportivo do que de dezenas de processos judiciais em curso”, diz.

Anos depois do caso, Sibilia chegou a ser detido por acusação de associação mafiosa, mas foi absolvido. Resta lembrar que, a sua relação com a criminalidade em Avellino era intimíssima: certa vez, Juary teve o toca-fitas de seu carro roubado e o presidente lhe disse que resolveria tudo com um telefonema, mas precisava de uma informação: tinha que saber em que lado da rua o brasileiro havia estacionado. O motivo? Um clã comandava a banda direita da rua e outra família dominava a oposta.

Retaliações como a de que foi alvo Luigi Necco, falecido em março de 2018, eram comuns nos anos de chumbo, mas ainda perduram na Itália, porque a omertà é um dos pilares da máfia. No futebol, uma das vítimas desta prática foi Pino Morinello, ex-presidente do Gela: o dirigente da agremiação siciliana teve sua Fiat 600 alvejada por disparos de armas de fogo por ter uma postura antimáfia. Após o incidente, Morinello não só manteve o discurso duro contra a criminalidade como fez a equipe entrar em campo com uma camisa em que se lia “eu não pago o pizzo” – a taxa cobrada pelos delinquentes.

Mais acima da Sicília, na Campânia, a Nuova Quarto sofreu com a reviravolta em sua administração e em seu destino como clube. Até 2011, a agremiação era comandada pelo boss Giuseppe Polverino expoente da Camorra no tráfico de haxixe – embora seu nome signifique “Zé Pozinho” – e entusiasta da eliminação de rivais através da dissolução de seus corpos em barris de ácido. Polverino ficou foragido de 2006 a 2012, quando foi capturado na Espanha, e um ano antes de ser preso, teve seus bens confiscados pela justiça: grande parte dos negócios da cidade de Quarto estavam nas mãos da máfia, inclusive o clube de futebol local. A Nuova Quarto foi assumida por uma nova administração e foi encampada como símbolo do combate ao crime.

A história até teria um final feliz se os apoiadores do criminoso não interpretassem como traição o fato de a equipe ter dado prosseguimento à sua trajetória futebolística. Ameaças e atos contínuos de vandalismo (roubo de materiais esportivos, incêndio de redes e quebra-quebra nas arquibancadas, por exemplo) começaram a fazer parte da realidade da Nuova Quarto, que teve até mesmo os troféus conquistados no pós-Polverino roubado pelos camorristas.

A atmosfera ameaçadora se verificava também no processo de falência do pequeno Rosarno, da Calábria. O clube, fundado nos anos 1950, deixou de existir em 2010 porque nenhum empresário local teve coragem de confrontar a ‘ndrina Pesce: a família afiliada à ‘Ndrangheta esteve à frente dos amaranto por quase 15 anos. Em entrevista ao Corriere della Sera, o procurador Antonello Ardituro, que participou do processo de “libertação” da Nuova Quarto, foi enfático ao comentar os efeitos dos trabalhos antimáfia no futebol: “certos ambientes reagem mal a qualquer mensagem que sublinhe a força da legalidade”. Estas mensagens, no entanto, ainda estão longe de atingirem a totalidade do esporte italiano.

As vértebras: os agentes duplos ligados aos clubes

Filho de camorrista foi flagrado diversas vezes à beira do campo em partidas do Napoli (Ansa)

Nem sempre a infiltração criminosa ocorre diretamente no topo da administração de um clube. Há casos em que os cabeças (presidentes e principais diretores) não estão envolvidos diretamente com a máfia, mas sim simples funcionários das agremiações ou de empresas terceirizadas que prestam serviços no meio esportivo. Em geral, a corrupção nestes níveis se apresenta muito mais como amostra de poder dos mafiosos, mas também pode ter consequências nefastas, como um vetor de graves delitos. De qualquer forma, são um forte viés de sustentação do crime organizado no futebol.

Em 2011, um caso agitou os bastidores do Napoli: Antonio Lo Russo, filho do chefe camorrista Salvatore Lo Russo, foi flagrado em posição privilegiada, à beira do campo, em pelo menos três jogos da equipe na Serie A. O presidente Aurelio De Laurentiis logo abafou o caso ao declarar desconhecimento do clube e afirmar que o rapaz havia sido credenciado pela empresa que cuidava do gramado do San Paolo.

Como Antonio não estava em dívidas com a lei naquele momento, a história não ganhou maiores proporções. Também ajudou o fato de seu pai ter se tornado colaborador da justiça e ter passado informações que contribuíram para desmantelar o clã, histórico adversário dos comparsas do boss Raffaele Cutolo e protagonista de uma violenta guerra em Scampia, nos anos 2000.

No Palermo, observar não era reflexo da paixão futebolística. Em 2007, se descobriu que a Cosa Nostra colocou um preposto dentro do clube para se informar sobre todas as movimentações que a diretoria rosanero fazia, pois enxergava a agremiação como um filão de novos negócios – o mesmo acontecia, segundo delatores, em outras equipes sicilianas.

Totò Milano era subordinado ao chefe da coleta de pizzo do capo Salvatore Lo Piccolo e, segundo investigação da polícia, era assíduo frequentador da sede e do centro de treinamentos do Palermo desde as gestões dos presidentes Giovanni Ferrara e Liborio Polizzi, nos anos 1990 – período em que o time disputava, majoritariamente, a Serie C1. Milano acompanhava treinamentos e chegava a viajar no mesmo avião que os jogadores para acompanhar partidas fora de casa.

As informações reunidas pelos investigadores, obtidas através de depoimentos, davam conta de que o objetivo do mafioso era fazer com que empresas ligadas à Cosa Nostra pudessem ser subcontratadas como prestadoras de serviço para o Palermo. Lo Piccolo mirava obras de requalificação do CT rosanero, em Boccadifalco, e também queria colocar as mãos sobre a construção de um grande empreendimento numa área de propriedade de Maurizio Zamparini, dono do clube.

Naquele momento ainda havia dúvida se o local seria utilizado para a implantação de um novo estádio para a agremiação ou como um hipermercado. Para a máfia, ambas as oportunidades seriam lucrativas, já que desde a década de 1950, numa série de eventos conhecida como “Saque de Palermo”, setores da Cosa Nostra atuam fortemente na especulação imobiliária e dominam a construção civil na ilha, seja estabelecendo cartéis ou superfaturando obras e materiais. Para completar o quadro, em 2011, foi descoberto que Giovanni Li Causi, gestor do bar do estádio Renzo Barbera, também estava envolvido no esquema e tinha o dever de garantir que firmas parceiras dos criminosos tivessem seu lugar garantido em stands num centro comercial de posse de Zamparini.

Foschi, ex-diretor do Palermo, chegou a ser ameaçado com uma cabeça de cabrito (Ansa)

Os diretores da época negaram que soubessem que Milano fazia parte da máfia, embora muitos deles fossem nascidos e criados em Palermo e o sobrenome do preposto fosse um dos mais famosos no mundo do crime. Zamparini declarou várias vezes que nunca foi pressionado e chegou até a declarar que a máfia parecia uma “invenção para dar um salário a policiais e procuradores”. O fato é que Rino Foschi, que comandava a parte esportiva do clube, era um dos mais assediados por Milano e foi ele que autorizou o trânsito do mafioso por locais reservados a funcionários.

O dirigente se defendeu, dizendo que acreditava que o gângster era um simples torcedor, mas foi desmentido pelos acontecimentos, já que se descobriu que ele foi ameaçado pela Cosa Nostra em mais de uma ocasião. Na mais simbólica delas, o executivo recebeu uma cabeça de cabrito como presente de Natal: era o sinal de que a máfia não queria ficar de fora dos negócios arquitetados pelo Palermo. No inquérito que investigava o caso, Foschi e os jogadores Franco Brienza, Salvatore Aronica e Vincenzo Montalbano também foram acusados de terem agido a mando da máfia para manipular uma partida entre Palermo e Ascoli, em 2002-03, mas a prescrição do suposto delito encerrou prematuramente a fase de coleta de provas.

A órbita da Cosa Nostra em torno do Palermo não se encerrou ali. Em 2010, uma denúncia confirmada pela polícia dava conta de que Messina Denaro, um dos chefes históricos da organização criminosa, chegou a assistir a uma partida da equipe contra a Sampdoria em pleno Renzo Barbera. Paixão pelo futebol? Não, Messina Denaro não tem o mesmo perfil de seu aliado Andrea Manciaracina, que teve o esconderijo descoberto quando foi interceptado um telefonema em que pedia uma televisão para assistir as semifinais da Copa de 1990. A ida ao estádio fazia parte de um encontro de negócios com mafiosos da cidade – o local foi alterado de última hora.

Foragido desde 1993, Messina Denaro é um dos criminosos mais procurados do mundo e o último dos grandes chefões a continuar em fuga. Ainda assim, teria conseguido entrar em um estádio repleto de aparatos de vigilância. Sabemos que os pré-requisitos de segurança nas praças esportivas italianas são mínimos, mas é difícil imaginar que não tenha havido complacência por parte de funcionários encarregados do controle de entrada em La Favorita naquele dia. Afinal, Messina Denaro é famoso na Sicília e reconhecido por não costumar utilizar disfarces ou guarda-costas.

Eventualmente, a máfia e o crime organizado prestam serviços aos clubes. No ano passado, por exemplo, emergiu uma história relacionada ao Latina (Lácio), clube que quase chegou à primeira divisão, em 2014, mas que faliu e atualmente se encontra na Serie D. A diretoria trocava a proteção de um chefe local por privilégios como a decisão de quem poderia acessar as arquibancadas e trânsito livre do criminoso entre atletas e funcionários. Seis anos antes, a Sanremese (Ligúria) teve seu presidente e seu administrador geral – Marco e Riccardo Del Gratta, pai e filho – presos por terem remunerado elementos da criminalidade organizada para que ameaçassem três jogadores do próprio elenco, com o intuito de que eles desistissem de renovar seus contratos e deixassem o clube.

Os gigantes do norte também já sofreram com infiltrações mafiosas, sobretudo em atos ligados a torcidas organizadas e à contratação de serviços terceirizados – exatamente as duas formas em que a máfia costuma agir mais fortemente no futebol da parte setentrional do país. No ano passado, a procuradoria de Catanzaro abriu uma investigação sobre a participação de membros da ‘Ndrangheta (muito ativa na Lombardia e no Piemonte) no serviço de catering do estádio San Siro durante partidas do Milan. Segundo os promotores, o clube ou seus funcionários não teriam quaisquer responsabilidades sobre isto.

