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O longevo Francesco Antonioli conquistou scudetto pela Roma e surpreendeu ícones do clube

Embora não pertença à galeria dos melhores goleiros italianos, Francesco Antonioli tem uma estante cheia de títulos, mais sortida do que a de alguns mitos da posição – para citar apenas um exemplo, ficaremos com Walter Zenga. O lombardo foi bicampeão italiano e europeu com o esquadrão do Milan do final dos anos 1980 e início dos anos 1990, como reserva, e fez carreira em times com ambições menores. Quando já passava dos 30, porém, surpreendeu a todos e foi titularíssimo na campanha do terceiro scudetto da Roma, entrando para a história do clube. Antes dele, apenas dois outros arqueiros, extremamente identificados com a agremiação, haviam conseguido o feito.

Natural de Monza, Antonioli começou no time local e com apenas 16 anos fez sua estreia como profissional, simplesmente contra a Juventus de Michel Platini, em um jogo da Coppa Italia. O time de Turim venceu por um magro 1 a 0, já que o jovem o goleiro teve grande exibição e fechou o gol. Naquele jogo, o garoto já demonstrava toda sua técnica com um estilo que lembrava o de Giovanni Galli, então goleiro do Milan. Àquela época, Antonioli já assumia que o arqueiro tricampeão mundial da Itália de 1982 era uma de suas referências.

Depois de atuar por duas temporadas nos brianzoli, na terceira divisão, Antonioli foi comprado pelo Milan de Silvio Berlusconi. O Cavaliere, que adquirira o clube em 1986, havia dado o cargo de diretor executivo ao amigo Adriano Galliani, então presidente do Monza. Como ainda gozava de influência e prestígio na agremiação biancorossa, o cartola não encontrou dificuldades para levar o promissor goleiro para a corte de Arrigo Sacchi.

Com apenas 19 anos, Antonioli chegou para ser o terceiro goleiro da equipe que viria a ser bicampeã europeia. Mesmo considerado um goleiro emergente – um dos melhores de sua geração, juntamente a Angelo Peruzzi – foi preterido no time de Milão: não recebeu a confiança do treinador. Quando Galli deixou a equipe, Antonioli não entrou na disputa com o experiente Andrea Pazzagli para substitui-lo. Acabou emprestado ao Cesena, como contrapartida na negociação que levou Sebastiano Rossi aos rossoneri.

Primeiro destaque de Antonioli na elite ocorreu pelo Bologna (Getty)

Antonioli já estava ficando sem ritmo de jogo. Entre 1988 e agosto de 1990, por Milan e Cesena, só fez duas partidas da Coppa Italia. Um mês no time romanholo bastou para que ele acabasse se transferindo novamente: os milanistas o cederam ao Modena para disputar a Serie B. Os canarini, treinados pelo experiente Renzo Ulivieri, não tinham um elenco forte, mas ganharam muito com a aquisição do goleiro. Afinal, tiveram a oitava melhor defesa do campeonato e só escaparam do rebaixamento graças aos critérios de desempate: o saldo, zerado, manteve o time na segundona.

Mais cascudo, com as emoções vividas na categoria inferior, Antonioli voltou ao rossonero, mas não desbancou Rossi. Até foi mais utilizado, sobretudo nas partidas da copa local, mas não se limitou à função de reserva imediato de Seba. Ao mesmo tempo, era o titular absoluto da seleção italiana sub-21 e, com ela, foi campeão europeu em 1992 – a geração tinha nomes como o já citado Peruzzi, Giuseppe Favalli, Demetrio Albertini, Dino Baggio e Alessandro Melli, por exemplo. Pouco depois da conquista, representou seu país nos Jogos Olímpicos de Barcelona.

Francesco venceu dois scudetti como suplente dos rossoneri, mas preferiu deixar o clube para ter mais oportunidades. No início da temporada 1993-94, o lombardo fechou com o Pisa, que estava na segunda divisão e tentava voltar à elite – participou de edições do campeonato no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990. Antonioli entrou em campo em 26 oportunidades e só levou 20 gols, mas não evitou o rebaixamento do time nerazzurro. Os toscanos terminaram a temporada regular empatados em pontos com o modesto Acireale e, na partida de desempate (o famoso spareggio), perderam nos pênaltis e caíram para a Serie C1.

Apesar do descenso, Antonioli estava com crédito e foi contratado pela Reggiana, então na elite italiana. A missão não era simples: teria de substituir Taffarel, idolatrado na Emília-Romanha. O brasileiro, recém-tetracampeão mundial pelo Brasil, havia acertado com o Atlético-MG. O goleirão bem que tentou repetir a façanha do gaúcho, que foi fundamental para manter os granata na Serie A, mas o elenco não estava à altura dos adversários e foi rebaixado sem oferecer resistência.

