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O austríaco Michael Konsel foi o primeiro estrangeiro a defender o gol da Roma

Se nos anos 2000 parece ser uma ideia bizarra apostar fichas em um goleiro vindo da Áustria, na década de 1990 isso nem pareceria um tiro no escuro. Convencida pelas atuações do veterano Michael Konsel no Rapid Wien, a Roma de Zdenek Zeman ofereceu um contrato ao austríaco, um ás da posição em seu país. Na época, em 1997, o arqueiro tinha 35 anos. A idade, porém, não foi uma barreira para o camisa 1, que se tornou o primeiro goleiro estrangeiro da história romanista.

A carreira de Konsel começou na década anterior, pelo First Vienna. Além das habilidades como goleiro, ele tinha experiências nas categorias de base como meia e zagueiro, o que lhe permitiu aprender como jogar com os pés. Essa característica foi um diferencial para o vienense em sua longa trajetória.

Em 1982, foi lançado ao futebol profissional. Dois anos depois, assinou com o Rapid Wien, uma potência local. As atuações seguras indicavam que Michael tinha muito mais maturidade do que os demais goleiros no país. E assim, logo foi convocado para a seleção, que à época conseguia se classificar constantemente para a Copa do Mundo.

Foram treze anos de história com o Rapid, nos quais somou três títulos da Bundesliga Austríaca, da Copa da Áustria e da Supercopa nacional. Na Europa, o clube alviverde também tentou fazer história, mas acabou frustrado por derrotas repetidas na final da Recopa Uefa, em 1985 e 1996, contra Everton e Paris Saint-Germain, respectivamente. Nas duas decisões, Konsel foi titular e teve ótima atuação, mas não foi capaz de impedir a derrota dos austríacos.

Concomitantemente, dividia-se entre a carreira como selecionável, iniciada em 1985. Graças ao excelente desempenho, esteve presente na Copa de 1990, na Itália, e em 1998, na França. Em ambas, a Áustria caiu no grupo da Itália e foi embora logo na primeira fase. Konsel, titular na última delas, não poderia salvar a pátria sozinho.

Premiações e convites internacionais
Eis que, em 1996, o reconhecimento bateu à porta. Votado como melhor jogador austríaco do ano, colheu os frutos de uma fase regular e duradoura. Mesmo ultrapassando a barreira dos 30 anos, Konsel não sentiu os efeitos da idade. Intrigado pelo desempenho do atleta e considerando-o o nome perfeito para sua revolução tática, Zdenek Zeman pediu à diretoria da Roma a contratação do goleiro em 1997, logo após a sua chegada à capital.

Muito pelo fato de Konsel ter capacidade para fazer o papel de último defensor e jogar com os pés, Zeman viu no veterano de 35 anos um potencial enorme para mais algumas temporadas. Se a proposta kamikaze desse certo na Roma, ambos teriam muito a ganhar com isso.

Levando em conta que Giovanni Cervone e Gianluca Berti alternavam entre os titulares da Roma, Konsel despontou como uma novidade interessante para a posição. Curiosamente, os quatro goleiros do elenco em 1996-97 saíram do clube e deram lugar ao austríaco e também a Antonio Chimenti e Andrea Campagnolo.

Os ótimos reflexos e o posicionamento debaixo das traves eram referenciais muito bons para Michael, que logo recebeu da imprensa italiana os apelidos de “vovô” e “pantera giallorossa”. A primeira temporada de Konsel como romanista foi espetacular. Sabendo que não teria tanto tempo pela frente, o arqueiro planejava ficar na equipe capitolina até os 40, no máximo. E embora tenha demonstrado enorme qualidade, a passagem durou bem menos do que o esperado.

Konsel atuou por dois anos na Roma e encerrou a carreira pelo Venezia (Allsport)

Os milagres de Konsel aconteciam quase sempre na Serie A, mas foi na Coppa Italia que ele foi mais aclamado, por conta de uma defesaça contra Amoroso, da Udinese. Já se dizia, naquele ano de 1997, que o goleiro garantira alguns pontos para a Roma. Alguma coincidência com Alisson, recém-negociado com o Liverpool? Não só na qualidade e na importância. Konsel foi o primeiro goleiro estrangeiro a pintar na Roma. Depois dele, vieram Doni e Júlio Sergio. E o resto é história, até chegarmos ao nome de Alisson.