Veredito diferente ao dado pela justiça desportiva também em 2017 para o presidente da Juventus, Andrea Agnelli – nenhuma medida contra o clube foi tomada pela justiça comum, no entanto. O juventino foi suspenso de diversas atividades pelo período de um ano, por ter dado aval à distribuição de ingressos a ultras do clube. Os organizados eram cambistas e tinham um líder ligado a clãs da máfia calabresa e da Cosa Nostra.

Agnelli foi suspenso por dar aval à distribuição de ingressos à organizada; um dos envolvidos era ligado à máfia (AFP)

Em resumo, a Juventus “comprava” o silêncio dos ultras ao distribuir ingressos para as maiores organizadas. Ao agradar as torcidas, o clube tinha como objetivo evitar protestos, brigas e qualquer forma de violência por parte dos radicais para não correr o risco de sofrer sanções disciplinares, como multas e perda de pontos. Parte do ótimo ambiente no Allianz Stadium seria, então, um simulacro.

Em troca do bom comportamento dos ultras, a Juventus fechava os olhos para as ilegalidades cometidas pelos organizados fora das dependências do estádio, mesmo que algumas delas fossem feitas com ingressos cedidos pelo clube. Um bom negócio para os dois lados, afinal. Para Raffaele Cantone, casos assim são comuns em toda a Bota e são emblemáticos. “Estas relações entre clubes e grupos criminosos acaba garantindo benefícios às torcidas e as agremiações aceitam a chantagem”, diz.

Segundo a investigação, algumas torcidas chegavam a lucrar 1 milhão de euros por temporada com cambismo. Um valor praticamente irrisório para os chefões da máfia, mas muito atraente para associados recentes ou para criminosos que atuam de maneira adjacente aos principais grupos mafiosos. É o que explica o jornalista Leandro Demori. “Essa questão do cambismo me parece algo menor. Talvez seja algo como o contrabando de cigarros no passado: quando as máfias começaram a traficar heroína, o negócio de cigarros ficou em segundo plano e começou a ser feito por associados novos. Para uma pessoa comum, vender ingressos superfaturados pode parecer um grande negócio, mas para uma máfia estabelecida o câmbio não é muito relevante. Porém, se estabelece uma lógica da capilaridade territorial, que é muito importante para as organizações”, diz.

Era exatamente o que acontecia no caso da Juventus e o que fez despertar o interesse da divisão antimáfia que investigava as atividades da ‘Ndrangheta no Piemonte. Raffaello Bucci e Dino Mocciola, membros da Drughi, maior organizada da Juve na atualidade, tinham relações próximas com Stefano Merulla (chefe do setor de ingressos) e Alessandro D’Angelo (chefe de segurança e amigo de infância de Agnelli). A torcida passou, porém, a ter a presença constante de Rocco Dominello, próximo a uma ‘ndrina de Rosarno. Rocco seria exatamente a figura responsável por garantir o bom comportamento da torcida e teria relação direta com D’Angelo. Bucci, por sua vez, foi tido como informante da polícia e seu corpo foi encontrado boiando num rio nos arredores de Turim.

Para a investigação, Agnelli e os diretores da Juventus sabiam com quem estavam lidando e não tentaram coibir os atos dos torcedores. O relatório afirma categoricamente que os citados mantinham “relações duradouras com os ultras” e que “participaram pessoalmente de algumas reuniões com membros do crime organizado”. Como não incentivaram ou financiaram atos ilícitos, escaparam da justiça comum, mas feriram artigos do código desportivo – lembramos que cambismo não é crime na Itália, embora a divisão antimáfia proponha que deveria ser tipificado. Atualmente, Agnelli está suspenso (a pena é de 1 ano) e impedido de representar a Juventus junto à FIGC, participar de reuniões e ir a vestiários em dias de jogos, por exemplo. O clube também teve de pagar uma multa de 300 mil euros.

Dominello e alguns ultras, porém, foram indiciados pela justiça comum. Rocco e seu pai, Saverio, foram presos, juntamente a outras 13 pessoas, em uma operação deflagrada em julho de 2016, alguns dias depois da captura de Ernesto Fazzalari. Um dos chefes mais procurados da ‘Ndrangheta, Fazzalari era ligado aos grupos de Rosarno que faziam negócios com os Dominello e estava foragido havia 20 anos. Foi condenado à prisão perpétua por sequestro, posse de armas, associação mafiosa e duplo homicídio. Rocco teve uma pena mais leve: sete anos e nove meses por associação mafiosa.

Como se vê, a máfia não consegue operar dentro dos clubes sem a complacência de funcionários. E, principalmente, sem a mãozinha das organizadas.

Nota: para quem quiser se aprofundar no acontecido da Juventus, Murillo Moret, nosso colaborador e blogueiro do ESPN FC, explica o caso em detalhes na Gazzebra.

O braço: as torcidas que servem ao crime organizado

Problema antigo: em 1976, polícia tenta coibir ultras do Ascoli contra a Roma. De lá para cá, organizadas assumiram caráter criminal (AS Roma Ultras)

Se a Sacra Corona Unita é chamada popularmente de quarta máfia, já há quem defenda a aplicação do termo “quinta máfia” como referência aos ultras do futebol da Itália. Na Velha Bota, as organizadas começaram a se popularizar no final da década de 1960, uma época atribulada na sociedade italiana. Era um período de dificuldades econômicas, que antecedeu os chamados anos de chumbo. Naqueles tempos, a luta armada e o terrorismo de extrema-direita e extrema-esquerda ceifavam vidas e deixavam apreensivo um povo que já havia sofrido com a II Guerra Mundial e sentia os efeitos dos conflitos entre clãs da máfia.

Neste contexto, as torcidas organizadas não demoraram a protagonizar atos de violência. As brigas levaram às primeiras mortes no fim dos anos 1970: uma delas, a de um torcedor da Lazio no clássico romano, teve de ser “administrada” pelo capitão Giuseppe Wilson. Pino precisou acalmar a torcida, pois a FIGC não suspendeu a realização do jogo mesmo após o ato de violência. A partida aconteceu sob um silêncio surrealista e os gols do empate por 1 a 1 não foram comemorados pelos torcedores.

Desde então, os casos mais conhecidos entre os muitos em que ultras morreram ou mataram foram os de Gabriele Sandri e Filippo Raciti (2007) e o de Ciro Esposito (2014). Neste capítulo, porém, o assunto principal não é confrontos entre torcidas: falaremos sobre como as uniformizadas se tornaram verdadeiros instrumentos do crime organizado, já que boa parte de seus elementos utilizam de sua posição para cometer crimes que transcendem a esfera esportiva. Ainda que a violência contra grupos rivais sirva como forma de ganhar prestígio entre seus pares.

Segundo levantamento feito por divisões policiais especializadas, algumas organizadas chegam a ter 30% de seus quadros formados por pessoas com antecedentes criminais – na prática, um em cada três torcedores. Para a Comissão Parlamentar Antimáfia, os atos de intimidação exercidos pelos ultras em seus territórios “reproduzem muitas vezes o método mafioso”.

Os graves registros criminais e as investigações da procuradoria já poderiam falar por si só, mas esta parcela das torcidas é formada por sujeitos com histórico de violência contra adversários ou a polícia fora do estádio ou nas arquibancadas, além de trajetórias caracterizadas por constante comportamento agressivo e antissocial. Não são pessoas que cometem erros, pagam por eles e depois tocam a vida de forma limpa: seus atos ilícitos perduram.

Casos como o de Adamo Dionisi são raríssimos. Ex-ultra da Lazio, ele foi proibido de ir aos estádios e também foi preso por envolvimento com tráfico de drogas, em 2001. Na cadeia passou a se dedicar ao teatro e, em 2008, quando sua pena foi concluída, decidiu virar ator. Após alguns papeis como coadjuvante, roubou a cena em Suburra (2015), filme dirigido por Stefano Sollima: no filme ele interpreta Manfredi Anacleti, boss da máfia cigana, um dos personagens mais interessantes da história. Não à toa, Anacleti é também um dos protagonistas da primeira temporada da série, lançada no final de 2017 como uma prequência do longa-metragem.

Tal qual Dionisi, praticamente todos os líderes de grandes torcidas da Itália ou personagens influentes em cada curva já tiveram o acesso vetado às praças esportivas: a medida é conhecida no Belpaese como Daspo. Neste quesito ninguém supera Claudio Galimberti, o Bocia, histórico chefe da tifoseria da Atalanta.

Bocia já recebeu mais de 20 advertências e foi processado judicialmente por ter comandado um ataque com coquetéis molotov ao carro de Roberto Meroni, ex-ministro do Interior que introduziu regras de identificação mais rígidas para que os torcedores pudessem ter acesso a partidas dos campeonatos locais. Uma pessoa próxima a Bocia e outros ultras é Francesco Buonanno, filho do chefe da promotoria de Brescia: ele fornecia cocaína para os ultras, que consumiam e revendiam a droga. No seu apartamento, localizado no mesmo edifício em que seu pai reside, foram encontrados alguns quilos de pó.

Também no norte da Itália, os líderes das torcidas de Inter, Juventus e Milan deixam de lado a rivalidade para serem parceiros de negócios. Afinal, as organizadas são um business como qualquer outro e há até quem mude de torcida (e de time) para poder ter vantagens financeiras – são os “torcedores profissionais”. Nas figuras dos ultras Franchino Caravita (Boys San, Inter), Giancarlo “Sandokan” Lombardi (Guerrieri Ultras, Milan) e Loris Giuliano Grancini (Vikings, Juve) estavam concentrados o cartel de transporte dos torcedores para jogos fora de casa e a distribuição de cocaína em áreas de Milão – embora expoente da Vikings bianconera, Grancini mora na sede da Lombardia e não em Turim, a 140 km dali.

Sandokan tem uma história interessante. Apesar de nunca ter sido assíduo frequentador de San Siro e costumar ser mais visto dentro de sua Ferrari do que em qualquer outro lugar, ele se tornou o capo da Guerrieri Ultras e o mais temido ultra milanista. Para ganhar a posição central do segundo anel do estádio e conseguir o controle do tráfico de drogas e dos outros negócios ilícitos ligados às torcidas, se utilizou de muita violência para vencer a guerra com outras organizadas: ordenou e comandou emboscadas, tiroteios, espancamentos, ameaças e chantagens. Nada de novo para quem já havia sido indiciado por assalto, agressão e tentativa de assassinato.

O juventino Grancini (à direita) apostou suas fichas em cambismo e relação com mafiosos (Poker Stars)

Grancini, por sua vez, merece um capítulo à parte. No final de 2017, o influente personagem de uma das maiores torcidas da Juventus foi condenado a 13 anos de cadeia por ter sido mandante de um assassinato no bar Los Hermanos, em Milão. O ultra, que é campeão de pôquer e já cumpria suspensão de oito anos sem poder ir a estádios na Itália, seria associado à Cosa Nostra e também seria muito próximo a um clã da ‘Ndrangheta. O nome de Grancini foi citado também no inquérito sobre a já explicada infiltração mafiosa na torcida juventina, pois ele seria um dos responsáveis por fazer a ligação entre os cambistas e o bando de criminosos da Calábria.

