Brasileiros no calcio

Renegado no Brasil, Rodrigo Taddei evoluiu e se tornou importante no futebol italiano

Por Vitor Magalhães, do Drible da Vaca

O futebol brasileiro e o italiano possuem vínculos antigos e raízes profundas. Somos os únicos pentacampeões mundiais, enquanto a seleção da Itália foi a primeira depois da nossa a chegar ao tetracampeonato. Parecem sempre estar em nosso encalço. A imigração italiana no Brasil é o grande elo entre as culturas, que chega ao esporte. Desde antes da profissionalização dos atletas, descendentes de italianos deixam a América do Sul para atuar na Serie A. Uma história que se repete até os dias de hoje e da qual Rodrigo Taddei é um dos maiores símbolos.

Taddei foi criado no quintal dos seus avós, em um barraco na Brasilândia, na zona norte de São Paulo. Revelado pelo Palmeiras em 2000, ganhou uma certa antipatia do torcedor alviverde, devido a atuações instáveis – ainda que recebesse elogios de treinadores como Luiz Felipe Scolari e Vanderlei Luxemburgo. Os palmeirenses viviam tempos dourados, e estavam acostumados a ter jogadores que abrilhantavam o elenco: a parceria com a Parmalat enriquecia os cofres do time paulista.

Apesar de viver em constante provação, sob os olhares desconfiados dos torcedores, Taddei foi campeão do Torneio Rio-São Paulo e da Copa dos Campeões, título que garantiu vaga ao Palmeiras na Libertadores seguinte. A saída do clube paulista, em 2002, quase significou o fim da linha para o jogador: o atleta relatou, anos mais tarde, que ninguém da diretoria palmeirense entrou em contato consigo, sequer para falar se ele permaneceria integrado ao elenco ou se seria dispensado. Taddei treinou até o último dia do seu contrato sem ter uma perspectiva de futuro e nunca mais defendeu uma equipe brasileira.

Em setembro daquele ano, com a ajuda de um ex-treinador de futebol de salão que tivera, Taddei recebeu uma chance no Siena, da Itália, e começou a desenhar seu futuro no Belpaese. Aos 22 anos, assumiu a titularidade da equipe toscana e ainda marcou três gols na reta final da campanha do inédito acesso à elite do futebol italiano.

No Siena, Taddei foi um dos protagonistas ao lado de Enrico Chiesa (Ansa)

Horas após o título da Serie B, o jogador viveu um dos momentos mais difíceis da sua vida. Por volta das 6 da manhã do dia 8 de junho, Taddei e o irmão Leandro deixavam uma festa pela comemoração do acesso bianconero de carona com o atacante Pinga, quando um dos pneus do carro estourou, fazendo o veículo perder o controle e capotar várias vezes na autoestrada. Taddei ficou em coma por uma semana. Leandro, de 21 anos, faleceu no local do acidente.

A tragédia não tirou o foco de Rodrigo Taddei, que estreou na Serie A com o pé direito. Na primeira rodada, o brasileiro marcou o gol que decidiu o jogo contra o Perugia: o empate por 2 a 2 valeu ao Siena seu primeiro ponto na elite. Ao longo daquela temporada, o meia foi um dos principais jogadores da equipe, ao lado dos atacantes Enrico Chiesa e Tore André Flo. Com oito gols (incluindo dois numa vitória sobre a Lazio), Taddei foi fundamental para que o Siena conseguisse uma improvável permanência na primeira divisão.

Em 2004-05, Rodrigo optou por não renovar o contrato com o Siena e foi afastado do elenco principal dos toscanos pela maior parte do primeiro turno: Taddei só estreou na 14ª rodada da Serie A, depois que entrou com uma ação judicial por assédio moral e o clube decidiu ceder. Ainda assim, o meio-campista colaborou para mais uma salvezza e deixou a Toscana depois de disputar 76 partidas e marcar 14 gols.

O destino foi a capital do país. A Roma contratou um jogador com extremo potencial e força de vontade que havia sido renegado em seu próprio país. A definitiva retomada da carreira era também um renascimento do brasileiro, que passou a ser enxergado como um jogador importante no cenário europeu.