Surpresa: quem imaginava que Antonioli seria um dos poucos a vencerem o scudetto pela Roma?

No ano seguinte, o jogador retornou à Serie B para defender o Bologna, maior agremiação emiliana. A tradicional equipe felsinea, treinada pelo velho conhecido Ulivieri, voltava à segundona após um doloroso processo de falência, que lhe obrigou a recomeçar da terceira divisão. No primeiro ano vestindo rossoblù, Antonioli faturou o título e ainda foi o goleiro menos vazado da competição, com apenas 23 gols sofridos em 38 partidas.

Na volta à elite, Antonioli foi um dos pilares da performance impressionante do Bologna: a equipe terminou a Serie A na sétima colocação e também foi semifinalista da Coppa Italia. Se 1996-97 havia sido excelente, a campanha seguinte começou muito mal para o goleiro, que sofreu uma lesão gravíssima na pré-temporada e ficou um ano parado.

O retorno, ao menos, foi em altíssimo estilo. Antonioli, que já começava a ser chamado de Batman, fez incríveis 58 partidas em 1998-99 e ajudou os petroniani a ganharem o título da Copa Intertoto, que dava direito à participação na Copa Uefa da mesma temporada. Valente, o forte Bologna de Francesco, Giuseppe Signori, Carlo Nervo, Igor Kolyvanov, Klas Ingesson e Kennet Andersson, foi eliminando quem cruzava o seu caminho e chegou até as semifinais para encarar o Olympique Marseille.

Após 0 a 0 na França, o Bologna vencia o jogo de volta por 1 a 0, até os 87 minutos , quando uma falha defensiva obrigou o goleiro a cometer pênalti sobre Florian Maurice. Laurent Blanc converteu e o OM avançou – após o apito final, houve pancadaria no túnel que levava aos vestiários do Renato Dall’Ara. Na decisão, o time marselhês caiu para o Parma, também da Emília-Romanha. O desempenho em alto nível fez com que, ao final de sua quarta temporada pelo Bologna, o goleiro assinasse contrato com a Roma. Na época, Antonioli estava prestes a completar 30 anos.

Grandes atuações por Bologna e Roma (além de lesões de Peruzzi e Gigi Buffon) fizeram Antonioli ser reserva de Francesco Toldo na Euro 2000 (Allsport)

A troca de clube foi motivada por questões financeiras da agremiação então comandada por Giuseppe Gazzoni Frascara, mas a torcida não ficou satisfeita: parte da tifoseria colocou a culpa no jogador.  Recentemente, em uma entrevista ao Corriere di Bologna, Antonioli explicou que foi obrigado a deixar o clube. “Os primeiros quatro anos no Bologna foram maravilhosos, únicos, inesquecíveis. Eu queria ficar, mas o presidente me disse que teria de aceitar a oferta por uma questão de balanço. Se eu pudesse ter escolhido, nunca teria ido para a Roma”, revelou.

Na capital, porém, Antonioli viveu suas principais experiências como profissional. No primeiro ano pela Roma, atuou bem e acabou recebendo a convocação para a Euro 2000, como terceiro goleiro. Também contou com uma forcinha do destino: Peruzzi havia optado por não ir ao torneio por questões físicas e, às vésperas da competição, Gianluigi Buffon se machucou, o que o alçou à condição de reserva imediato de Francesco Toldo. Antonioli não disputou um jogo sequer pela Itália e não voltou a ser lembrado em outras ocasiões, mas pode dizer que foi vice-campeão europeu pela Nazionale.

Em 2000-01, no segundo ano como titular da equipe giallorossa, atingiu o ápice da carreira. Mesmo sofrendo com algumas lesões, atuou em 26 das 34 rodadas da Serie A, concluída com o terceiro scudetto da história romanista. Dessa forma, se igualou aos dois maiores goleiros do clube, que também foram campeões italianos: Guido Masetti (reserva da Itália nas Copas de 1934 e 1938) e Franco Tancredi.

Há, no entanto, uma clara diferença entre Antonioli e Masetti e Tancredi. Enquanto os dois foram bandeiras e ídolos do clube, Francesco teve passagem questionável pelo Olímpico. Ainda era chamado de Batman de vez em quando, mas durante seus quatro anos na Cidade Eterna, foi constantemente criticado pela torcida por conta de atuações irregulares. Fabio Capello o treinou por toda a sua trajetória na capital e bancou a sua titularidade até meados de 2002-03, quando o reserva Ivan Pelizzoli, 11 anos mais novo, ganhou a posição.

Já experiente, Antonioli contribuiu para que a Sampdoria se reafirmasse como time médio da Serie A (Liverani)

Na janela de transferências da temporada 2003-04, Antonioli deixou a Roma, em busca de um time em que pudesse ser titular. E conseguiu: até 2012, quando se aposentou, nunca deixou de ser a primeira opção nos clubes pelos quais passou. O início da fase pós-scudetto romanista foi dado em uma equipe que, tal qual Francesco, precisava se reerguer: a Sampdoria, que voltava à Serie A após quatro anos na segundona.