A polícia italiana também cita Grancini na investigação sobre o suicídio de Raffaello Bucci, o juventino que foi encontrado boiando num rio próximo a Turim. Há clamor para a reabertura do caso da morte do torcedor: um médico legista contratado pela família do falecido questionou a autópsia oficial e levantou dúvidas sobre a causa do seu falecimento. Além de indícios de fraturas que não poderiam ter sido causadas por um suicida, soma-se o fato de que muitos ultras desejavam vê-lo comendo grama pela raiz.

Para Franco Gabrielli, diretor-geral da polícia de estado da Itália, a infiltração mafiosa nas torcidas não serve apenas para expandir os negócios ligados ao tráfico de drogas ou lavar dinheiro. “O crime organizado do tipo mafioso vê o futebol [as torcidas] como uma oportunidade de se misturar de forma pervasiva no tecido social”. Há situações de ligação tão íntima entre ultras e mafiosos que seria como se os federais brasileiros descobrissem que a Gaviões da Fiel teria relação umbilical com o PCC ou que a Raça Rubro-Negra fosse um braço do Comando Vermelho – estas torcidas foram citadas por motivos meramente ilustrativos.

As organizadas funcionam como uma “reserva de mercado” para a máfia, segundo o magistrado Cantone. Quando falta pessoal ou em momentos em que os criminosos de alto escalão se interessam por expandir seus tentáculos (seguindo a já explicada lógica da capilaridade territorial), é comum que eles contratem ultras como uma mão de obra barata e disposta a sujar as mãos. Embora isto seja visível nas torcidas do norte do país, chegando ao sul tudo fica muito mais escancarado – em 2009, por exemplo, um clã camorrístico napolitano pagou para que torcedores promovessem um quebra-quebra e organizassem protestos contra a reabertura do lixão de Pianura.

No centro do Belpaese esta relação mais íntima já se vê. Em Roma, por exemplo, onde o maior expoente do crime era um “pirata”. Caolho desde que uma fuga da polícia acabou mal, com um tiro que lhe fez perder o olho esquerdo, o chefão da máfia da capital, Massimo Carminati, tinha em seu bolso políticos, empresários, policiais e agentes públicos. No futebol, a Mafia Capitale mantinha boas relações com os ultras das duas grandes equipes da cidade, principalmente com as torcidas orientadas à extrema-direita – não se engane, não é apenas a Lazio que tem torcedores apaixonados pelo fascismo. O alinhamento ideológico se dava pelo fato de que Carminati havia sido um dos fundadores dos Núcleos Armados Revolucionários (NAR), grupo terrorista de inspiração neofascista ativo entre o fim da década de 1970 e início da de 1980, nos anos de chumbo da república italiana.

Carminati, que fez parte da organização criminosa Banda della Magliana, está preso desde dezembro de 2014. Il Nero foi companheiro de armas de Mario Corsi, membro da NAR quando jovem e ex-líder ultra dos Boys da Roma. Marione foi indiciado ao lado de Carminati por dois assassinatos em 1978, mas acabou absolvido por falta de provas. No entanto, era reconhecido por roubar escolas e cinemas e por ameaçar funcionários do Olímpico para ter acesso gratuito ao estádio. Também eram comuns as entradas forçadas em estúdios de rádios para fazer com que os radialistas lessem seus comunicados à torcida romanista.

Hoje isso não é mais necessário. Corsi tem seu próprio programa numa FM local e tem uma audiência de ultras. Grampos feitos à época da prisão de Carminati mostram que o comunicador utilizava seu espaço na mídia para favorecer negócios da Mafia Capitale, seja pressionando o poder público a aprovar matérias de interesse do crime organizado ou usando de influência para obter para a máfia postos e contratos de trabalho junto a parlamentares recém-eleitos. Além de Corsi, outro ultra romanista problemático é Nicola Follo, líder da torcida Padroni di Casa: ele é integrante do partido clandestino CasaPound, de extrema-direita.

Influente, Diabolik chegou a levantar a taça da Coppa Italia da Lazio pouco antes de ser preso, em 2013 (Dagospia)

Do lado da Lazio as coisas não funcionam de forma diferente. Fabrizio Piscitelli, o Diabolik, líder dos Irriducibili, se envolveu em problemas com a lei ao longo de 25 anos. Em 2016, teve 2 milhões em bens sequestrados pela justiça quando foi preso por comandar um esquema de tráfico de entorpecentes da Espanha para a Itália. A droga seria distribuída na zona sul de Roma com a bênção de Michele Senese, boss napolitano que controla esta região da cidade. Diabolik, que operava junto a criminosos albaneses (falaremos mais deles daqui a pouco), era um dos elos entre Senese e Carminati, mafiosos que chegavam a se encontrar publicamente, como se não fossem procurados pela polícia.

Membro dos Irriducibili desde a sua fundação, em 1987, Diabolik rapidamente entrou em evidência e manteve sua relevância ao longo dos anos, principalmente através do monopólio de venda de produtos da organizada, cujo símbolo ele patenteou. Piscitelli, entretanto, sempre teve más relações com Claudio Lotito, presidente da Lazio.

Os entreveros tiveram origem na tentativa da escalada mafiosa no clube em 2006, da qual falamos no primeiro capítulo: afinal, a serviço dos criminosos, Diabolik foi um dos responsáveis por tentar extorquir e chantagear o cartola, juntamente com os torcedores Fabrizio Toffolo, Yuri Alviti e Paolo Arcivieri. Manobrada pelos líderes, a torcida levava ao Olímpico faixas com palavras de ordem contra o presidente e pressionava pela cessão ao grupo representado pelo ídolo Chinaglia.

Mesmo mantendo péssimas relações com Lotito, Piscitelli era próximo a alguns jogadores do elenco e invadiu o gramado com outros torcedores para levantar a taça da Coppa Italia, em 2013. Meses depois, procurado por tráfico de drogas, ficou foragido até a polícia prendê-lo ao apito final da partida dos romanos contra o Apollon, pela Liga Europa – os oficiais seguiram um comparsa de Diabolik até um apartamento que acreditavam estar sendo usado pelo capo ultra, onde os dois assistiram ao jogo juntos. Dois anos depois, ele foi condenado pela extorsão a Lotito e somente no ano seguinte (2016) é que foi preso em definitivo por tráfico.

E o que acontece quando ultras do Napoli viajam até Roma? Tiro, porrada e bomba – literalmente. Em 2014, o Olímpico recebeu a final da Coppa Italia entre Napoli e Fiorentina, numa partida que ficou marcada pelo fato de o líder da organizada azzurra ter autorizado o pontapé inicial somente após conversar com Marek Hamsík e se certificar de que torcedores napolitanos feridos antes do jogo não haviam morrido.

Horas antes do início da partida, ultras da Roma fizeram emboscadas para torcedores da Fiorentina e, principalmente, do Napoli – seus rivais há mais de 20 anos. Nas proximidades do estádio, os romanistas atacaram um ônibus de organizados napolitanos e, no meio da confusão, um deles sacou uma pistola, atingindo alguns adversários com os disparos. Ciro Esposito sofreu os ferimentos mais graves e seu estado de saúde foi o motivo da fúria da torcida azzurra. Esposito morreria 50 dias depois num hospital romano, após numerosas cirurgias e tentativas de reverter seu quadro clínico.

No dia seguinte às tocaias, a polícia romana anunciou a prisão de Daniele De Santis por tentativa de homicídio. Conhecido pelo apelido Gastone, o ultra foi encontrado inconsciente, após ser linchado a alguns metros da cena do crime, o que sugeria a sua participação no confronto. O romanista, capo da Boys e da Frangia Ostile, era uma referência no mundo das organizadas na capital e seu envolvimento com atos ilícitos vinha de longa data. Estes delitos eram gestados no bar gerido pelo próprio Gastone, um reduto de fascistas (de fé romanista ou laziale) de toda a Cidade Eterna.

Em 1994, De Santis foi preso por ter participado de um confronto com a polícia de Brescia que acabou com um dos chefes da força local esfaqueado. Dois anos depois, voltou ao cárcere (juntamente a expoentes da tifoseria romanista e da extrema-direita) por chantagens a Giuseppe Ciarrapico e Franco Sensi: ele exigia ingressos gratuitos para os ultras em partidas dentro e fora de Roma. Para obter as vantagens, ele ameaçava os dirigentes com a possibilidade de elevar o tom de protestos, organizar greve das torcidas ou promover quebra-quebras às instalações do clube e do estádio.

Dez anos depois de seu primeiro registro criminal, já em 2004, Gastone apareceu ao vivo para todo o país ao invadir o gramado do Olímpico com outros ultras. Eles exigiam que Francesco Totti intercedesse para interromper o dérbi contra a Lazio porque (supostamente) um garoto havia sido vítima fatal de atropelamento por uma viatura da polícia nos arredores do estádio. “Lembre-se, eu falei com a mãe do garotinho”, disse Gastone ao capitão.

Era boato, mas a partida acabou suspensa – o que mostrou o poder dos ultras. Nenhum torcedor foi penalizado porque suas transgressões já haviam prescrito quando os recursos finalmente seriam esgotados, em 2008. Pelo assassinato de Esposito, ao menos, De Santis foi condenado: a primeira instância lhe impôs uma sentença de 26 anos de cárcere, reduzida depois para 16.

O líder ultra do Napoli que negociou com Hamsík o início da final da Coppa Italia também estava longe de ser santo – e já tinha um grande histórico de violência. Genny ‘a Carogna (o “Carniça”) é o nome de guerra de Gennaro De Tommaso, chefe dos Mastiffs, um dos grupos de radicais mais famosos do Napoli. Sua família é ligada aos clãs Misso e Giugliano, da Camorra: ele é filho de Ciccione Carniça e sobrinho de Giuseppe De Tommaso, “O Assassino”.

O chefe da organizada utilizava uma camisa com as seguintes frases: “Liberdade para Speziale” e Liberdade para os ultras”. Em 2007, Antonino Speziale assassinou o policial Filippo Raciti, antes de um dérbi siciliano entre Palermo e Catania. Neste caso específico, aliás, o capitão catanês, Marco Biagianti, chegou a ser extorquido por ultras rossoblù. Eles queriam 5 mil euros para pagar despesas processuais dos torcedores que haviam sido acusados de participação no quebra-quebra que levou ao assassinato do oficial da lei. No tribunal, por medo de represálias, Biagianti referendou a versão dos ultras, negada pela promotoria: segundo eles, o dinheiro teria sido dado de bom grado para apoiar a confecção de materiais da torcida.