O fato é que a Roma fez uma tremenda pechincha ao tirar Michael do Rapid Wien. O alto rendimento logo compensou a diretoria, que tinha suas dúvidas quando recebeu o pedido de Zeman. O que um velho, da mesma idade de Cervone, poderia oferecer a mais, ainda se fosse considerado o fato de que ele vinha do fraco futebol da Áustria? Quando Konsel estourou de fato, chegou a ser comparado a Angelo Peruzzi, ex-Roma, que vivia anos fenomenais com a camisa da Juventus desde 1991. Para muitos, os dois eram os melhores goleiros da Serie A naquela época.

O jornal romano “La Repubblica”, empolgado com o tremendo negócio feito por Franco Sensi na janela de verão, colocou Konsel como o protagonista de um time muito promissor de Zeman, à frente até mesmo de Francesco Totti e Abel Balbo, referências no ataque. Justamente por ser seguro demais, como um paredão, o austríaco conquistou corações na capital.

A Roma terminou a Serie A em quarto lugar e fez valer a aposta no goleiro e no próprio Zeman, um maluco das táticas. Mais reconhecimento para Michael: ele foi eleito o melhor goleiro da Serie A e também o melhor estrangeiro. Infelizmente para o camisa 1, a temporada seguinte, após a Copa do Mundo, não foi das melhores. Depois de representar a seleção, Konsel se viu atormentado por lesões – a mais séria delas, no tendão de Aquiles, o afastou por mais de seis meses Dessa forma, perdeu a posição para Chimenti e atuou em apenas 11 partidas pelo clube.

A reta final de Konsel
Quanto mais velho um jogador é, maior é o tempo de recuperação por problemas físicos. E assim, a equipe capitolina perdeu grande parte de sua segurança defensiva, o que impactou na campanha. Zeman conseguiu conduzir o time a uma quinta colocação na Serie A, além de uma participação de quartas de final na Copa Uefa. Um rendimento inferior ao de 1997-98.

De molho, Konsel acabou tendo uma segunda temporada bem decepcionante. O sentimento de desilusão do goleiro se acentuou quando ele se viu à margem do projeto técnico de Fabio Capello, substituto de Zeman. Assim, em setembro de 1999, Michael acertou sua saída para o Venezia. Curiosamente, sua trajetória efêmera e marcante pela Cidade Eterna acabou sendo similar à do outro jogador austríaco que atuou pela Roma – o meia Herbert Prohaska, que passou pelo clube em 1982-83 e foi também seu treinador na seleção.

Em Veneza, Michael Konsel novamente foi vítima de lesões e se revezou com Fabrizio Casazza. A equipe, então presidida por Maurizio Zamparini, não teve um minuto sequer de paz, trocou de treinador três vezes e acabou rebaixada ao fim da temporada. Sem brilho, Konsel acabou anunciando a aposentadoria, com 37 anos. Não fossem os problemas com contusão, provavelmente nem teria saído da Roma e passado tantos perrengues no Vêneto.

Ainda hoje, o goleiro é lembrado de maneira positiva pela imprensa e pela torcida. Em 1998, foi escolhido para o All-Star Team da Roma de todos os tempos. Uma prova do carinho e da admiração que inspirou na parcela giallorossa da cidade.

Michael Konsel
Nascimento: 6 de março de 1962, em Viena, Áustria
Posição: goleiro
Clubes: First Vienna (1982-84), Rapid Wien (1984-97), Roma (1997-99) e Venezia (1999-2000)
Títulos conquistados: Bundesliga Austríaca (1987, 1988 e 1996), Copa da Áustria (1985, 1987 e 1995) e Supercopa Austríaca (1986, 1987 e 1988)
Seleção austríaca: 43 jogos

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