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O baixinho Carlos Alberto Aguilera foi ídolo do Genoa e importante no Torino

No futebol parelho de hoje, quebrar linhas defensivas de times muito compactados costuma requerer criatividade nos passes, infiltrações na zaga adversária e rápida tomada de decisões. Mas há espaço, principalmente no último terço do campo, para que o drible e as jogadas individuais cumpram este papel – Kylian Mbappé mostrou isso contra a Argentina, por exemplo. Na Itália do fim dos anos 1980 e início dos 1990, que ainda rezava quase que inteiramente pela cartilha da zona mista, influenciada pelo catenaccio, o uruguaio Carlos Alberto Aguilera era um desses velocistas habilidosos responsáveis por infernizar os zagueiros rivais e foi assim que obteve sucesso com as camisas de Genoa e Torino.

Menino-prodígio formado pelo River Plate de Montevidéu, Pato Aguilera já era um dos principais nomes do futebol charrua antes mesmo de completar 20 anos. Depois de desabrochar em La Dársena, rapidamente passou ao Nacional e foi campeão uruguaio em 1983, em seus primeiros meses pelo Bolso.

Na seleção, o impacto também foi imediato. O baixinho de 1,66m foi campeão sul-americano sub-20 em 1981 e ficou com vice no torneio seguinte, além de ter representado a Celeste em dois mundiais da categoria – ao lado de Enzo Francescoli na primeira empreitada e de Rubén Sosa na seguinte. Já pelo time principal, Aguilera foi um dos destaques da conquista da 12ª Copa América uruguaia, em 1983. De quebra, se sagrou como um dos artilheiros da competição, com três gols.

O futebol uruguaio ficou pequeno para Aguilera, que entre 1985 e 1988 alternou experiências no estrangeiro com retornos à sua pátria. O atacante passou meses no endinheirado futebol colombiano, defendendo o Independiente de Medellín, e também atuou na Argentina, pelo Racing, mas teve três intervalos no Nacional antes de rumar ao México, em 1987. O Pato já estivera no país norte-americano pouco antes, mas não entrou em campo na Copa do Mundo de 1986.

Um ano nos Tecos de Guadalajara, porém, bastou para que o baixinho mudasse de ares novamente e acertasse com o Peñarol. Embora já fosse rodado, Aguilera ainda tinha 24 anos e estava prestes a entrar em seu período de maturidade física e técnica. Com a camisa dos carboneros, o atacante deslanchou e chegou a ser o artilheiro da Copa Libertadores, em 1989. Pato marcou 10 gols em apenas oito partidas e teve a proeza de adicionar esta honra ao currículo mesmo tendo atuado até as oitavas de final, fase em que o Peñarol foi eliminado pelo Internacional.

Skuhravý e Aguilera formaram uma das duplas mais letais da história do Genoa (Wikipedia)

As façanhas de Aguilera na Libertadores chamaram a atenção do futebol italiano, que era o principal palco esportivo do mundo no final dos anos 1980. O Pato, porém, não chegou a um gigante, mas a uma equipe que tentava se reerguer: nove vezes campeão nacional, o Genoa retornava à elite após cinco anos na Serie B.

O jogador uruguaio desembarcou em Gênova juntamente com os compatriotas Rubén Paz e José Perdomo, mas foi o único a se firmar na equipe. Em três anos na Ligúria, Aguilera se destacou graças a muita velocidade, habilidade e gols importantes – de falta, pênalti ou mesmo com a bola rolando. Em sua temporada de estreia na Itália, o atacante teve atuação regular e fez oito gols em 31 partidas, escalado quase sempre como titular por Franco Scoglio.

Na reta final da Serie A, porém, o uruguaio se envolveu em um entrevero. Aguilera foi preso pela acusação de ter lucrado com a prostituição de terceiros e pela cessão de 1 grama de cocaína a um conhecido. Foi solto dias depois, mas obrigado a cumprir prisão domiciliar: o atacante só era liberado para exercer sua profissão, o que não lhe tirou dos treinos e partidas. No entanto, ele não pode festejar a permanência na elite com o colegas e a torcida, após uma vitória por 2 a 0 sobre o Ascoli. Ao fim do jogo, foi escoltado pelos policiais designados para sua vigilância.

Aguilera recebeu habeas corpus e disputou a Copa do Mundo de 1990 em solo italiano. Depois da competição, o atacante voltou à Ligúria e encontrou um time renovado. Afinal, a 11ª posição na Serie A 1989-90 fez com que a diretoria do Genoa promovesse uma reformulação. A primeira medida foi trocar o técnico Scoglio por Osvaldo Bagnoli, campeão italiano pelo Verona, em 1985. Os rossoblù também se desfizeram de dois dos três estrangeiros a que tinham direito: só Aguilera ficou, enquanto Paz e Perdomo foram negociados e substituídos por Branco e Tomás Skuhravý, que disputaram o Mundial por Brasil e Checoslováquia, respectivamente.

