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Lorenzo Minotti foi capitão de um Parma histórico e também colaborou com sua redenção

No fim dos anos 1980, o Parma deu uma guinada em sua história. Em 1987, o clube passou a ser bancado por um grande contrato de patrocínio assinado com a Parmalat e iniciou uma era de ouro que culminaria na formação de um time repleto de estrelas – algumas delas, de renome mundial.

O início dessa história toda, contudo, foi modesto, uma vez que o clube era um recém-promovido à segunda divisão e construiu sua base pouco a pouco. Dessa forma, os principais líderes de vestiários dos tempos dourados dos emilianos foram moldados num contexto de dificuldades. É o caso de Lorenzo Minotti, um dos primeiros investimentos da gigante dos laticínios: com os anos, o defensor se tornou o capitão dos gialloblù.

Minotti começou a carreira no Cesena, time de sua cidade natal. Pelos romanholos, despontou rapidamente: estreou na Serie B 1985-86 e participou da campanha concluída com uma vaga na elite, no campeonato posterior. Assim, em 1987, quando tinha apenas 20 anos, o zagueiro foi adquirido pelo Parma, que já via potencial em seu futebol.

Apesar da idade, Minotti não demorou a se estabelecer como um dos principais nomes dos ducali. De cara, mostrou sintonia com Luigi Apolloni, ao lado de quem faria grandes exibições por quase uma década, e em 1989 assumiu a braçadeira de capitão, pouco depois de completar 22 anos. Na primeira temporada no novo posto, o defensor foi peça-chave do time Nevio Scala, promovido para a elite pela primeira vez na história graças a um quarto lugar na Serie B. Lorenzo continuou em alta até a primeira conquista de relevância do Parma: a Coppa Italia de 1991-92.

O triunfo foi o fruto do investimento inicial feito pela família Tanzi, que permitiu a Scala formar um elenco competitivo mesmo com peças que, em sua maioria, vinham da segundona. O time já havia surpreendido em sua primeira temporada na elite, com vitórias sobre Napoli e Roma, e uma campanha que culminou na quinta colocação. Na final da Coppa ante a Juventus, o time gialloblù não se intimidou e, apesar da derrota no primeiro jogo, no Delle Alpi, conseguiu reverter a vantagem juventina no Ennio Tardini. Minotti foi o responsável por erguer a taça. A primeira das muitas que viriam nos anos seguintes.

O grande momento de glória de Minotti: um golaço em Wembley (Arquivo/Parma Calcio)

A conquista garantiu o Parma na Recopa, competição que reunia os vencedores das copas nacionais. O time italiano passou por Újpest, Boavista, Sparta Praga e Atlético de Madrid, até chegar à decisão em jogo único contra o Antwerp, no mítico estádio de Wembley. Num dos templos do futebol, Minotti se consagrou e entrou definitivamente para a galeria de grandes nomes da história do Parma: aos 9 minutos, acertou um voleio de canhota no ângulo e abriu o placar diante dos belgas. Os crociati venceriam por 3 a 1 e conquistariam o primeiro título internacional de sua história.

A temporada seria realmente marcante para Lorenzo, que em outubro de 1992 recebera sua primeira oportunidade na seleção italiana, no início do ciclo de Arrigo Sacchi. A estreia, porém, só viria a acontecer no início de 1994, às vésperas da Copa do Mundo, para a qual foi convocado – Minotti, no entanto, acabou sendo o único jogador de linha a não participar de um minuto sequer na campanha do vice-campeonato. Pela Squadra Azzurra, Minotti fez oito jogos: cinco amistosos e três partidas das Eliminatórias para a Euro 1996.

O sucesso que não veio com a seleção foi obtido no Parma, com outras conquistas – a exemplo da Supercopa da Europa e a Copa Uefa. Minotti também obteve importantes conquistas fora de campo. Em 1994, o defensor recebeu o Certificado de Mérito Público pelo seu compromisso e a briga pela regularização de uma associação de doadores de medula óssea.

Em 1995-96, Minotti jogou muito menos do que estava acostumado: havia perdido espaço para Roberto Sensini e um promissor Fabio Cannavaro, contratados naquela época. Com isso, ao fim da temporada, o defensor optou por mudar de ares: assim, após nove anos de Parma, sete dos quais com a faixa de capitão, Minotti optou por trocar o ambiente campestre da Emília-Romanha pelas praias da Sardenha. Com isso, se despediu do Tardini com 343 aparições, que o colocam entre os cinco atletas que mais vestiram a camisa do clube. Apesar de ter deixado uma vida para trás, o zagueiro não se arrependeu.