“Carniça” já havia sido sancionado pela Daspo e proibido de ir a estádios mais de uma vez no passado. Mesmo assim, em 2012, Genny ‘a Carogna comemorou de forma bastante íntima o título da Coppa Italia do Napoli: esta reprodução da Rai mostra o ultra no meio do campo, abraçado à taça, como se ela fosse sua. À época dos eventos da copa seguinte, De Tommaso já havia sido indiciado por roubo, tráfico de drogas e, em 2008, havia sido delatado num inquérito que apurava a ligação de sua facção de ultras com o crime organizado e grupos fascistas.

Os Mastiffs também têm em seu histórico criminal roubos de pertences de jogadores do Napoli como forma de represália ao não comparecimento deles a eventos coordenados pela torcida ou a negativas a outras solicitações – claros exemplos de omertà. Sem falar no fato de que, assim como outras organizadas napolitanas, algumas faixas exibidas pelos mastins nos estádios remetem a clãs da Camorra. A própria divisão das torcidas no estádio obedece a uma lógica territorial cara à máfia.

Em Nápoles, as organizadas subservientes à máfia local também cobram preços abusivos pelo estacionamento nos arredores do San Paolo, praticam cambismo e detêm o monopólio do mercado paralelo de vendas de produtos licenciados do Napoli. No ano passado, De Tommaso e seus tios (um deles, o tal “Assassino”) finalmente foram presos por tráfico internacional de drogas. Genny cumpria prisão domiciliar e a sua advogada se disse “satisfeita” com a sentença, mas no início de maio a procuradoria pediu 20 anos de prisão para o Carniça: segundo o promotor Francesco De Falco, ele seria o chefe do cartel, que tem braços na Espanha, na Holanda e na América do Sul.

O fato é que, em 3 de maio 2014, Gennaro De Tommaso, ultra ligado ao crime organizado e à Camorra, foi a autoridade máxima num local em que se encontravam os cartolas de Fiorentina (Andrea Della Valle) e Napoli (Aurelio De Laurentiis), o ex-presidente da Federação Italiana de Futebol (Giancarlo Abete) e seu vice (Demetrio Albertini), o então diretor-mor do Comitê Olímpico (Gino Petrucci) e uma série de políticos, como Matteo Renzi – primeiro-ministro italiano à época. Simbólico.

Tão simbólico quanto o fato de a Itália ter parado naquele dia e ter visto, ao vivo, a briga por poder entre sujeitos em simbiose com o neofascismo e a criminalidade de tipo mafioso. Uma violência com a cara de um passado do qual o país já deveria ter se distanciado há tempos, mas que parte da população chega a referendar nas urnas.

Dybala, em tempos de Palermo, participa de campanha antimáfia (Getty)

A ineficácia dos procedimentos de segurança nos estádios e de medidas como a Daspo e o já extinto cartão de identificação dos torcedores (tessera del tifoso) já é velha conhecida dos italianos. Estas ações não conseguiram reduzir a criminalidade nas organizadas porque a grande maioria dos ilícitos acontece fora das praças esportivas. À época do assassinato de Esposito, por exemplo, já havia anos que De Santis não frequentava a Curva Sud romanista. Ao contrário do que acontece na Inglaterra, a Daspo não obriga que o torcedor proibido de ir aos estádios se apresente às autoridades no horário dos jogos – é apenas opcional.

Estas situações são apenas simples exemplos de como as punições na esfera esportiva são brandas na Itália, como afirma o procurador Raffaele Cantone. O magistrado defende que sentenças mais severas desestimulam criminosos em potencial e, por isso, têm a capacidade de fazer com que os crimes ligados ao futebol diminuam. No entanto, ele reconhece que ainda há um longo caminho pela frente. “O problema é complexo porque seria necessário costurar acordos multilaterais entre os países [da União Europeia] para haver critérios legais em comum, como acontece em outros temas”, declara. Cambismo (ainda) não é tipificado como crime na Itália, mas no Brasil sim. Mesmo dentro da Europa há divergências quanto à punição de delitos ligados ao esporte.

Outro grande entrave para a justiça italiana é o fato de que um dos crimes que geram o maior número de consequências diretas no futebol é praticado de maneira extremamente sub-reptícia, o que deixa muito pequenas as possibilidades de combate em sua origem. Sem alarde ou violência, a manipulação de resultados para favorecer apostadores é um delito, como o cambismo, forjado na intrínseca (quase umbilical) relação entre torcidas e funcionários dos clubes.

Líderes dos ultras, nos maiores ou nos menores times, costumam buscar acesso direto aos jogadores como forma de demonstrar prestígio perante os outros torcedores. Os que operam criminalmente, especialmente nas divisões inferiores, veem nisso uma oportunidade de negócios, já que podem servir de ponte entre as máfias e os atletas.

Para a Comissão Parlamentar Antimáfia, a possibilidade de ter livre acesso aos ambientes dos clubes e, mais ainda, de ser próximo a jogadores da equipe local, tem um duplo valor para os ligados aos mafiosos. “Este acesso certamente é um motivo de reforço à imagem do criminoso e de seu prestígio dentro da associação. É uma forma de se afirmar no mundo do crime organizado, em muitos casos sem que o atleta tenha conhecimento de que está sendo utilizado para estes fins”, lê-se em relatório.

As relações entre jogadores e ilicitudes são exatamente as peças que fecham o quebra-cabeças da infiltração do crime organizado no futebol italiano.

Os pés: as partidas manipuladas e os jogadores que já tiveram problemas com a lei

Ídolo da Atalanta, Doni encerrou a carreira após ser pego num esquema de manipulação de resultados (Ansa)

Compras de resultados mancham a imagem do futebol italiano desde os anos 1920, quando eclodiu o primeiro escândalo de relevância nacional. Em 1927, o Torino teve o scudetto revogado porque um diretor teria subornado o lateral esquerdo Luigi Allemandi, da Juventus, para que ele entregasse o clássico. O Toro venceu, mas o jogador da seleção italiana foi um dos melhores em campo e quase atrapalhou o sucesso dos grenás, o que colocou em dúvida a veracidade da acusação. O Torino até hoje pede que a FIGC reveja a decisão e lhe devolva o título, mas o fato é que o “caso Allemandi” é considerado o precursor dos ilícitos esportivos no Belpaese.

De lá para cá, a Udinese já teve um vice-campeonato cassado e foi rebaixada (1955), o Totonero assustou a Itália antes do Mundial de 1982 e teve seu bis em 1986, o Genoa perdeu o direito do acesso à Serie A e caiu para a C1 (2005), e o Calciopoli (2006) mudou o panorama do futebol no país, rebaixando a gigante Juventus para a Serie B. Nenhum deles (e só citamos alguns), porém, teve a participação direta do crime organizado.

Nos anos 1990, o jornalista norte-americano Joe McGinniss levantou suspeitas sobre o eventual envolvimento do pequeno Castel di Sangro com venda de resultados e relações escusas com a máfia, mas nada foi provado até hoje. Alguns anos antes, emergiram denúncias de que jogadores do Napoli teriam deixado escapar o título da temporada 1987-88 como forma de retribuir favores da Camorra, que perderia dinheiro investido em apostas se o bicampeonato azzurro acontecesse. A história sem pé nem cabeça nunca foi comprovada e virou lenda urbana, mas antecipou a tendência de manipulação de resultados em escala industrial, com o intuito de favorecer organizações criminosas alheias ao esporte. Este tipo de delito se verificou oficialmente pela primeira vez no escândalo Scommessopoli, que eclodiu em 2011 e teve processos pelo período de cinco anos.

A investigação uniu procuradorias de norte a sul do país e teve início em Cremona, cidade próxima a Milão. A operação Last Bet foi deflagrada após o colhimento de denúncias e de informações cedidas pela SKS365, empresa austríaca que controla alguns sites de apostas. Em colaboração com a justiça, a corporação compartilhou dados de uma série de partidas em que havia notado fluxo anormal de lances – não apenas em resultados, mas em critérios específicos, como o número de gols em um jogo, por exemplo. Obviamente, qualquer um que invista pesado em apostas e possa lucrar com estas movimentações anômalas precisa ter relacionamento direto com os jogadores das partidas em questão, afinal são eles que entram em campo e determinam os resultados.

A justiça italiana investigou 149 pessoas, entre jogadores, ex-atletas, treinadores e dirigentes que seriam pagos para combinar resultados e/ou lucrariam com os ganhos das apostas. A compra de uma partida da Serie A custava 400 mil euros (distribuídos entre os responsáveis por armar os resultados), enquanto uma da B estava cotada em 120 mil e as da terceira divisão giravam em torno de 50 mil. Os investigados eram ligados a 38 equipes das seis principais divisões de futebol do país e mais dois times de futsal – veja a lista completa dos acusados e dos condenados aqui.

Inicialmente, 200 partidas foram colocadas sob suspeita, mas “apenas” 60 forneceram evidências suficientes para que pudessem ser inseridas definitivamente no inquérito. Parte dos acusados acabou absolvida: esportistas conhecidos, como Christian Vieri, Maurizio Sarri, Kakha Kaladze, Domenico Criscito, Leonardo Bonucci, Andrea Ranocchia e Rodrigo Palacio foram considerados estranhos aos fatos relatados.

As punições aplicadas aos times foram de pequenas multas a sentenças mais duras para os clubes que tiveram responsabilidade objetiva. Estes amargaram a perda de pontos no campeonato (como aconteceu à Atalanta, por exemplo, em duas temporadas consecutivas, entre 2011 e 2013) ou até mesmo o rebaixamento, como nos casos de Lecce, Alessandria e Ravenna. O Lecce, que havia disputado a Serie A e caído no campo, em 2011-12, foi diretamente para a terceirona, onde se encontra até hoje. O Ravenna teve de jogar a sexta divisão, faliu, e hoje está na Serie C.

As penas aplicadas aos jogadores condenados variavam de multas por omissão de denúncia a suspensões e banimentos. Entre os que foram suspensos por períodos de alguns meses a dois anos e dois meses, encontramos vários nomes conhecidos, como os do lateral esquerdo Alessandro Parisi (ex-Bari e Messina, com passagem pela seleção italiana), o meia Stefano Mauri (ex-capitão da Lazio e jogador da seleção), o zagueiro Andrea Masiello (atual titular da Atalanta, dono da maior pena) e os selecionáveis Kewullay Conteh (zagueiro do Piacenza; Serra Leoa), Jean-François Gillet (goleiro do Bari; membro do elenco da Bélgica na Euro 2016) e Vitali Kutuzov (atacante do Bari; Belarus).

