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Itália vibra mais com Cristiano do que com Ronaldo

A contratação de Cristiano Ronaldo pela Juventus, anunciada nesta terça (10), é a maior de um clube italiano desde o anúncio de Ronaldo, o Fenômeno, pela Inter, em 1997. Fato. A notícia foi uma das mais comentadas do esporte ao redor do globo mesmo em dia de semifinal de Copa do Mundo e foi trending topic nas principais redes sociais. Pois é fato também que a chegada de CR7 à Itália neste momento é ainda mais importante para o futebol da Bota do que foi a de R9 há 21 anos.

Se a negociação do Fenômeno, no final dos anos 1990, apenas reforçava o protagonismo do futebol italiano daquela época, que já tinha craques globais, como Zidane, Batistuta, Nedved, Kluivert, Cafu, Thuram, Weah, Bierhoff, Totti, Del Piero, Vieri e outros, a chegada de Cristiano Ronaldo dá esperanças de que se abra um novo ciclo próspero para os italianos em geral. O português reacende a curiosidade geral sobre o futebol italiano e deve inflar contratos de patrocínio, publicidade e televisão, abrindo portas para que os outros times também se reforcem e ajudem a recuperar parte do protagonismo que o futebol italiano perdeu na última década, com o enfraquecimento econômico e técnico de seus maiores clubes, principalmente após o escândalo do Calciopoli.

E o momento não poderia ser melhor. A Serie A já está em processo de fortalecimento, como provam Napoli (time de futebol vistoso que encantou até Guardiola e exportou o técnico Sarri para a Premier League) e Roma (semifinalista da Liga dos Campeões, após desbancar o Barcelona em uma virada épica), e a chegada de um dos maiores craques da história pode ser um catalisador determinante para que a liga volte a figurar entre as preferidas pelos fãs de futebol mundo afora.

A tarefa não é fácil, uma vez que a combinação Juve-CR7 deve aumentar ainda mais a supremacia da já heptacampeã sobre seus rivais, mas a tendência é que isso aumente o nível de exigência do futebol local e, em um médio prazo, com mais dinheiro disponível, as equipes melhorem seu padrão de jogo. A Juventus elevou o sarrafo nos últimos anos e a consequência foi adversários preocupados em montar times mais competitivos para não ficar muito para trás.

O Napoli formou sua melhor equipe desde a Era Maradona e, na última temporada, quebrou recorde de pontos, ficando atrás apenas de uma Juve estratosférica. Agora, acerta com Carlo Ancelotti para fazer frente à rival. A Roma fez sua melhor participação em Liga dos Campeões em mais de 30 anos e renova o elenco para se manter competitiva. Por sua vez, a Inter retornou à Champions League e faz um mercado muito bom, com contratações importantes como Nainggolan, Martínez e De Vrij. Peças-chave, como Skriniar, Miranda, Perisic e Icardi também devem permanecer no elenco.

Ex-carrasco da Juve, Ronaldo agradece aplausos da torcida bianconera após golaço contra a Velha Senhora, enquanto jogava pelo Real Madrid (AP)

Obsessão
Para a Juve, a contratação de Cristiano Ronaldo é o passo mais ousado do plano do presidente Andrea Agnelli e seu diretor de futebol, Giuseppe Marotta, de transformar a Velha Senhora em uma potência europeia. A avaliação era de que a saída do ídolo Gianluigi Buffon diminuía o tamanho da equipe internacionalmente e que era necessária uma substituição à altura para não deixar a Juve sair do caminho vitorioso que entrou nos últimos anos, com duas finais de Liga dos Campeões em quatro temporadas.

O objetivo agora é ganhar e CR7 é a tacada certa para isso. Pentacampeão do torneio, o atacante marcou, desde 2006-07, 119 gols na principal competição da Europa, enquanto a Juventus inteira balançou as redes 102 vezes nesse mesmo período – Higuaín, o artilheiro juventino no período, fez apenas 10 gols. O trio que deve formar com Dybala e Douglas Costa no ataque promete ser um dos mais difíceis de marcar do continente e as contratações de Emre Can para o meio e João Cancelo para a lateral direita devem dar ainda mais equilíbrio ao já muito competitivo time juventino.

Mas não é só a Juve que ganha com a contratação. Em mais uma prova de que gere sua carreira muito bem, Cristiano Ronaldo sai do Real Madrid ainda em alta e escolhe um clube com estrutura suficiente para se manter relevante e com chances de conquistar títulos importantes, após perceber o fim de seu ciclo na Espanha, ao mesmo tempo em que Zidane deixou o comando dos blanco. Na Itália, ele pode rechear o currículo com o título nacional da última das três ligas mais importante da Europa, após levantar as taças locais da Inglaterra e da Espanha, e ainda tem a chance de entrar para a história guiando a Juve em um eventual título continental após mais de 20 anos.

Números
O valor da transação não é tão alto (a Juve vai pagar 105 milhões de euros ao Real) porque o retorno comercial que Cristiano Ronaldo pode render é enorme, com vendas de camisas e patrocínios, por exemplo. No entanto, os vencimentos anuais do craque devem fazer os diretores bianconeri quebrarem a cabeça.

Cristiano chega a Turim para ganhar 30 milhões de euros por temporada, o triplo do que recebe Higuaín, detentor do maior salário atualmente, e isso deve deixar em alerta diretores das áreas financeira e de futebol. Ao mesmo tempo, também deve envolver diretores das outras empresas do grupo Exor, de propriedade dos Agnelli, que controla marcas como Ferrari, Fiat, Alfa Romeo, Chrysler, Dodge, Maseratti, Magneti-Marelli e Jeep. Será um grande trabalho de engenharia contábil, mas boa parte dos salários do astro português podem ser pagos através de contratos de publicidade com empresas associadas à própria Juve.

A preocupação financeira e contábil, mesmo com possíveis soluções no jardim de casa, se justificam pelas normas do fair play financeiro. Afinal, a Juve não quer infringir as regras da Uefa e acabar punida, como aconteceu com o Milan, que está suspenso da Liga Europa. Para isso, é possível que alguns jogadores sejam negociados. Higuaín é o maior candidato a deixar o barco e já teria até interesse do Chelsea. O lateral brasileiro Alex Sandro é outro que sempre tem o nome especulado e pode deixar o time. Mandzukic e Cuadrado devem perder espaço no time titular e podem querer sair. Para os diretores de futebol, a preocupação é com o resto do elenco, que pode se sentir diminuído diante das cifras gigantescas que Ronaldo receberá.

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