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Mesmo envolto em polêmicas, Mauro Camoranesi conquistou a Juventus e o mundo

Com muita disposição e solidez atuando pelo lado direito do campo, o ítalo-argentino Mauro Camoranesi fez história vestindo as camisas de Juventus e Itália na primeira década do século XXI. Nunca se apresentou como estrela dos times, mas sempre mostrou predicados que o fizeram, por exemplo, se tornar o estrangeiro que mais vezes defendeu a Squadra Azzurra. No auge de sua carreira, saboreou a glória e a desgraça em um intervalo curto, com o título mundial da Nazionale e o rebaixamento da Vecchia Signora, respectivamente, ambos em julho de 2006.

Camoranesi iniciou sua jornada no futebol em 1994 a serviço do Aldosivi, cuja cidade, Mar del Plata, fica a 160km de distância de Tandil, província de Buenos Aires, local onde nasceu. Ele protagonizou, em 14 de agosto do mesmo ano, um lance violentíssimo pela Liga de Mar del Plata. Num dérbi local contra o Alvarado, o meio-campista deu uma entrada desleal em Roberto Javier Pizzo, causando a ruptura do menisco e do tendão de seu joelho esquerdo. A lesão foi tão séria que encerrou precocemente a carreira do atleta, à época com 18 anos.

Frustrado após perder 39% da mobilidade do joelho esquerdo, Pizzo foi à justiça a fim de receber uma indenização de Camoranesi. O ditado “a justiça falha, mas não tarda” pode ser aplicado a essa situação. Afinal, a Suprema Corte de Justiça da Província de Buenos Aires puniu Mauro 18 anos depois. Em 21 de setembro de 2012, o ítalo-argentino foi condenado a pagar 50 mil euros a Pizzo. “Mesmo que você não possa classificar a ação como intencional, denota uma notória falta de jeito, um excesso na prática esportiva, anormal, evitável e grosseiro às regras do esporte”, indicou a sentença.

Passada toda a polêmica, Camoranesi rodou por Santos Laguna (México) e Montevidéu Wanderers (Uruguai). No clube da capital uruguaia, voltou a se envolver com problemas disciplinares e acabou suspenso por 10 partidas, por agressão a um árbitro. Com isso, acabou deixando o país e voltou para a Argentina.

No Banfield, destacou-se por ser um volante com vocação ofensiva e, aos 21 anos, começou a colocar a carreira nos trilhos. Com bom controle de bola, passes na medida e um alto número de gols, o Mago de Tandil passou ao Cruz Azul, do México, e continuou a mostrar os mesmos atributos nos dois anos em que defendeu os cementeros. Dessa forma, chamou a atenção do Hellas Verona, que o contratou no verão europeu de 2000.

Camoranesi estreou pelos gialloblù no dia 22 de outubro, na vitória contra a Lazio, apoiando o ataque formado por Alberto Gilardino e Adrian Mutu. Ao final do campeonato, somava 22 presenças e quatro gols, como um dos principais jogadores do time. Foi destaque também na temporada seguinte, quando sua equipe foi rebaixada para a Serie B.

Não por acaso acabou adquirido, em julho de 2002, pela Juventus. O clube bianconero desembolsou 4 milhões de euros para adquirir metade de seu passe junto ao Verona. Já ao final de sua primeira temporada em Turim, Mauro conquistou o scudetto e teve seus direitos inteiramente vinculados à Juve por 4,5 milhões de euros.

Bonazzoli, Mutu, Colucci e Camoranesi comemoram pelo Verona (Interleaning)

Adaptado ao futebol europeu, Camoranesi recebeu sua primeira convocação para a seleção da Itália no início de 2003, graças ao técnico Giovanni Trapattoni. Afinal, Mauro tinha cidadania italiana e, desde as categorias de base, era ignorado pelos técnicos das seleções da Argentina. Aos 26 anos, o atleta se tornou o 45º estrangeiro a jogar pela Nazionale e o primeiro desde os anos 1960, quando o brasileiro Angelo Sormani vestiu a camisa azzurra. A estreia aconteceu no dia 12 de fevereiro, em amistoso contra Portugal, realizado no Luigi Ferraris, em Gênova. Os italianos venceram por 1 a 0.

No entanto, não demoraria para Camoranesi causar polêmica. Como se não bastassem os italianos não serem muito adeptos aos “oriundi” (descendentes de italianos), o meio-campista nunca renegou suas origens. “Não sou um traidor. Ainda me sinto 100% argentino. É só uma questão de futebol”, disse à imprensa depois de questionado sobre sua opção por atuar pela Itália.