O atacante brasileiro Joelson, da Cremonese, também participou do esquema e recebeu uma suspensão de dois anos e meio. O atacante Paulo Vitor Barreto (Bari) e o goleiro Angelo da Costa (ex-Ancona, hoje no Bologna) pegaram três meses de gancho por terem conhecimento do esquema e não tê-lo denunciado. Pena similar à de Antonio Conte, que passou quatro meses afastado do cargo de técnico da Juventus por não ter feito nada para dar fim aos ilícitos quando era o comandante do Bari.

Ídolo da Lazio e integrante do elenco que disputou a Copa de 1994, Signori foi preso por participação em esquema de apostas ilegais (Ansa)

Os principais operadores do esquema receberam sentenças ainda mais duras: além de suspensos, alguns foram banidos e todos eles foram presos por fraude e formação de quadrilha. Foram os casos do goleiro Marco Paoloni (Cremonese), que somou nove anos de suspensão; do meia Carlo Gervasoni (Cremonese e Piacenza; sete anos), do meia-atacante Cristiano Doni (Atalanta e seleção italiana na Copa de 2002; cinco anos e meio) e dos ex-atletas Luigi Sartor (Parma e seleção; cinco anos) e Giuseppe Signori (Foggia, Lazio, Bologna e seleção no Mundial de 1994; cinco anos e ulterior banimento do esporte).

Os atletas em atividade eram responsáveis por estabelecer os contatos com os jogadores dos próprios times e dos adversários – Doni ainda tentou fugir quando ia ser preso e atuou para destruir provas. Sartor e Signori (viciado em apostas e facilmente manipulável) também faziam isso, mas atuavam principalmente com lavagem de dinheiro.

Mas dinheiro de quem? Rapidamente se descobriu que a dupla de ex-jogadores da Nazionale atuava lado a lado a dois sócios que não eram ligados ao futebol, numa offshore com sede no Panamá e administrada a partir de uma filial na Suíça. Neste momento, a operação transcendeu as fronteiras da Itália e, através de uma força-tarefa internacional, se concluiu que pelo menos 600 mil euros foram lavados pelo grupo, a mando dos cabeças da organização: Wilson Raj Perumal e “Dan” Tan Seet Eng, cidadãos de Singapura, que acabaram presos. Os dois são conhecidos golpistas no submundo as apostas e já estavam envolvidos com manipulação de resultados desde meados dos anos 1990.

Dan alega que chegou a perder 3 milhões de dólares ao tentar, sem sucesso, manipular um jogo da Champions League entre Fenerbahçe e Barcelona, em 2001. Ele teria apostado que a partida teria menos de três gols e subornou funcionários do clube turco, com o intuito de que eles cortassem o fornecimento de energia para o estádio e o cotejo fosse cancelado. No segundo tempo, com 2 a 0 para o Barça, bam, os refletores se apagaram. Para o azar de Tan, os geradores de prontidão funcionaram rapidamente e, 20 minutos depois, restabeleceram a iluminação no Sükrü Saraçoglu. Um dia é da caça e o outro é do caçador, no entanto: o criminoso singapurano também se gaba de ter faturado 15 milhões de euros em uma única partida da Serie A.

Segundo a investigação, o grupo asiático teria conseguido adulterar 380 partidas na Europa e 300 em outras partes do mundo – incluindo, aí, duelos pela Champions League e pelas Eliminatórias para a Copa. A operação normalmente consistia em um grande número de apostas de baixo valor, de até 100 euros cada, usando cartões de crédito diferentes: o grupo era capaz de movimentar quantias de 2 a 5 milhões de euros por jogo e costumava fazer lances com os confrontos em andamento, para despistar ferramentas de controle das operadoras.

O lucro do grupo foi de quase 11 milhões de dólares e a lavagem do montante aconteceu através de novas apostas ou de um sistema informal de trocas de valores chamado hawala. O método existe desde o século VIII, quando era comum na Rota da Seda, e hoje em dia é muito utilizado por imigrantes ilegais ou por pessoas que não queiram prestar contas de suas operações. A hawala é tão rudimentar quanto complexa: opera com transferências de dinheiro em espécie e sem emissão de comprovantes, o que torna qualquer negócio praticamente impossível de ser rastreado.

A rede da dupla era extensa. Tan e Perumal tinham diversos intermediários chineses e atuavam na Ásia, na África e na Europa. Na Europa, concentravam seus negócios na Itália, na limpa Finlândia e na Hungria – país para o qual foram extraditados e em que cumprem pena, por responsabilidade em um esquema tão extenso quanto o Scommessopoli. Não é mera coincidência que Giorgio Chinaglia atuasse como agente de empresas do país do Leste Europeu e que Sartor e Signori também tenham jogado em um clube húngaro no fim de suas carreiras como profissionais. Alguns dos comparsas dos singapuranos na Itália eram ex-jogadores ligados a grupos mafiosos eslavos, um deles chefiado por um ex-agente da polícia da Macedônia. No Belpaese, os nativos do Leste Europeu são chamados pejorativamente de “zingari” (ciganos).

A aliança entre o crime organizado asiático e o eslavo para a manipulação de partidas de futebol na Itália mostra como o panorama criminal da Velha Bota tem mudado nos últimos anos. Antes tidas como “máfias de segunda classe”, estas organizações cresceram e até mesmo trabalham juntamente a facções rivais, que antigamente as desprezavam. Clãs da máfia de Bari, por exemplo, eram parceiros dos “zingari” no esquema de apostas ilegais. Em Nápoles, a Camorra contava com capital chinês e mão de obra do Leste Europeu para manter a roda de seu esquema girando.

Tommasi, presidente da AIC, tem proposto medidas para coibir a influência do crime organizado sobre os jogadores e as partidas (Ansa)

Segundo o jornalista Leandro Demori, este movimento tem acontecido desde os anos 1980, com a decadência da Cosa Nostra e a queda do Muro de Berlim. O fim de muitas fronteiras e o impulso na globalização possibilitaram que outras máfias ocupassem o espaço deixado pela quadrilha siciliana. “A Cosa Nostra continua operando de várias formas, mas outras máfias italianas cresceram. A Camorra, que era considerara inferior, uma máfia de rua, cresceu; a Sacra Corona Unita, quase desconhecida, também; e a ‘Ndrangheta se tornou a principal máfia italiana e uma das maiores do mundo. Essa abertura de mercados trouxe toda uma série de sistema mafiosos formados por organizações criminosas de Leste Europeu, Nigéria, Japão ou China”, explica.

Ainda que o bolo da criminalidade esteja sendo repartido entre mais organizações, a máfia italiana mantém o controle sobre boa parte do ramo de manipulação de resultados e do mercado negro das apostas. Em uma entrevista concedida à revista L’Espresso, em 2011, Pietro Grasso, ex-juiz auxiliar do Maxiprocesso de Palermo (que nos anos 1980 julgou quase 500 filiados à Cosa Nostra) e então diretor nacional do órgão antimáfia, opinou sobre o Scommessopoli. Na ocasião, ele afirmou enfaticamente que os gângsters estavam investindo pesadamente na aquisição de cotas de empresas ligadas a apostas, cujos lucros (incluindo os oriundos de fontes legais) já estavam em ascensão. Os criminosos estavam de olho inclusive nas divisões inferiores, onde a fiscalização das autoridades é menor.

As palavras de Grasso, atual presidente do Senado italiano, foram relembradas em 2015, quando um novo escândalo de manipulação de resultados veio à tona com a operação Dirty Soccer: os zingari, a Camorra e a ‘Ndrangheta estavam lucrando com partidas arranjadas na terceira e na quarta divisões do país. Uma investigação paralela ainda descobriu que o Catania havia comprado algumas partidas da Serie B para tentar escapar do rebaixamento – o que acabaria acontecendo.

Como punição, a equipe siciliana teve que jogar a terceira divisão e seu presidente Antonino Pulvirenti foi suspenso por cinco anos e teve de pagar uma multa de 300 mil euros. Ademais, o diretor esportivo Daniele Delli Carri (ex-jogador de Torino, Genoa, Piacenza e Fiorentina) pegou um gancho de quatro anos e chegou a ter prisão domiciliar decretada.

Em relação às apostas nas divisões inferiores, uma série de medidas já foi proposta pelo órgão antimáfia do país e por outras entidades, como a Associação Italiana de Jogadores – AIC, atualmente comandada por Damiano Tommasi. Quando estava à frente da DIA (o departamento que combate o crime organizado na Itália), Grasso recomendou a criação de um observatório permanente para analisar o fluxo de apostas online e identificar eventuais anomalias com rapidez, agilizando qualquer operação.

Tommasi, por sua vez, defendeu em uma entrevista à L’Espresso, a proibição de apostas “ao menos nas divisões amadoras”, pela maior facilidade de manipulação de resultados nesta categoria. Na mesma conversa, o ex-volante da Roma também salientou que a associação apoia a introdução de normais federais que pressuponham a suspensão, ao menos por uma rodada, para todos os jogadores, técnicos e diretores que aceitarem ameaças dos ultras e interagirem com eles sobre assuntos antiéticos. Seriam medidas educativas, segundo o dirigente. “O que podemos fazer é alertar os jogadores sobre os riscos decorrentes de tais atitudes. Isto serve para lembrar a todos que, no final das contas, estamos a falar de garotos, muitas vezes muito jovens, que precisam administrar situações que às vezes são muito difíceis”, ressaltou.

Se estas diretrizes apoiadas pela AIC já estivessem valendo, pouca gente receberia tantos ganchos quanto Diego Maradona. A suspensão por doping aplicada ao argentino em 1991, por uso de cocaína, foi o ponto mais alto de sucessivas relações perigosas desenvolvidas por ele ao longo de seus anos em Nápoles. Afinal, qualquer miligrama de droga que circula por Nápoles tem que receber a bênção da Camorra.

As amizades controversas eram um dos motivos que reacendiam as rusgas entre El Pibe de Oro e Corrado Ferlaino, então presidente do clube azzurro. O cartola tinha vários motivos para, de antemão, não ser muito receptivo a mafiosos: de origem calabresa, era sobrinho do magistrado Francesco Ferlaino, morto pela ‘Ndrangheta em 1975, e era considerado inimigo por ultras ligados à Camorra. Em 1982, dois anos antes de Maradona chegar a Nápoles, um avião com a frase “Ferlaino, vá embora” sobrevoou o estádio San Paolo durante uma partida. Uma investigação concluiu que a aeronave havia sido alugada por um boss do distrito de Sanità, que pressionava o dirigente por não gostar do fato de ele não ceder espaço no clube para seus negócios ilegais.

