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O camaronês Patrick Mboma teve seus melhores momentos nos gramados da Itália

O futebol de Camarões pode ser dividido em três eras. Duas delas tiveram os atacantes Roger Milla e Samuel Eto’o como donos, mas entre o apagar das luzes da carreira do primeiro e o despontar do segundo craque, existiu Patrick Mboma. Terceiro maior artilheiro da história dos Leões Indomáveis, atrás dos dois outros citados, o canhoto se destacou no Japão e, principalmente, na Itália.

Mboma nasceu em Douala, maior cidade de Camarões, mas começou a jogar futebol na capital da França. O forte atacante deu seus primeiros passos no amador Stade de l’Est Pavillonnais, nos subúrbios parisienses – na mesma vizinhança em que Kylian Mbappé surgiria, décadas depois. Em 1990, já com 20 anos, Patrick foi notado pelo Paris Saint-Germain, que o integrou a seu time B, participante da quarta divisão nacional.

Depois de marcar muitos gols no time de aspirantes, Mboma foi emprestado ao Châteauroux, então na segunda divisão francesa. No entanto, só conseguiu se destacar mesmo no ano seguinte, com a queda de La Berrichonne para a terceirona: na competição, marcou 17 vezes em 29 jogos e ajudou a equipe a retornar à Ligue 2. O camaronês ganhou uma chance entre os profissionais do PSG, mas não se firmou e foi novamente emprestado. Após um ano fraco no Metz e outro em Paris, ambos na primeira divisão, Mboma partiu para a Ásia em 1997.

Com quase 27 anos, Mboma finalmente explodiu. Atuando pelo Gamba Osaka, do Japão, foi artilheiro da J-League, com 25 gols em 28 partidas e também foi eleito o melhor jogador da competição. Na mesma época, Patrick começou a ocupar o posto de principal nome de Camarões e foi o seu destaque e camisa 10 na Copa de 1998.

Os Leões Indomáveis deixaram boa impressão num grupo equilibrado, no qual somente a Itália venceu – duas vezes, contra a Áustria e os próprios camaroneses. Camarões chegou à última rodada precisando bater o Chile, mas não conseguiu evitar que os sul-americanos somassem três empates e avançassem às oitavas. Mboma até marcou um belo gol de cabeça naquele jogo, mas Rigobert Song e Lauren foram expulsos, complicando a vida dos africanos.

Mboma não economizou empenho com a camisa do Cagliari (Getty)

O fato de ter atuado contra a Itália fez com que Mboma chamasse a atenção de equipes da Serie A. O camaronês atraiu o interesse do Cagliari, que retornava à primeira divisão, e assinou contrato no verão de 1998. Patrick chegou à Sardenha falando um bom italiano e não demorou a aparecer bem pelo clube insular.

Conhecido por marcar gols de fora da área com sua perna esquerda e pela boa presença de área, Mboma ajudou o Cagliari a escapar do rebaixamento primeira temporada. O atacante estreou logo na primeira partida dos sardos, mas uma lesão fez com que ele só pudesse voltar a ser utilizado na 12ª rodada da Serie A. Mesmo como reserva, o centroavante conseguiu marcar sete gols em 13 partidas e se destacou por uma tripletta contra o Empoli.

No segundo ano na Sardenha, a reformulação no ataque fez com que Mboma pudesse ser titular absoluto. O camaronês preencheu as lacunas deixadas pelas saídas de Roberto Muzzi para a Udinese e de Mohamed Kallon para a Reggina e fez uma boa dupla com Luís Oliveira, que retornava ao clube em que tinha sido ídolo no início da década.

Do ponto de vista individual, Mboma teve uma temporada excelente. Comandante do ataque dos casteddu, o dono da camisa 9 foi muito bem na surpreendente campanha do Cagliari na Coppa Italia. O time caiu apenas nas semifinais, diante da Inter, e o camaronês foi o artilheiro da competição, com seis gols marcados: foram quatro no segundo turno, contra o Genoa, e dois nas oitavas, contra o Parma.

No campeonato, Mboma deixou sua marca oito vezes e ficou em evidência por ter decidido duas partidas contra uma forte Roma, que curiosamente também havia sido eliminada pelos sardos na copa. Além das ótimas atuações pelo Cagliari, o centroavante também foi decisivo pela seleção de Camarões, que faturou a Copa Africana de Nações em fevereiro de 2000. Mboma anotou quatro gols na campanha (dois deles na semifinal, contra a Tunísia, e outro na final, contra a Nigéria) e acabou sendo eleito o jogador africano daquela temporada.

