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Gianni Brera, o primeiro jornalista a abordar aspectos táticos no futebol italiano

Os times italianos são conhecidos historicamente pela disciplina tática em campo. São corriqueiros os casos de jogadores que sucumbiram no Belpaese por não conseguirem se adaptar à selva estratégica da Serie A – o brasileiro Gabriel Barbosa, o Gabigol, e o português André Silva são os exemplos mais recentes. Inúmeros treinadores contribuíram para a perpetuação deste símbolo, mas houve um jornalista esportivo com papel fundamental em disseminar o assunto ao público do futebol. Trata-se de Gianni Brera.

Morto em 19 de dezembro de 1992, aos 73 anos, devido a um acidente automobilístico, Brera foi um renomado diretor do jornal milanês Gazzetta dello Sport – o mais jovem a ocupar o cargo – e deixou um legado imenso para o jornalismo esportivo. O italiano, oriundo da região da Lombardia, implantou novas palavras no vocabulário futebolístico: os termos centrocampista e libero, por exemplo, foram cunhados por ele. Além disso, se tornou o pioneiro a destacar na imprensa assuntos sobre tática no jogo.

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Adepto de futebol defensivo e contra-ataques, Brera defendia a tese de que uma partida sem gols era o ápice das defesas, uma vez que elas tinham sido capazes de anular os ataques. Para ele, o defensor Giacinto Facchetti, bicampeão europeu com a Internazionale nos anos 1960, era o protótipo do jogador italiano perfeito, porque se entregava até a morte na defesa e ainda esbanjava vitalidade para aparecer no ataque e marcar.

Oriundo de San Zenone al Po, uma pequena cidade a 60 quilômetros de Milão, Brera se dizia torcedor do Genoa para manter a imparcialidade em suas análises sobre Inter e Milan. Quando o time rossonero de Nereo Rocco conquistou a Copa dos Campeões (atual Liga dos Campeões), o jornalista alçou o clube à posição de lenda. Ele foi o primeiro na imprensa a exaltar o catenaccio, cujo precursor foi Giuseppe Viani. Depois de sofrer um ataque cardíaco e aposentar o boné, Viani indicou Rocco para substituí-lo e assumiu o cargo de diretor esportivo do clube.

O livro “Noites Europeias”, recém-lançado no Brasil pela editora Corner, conta um pouco sobre a relação de Brera com Rocco. Segundo a obra, redigida por Miguel Lourenço Pereira e João Nuno Coelho, a grande amizade dos dois era “cultivada com jantares regulares nos melhores restaurantes da cidade, onde discutiam táticas noites adentro”. Assim, Brera deu início à popularização do estudo de sistemas de jogo e à fomentação do debate acerca do tema.

Rocco e Brera se reuniam em restaurantes para falar sobre tática no futebol (The Gentleman Ultra)

Se o jornalista era bem próximo de Rocco, o mesmo não acontecia com Helenio Herrera, técnico que levou a Inter à conquista de duas Copas dos Campeões seguidas, em 1964 e 1965. De acordo com “Noites Europeias”, a relação de Brera com Herrera “sempre foi distante”. No entanto, ambos compartilhavam a mesma ideia quanto à liberdade em campo do ex-meio-campista italiano Gianni Rivera.

Rivera era uma peça essencial no Milan de Rocco. Dono de vasto conhecimento tático e habilidade individual, o ex-jogador dispunha de muita liberdade dentro do modelo de jogo da equipe rossonera. Assim, podia flutuar pelo campo de jogo sem muitas obrigações defensivas e gerar mais dano aos adversários.

Contudo, a autonomia que Rivera tinha dentro das quatro linhas ia contra aos princípios de Brera e Herrera, ambos apoiadores ferrenhos do catenaccio. “Para Helenio Herrera, a figura de Rivera livre pelo campo era algo que ele não podia suportar. Apesar de contar, na sua formação, com um jogador de igual calibre, Sandro Mazzola, filho da grande estrela do Torino da década de 1940, o técnico argentino sempre exigia uma disciplina tática absoluta”, relatam os autores de “Noites Europeias”.

No fim da década de 1980, o icônico Arrigo Sacchi chegara a Milão para revolucionar o esporte e se tornar um calo no sapato de Brera. “Hater” do futebol ofensivo, o jornalista viu o treinador implementar no Milan o “futebol total” holandês e ganhar tudo o que disputara. Antítese do catenaccio, o estilo de jogo imponente dos rossoneri à época trouxe incômodo a Brera, como o próprio Sacchi confessou em sua bibliografia, “Calcio Totale”, lançada em 2015.

“Minha chegada em Milão foi, como sempre, difícil. O impacto com a equipe foi disruptivo; houve desconfiança, mas não a prevenção. Eu disse coisas diferentes sobre o futebol, sobre a mentalidade a ter em campo, sobre a programação dos treinos. Na Itália, eles queimaram Giordano Bruno. Eu era visto como um herege. O ambiente do futebol e uma parte dos jornalistas me consideravam um subversivo, um diferente, um adversário, porque coloquei em crise a sua liderança e seu o papel como detentores de conhecimentos antiquados, velhos, enquanto os jovens e os menos conservadores me olhavam com interesse”, contou o ex-comandante.

Quando Sacchi encerrou sua primeira passagem pelo Milan, em 1991, Brera teria pouco mais de um ano de vida pela frente. Um jornalista que tinha a tática no futebol como sua paixão. Sempre crítico, sempre indagador, atrás de explicações sobre aplicabilidades estratégicas em campo. Nunca parcial, embora não gostasse do futebol ofensivo. Um Nelson Rodrigues à italiana.

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