A chegada de Maradona mudou a história de Nápoles. O craque argentino ganhou status de divindade e, como tal, um poder próprio. “Com a força de então, não havia como Maradona não ter tido contato com a Camorra, que se entrelaçava a todos os poderes da sociedade italiana”, disse o jornalista Gigi Di Fiore, em uma coluna escrita em janeiro de 2017 no napolitano Il Mattino. El Diez nunca sofreu qualquer sanção penal por associação mafiosa, mas foi protagonista de alguns episódios polêmicos com camorristas.

Maradona e os irmãos Giuliano: foto com os mafiosos em sua banheira em formato de concha ficou famosa (Corriere del Mezzogiorno)

Na época em que surgiu o boato de que o Napoli perdeu o scudetto de 1988 para beneficiar a Camorra, outra história que nunca também nunca foi comprovada veio à tona. Corria à boca miúda que Guillermo Coppola, ex-empresário de Maradona, conseguia cocaína com camorristas e era responsável por distribuir a droga em festas cheias de jogadores do elenco napolitano. O fato é que, além do argentino, o único jogador azzurro que teve problemas com substâncias ilícitas foi Andrea Carnevale: nos tempos de Roma foi suspenso por doping, pelo uso de anfetaminas para emagrecer e, muito depois de ter se aposentado, foi preso por tráfico de cocaína.

O que se sabe, de maneira oficial, é que Diego conheceu a família Giuliano, de Forcella, bairro central de Nápoles. Em 1986, uma investigação sobre esquemas clandestinos de apostas esportivas chegou até o clã. Lovigino, um dos 11 irmãos que comandavam a linhagem, havia introduzido o ramo aos negócios do grupo, que se dedicava principalmente a atividades como rufianismo, extorsão, contrabando e tráfico de drogas. Após uma batida na casa de Carmine – o Giuliano mais próximo a Maradona –, a polícia teve acesso a 71 fotos, entre as quais algumas do jogador brindando com o capo e rindo com os irmãos numa banheira em formato de concha.

A presença do craque naquelas fotos de gângsters investigados por apostas esportivas ilegais e tráfico de entorpecentes chamou a atenção dos policiais, que reportaram o fato em um relatório. Intimado a prestar depoimento, Maradona declarou que era comum para ele tirar fotos com admiradores. Carmine, que também foi interrogado, afirmou ser simpatizante do Napoli e, claro, fã do camisa 10: “após a inauguração de um clube de torcedores do Napoli em Forcella, Maradona visitou os lares de muitos dos presentes e também foi até a minha casa”, alegou. O caso (que corria em sigilo) esfriou e as fotos só vieram à tona três anos depois, quando foram publicadas por Il Mattino antes do início da temporada 1989-90.

Após as fotos virem a público, Diego quase não retornou de suas férias. O relacionamento de Maradona com Ferlaino e o diretor esportivo Luciano Moggi já estava muito desgastado e, depois do vazamento, o argentino emitiu um comunicado em que afirmava temer pela sua vida e a de seus familiares. Sua esposa Claudia já havia sido ameaçada nas arquibancadas do San Paolo durante uma partida, sua irmã já tinha sido assaltada em casa e o próprio Diego teve seu carro danificado por uma bola de aço.

Assim como a ocorrência da depredação do veículo, as supostas ameaças não foram levadas à polícia: Maradona conversou com Carmine Giuliano por telefone e recebeu a promessa de que qualquer um que fizesse mal a ele ou a sua família teria contas a acertar com o clã. Com a palavra do boss como garantia, El Pibe de Oro voltou a Nápoles para fazer sua primeira partida naquela Serie A apenas na 5ª rodada. Mesmo assim, levou o Napoli a seu segundo scudetto.

Naquela mesma temporada, houve um grande assalto a um banco de Napoli. Muitas joias foram levadas, mas o principal bem roubado na rapina foi a bola de ouro que Maradona havia ganhado como melhor jogador da Copa do Mundo de 1986, que nunca foi recuperada. Em 2011, o capo Salvatore Lo Russo (citado no início do capítulo 2) foi preso e, como colaborador da justiça, alegou em depoimento que havia se tornado amigo de Diego: o mafioso disse que, além de ter dado cocaína para uso pessoal do argentino algumas vezes, havia recebido um pedido dele para recuperar o prêmio e alguns relógios.

O chefão dos Capitoni mandou capangas até os becos dos Quartieri Spagnoli e conseguiu reaver quase todos os pertences: faltou a pelota dourada. Lo Russo disse aos oficiais de justiça que até tentou oferecer uma recompensa para quem devolvesse o troféu do craque, mas soube que seria impossível tê-lo de volta, já que a bola teria sido fundida em lingotes de ouro puro pelos camorristas.

Segundo Lo Russo, ele havia conhecido Maradona quando gerenciava um ponto clandestino de apostas, através do traficante Pietro Pugliese e de Palummella – codinome do capo ultra Gennaro Montuori. Pugliese foi preso no início dos anos 1990 e, com as informações que cedeu em delação premiada, colaborou com a condenação de 15 comparsas. O criminoso também disse aos policiais que Diego havia sido roubado como forma de pressão: a máfia queria que ele influenciasse companheiros para favorecer o negócio clandestino de apostas. Os investigadores acharam a acusação infundada, assim como as alegações do próprio Pugliese de que os azzurri haviam vendido o scudetto – as mesmas que viraram lenda urbana.

Neto de um chefão da ‘Ndrangheta, Sculli já se envolveu em dezenas de polêmicas (Blitz Quotidiano)

Embora Maradona seja um dos tipos mais polêmicos da história do futebol, ele não seria o jogador mais afetado pelas medidas desejadas pela AIC: perderia para o atacante Giuseppe Sculli, um verdadeiro colecionador de controvérsias, ganchos e indiciamentos na esfera judicial. A criminalidade acompanha a vida do jogador desde seu nascimento, já que ele é o neto favorito de Giuseppe Morabito, mafioso de mais de 60 anos de estrada e ex-número 1 da ‘Ndrangheta. Morabito ainda era ligado à Cosa Nostra e forneceu guarida a Totò Riina, mafioso mais procurado do mundo por um quarto de século – o capo foi preso em 1993 e morreu em 2017.

No submundo do crime, o apelido que o chefão do clã Morabito herdou do pai é “u tiradrittu” – ou seja, o “mira certa”. O bom atirador foi preso em 2004, após passar 12 anos foragido, mas antes construiu um império calcado na eliminação de vários de seus rivais, durante os anos 1980, e no tráfico internacional de drogas, em parceria com a criminalidade organizada dos Bálcãs, da América Latina e da África e Ásia mediterrâneas. A fortuna da família fez de Sculli um raro personagem no futebol: o jogador de origens abastadas, ainda que sua riqueza tenha sido obtida à revelia da lei.

O carinho do avô impulsionou a carreira do jovem Beppe. Morabito era o seu maior incentivador e ia a todos os jogos do garoto antes de se tornar foragido da justiça. Aos 15 anos, Sculli deixou a Calábria para se juntar às categorias de base da Juventus, onde se formou e se tornou um atacante de futuro: passou por todas as seleções juvenis da Itália e até integrou o elenco azzurro que foi campeão europeu sub-21 e ficou com o bronze olímpico em 2004.

Após as conquistas, o jogador viveu a primeira polêmica da carreira: pelo seu histórico familiar (o avô tinha sido preso meses antes), foi o único dos vitoriosos que não foi convidado para receber uma comenda no Palácio do Quirinal, residência oficial da presidência da república. À época, Sculli deu entrevistas mostrando sua indignação com o fato e, além de não renegar o avô, declarou que tanto ele quanto o patriarca eram honestos.

Dois anos depois, os fatos desmentiram o jogador calabrês e inauguraram sua ficha de acusações e delitos dentro e fora da esfera esportiva. Poucos dias após Sculli acertar com o Genoa, vazaram gravações que revelavam que ele, alguns companheiros e adversários haviam realizado um acerto para determinar o resultado na partida entre o Crotone, sua equipe, e o Messina, na última rodada da Serie B 2001-02. Os telefonemas foram grampeados numa operação que investigava a ‘Ndrangheta na região de Reggio Calabria – mais especificamente, pessoas ligadas a Giuseppe Morabito.

Os calabreses já estavam condenados a jogar a Serie C1 e Sculli concordou em arranjar uma derrota para salvar os peloritani da queda. Jogadores do Bari, que receberam mala branca para vencerem a Ternana e ajudarem o Messina, também participaram do acerto. As duas partidas acabaram em 2 a 1 e a trama foi concluída com êxito, mas os resultados de campo acabaram sendo praticamente nulos: a Ternana, que iria cair, foi repescada por causa da falência da Fiorentina e continuou na segundona.

As gravações divulgadas eram impactantes, de qualquer forma, já que deixaram claro que Beppe, com apenas 21 anos, liderou o esquema. Para o tio, Rocco Morabito, afirmou que recebera quatro “salaminhos”, enquanto dois teriam sido enviados para Bari. Conversando com a namorada da época, Sculli confessou que havia “uns vinténs” em jogo e que havia pressionado os companheiros para cobrar uma falta perigosa (para fora) porque “se outro tivesse batido, o gol teria saído”.

Você sabe que eu tenho uma família particular. Na minha família, nunca dizemos não. Para qualquer um
Giuseppe Sculli

A afirmação levou os investigadores a crerem que o atacante havia marcado o gol de empate no cotejo para pressionar os mandantes a aumentarem o valor da propina. Em outro telefonema grampeado, Beppe dizia para a namorada: “Você sabe que eu tenho uma família particular. Na minha família você não diz não, na sua talvez sim. Na minha família, nunca dizemos não. Para qualquer um”. Por não ter dito não, Sculli recebeu uma suspensão de oito meses.

Além do gancho por manipulação de resultados, naquela mesma época Sculli foi investigado (e julgado inocente) em casos de tentativa de homicídio, tráfico de narcóticos e associação mafiosa. Neste último particular, a promotoria alegava que ele usava métodos truculentos para obrigar cidadãos de Bruzzano Zeffirio, onde foi criado, a votar em candidatos que ele indicava nas eleições locais. Após anos de relativa tranquilidade no Genoa, clube em que disputou seu melhor futebol sob as ordens de Gian Piero Gasperini (que também fora seu técnico na base juventina), o neto de Morabito voltou – e com força – às manchetes nacionais em 2012.

Tudo começou em 22 de abril, durante a 34ª rodada da Serie A. O Genoa perdia em casa por 4 a 0 do Siena quando um forte protesto começou nas arquibancadas, levando à interrupção da partida. Petardos e sinalizadores foram atirados ao gramado e os ultras exigiam, em coro, que os jogadores tirassem seus uniformes, pois seriam indignos de ostentar as cores do clube.