Se tudo ia bem para Mboma na seleção e em sua performance individual, o Cagliari não colaborava: o rebaixamento na Serie A não pode ser evitado. A equipe da Sardenha venceu apenas três partidas em 1999-2000 e acabou a temporada na penúltima colocação, 17 pontos abaixo do Bari, primeiro time salvo.

Com a queda do time rossoblù para a Serie B, o camaronês ficou perto de acertar com o Verona, mas o presidente Giambattista Pastorello não prosseguiu com a negociação. À época, o cartola butei declarou que a torcida o jogaria à fogueira se contratasse um atleta negro, o que acabou gerando uma reação da ministra Giovanna Melandri, responsável por combater o racismo no futebol.

Mboma teve bom início no Parma, e só (Getty)

No fim das contas, Mboma fechou com o Parma. Antes de aportar na Emília-Romanha, no entanto, o atacante cedeu sua experiência à seleção olímpica de Camarões, que disputou os Jogos de Sydney em setembro de 2000. O centroavante foi o grande nome da surpreendente campanha dos Leões Indomáveis, que eliminaram o Brasil nas quartas de final e bateram a Espanha de Carles Puyol e Xavi na final. O craque da competição fez quatro gols (um deles sobre a Seleção) e garantiu o primeiro ouro olímpico da história de seu país.

De volta à Itália, Mboma estreou pelo Parma com a mesma verve goleadora que mostrou na Austrália. Na quarta rodada da Serie A, marcou os dois gols da vitória por 2 a 0 sobre o Milan. Primeiro, recebeu em profundidade e venceu Dida com um carrinho e depois ganhou no alto de Luigi Sala para cabecear de forma implacável. Novamente de cabeça, desta vez com um peixinho incrível, Patrick voltou a ser decisivo ao anotar o gol da vitória contra o Bari, na rodada seguinte. Acabaria ali, porém, seu romance com os crociati.

A concorrência com Amoroso, Marco Di Vaio e Savo Milosevic limitou seu espaço no time, sobretudo numa temporada atribulada em Parma – afinal, o time teve três treinadores. No ano seguinte os parmenses negociaram Amoroso com o Borussia Dortmund, mas as chegadas de Hakan Sükür e Emiliano Bonazzoli afastaram Mboma ainda mais dos campos. Aos 31 anos, com apenas quatro partidas em 2001-02, foi cedido ao Sunderland, da Inglaterra. Jogou pouco por lá, mas continuava ajudando sua seleção: na Copa Africana de Nações de 2002 marcou três vezes, foi um dos goleadores do torneio e ajudou na conquista do bicampeonato.

Com o insucesso na Premier League, Mboma deixou a Europa de forma definitiva. O atacante passou pelo futebol da Líbia por uma temporada e voltou a atuar no Japão, onde era rei. O centroavante até fez bom papel no Tokyo Verdy, mas não se apresentou bem no Vissel Kobe. Com problemas físicos, acabou encerrando a carreira em 2005, com 34 anos.

Quando se aposentou, Mboma era o maior artilheiro da seleção camaronesa, com 33 gols – à frente de Roger Milla e seus 28. No entanto, foi superado por Samuel Eto’o, maior jogador da história do país. O craque de Barcelona e Inter fez 56 e deve parte de seu sucesso a Patrick, que foi o seu tutor durante anos.

Henri Patrick Mboma Dem
Nascimento: 15 de novembro de 1970, em Douala, Camarões
Posição: atacante
Clubes: Paris Saint-Germain (1990-92, 1994-95 e 1996-97), Châteauroux (1992-94), Metz (1995-96), Gamba Osaka (1997-98), Cagliari (1998-2000), Parma (2000-02), Sunderland (2002), Al-Ittihad-LIB (2002-03), Tokyo Verdy (2003-04) e Vissel Kobe (2004-05)
Títulos: Copa da França (1995), Copa da Liga Francesa (1995 e 1996), Ouro Olímpico (2000) e Copa Africana de Nações (2000 e 2002)
Seleção camaronesa: 58 jogos e 33 gols

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