Segundo o próprio Minotti, foi no Cagliari que viveu um dos melhores momentos da carreira. “Eu me diverti muito, mas infelizmente fiquei apenas sete meses. Cheguei em um momento difícil, porque a equipe estava na parte de baixo da tabela. Do ponto de vista humano, foi uma experiência maravilhosa. Quando volto para a Sardenha, as pessoas lembram de mim com carinho”, declarou. O zagueiro foi titular na maior parte da temporada, mas não conseguiu evitar o rebaixamento: os rossoblù ficaram com 37 pontos, como o Piacenza, mas perderam a partida de desempate.

Minotti foi o capitão nas maiores conquistas do Parma (Getty)

Depois do descenso, o defensor de 30 anos acertou com o Torino, mas o físico não respondia mais. Entre 1997 e 2000, Minotti realizou apenas sete jogos – seis deles pela Serie B, competição que os grenás disputaram em 1997-98 e 1998-99. Depois do longo período de escassez de minutos no Piemonte, Lorenzo rumou ao Vêneto, para defender o Treviso. Pelos biancocelesti, Minotti teve o seu canto do cisne.

Durante sua trajetória no clube trevisano, que também estava no segundo escalão do futebol da Bota, Minotti atuou em 28 partidas, fazendo valer a sua experiência e utilizando a braçadeira de capitão. O jogador de3 4 anos não conseguiu evitar o rebaixamento da equipe para a Serie C1, mas viveu um episódio que é lembrado até os dias de hoje.

Numa partida contra o Ternana, ultras do próprio Treviso insultaram o atacante nigeriano Akeem Omolade, de 18 anos, com gestos e cânticos racistas – o ato foi reprovado com sonoras vaias pela torcida adversária. No jogo seguinte, contra o Genoa, já com o Treviso rebaixado, Minotti encabeçou uma ação de apoio ao companheiro, na qual todos os jogadores entraram em campo com o rosto pintado de tinta preta – o próprio capitão foi o responsável por pintar os colegas. Os racistas (que já haviam feito o clube ser multado anteriormente) continuaram a exibir faixas contrárias a jogadores negros e a vaiar o time, mas foram calados na segunda etapa, quando Omolade marcou um dos gols da peleja – e, depois, ainda recebeu um prêmio de fair play por parte da Uefa.

Ao final daquela temporada, Lorenzo Minotti pendurou as chuteiras e logo iniciou sua nova função no meio do futebol, ocupando o cargo de diretor esportivo do Parma de 2002 a 2004. Após um período de inatividade, em 2007 foi convidado para realizar função análoga no Cesena, que havia acabado de ser rebaixado à terceira divisão. O trabalho deu resultado e o clube retornou à Serie B. Desavenças internas fizeram-no deixar o clube, mas cerca de um ano depois Minotti estava de volta: primeiro, como observador das categorias de base; depois outra vez como diretor. Depois de dois anos na elite, preferiu se demitir do emprego na agremiação bianconera após o retorno à segundona.

Em 2014, Minotti se aventurou como comentarista da Sky Sports e no ano seguinte recebeu uma importantíssima missão: a de ajudar o Parma a ressurgir depois de um traumático processo de falência, que obrigou os crociati a recomeçarem da quarta divisão. Como diretor esportivo, ajudou a montar o elenco que iniciaria a escalada até o retorno à elite, nesta temporada, e reviveu durante pouco mais de um ano as parcerias com Scala (agora como presidente) e Apolloni (técnico). Hoje, o ex-defensor voltou à TV, novamente como comentarista esportivo.

Lorenzo Minotti
Nascimento: 8 de fevereiro de 1967, em Cesena, Itália
Clubes como jogador: Cesena (1985-87), Parma (1987-96), Cagliari (1996-97), Torino (1997-2000) e Treviso (2000-01)
Títulos conquistados: Coppa Italia (1992), Recopa Uefa (1993), Supercopa Uefa (1993) e Copa Uefa (19995)
Seleção italiana: 8 jogos

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