Camoranesi participou das campanhas vitoriosas da Juve de 2005 e 2006 – cujos títulos da Serie A foram posteriormente revogados devido ao escândalo Calciopoli. Com um futebol de alto nível na ala direita, foi convocado para a Eurocopa, em 2004, e a Copa do Mundo da Alemanha, dois anos depois. No Mundial, contou com a confiança de Marcello Lippi, seu treinador na Vecchia Signora entre 2002 e 2004, e, sob a condição de titular, ajudou a Itália a se tornar tetracampeã mundial. Assim, uma polêmica vazia que emergiu no início do torneio, pelo fato de ele não cantar o hino italiano, ficaria no esquecimento. O que é lembrado até hoje é o fato de o ítalo-argentino ter cortado o cabelo ainda no gramado do Olímpico de Berlim, após a conquista do mundo.

No entanto, nem tudo eram flores. Antes mesmo de a Squadra Azzurra derrotar a França nos pênaltis e levantar a taça, a justiça italiana havia sentenciado a Juventus à segunda divisão por causa do envolvimento no Calciopoli. Com a queda para a Serie B, Camoranesi pediu para deixar o clube e ser negociado com um outro grande time europeu, o que acabou não acontecendo. Ele permaneceu no Piemonte, mas caiu de rendimento nas temporadas seguintes, sobretudo por causa de uma série de lesões nas mais diversas partes do corpo. Na campanha de 2009-10, foi um dos piores jogadores da Juve, que acabou a Serie A apenas na sétima colocação e igualou sua pior campanha em campeonatos nacionais.

Camoranesi se refresca durante partida da Copa de 2006 (Reuters)

Apesar disso, o Mago de Tandil foi convocado para a Eurocopa de 2008, a Copa das Confederações de 2009 e a Copa do Mundo de 2010. No Mundial da África do Sul, disputou as duas primeiras partidas e não entrou na terceira. A Itália de Lippi teve um rendimento pífio e não passou da fase de grupos. Camoranesi jogou pela Nazionale por sete anos antes de anunciar que não a defenderia mais. Até hoje, ele é o único estrangeiro que conquistou uma Copa do Mundo pela Itália após a II Guerra Mundial.

Ao passo em que se aposentava da seleção, Camoranesi também deixava a Juventus. Entre 2002 e 2010, o ítalo-argentino participou de 287 jogos e quatro títulos, com 32 gols e 29 assistências em sua conta. Seu próximo destino seria a Alemanha. Nos últimos dias de agosto de 2010, assinou contrato com o Stuttgart, onde reencontrou seu ex-companheiro de Juve Cristian Molinaro. A trajetória no futebol alemão, entretanto, durou apenas cinco meses: em janeiro, Mauro rescindiu seu vínculo com o clube para retornar à Argentina.

De volta à sua terra natal, ele jogou por Lanús (2011 a 2012) e Racing (2012-14), até encerrar sua carreira aos 37 anos. Neste período, teve destaque negativo com momentos de fúria a serviço do Lanús. Chegou às vias de fato com o uruguaio Juan Pablo Rodríguez, num amistoso de pré-temporada contra o All Boys (foi suspenso após a confusão), e deu um chute na cara do argentino Patricio Toranzo após ser expulso contra o Racing. Ao sair de campo, ainda xingou Diego Simeone, à época treinador do time de Avellaneda e hoje comandante do Atlético de Madrid.

Depois de pendurar as chuteiras, Camoranesi treinou Coras de Tepic e Cafetaleros de Tapachula, do México, e Tigre, da Argentina. Não teve sucesso em nenhum dos três times. Em dezembro do ano passado, completou em Coverciano o curso especial Uefa B/Uefa A, que o qualifica a treinar equipes juvenis e das três primeiras divisões na Itália. Em agosto, o ex-jogador foi anunciado como comentarista da DAZN, nova plataforma online de transmissão de jogos do Belpaese, onde será colega de Andriy Shevchenko.

Mauro Germán Camoranesi Serra
Nascimento: 4 de outubro de 1976, em Tandil, Argentina
Posição: meio-campista
Clubes como jogador: Aldosivi (1995-96), Santos Laguna (1996-97), Montevidéu Wanderers (1997), Banfield (1997-98), Cruz Azul (1998-2000), Hellas Verona (2000-02), Juventus (2002-10), Stuttgart (2010-11), Lanús (2011-12) e Racing (2012-14)
Títulos: Serie A (2003), Serie B (2007), Supercopa Italiana (2002 e 2003) e Copa do Mundo (2006)
Clubes como técnico: Coras de Tepic (2014-15), Tigre (2015-16) e Cafetaleros de Tapachula (2016-17)
Seleção italiana: 55 jogos e quatro gols

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