Brasileiros no calcio

O brasileiro André Cruz ganhou a torcida do Napoli com sua canhota calibrada

Técnica refinada, ótimo tempo de bola e, sobretudo, precisão nas cobranças de falta. Essas são algumas das qualidades do zagueiro brasileiro André Cruz, que defendeu Napoli, Milan e Torino na Itália. Durante os cinco anos que permaneceu no Belpaese, o defensor sul-americano ganhou notoriedade principalmente pelo time napolitano.

Criado nas divisões de base da Ponte Preta, Cruz chegou ao profissional da equipe alvinegra em 1987, quando tinha apenas 19 anos. O garoto de Piracicaba, no interior de São Paulo, surgia no futebol brasileiro como um talento a ser lapidado. Não à toa jogou por todas as categorias de base da seleção canarinho. Usando verde e amarelo, foi campeão dos Jogos Pan-Americanos (1987) e prata nos Jogos Olímpicos de Seul (1988).

As primeiras aparições pela seleção brasileira principal vieram em 1989. Depois de ajudar o escrete a ganhar a Copa América daquele ano, Cruz foi protagonista em um amistoso do Brasil contra a Itália, em outubro, no Renato Dall’Ara, em Bologna. O zagueiro canhoto cobrou uma falta no capricho, colocando a bola no ângulo direito do goleiro Walter Zenga.

O golaço do defensor pela seleção brasileira o colocou na rota do Vasco, mas o Flamengo agiu rápido e “chapelou” o rival, anunciando sua contratação junto com a de Bebeto. Após um título da Copa do Brasil, 26 jogos e cinco gols pelo clube rubro-negro, Cruz arrumou as malas e se mudou para a Bélgica. O próximo destino do atleta seria o Standard de Liège.

Cruz não demorou a assumir a titularidade no time e cativar a torcida. Permaneceu quatro temporadas na agremiação da região da Valônia, conquistou a torcida e levantou a taça da Copa da Bélgica (1993). Assim, o zagueiro ficou esperançoso em disputar a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, mas o treinador do Brasil à época, Carlos Alberto Parreira, o deixou de fora. Após a decepção, chegou também o momento de mudar de país.

André Cruz se tornou um dos líderes do elenco do Napoli, junto ao goleiro Giuseppe Taglialatela (Wikipedia)

Foi então que o Napoli entrou em cena. O sul-americano assinou contrato com os partenopei em 1994 e se consolidou como um dos melhores defensores brasileiros em atividade no futebol italiano. Não por acaso encerrou seu primeiro ano na equipe azzurra com incríveis sete gols em 39 partidas, sendo o terceiro maior goleador de uma equipe que foi sétima colocada da Serie A e que caiu nas quartas de final da Coppa Italia e nas oitavas da Copa Uefa.

Na temporada seguinte, André Cruz procurou manter a regularidade, ainda que tenha marcado dois gols contras e perdido alguns jogos devido a lesões. O zagueiro, no entanto, não se abateu e terminou a campanha em alta, voltando à seleção para ir à final da Copa América. No entanto, os brasileiros deixaram o troféu escapar na decisão diante do Uruguai – derrota por 5 a 3 nos pênaltis.

Cruz deu a volta por cima na temporada 1996-97, quando foi testado pelo técnico Luigi Simoni como meio-campista, por sua capacidade de apoiar o setor ofensivo. Naquela época, o brasileiro reencontrou o caminho das redes (marcou seis gols) e os partenopei perderam a final da Coppa Italia para o Vicenza.

Ao fim da temporada, Cruz pediu uma quantia em dinheiro equivalente a 2,5 bilhões de liras anuais para poder renovar contrato com o Napoli. Entretanto, como o clube estava enrascado em uma crise econômica que se arrastava há anos, a diretoria napolitana o vendeu ao Milan, que teve de bater a concorrência da rival Internazionale.

O comandante dos rossoneri à época, Fabio Capello, teve papel fundamental na contratação do beque, uma vez que ele buscava a contratação do zagueiro desde os tempos de treinador do Real Madrid. Assim, André Cruz chegou a Milanello após 101 jogos e 14 gols com a camisa do Napoli.

André Cruz jogou pouco pelo Milan, mas foi convocado para a Copa do Mundo enquanto vestiu rubro-negro (Getty)

Com as cores vermelha e preta, o jogador não fez uma grande temporada 1997-98, reflexo do mau momento do time milanês como um todo. O Milan acabou ficando apenas na 10ª posição da Serie A, mas foi vice-campeão da Coppa Italia. Em 14 partidas pela equipe, Cruz marcou apenas dois gols, mas foram tentos de grande relevância – e curiosamente, na mesma semana.

