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Ferdinand Coly foi membro da seleção senegalesa de 2002 e teve carreira modesta na Itália

Não é novidade para ninguém que o futebol é um mecanismo de transformação de vidas e trajetórias. O legal é que nenhuma narrativa de superação é igual à outra: cada uma tem seus desafios e peculiaridades, cada acontecimento que dá um novo sentido à existência tem a sua graça. No elenco da seleção de Senegal que disputou a Copa do Mundo em 2002 as histórias eram muitas: havia atletas semiprofissionais, alguns com carreiras modestas e outros que só ganhariam destaque após a competição. Um deles era o lateral direito Ferdinand Coly.

Coly nasceu em Dakar, capital senegalesa, mas aos sete anos de idade se mudou com a família para a França, que havia colonizado o seu país. As oportunidades na antiga metrópole surgiram: o jovem Ferdinand jogava pelo minúsculo Libourne e, ao mesmo tempo, estudava para se tornar contabilista. Ele concluiu o curso superior e ia ingressar na faculdade de psicologia, mas mudou de planos quando o Poitiers, seu segundo clube, foi disputar a terceirona local.

Galgando degraus, Coly chegou ao Châteauroux, na segunda divisão, e logo em seu debute ajudou a equipe a alcançar a Ligue 1 pela única vez em sua história, em 1997-98. O lateral direito chamou a atenção e, um ano depois, reforçou o Lens, um dos clubes mais tradicionais do futebol francês. Em três temporadas e meia pelos sang et or, o senegalês teve maior destaque em 2001-02, na campanha do vice-campeonato local: o vencedor foi o histórico Lyon de Juninho.

Depois de quase fazer levantar a taça na França, o lateral direito fez história por Senegal. Os Leões de Teranga já haviam alcançado seu melhor resultado na Copa Africana de Nações, com o vice-campeonato obtido em fevereiro de 2002, e surpreenderam o planeta em sua primeira participação num Mundial. No jogo de abertura da competição, os senegaleses venceram a França por 1 a 0 e encaminharam a classificação ao mata-mata. A equipe africana ainda eliminou a Suécia nas oitavas de final e só caiu nas quartas, diante da Turquia, com um gol na morte súbita.

Ferdinand Coly continuou no Lens após a Copa, mas em janeiro de 2003 foi emprestado ao Birmingham, clube em que mal entrou em campo. Foi aí que o jogador aportou na Itália. O lateral direito foi o único jogador do grupo que disputou o Mundial a ter feito carreira no país. O meia ofensivo Khalilou Fadiga, camisa 10 da seleção, até assinou com a Inter, mas não pode jogar porque foi diagnosticado com problemas cardíacos.

Coly, por sua vez, estava com a saúde em dia e reforçou o Perugia do excêntrico Luciano Gaucci. No início do século, o cartola romano fez algumas contratações de jogadores de países com pouca expressão no futebol: algumas tinham perfil mais midiático, como a do japonês Hidetoshi Nakata e a do sul-coreano Ahn Jung-hwan, mas outras eram fruto de contatos nestes mercados menos relevantes. Ferdinand, por exemplo, teve colegas de países como Mali, Austrália, Líbia, Grécia, Romênia e Marrocos.

O primeiro clube de Coly na Itália foi o excêntrico Perugia (Getty)

Um dos seus companheiros era Zé Maria, ídolo do Perugia e titular da equipe. O brasileiro acabou tirando todo o espaço de Coly, que era seu reserva. O senegalês não foi inscrito na Intertoto e na Copa Uefa, além de não ter recebido muitas oportunidades na Serie A 2003-04: fez apenas 11 partidas, nas quais totalizou 799 minutos. A equipe de Serse Cosmi acabaria a temporada rebaixada.

Zé Maria partiu para a Inter após a queda e Coly foi efetivado como titular na segundona. Sob as ordens de Stefano Colantuono, o lateral, já com 31 anos, fez 30 jogos na Serie B e ainda marcou dois gols na campanha que quase culminou no retorno à elite. Os umbros empataram com Empoli e Torino na liderança, com 74 pontos, mas tiveram de jogar os play-offs de acesso por causa de critérios de desempate. Os grifoni acabaram eliminados e, pior, decretaram falência. A bancarrota mandou a equipe para a Serie C1 e Coly acabou assinando a custo zero com o Parma, clube em que permaneceu por três anos.

Se o Perugia havia falido, a situação financeira parmense também era periclitante, graças ao crac da Parmalat. Em 2005-06, o Parma ainda tinha alguns bons nomes em seu elenco, como Daniele Bonera, Paolo Cannavaro, Fernando Couto, Fábio Simplício, Mark Bresciano, Domenico Morfeo, Bernardo Corradi e Marco Delvecchio. Surpreendentemente, a equipe conseguiu concluir o Campeonato Italiano na sétima posição e faturou uma vaga na Copa Uefa. Coly só participou de oito jogos nesta campanha.

Nos dois anos seguintes, o Parma perdeu muitos jogadores por causa de seus problemas financeiros e não conseguiu realizar uma reposição à altura em muitos setores – a bem da verdade, o elenco ficou bastante modesto. Para segurar a bronca na lateral direita, a diretoria dos ducali não foi ao mercado e confiou em Coly. O senegalês disputou 27 das 38 rodadas do campeonato e ainda entrou em campo sete vezes na Copa Uefa.

O Parma parecia destinado ao descenso, mas Giuseppe Rossi e o técnico Claudio Ranieri, contratados com a campanha em andamento, foram os grandes responsáveis pela salvação. A dupla tirou o time crociato da penúltima posição, em que se encontrava na metade do campeonato, e lhe deixou na 12ª posição, três pontos acima da zona da degola. Apesar do esforço, a queda gialloblù era inevitável e veio na temporada seguinte (2007-08). Coly jogou menos vezes – apenas 21 partidas – e não teve muitas condições de ajudar um time esfacelado técnica e financeiramente. O senegalês era voluntarioso, mas não fazia milagres.

Após o rebaixamento, o forte lateral africano até tinha alguma lenha para queimar, talvez em um time mais modesto, na própria Itália ou mesmo na França. No entanto, prestes a completar 35 anos, Coly decidiu que já havia chegado mais longe do que calculara nos tempos em que cursava contabilidade e disputava as divisões amadoras do futebol gaulês. Aposentado dos gramados, hoje o valente ex-defensor mora em Senegal e se dedica a atividades agrícolas.

Ferdinand Alexandre Coly
Nascimento: 10 de setembro de 1973, em Dakar, Senegal
Posição: lateral direito
Clubes: Libourne (1993-94), Poitiers (1994-96), Châteauroux (1996-99), Lens (1999-2003), Birmingham (2003), Perugia (2003-05) e Parma (2005-08)
Seleção senegalesa: 48 jogos

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