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Franco Scoglio levou cinco ‘fenômenos’ tunisianos para o Genoa: deu certo?

Cerca de 900 quilômetros separam Gênova do ponto mais ao norte do território da Tunísia. O trajeto pode ser feito de avião ou de ferry, numa linda viagem pelo Mar Mediterrâneo. No início dos anos 2000, essa distância ficou menor por causa de Franco Scoglio, que deixou o comando da seleção tunisiana para assumir o Genoa, naquele que seria sua terceira passagem pelo time de coração. O objetivo era um só: evitar uma nova queda, dessa vez para a Serie C.

Para entender a ligação da Tunísia com os grifoni, primeiramente, é preciso falar sobre Scoglio. “Il Professore”, como era conhecido, foi um jogador sem qualquer destaque, que pendurou as chuteiras para se dedicar à carreira de treinador aos 30 anos. O siciliano rodou por equipes do das divisões inferiores – até mesmo no extinto campeonato Interregionale, correspondente à quarta divisão – e ficou mais marcado pelos trabalhos à frente de Reggina e Messina. O sucesso, sobretudo no segundo dos times, que levou até a Serie B, o alçou ao Genoa, que militava na segundona em 1988. Em seu primeiro ano no tradicional clube genovês, conquistou a competição e colocou o clube na elite após cinco temporadas.

Demitido ao final da Serie A, o treinador dirigiu outras equipes no Belpaese e teve outra passagem pelo Genoa em 1994-95, até assumir a seleção da Tunísia após a Copa do Mundo de 1998. Em terras africanas, levou as Águias de Cartago ao quarto lugar na Copa Africana de Nações, em 2000, e formou o time que disputaria o Mundial de 2002.

No entanto, Scoglio abriu mão do sonho de disputar o torneio para retornar ao time pelo qual nutre uma grande paixão. Não queria vê-lo caindo para a terceira divisão. “Só retornaria à Itália se o Genoa me chamasse. Aceitaria um convite desses até mesmo na Serie C2”, declarou, no momento em que acertara o contrato.

Genioso e visionário da bola, Scoglio chegou ao Marassi com uma condição: a de escolher os seus jogadores. E foi assim que trouxe consigo cinco peças importantes da seleção da Tunísia, que havia acabado de deixar. Foram contratados, então, o goleiro Chokri El Ouaer, o zagueiro Khaled Badra e os meias Raouf Bouzaiene, Imed Mhadhebi e Hassen Gabsi. Cinco fenômenos, segundo o treinador.

Scoglio tinha moral em Gênova por ter comandado o clube com sucesso em outras duas ocasiões (Calcioweb)

El Ouaer foi definido como um dos melhores goleiros do mundo, mas aos 35 anos, havia jogado apenas no Espérance, da Tunísia. Seria o primeiro tunisiano a ser titular de um time italiano – algo que apenas uma figura pitoresca como Scoglio poderia produzir. O arqueiro, titular na Copa de 1998, fez boas apresentações no começo de sua trajetória na Lanterna e foi até protagonista num dérbi contra a Sampdoria, mas logo mostrou que não passava de um jogador inseguro.

Em um jogo contra o Vicenza, sofreu dois gols num espaço de três minutos. Foi defendido por Scoglio, mas perdeu a titularidade. Acabou contabilizando apenas cinco jogos com a camisa rossoblù, e deixou o Marassi no início de janeiro de 2002. Na ocasião, reconheceu alguns erros, mas disparou contra a imprensa local. “Havia preconceito contra mim. É preciso julgar um atleta pela sua qualidade, e não por sua nacionalidade. Para eles, meus erros valiam o dobro”, disse.

Badra, para Scoglio, era um jogador de classe e técnica, como Franco Baresi (!). O defensor que jogava no futebol turco, no Denizlispor, também havia disputado o Mundial de 1998 e chegou com fama de zagueiro artilheiro.

Segundo o próprio tunisiano, gostava de jogar com a bola no pé e avançar para o ataque, já que era capaz de invadir a defesa adversária por cima ou por baixo. No entanto, essa realidade não foi vista em Gênova. Badra deixou o clube sem marcar um gol e sem deixar saudades: fez apenas 16 jogos com o Grifone antes de retornar à terra natal, também em janeiro.

Bouzaiene tinha 30 anos e uma vasta experiência no futebol francês, mesmo que em clubes de pouca representatividade – Laval e Châteauroux. Versátil, havia começado a carreira como ponta esquerda, mas depois foi recuando e se firmou como lateral ou ala canhoto.

Entre os tunisianos, foi quem mais permaneceu no Genoa: foram 47 jogos em dois anos de clube. No período, chegou a disputar a Copa de 2002 e, de falta, marcou o único gol da Tunísia na competição. De volta ao Genoa, foi considerado como um dos grandes responsáveis pelo rebaixamento do time para a terceirona, em 2003.

Mhadhebi, por sua vez, era um meio-campista de grande resistência – a “versão tunisiana de Jean Tigana”, dizia-se. Da leva norte-africana, também ficou até 2003 e até chegou a marcar quatro gols pela Serie B, mas sem nem de longe empolgar os torcedores. Também foi dispensado do clube após o rebaixamento à terceira divisão – embora o clube tenha permanecido na segunda divisão graças ao Caso Catania, que rebaixou o clube da Sicília por ilícito esportivo.

Por fim, Gabsi. O mais talentoso do quinteto foi chamado por Scoglio de “Angelo Di Livio africano”. Esperava-se muito do meia, que até começou bem, mas caiu de rendimento juntamente com o restante da equipe. Originalmente um “camisa 10”, Gabsi atuava mais recuado na Itália e nunca conseguiu organizar de verdade o time. Uma lesão nos ligamentos do joelho, na temporada seguinte, praticamente pôs fim à sua trajetória: com a queda do Genoa, retornou ao país africano e, em 2004, se aposentou, com apenas 30 anos.

Franco Scoglio saiu antes da maioria deles: no fim de 2001, entregou sua carta de demissão. Pouco depois, aceitou uma proposta da seleção da Líbia e voltou para sua querida África. Idolatrado pelo lado azul e vermelho de Gênova, nutriu, por anos, uma desavença com o presidente Enrico Preziosi, que adquiriu o Genoa em 2003 e o salvou da bancarrote. Foi em uma discussão ao vivo entre os dois, em um programa de televisão, que Scoglio teve um mal súbito e faleceu. “Morrerei falando do Genoa”, havia profetizado a um amigo, dias antes.

A idolatria a Scoglio ainda é vívida, principalmente na torcida genoana, mas também em Messina: a cidade siciliana, na qual Franco foi criado, eternizou o nome do treinador no estádio local. Por outro lado, o legado de jogadores do país africano não perpetuou no Genoa. Desde a partida do famoso quinteto, apenas um tunisiano vestiu a camisa do Grifone: Selim Ben Djemia, que chegou em 2008, mas nunca foi escalado em uma partida sequer e só girou por empréstimo, sem nunca se destacar.

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