O brasileiro inaugurou a contagem com sua especialidade: a bola parada. André Cruz cobrou pênalti decisivo para decretar a vitória do Milan na partida de volta das oitavas de final da copa contra a Sampdoria. Três dias depois, em um Derby della Madonnina jogado em 22 de novembro de 1997, o Diavolo perderia para a Inter não fosse a penalidade que o brasileiro converteu faltando dez minutos para o fim do duelo.

Apesar de não ter feito uma temporada tão boa quanto as realizadas nos tempos de Napoli, Cruz acabou sendo o escolhido de Mário Jorge Lobo Zagallo para substituir o tetracampeão Márcio Santos, cortado por lesão. Contudo, viu o Mundial do banco de reservas, sem entrar em campo. Depois da Copa do Mundo de 1998, não voltou a ser convocado.

Na segunda e última temporada pelo Milan, o beque perdeu espaço com a chegada de Alberto Zaccheroni, sucessor de Capello, e acertou seu retorno por empréstimo ao Standard de Liège. De fevereiro a junho de 1999, pisou no campo de jogo dez vezes e anotou um tento. Quando o compromisso com os belgas terminou, o brasileiro foi negociado com o Torino. André Cruz, no entanto, teve uma passagem rápida e discreta pelo Toro, com 14 partidas e um gol marcado. Em janeiro de 2000, se mudou para Portugal.

O defensor firmou vínculo com o Sporting de Lisboa e presenciou a evolução de Cristiano Ronaldo, Ricardo Quaresma e Hugo Viana. Aliás, Cruz revelou, em entrevista concedida ao UOL Esporte em agosto de 2016, que chegou a indicar a contratação de CR7 ao diretor esportivo do Milan à época, Ariedo Braida. “Eu acabei ligando e falando: ‘Aqui tem três jogadores bons: o Hugo Viana, um meia canhoto, o Quaresma, um atacante que joga pelo lado direito, tem boa movimentação e é muito rápido…’, mas eu falei: ‘Tem um aqui que é um fenômeno, que é o Cristiano’, e ainda falei: ‘Esse cara lembra o Ronaldo quando era novinho, magrinho… Se você olhar rapidamente lembra, até fisicamente'”, disse.

Vapt-vupt: a onomatopeia define a passagem de Cruz pelo Torino (Getty)

No time de Lisboa, Cruz fez parte da campanha que culminou em dois títulos do Campeonato Português, uma Copa de Portugal e uma Supercopa lusitana. O Sporting é o segundo clube pelo qual o zagueiro disputou mais jogos: 105. Perde apenas para o Standard Liège, pelo qual atuou em 117 partidas.

Com 34 anos nas costas, o zagueiro retornou ao Brasil em 2002 para defender o Goiás, e figurou no elenco campeão goiano. André acertou com o Internacional no ano seguinte, ajudando na conquista do Campeonato Gaúcho, e voltou ao Goiás, em 2004, para se aposentar. O destino poderia ter sido diferente, já que o Napoli, que na época estava jogando a terceira divisão italiana, estava interessando em contratá-lo. No entanto, as duas partes não entraram em acordo e o atleta resolveu parar de vez.

Depois de pendurar as chuteiras, o ídolo partenopeo abriu uma escolinha de futebol em Campinas, a Chuteira de Ouro, que serve como ponte para grandes times do futebol brasileiro.

André Alves da Cruz
Nascimento: 20 de setembro de 1968, em Piracicaba, São Paulo
Posição: zagueiro
Clubes: Ponte Preta (1987-89), Flamengo (1990), Standard de Liège (1990-94 e 1999), Napoli (1994-97), Milan (1997-99), Torino (1999), Sporting (2000-02), Goiás (2002 e 2004) e Internacional (2003)
Títulos conquistados: Jogos Pan-Americanos (1987), Prata Olímpica (1988), Copa América (1989), Copa do Brasil (1990), Copa da Bélgica (1993), Serie A (1999), Campeonato Português (2000 e 2002), Supercopa de Portugal (2002), Copa de Portugal (2002), Campeonato Goiano (2002) e Campeonato Gaúcho (2003)
Seleção brasileira: 33 jogos e um gol

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