Ao lado dos novos companheiros, o Pato explodiu de vez e foi um dos grandes responsáveis por levar os grifoni para a Copa Uefa. Com 15 gols, Aguilera dividiu a artilharia com Skuhravý na histórica campanha do Genoa, que ficou com o quarto lugar na Serie A e teve seu melhor desempenho no campeonato desde a década de 1940. O uruguaio ainda se revelou um hábil “rigorista”, já que sete desses tentos saíram a partir de cobranças de pênalti.

Não bastasse a ótima performance na Serie A 1990-91, Pato Aguilera foi o grande destaque rossoblù na forte campanha europeia, que acabou nas semifinais. O atacante foi vice-artilheiro da competição europeia, com 8 gols (um a menos que Dean Saunders, do Liverpool) e mostrou sua importância nas principais partidas do Vecchio Balordo. O uruguaio fez os dois gols que garantiram a classificação italiana nas quartas, sobre os Reds, em Anfield Road, e anotou outros dois na eliminação contra o Ajax.

Além dos gols no mata-mata europeu, Aguilera também marcou 10 vezes na Serie A 1991-92 e incomodou adversários de quilate, como Fiorentina, Inter, Milan, Napoli, Roma e Torino. O atacante se despediu do Genoa ao fim da temporada e deixou excelentes números pela equipe do Marassi: com 33 gols em 96 partidas do campeonato, é o quarto com maior média de tentos por jogo (0,34), atrás apenas de Skuhravý (0,36), Roberto Pruzzo (0,40) e Diego Milito (0,62).

Aguilera, Scifo, Martín Vázquez e Casagrande no Torino; ao centro, o técnico Mondonico (Wikipedia)

O Torino acabou sendo o destino do Pato na temporada 1992-93. O Toro de Emiliano Mondonico havia surpreendido com o vice-campeonato da Copa Uefa e a terceira colocação na Serie A, mas já era um time bem estruturado: contava com jogadores como Luca Marchegiani, Pasquale Bruno, Roberto Mussi, Luca Fusi, Enzo Scifo e Walter Casagrande; além de Rafael Martín Vázquez e Gianluigi Lentini, negociados na janela de verão. Os grenás foram bem ao mercado e reforçaram o ataque com Aguilera, Paolo Poggi e Andrea Silenzi.

Pato Aguilera continuou voando em seu primeiro ano de Turim. O uruguaio manteve a boa média de atuações dos tempos de Genoa muito por causa das características de seus parceiros de ataque. Assim como Skuhravý, Casão e Silenzi utilizavam do seu físico para realizar o trabalho de pivô e puxar a marcação, abrindo espaços para que Aguilera pudesse decidir.

No total, o atacante anotou 16 gols naquela temporada (12 na Serie A, três na Coppa Italia e um na Copa Uefa) e foi muito importante para a conquista da copa local. Na partida de volta das semifinais contra a Juventus, o Pato respondeu de imediato a um gol de Fabrizio Ravanelli e deu aos granata a vaga na decisão contra a Roma graças aos gols marcados fora de casa. Foi pelo mesmo critério que o Torino levantou a taça, no jogo que encerrou a temporada.

O título da Coppa Italia foi a última alegria de Aguilera no Belpaese. Em 1993-94, Aguilera foi relegado ao banco de reservas após a chegada do compatriota Francescoli e só fez seis jogos entre agosto e dezembro de 1993 – somente um como titular. Com isso, o baixinho acertou a rescisão contratual com a diretoria e deixou o futebol italiano. Com 29 anos recém-completados, Aguilera voltou para sua pátria.

O Pato não era mais considerado para a Celeste, mas conseguiu aumentar sua importância para a história do futebol uruguaio na reta final de sua carreira. Com a camisa do Peñarol, Aguilera foi fundamental para a conquista do segundo Quinquênio de Ouro da equipe: só não participou do primeiro dos cinco títulos nacionais que os carboneros levantaram de forma consecutiva, entre 1993 e 1997. Para compensar, o Pato, torcedor aurinegro, faturou a taça uruguaia em 1999 e se aposentou em alta, aos 35 anos.

Enquanto brilhava novamente em terras charruas, Aguilera ainda sofria a marcação da justiça italiana. Em 1996, o processo por rufianismo e envolvimento com drogas foi concluído e o uruguaio acabou condenado a dois anos de prisão e multa. No entanto, o ex-atacante nunca cumpriu a pena, já que não pisou na Itália até 2007, quando recebeu um indulto por parte do governo da Bota. Desde sua anistia, volta e meia participa de jogos beneficentes organizados pelo Genoa.

Carlos Alberto Aguilera Nova
Nascimento: 21 de setembro de 1964, em Montevidéu, Uruguai
Posição: atacante
Clubes: River Plate-URU (1980-82), Nacional-URU (1982-85, 1985-86 e 1987), Independiente Medellín (1985), Racing Club (1986), Tecos (1987-88), Peñarol (1988-89 e 1994-99), Genoa (1989-92) e Torino (1992-94)
Títulos conquistados: Copa América (1983), Campeonato Uruguaio (1983, 1994, 1995, 1996, 1997 e 1999) e Coppa Italia (1993)
Seleção uruguaia: 64 jogos e 22 gols

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