Para tentar conter a fúria das tribunas, o capitão Marco Rossi e o presidente Enrico Preziosi pediram para que os atletas se despissem. Enquanto alguns choravam, Sculli (devidamente uniformizado) escalou a parede de vidro que separava a torcida do campo, agarrou o ultra Massimo Leopizzi pelo pescoço, e em uma conversa acalorada ao pé do ouvido, negociou a retomada do jogo, concluído com um 4 a 1 para os toscanos. O Genoa foi sentenciado a jogar de portões fechados até o fim do campeonato, mas conseguiu a permanência na elite.

Dias depois, emergiram novas informações sobre a relação entre Sculli e os ultras – estes últimos chegaram a ameaçar os jornalistas após a divulgação dos fatos. A aparente intimidade com a qual o atacante tratou os torcedores tinha motivo: ele e um colega de clube, o meia Omar Milanetto, costumavam ir a noitadas e eventos com os líderes das organizadas.

A dupla até participou de uma celebração preparada para o neofascista Leopizzi quando ele deixou a prisão domiciliar por porte ilegal de armas – a acusação tentou provar que ele pretendia matar a ex-esposa e o ex-sogro, mas não obteve sucesso. A presença dos dois na festa foi confirmada por Fabrizio Fileni, outro líder histórico da tifoseria genovesa, cujo respeito entre os ultras foi conquistado também pelo fato de ter perdido a visão de um olho enquanto preparava uma coreografia. Na ocasião, ele acabou ferido acidentalmente pelo mastro de uma bandeira.

“Sculli, um de nós”, urraram os ultras do Genoa naquela triste tarde contra o Siena, no Marassi. A frase foi repetida pelos líderes da torcida depois: Leopizzi e Fileni afirmaram que, se não fosse jogador, Beppe certamente daria um ótimo capo da organizada. Os fatos que se sucederam a essas declarações dão estofo a seu conteúdo, já que a justiça interceptou telefonemas entre o torcedor de extrema-direita e o neto do boss da ‘Ndrangheta.

Leopizzi queixava-se de uma suposta trairagem de Preziosi. O dirigente pediu que a polícia prendesse os responsáveis pela bagunça no estádio, esquecendo de favores prestados anteriormente pelo torcedor. O ultra disse que, além de ter garantido o bom comportamento da torcida em momentos ruins, ainda havia prestado falso testemunho para proteger Preziosi e o Genoa no caso da compra de um resultado diante do Venezia, em 2005 – o episódio, citado no início do capítulo, fez os grifoni perderem o direito ao acesso à Serie A e irem direto para a C1. A alegação de Leopizzi, porém, não foi confirmada.

Sculli e Milanetto juntos nos tempos de Modena: amizade vem longa data; negócios escusos também? (Quotidiano)

Em maio de 2012, os responsáveis pelo processo Scommessopoli mostraram que Sculli e Fileni poderiam ter, também, uma relação comercial. Uma investigação sobre tráfico de drogas iniciada pela procuradoria de Alessandria vigiava o bósnio Safet Altic, operador de um clã da Cosa Nostra em Gênova e partícipe de diversas atividades ilegais. O “zingaro” também era parceiro de Guido Morso, torcedor rossoblù que tinha ligações com outra família siciliana, associada a seus patrões.

Numa ação de vigilância em maio de 2011, os policiais flagraram uma reunião entre o criminoso, outros comparsas eslavos, Fileni, Sculli e o lateral esquerdo Domenico Criscito, que defendie o Genoa naquela época. A conversa aconteceu num restaurante, fora do horário comercial, a cortinas fechadas – o que gerou mais suspeitas por parte da polícia. As fotografias do encontro foram repassadas à promotoria de Cremona, que investigava as manipulações de resultados.

Os acusados afirmaram que o tema da reunião teria sido o comportamento dos jogadores na vitória do Genoa por 2 a 1 no clássico contra a Sampdoria (que acabou rebaixada), mas a presença dos mafiosos eslavos e de Sculli foi suficiente para abrir um inquérito. Afinal, o atacante atuava na Lazio àquela época e a partida seguinte dos grifoni, pela penúltima rodada da Serie A 2010-11, seria exatamente contra os celestes. Sculli e Altic ainda foram investigados por uma suposta tentativa de chantagem a Luca Toni: eles queriam que o atacante, à época no Genoa, entrasse no esquema. Caso contrário, mostrariam à Marta Cecchetto, sua noiva, fotos de uma suposta traição do jogador.

Beppe se safou da prisão preventiva, mas Milanetto e Stefano Mauri (da Lazio) acabaram encarcerados temporariamente. O envolvimento do trio deu origem a especulações sobre a duração do esquema. Afinal, os três jogaram juntos pelo Modena em 2002-03, o que levantou dúvidas (na própria promotoria) sobre a possibilidade de os delitos existirem há mais tempo. No entanto, nenhum processo foi aberto, já que qualquer fraude acontecida na época teria prescrito nos campos esportivo e penal. Ao fim das investigações, somente Mauri recebeu um gancho de seis meses, por não ter denunciado a tentativa de manipulação. Altic, àquela altura, já estava preso por tráfico de drogas.

Em outras investigações de eventos relacionados ao Scommessopoli, a polícia descobriu que Sculli fazia parte do entourage de Massimo Carminati, chefe da máfia da capital, citado no capítulo 3. O jogador jantava frequentemente com Giovanni De Carlo, homem de confiança do capo de extrema-direita, que foi preso junto com o chefe em 2014. “Eu posso ser amigo até de Bin Laden, mas isso não significa que eu faço as coisas que os outros fazem”, rebateu o atacante calabrês em uma entrevista ao jornal La Stampa.

O desabafo de Sculli vai ao encontro do que afirma o jornalista Leandro Demori: muitas vezes os jogadores e os gângsters nascem nas mesmas comunidades ou têm interesses pessoais em comum. “Seria a mesma coisa de dizer que o Adriano é criminoso porque tirou foto com o Rogério 157, que comanda o tráfico na Rocinha. Às vezes há uma amizade de infância ou afinidade por causa de um mesmo background. Se não há uma investigação específica e objetiva sobre algum caso, não tem como dizer que houve uma associação mafiosa proposital, porque essa relação está imiscuída no sistema e na vida de algumas pessoas”, explica.

Mesmo com este contraponto, o excesso de casos extracampo deixava claro que Sculli não andava muito preocupado com sua vida profissional, embora ainda tivesse apenas 31 anos: uma amostra disso é que, entre junho de 2012 e meados de 2016, ele disputou apenas 20 partidas. Fora dos gramados, viu seu pai, Francesco (falecido em 2014), ser preso no âmbito de uma investigação sobre lavagem de dinheiro, por favorecer o clã da família. Funcionário público em Bruzzano Zeffirio, ele emitiu licenças que incentivaram o crescimento desordenado da cidadezinha localizada no litoral jônico e a especulação imobiliária predatória.

Após a morte do pai, Sculli (que hoje mora em Milão e disputa a sexta divisão pela Accademia Pavese) ainda se envolveu num entrevero com Fabrizio Corona, personalidade da mídia, agente fotográfico e notório chantagista. Corona já extorquiu ou tentou extorquir figuras como Lapo Elkann (neto de Gianni Agnelli), Adriano, Francesco Totti e Alberto Gilardino, mas teria sido vítima do calabrês. Em 2016, Sculli e um amigo teriam espancado e ameaçado o vigarista por causa de um empréstimo não quitado. Teriam também ordenado furtos à casa da sua ex-esposa, a modelo Nina Moric, para reaver a quantia. Desde então, Beppe não voltou às páginas esportivas ou policiais.

Iaquinta e Borriello são filhos de pessoas envolvidas com organizações mafiosas (Getty)

Giuseppe Sculli não seria o único parente de mafiosos a tentar a vida no futebol profissional. Na própria Calábria, temos o caso de Vincenzo Iaquinta, tetracampeão mundial com a Itália em 2006. Atualmente, o ex-atacante e o pai Giuseppe estão sendo processados por suposto envolvimento com a ‘ndrina Grande Aracri e posse ilegal de armas.

Segundo depoimentos de associados que foram para a cadeia, a família Iaquinta era favorecida em diversas situações por causa da proximidade com a organização e também trocaria favores do clã por agrados como chuteiras, material esportivo em geral e ingressos. Nas acaloradas sessões judiciais e acareações, os depoentes também afirmaram que o pai do jogador pedia que os mafiosos dessem um jeito de pressionar e ameaçar pessoas ligadas a Udinese e Juventus para que Vincenzo jogasse ou fosse negociado com outro clube.

Colega de ataque de Iaquinta por um breve período na Juventus e na seleção italiana, o napolitano Marco Borriello teve o pai assassinado pela Camorra – o crime aconteceu em 1993, quando o bomber tinha apenas 10 anos. Seu progenitor, Vittorio, chegou a ser processado (e absolvido) por envolvimento com o crime organizado e foi executado porque Pasquale Centore, ex-prefeito de San Nicola La Strada, ligado aos Casalesi, pegou dinheiro emprestado e não queria lhe devolver. Vittorio estaria agindo como agiota e cobrando juros de 300% em cima do valor cedido.

Borriello cresceu em San Giovanni a Teduccio, um dos bairros com maior concentração de clãs em Nápoles, e lembra dos tempos de dificuldade na infância. “Minha mãe foi fundamental para mim. A região [em que vivia] não era uma selva, mas também não era como a Disneylândia. Uma criança nascida lá tem que ficar ligada o tempo todo, porque um ano ali vale mais do que dez em qualquer outro lugar”, declarou à Gazzetta dello Sport, em 2013.

Outro jogador que cresceu em meio à criminalidade de Nápoles foi Armando Izzo, zagueiro do Genoa que tem convocações para a seleção italiana. O jogador é um dos poucos que já bateram bola pelas ruas de Scampia e tiveram talento e sorte suficientes para ingressar na carreira profissional: nascido no pobre bairro, atuou pelo Arci Scampia – um dos símbolos de emancipação anticamorra –, fez parte das categorias de base do Napoli e parecia distante de ter qualquer relação com o crime. Até que, em 2015, foi delatado como um dos supostos artífices de um esquema de manipulação de resultados na Serie B, quando atuava pelo Avellino.