Antonioli ficou três anos na Samp e foi um dos grandes nomes da equipe treinada por Walter Novellino. No triênio de parceria entre goleiro e técnico, o time blucerchiato fez campanhas muito sólidas na máxima divisão e chegou a abocanhar uma vaga na Copa Uefa, em 2004-05 – os dorianos ficaram com a quinta posição, apenas um pontinho atrás da Udinese, que se classificou à Champions League. Em 2006, beirando os 37 anos, Antonioli optou por retornar ao Bologna, que novamente convivia com dívidas e a segunda divisão. O goleiro, porém, não foi bem acolhido.

“Os segundos três anos [em Bolonha] não foram belos, porque a torcida agiu de forma diferente. Havia um clima de ressentimento na curva. Eu nunca esperaria por essa recepção, porque dei tudo de mim na primeira passagem. Você acha que vai encontrar pessoas felizes pelo seu retorno, mas então percebe que a relação esfriou, e aí você se machuca”, lamentou o goleiro em entrevista ao diário já citado. Ao jornal bolonhês, Antonioli ainda afirma que recusou propostas da Juventus duas vezes, quando estava na Sampdoria. “Nunca pensei em dinheiro. Voltei porque Bolonha fazia parte da minha vida, mas depois de ter passado por Roma e Samp, já não era mais a mesma coisa”, completou.

Francesco foi titular absoluto em duas temporadas na segunda divisão, e mesmo com a idade avançada, não desfalcou o Bologna em uma rodada sequer. No segundo ano, ajudou a equipe a retornar para a elite e, no terceiro, pouco pode fazer para evitar que os rossoblù tivessem a segunda pior defesa do campeonato. Os feltri escaparam do descenso por apenas três pontos – graças a uma temporada de gala de Marco Di Vaio, autor de 24 gols – e o goleiro acabou dispensado ao fim de seu contrato.

Pelo Cesena, Antonioli se tornou o segundo jogador mais velho a jogar uma partida do Italiano (IPP)

Mesmo com 40 anos, Antonioli não quis parar de jogar futebol. Como agente livre, voltou à segundona e finalmente teve oportunidades no Cesena, clube pelo qual tivera passagem-relâmpago, duas décadas antes. No clube bianconero, rival regional do Bologna, o lombardo acabou fazendo história: primeiro, ajudou a devolver os cavalos marinhos à Serie A. Curiosamente, a última vez que os romanholos haviam disputado a elite havia sido na temporada em que o goleiro vestiu a camisa bianconera.

O Cesena disputaria duas temporadas na Serie A, com o goleiro ocupando o posto de uma das principais peças da equipe. Na surpreendente campanha de 2010-11, por exemplo, os bianconeri ficaram na 15ª posição e ainda tiveram jogadores em destaque, como Yuto Nagatomo, Marco Parolo, Emanuele Giaccherini e o próprio Antonioli.

O “vovô garoto” foi tão bem que o brasileiro Diego Cavalieri, badalado após ir bem no Palmeiras e passar pelo Liverpool, chegou para disputar posição, mas esquentou o banco e só atuou numa peleja da Coppa Italia. No ano seguinte, o Cesena segurou a lanterna e caiu, mas o Batman se tornou o segundo jogador mais velho a disputar uma partida da competição. Com 42 anos e 235 dias, fica atrás apenas de Marco Ballotta: o colega de posição jogou pela Lazio com 44 anos e 38 dias de vida.

Depois de 25 anos como profissional, Antonioli deixou os gramados, mas não o futebol. Durante cinco anos, foi treinador de goleiros no próprio Cesena e atualmente é o auxiliar técnico do clube romanholo. A equipe milita na Serie D, após o processo de falência que foi desencadeado no ano passado.

Francesco Antonioli
Nascimento: 14 de setembro de 1969, em Monza
Posição: goleiro
Clubes como jogador: Monza (1986-88), Milan (1988-94), Cesena (1990 e 2009-12), Modena (1990-91), Pisa (1993-94), Reggiana (1994-95), Bologna (1995-99 e 2006-09), Roma (1999-2003) e Sampdoria (2003-06)
Títulos conquistados: Uefa Champions League (1989 e 1990), Serie A (1992 e 2001), Mundial Interclubes (1989 e 1990), Supercopa da Europa (1989 e 1990), Supercopa Italiana (1988, 1992, 1993 e 2001), Europeu sub-21 (1992), Serie B (1996) e Copa Intertoto (1998)
Seleção italiana: nenhum jogo*

*Embora não tenha entrado em campo, Antonioli fez parte do elenco azzurro na Euro 2000.

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