Rodrigo Taddei foi titular da Roma em um dos melhores momentos recentes da equipe (AS Roma)

Pela equipe da Cidade Eterna, que defendeu durante quase uma década, Taddei desempenhou diversas funções. O brasileiro atuava principalmente no meio, como volante ou meio-campista de chegada ao ataque, mas também aparecia vez por outra na lateral direita e foi utilizado até mesmo na zaga no fim da carreira. Se existe uma palavra que pode caracterizar o papel que o jogador executava dentro das quatro linhas, essa palavra é polivalência. Além de toda a relevância tática, Rodrigo também mostrou outros atributos desconhecidos pelos palmeirenses: este drible, repetido algumas vezes na passagem por Roma, é uma amostra disso.

Nos nove anos de Roma, Taddei também se caracterizou por um espírito de entrega muito acima da média, que o colocou como um dos ídolos da torcida nas duas primeiras décadas dos anos 2000. Pela versatilidade e pela dedicação, o brasileiro se tornou um dos jogadores mais utilizados por Luciano Spalletti entre 2005 e 2009. Em 2005-06, inclusive, o meia atuou em todas as rodadas do Campeonato Italiano – e ainda anotou oito gols.

Taddei disputou 296 jogos e marcou 30 gols pelo clube da capital. Enquanto ficou na Roma, o brasileiro foi campeão de uma Supercopa Italiana, faturou por duas vezes a Coppa Italia e também foi três vezes vice-campeão nacional – também foi segundo colocado em outros oito torneios. Em 2013-14, última temporada na Cidade Eterna, atuou como regista do time de Rudi Garcia e foi homenageado pela torcida na partida de despedida.

Sem vínculo com qualquer clube, o brasileiro assinou com o Perugia, então na Serie B. Na época, a mídia italiana especulou que a Fiorentina havia feito uma proposta, prontamente não aceita por Taddei: o atleta teria optado por defender a equipe da segunda divisão para não precisar jogar contra a Roma. Mais uma vez, seria exemplo de fidelidade e gratidão ao clube que lhe deu os melhores anos de sua vida profissional. Rodrigo ficou dois anos na Úmbria e, no primeiro deles, por pouco não devolveu os peruginos à elite – a equipe foi eliminada nos play-offs de acesso.

O último clube do brasileiro foi o Perugia, na segundona (LaPresse)

Em julho de 2016, Taddei rescindiu o contrato com o Perugia um ano antes do previsto. Desde então, o brasileiro nunca mais atuou profissionalmente, mas também não anunciou aposentadoria. Rodrigo afirmou em uma entrevista no fim de 2017 que pretendia voltar a jogar e que sonhava em atuar no futebol dos Estados Unidos, mas nada foi concretizado. Atualmente com 38 anos, Taddei tratou uma lesão na panturrilha no CT do Corinthians em março de 2018 e, de vez em quando, aparece como comentarista em programas de TV.

Taddei nunca defendeu a seleção brasileira, mas ficou perto de atuar pela italiana. Em sua melhor fase pela Roma, entre 2005 e 2007, chegou a ser sondado, mas não quis tirar o lugar de um italiano nato. Rodrigo também declarou algumas vezes que tinha o sonho de representar o Brasil: acreditava na possibilidade de uma convocação, que nunca veio, para estabelecer uma nova ligação com o país que, de certa forma, o renegou. Afinal, no fundo do seu coração, o Brasil ainda era a sua pátria.

O que Taddei de fato representa para o futebol não está gravado em títulos ou assustadoras marcas individuais. O grande legado que o brasileiro deixa é o da insistência, do trabalho duro e o dos resultados que podem aparecer da confiança naqueles que podem não se encaixar em certos padrões, mas perseveram para achar o seu lugar. De forma torta, o meia fez valer o ensinamento bíblico de exaltação aos humilhados. Que o digam os bianconeri e os romanistas.

Rodrigo Ferrante Taddei
Nascimento: 6 de março de 1980, em São Paulo
Posição: meio-campista
Clubes: Palmeiras (2000-2002), Siena (2002-05), Roma (2005-14) e Perugia (2014-16)
Títulos: Copa dos Campeões (2000), Torneio Rio-São Paulo (2000), Serie B (2003), Coppa Italia (2007 e 2008) e Supercopa Italiana (2007)

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