Izzo é sobrinho de Salvatore Petriccione, um dos fundadores do clã Girati-Vanella Grassi – o boss é casado com a irmã de sua mãe. Segundo o depoimento do delator Antonio Accurso, o zagueiro teria declarado ao primo Gaetano que queria largar o futebol e se afiliar ao grupo, quando ainda era menor de idade. Sua entrada teria sido negada pelo tio, que desejava que Izzo seguisse sua vocação. Seu empresário, Paolo Palermo, também quis proteger o jogador das más companhias. Em uma ligação telefônica grampeada, ele subentendia que tinha mandado Izzo para a Triestina por este motivo e que faria o mesmo novamente – e fez, pois o zagueiro trocou o Avellino pelo Genoa – que tem sede a 700 quilômetros de sua cidade natal.

Acusações de que Armando teria tentado arranjar resultados quando atuava pelo clube de Trieste foram afastadas, mas o zagueiro assumiu ter apresentado Francesco Millesi (capitão do Avellino) a camorristas, em 2014. Izzo negou, no entanto, ter conversado sobre manipular as partidas contra Modena e Reggina. Millesi, por sua vez, tentou comprar até mesmo o colega Fabio Pisacane (atualmente no Cagliari), que anos antes havia sido nomeado embaixador da Fifa por ter denunciado a fraude dos diretores do Ravenna, seu clube à época do Scommessopoli.

Izzo chegou a ser suspenso por seis meses, mas as acusações foram retiradas depois – o veterano Millesi, por sua vez, pegou gancho de cinco anos, se aposentou e, em março deste ano, foi condenado a um ano de cadeia. Na esfera penal, o jogador do Genoa aguarda julgamento pelo delito de colaboração com organização mafiosa.

De Scampia à manipulação de partidas: Izzo e as relações com a Camorra (Getty)

Embora os acontecimentos que envolvam jogadores de prestígio chamem mais atenção, nenhum caso foi mais pesado do que o que atingiu a família Montani. Uma série de eventos chocantes, que fazem acusações (rebatidas) como o suposto comprometimento do lateral esquerdo Francesco Modesto (ex-Reggina, Genoa, Parma e Crotone) com as atividades de agiotagem de seu sogro, ligado à ‘Ndrangheta, parecerem absolutamente banais. No seio do clã afiliado à apuliana Sacra Corona Unita, parceira dos calabreses, cresceu o atacante Giovanni Montani. Ele chegou à equipe juvenil do Bari, mas antes mesmo de se profissionalizar, foi assassinado, em outubro de 2006.

Giovanni era sobrinho do chefão Andrea Montani, o Malagnac, que estava preso na época de seu assassinato – foi solto apenas em 2016, após 30 anos encarcerado. O atacante foi criado lado a lado com o primo Salvatore, de quem era muito próximo. Embora tivesse familiaridade com criminosos, o jovem jogador nunca se envolveu com os negócios do clã. Mesmo assim, teve sua vida interrompida muito cedo por causa de suas origens.

Em um dia de junho de 2006, ele e o primo foram a um pet shop com a intenção de comprar um cachorro. O filho do criminoso quis um desconto especial para a família Montani e discutiu com o comerciante, que, cansado de pagar o pizzo, respondeu com disparos de arma de fogo. Salvatore foi ferido de morte e Giovanni saiu correndo da loja para sobreviver. Seu salvo-conduto durou apenas três meses, já que ele acabou emboscado nas vielas do bairro San Paolo, na periferia da cidade.

O motivo? Teria se acovardado e precisaria ser punido por não ter defendido a honra da família, num clássico exemplo do significado de omertà. Gaetano Capodiferro, que também era primo de Salvatore (mas por outro lado da família) foi acusado do assassinato juntamente com um comparsa, mas ambos acabaram inocentados. Até hoje o crime não foi solucionado.

Embora os casos de jogadores que têm relações parentais com mafiosos e/ou que de alguma forma colaboraram com o crime organizado ganhem muita repercussão, a grande maioria dos vínculos entre estes dois mundos passa praticamente despercebido. Frequentemente, ultras ligados ao gangsterismo pressionam atletas por benesses, alternando abraços amigáveis e gestos intimidatórios. Por segurança, os futebolistas costumam se ver obrigados a ceder às intimidações e doam ingressos ou outros pequenos agrados. Muitas vezes, jogadores também frequentam e convivem com os fora da lei, como Maradona fazia – mas sem a mesma repercussão, já que nem todos têm o mesmo apelo midiático que o Pibe de Oro.

Pepe Reina, José Callejón, Christian Maggio, Gonzalo Higuaín e os irmãos Fabio e Paolo Cannavaro (os três últimos, quando estavam no Napoli) já foram vistos juntamente a criminosos e até planejavam viagem a Ibiza com um grupo que agia em conluio com a Camorra – o atacante até passou férias no iate de um deles. Em meados dos anos 2000, Marco Materazzi, Zlatan Ibrahimovic, Javier Zanetti, Sinisa Mihajlovic e Roberto Mancini tiveram um alfaiate que também já havia sido preso por envolvimento com a máfia e por tráfico de drogas – ele era amigo de Alessandro Altobelli, estrela da Inter nos anos 1970 e 1980. Vários outros casos poderiam ser citados e fotos de jogadores com gângsters poderiam ser mostradas, mas em todas estas situações parece improvável que os esportistas tivessem conhecimento da ficha criminal de seus interlocutores.

Miccoli chora em coletiva e diz que não sabia que amigo era mafioso (Repubblica)

Salvatore Aronica, que já foi acusado de manipulação de resultados num caso arquivado por prescrição e teve carreira construída principalmente em times do sul do país (Messina e Palermo, Sicília; Crotone e Reggina, Calábria; e Napoli, Campânia) também alegou desconhecimento sobre a vida criminal de Luigi Bonaventura, mafioso da ‘Ndrangheta citado no primeiro capítulo. O problema é que o ex-defensor siciliano foi fotografado no casamento do capo, para menos de 200 convidados. “Duzentos convidados não são nada para um casamento da ‘Ndrangheta. Você não tem ideia de quantas pessoas eu deixei de fora. Aronica era o único jogador presente”, declarou Bonaventura. Aronica rebateu, dizendo que foi ao evento por se tratar do matrimônio do primo do presidente (no caso, Raffaele Vrenna, do Crotone). “Como eu poderia saber?”, ironizou.

Em delação e em entrevista à Rai, Bonaventura também acusou Aronica de ter tido a carreira privilegiada por sua proximidade aos clãs e de ter atuado como preposto da máfia: “dá-se um jeito de fazer esses jogadores atuarem em times de cidades distantes, para que se possa ter um referencial por lá e seja possível alcançar realidades que, de outra maneira, seria impossível contatar”, declarou. O gângster disse ainda que o ex-jogador era pupilo do clã Vitale, de Palermo (cujos expoentes haviam sido seus colegas de cadeia), e que a Camorra havia o acolhido de braços abertos quando ele se transferiu para o Napoli. Assim como as acusações feitas a Vrenna, os depoimentos sobre Aronica não renderam novas investigações pela justiça italiana.

Colega de Aronica no Palermo, Fabrizio Miccoli não teve a mesma sorte. Em 2013, o ídolo rosanero foi flagrado pela justiça em atividades suspeitas com pessoas ligadas à Cosa Nostra: Giacomo Pampillonia e, principalmente, Mauro Lauricella, filho de um boss palermitano. O atacante, que se aposentou em 2015, alegou que não sabia do background dos amigos, o que foi posto em xeque por ligações e mensagens de SMS interceptadas.

Em um dos vazamentos, Miccoli xingava um dos principais combatentes da máfia – o juiz Giovanni Falcone, morto num atentado em 1992. Depois disso, o jogador, apelidado como Romário do Salento, perdeu a cidadania honorária de Corleone: se debulhando em lágrimas, o baixinho teve que pedir desculpas públicas pelo que falou.

O inquérito buscou provas sobre a possibilidade de o craque servir como ponte entre Lauricella e Francesco Guttadauro, neto de Matteo Messina Denaro. Nada se provou em relação a este pormenor, mas Miccoli foi processado por ter feito algo que é comum na Itália: pedir a caras durões (muitas vezes envolvidos com a vida do crime) para conseguir recuperar bens ou resolver algum problema. Miccoli queria que o dono de uma boate devolvesse 12 mil euros a um fisioterapeuta do Palermo e pediu que Lauricella resolvesse isto para ele.

Em depoimento, o ex-capitão do Palermo admitiu que era muito próximo do filho do capo e afirmou que apenas teria comentado sobre o assunto com ele porque Lauricella era “profundo conhecedor da noite”. As investigações concluíram que a cria do mafioso recebeu uma comissão pelo “favor” e que Miccoli havia feito a entrega do dinheiro do suposto empréstimo ao amigo fisioterapeuta – por isso, o caso foi enquadrado como tentativa de extorsão.

Enquanto Miccoli foi condenado na primeira instância, em outubro de 2017, a três anos e seis meses de prisão, com agravante de associação mafiosa, Lauricella foi absolvido. A defesa do atacante alegou que a aparente incoerência na decisão do júri apenas ratifica a inocência de seu cliente e entrou com recurso. Miccoli aguarda em liberdade.

Ao mesmo tempo em que o ex-jogador do Palermo era investigado, outras pessoas ligadas ao esporte e ao showbiz foram acabaram aparecendo em outras interceptações autorizadas pela justiça e eram suspeitas de se servirem de expedientes semelhantes aos registrados entre Miccoli e Lauricella. Nenhuma destas personalidades, porém, foi incluída em processos na esfera criminal.

Giovanni De Carlo, um dos contatos de Sculli com a Mafia Capitale, teve conversas grampeadas com as namoradas de Mattia Destro e Blerim Dzemaili e com Daniele De Rossi. De Carlo também teve contatos telefônicos registrados com Belén Rodríguez, modelo e apresentadora argentina radicada na Itália. Amiga do lutador, ela é ex-namorada de dois personagens já citados aqui: Marco Borriello e Fabrizio Corona.

A interceptação telefônica que chamou mais atenção foi a que envolvia o atual capitão romanista. De Rossi queria a ajuda do conhecido para resolver uma discussão em que Mehdi Benatia, então companheiro de time, havia se envolvido numa boate de Roma. De Carlo, campeão de kickboxing, estava no mesmo local, mas só retornou a chamada depois de o quiprocó ter se resolvido.

O hábito e a forma corriqueira como estas trocas de favores acontecem deixa claro como os italianos interpretam alguns elementos de sua sociedade. São uma prova de que, assim como no Brasil, prescindir da lei para resolver problemas em favor próprio é uma forma de burlar um sistema de leis frágeis, no qual imperam a burocracia, a impunidade e a prescrição. Desta forma, a ilegalidade mantém sua força em todos os estratos da coletividade e a máfia continua ocupando seu lugar de poder paralelo, muitas vezes mais forte, decisivo, arraigado e organizado que o estabelecido pela constituição da república.

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