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Apesar das lesões, José Chamot brilhou na Lazio e ganhou a Liga dos Campeões pelo Milan

O futebol disputado na Itália é referência no quesito tática e estratégia defensiva. Do catenaccio no século passado ao 3-5-2 da Juventus de Antonio Conte, a liga italiana se tornou uma verdadeira escola para jogadores e treinadores do mundo inteiro. Vários atletas de defesa são forjados pelo futebol praticado no Belpaese. Foi assim que José Chamot virou um grande e versátil defensor. Zagueiro e lateral ambidestro, o argentino brilhou na Lazio e conquistou a Liga dos Campeões pelo Milan, mas teve a carreira encurtada devido às lesões.

Chamot nasceu em Concepción del Uruguay, uma cidade argentina localizada na província de Entre Ríos. Na infância, praticou atletismo e disputava algumas peladas defendendo o Gimnasia y Esgrima de Concepción, time de sua cidade natal. O jovem José mudou de cidade aos 15 anos, quando sua família se transferiu para San Lorenzo, e logo arranjou um teste no Rosario Central. Aprovado na peneira, integrou as categorias de base do clube por dois anos antes de estrear profissionalmente.

Em 1988, Chamot realizou seu primeiro jogo pela equipe principal dos canallas. Durante a temporada, o defensor entrou em campo 19 vezes. A época seguinte foi ainda mais prolífica: 29 partidas e três gols. O bom desempenho do atleta pelo time de Rosario não passou despercebido. Antes da Copa do Mundo de 1990, o técnico Carlos Bilardo o convocou pela primeira vez para a seleção argentina. No entanto, não foi aproveitado pelo treinador.

Em novembro de 1990, o então presidente do Pisa, Romeo Anconetani, viajou à América do Sul e contratou dois promissores jogadores argentinos: Chamot e Diego Simeone – este, posteriormente, viraria ídolo de Inter e Lazio. Tal como “Cholo”, Chamot aproveitou o período no clube nerazzurro para se adaptar ao futebol italiano. O lateral, que podia atuar em ambas as extremidades da linha defensiva devido à sua capacidade de trabalhar bem com as duas pernas, assumiu a titularidade do time no segundo turno da Serie A.

Entretanto, José viu sua nova equipe ser rebaixada ao fim da temporada 1991. De quebra, o Pisa teve a defesa mais vazada da Serie A, com 60 gols. Nada que abalasse o garoto. Titular absoluto, “El Flaco” marcou seu primeiro gol pelos nerazzurri – em vitória por 2 a 0 sobre o Pescara, em casa – e fez uma boa campanha: disputou 38 jogos e perdeu apenas quatro na temporada inteira. Por outro lado, foi expulso duas vezes.

Chamot permaneceu em Pisa para a disputa da Serie B, mas após seu clube não conseguir retornar à elite, decidiu mudar de ares em 1993. O sul-americano arrumou as malas e se mandou para Foggia, onde assinou contrato com o clube homônimo. Ele obteve o apreço do excêntrico Zdenek Zeman, um dos maiores técnicos da história da instituição rossonera, e ganhou a camisa titular logo de cara. Como reconhecimento pelas sólidas atuações que ajudaram os satanelli a conseguirem uma de suas melhores colocações na Serie A (o nono lugar), o defensor voltou ao radar da seleção argentina, dessa vez comandada por Alfio Basile.

Os argentinos Chamot e Simeone jogaram juntos no Pisa (Trivela)

Seu debute pela Albiceleste ocorreu no dia 23 de outubro de 1993, contra a Austrália, pelo jogo de ida da repescagem para a Copa do Mundo de 1994. Ele jogou os 90 minutos, e o jogo terminou empatado em 1 a 1. El Flaco também foi titular na partida de volta, na qual os argentinos derrotaram os australianos por 1 a 0. Até o Mundial dos Estados Unidos, Basile o escalou como titular em amistosos, gostou do que viu e o levou para a Copa. A Argentina caiu nas oitavas de final, diante da Romênia, mas pelo menos Chamot foi titular da lateral esquerda em todos os quatro duelos da competição.

Ao término da temporada 1993-94, o boêmio Zeman deixou o Foggia e rumou à Lazio. A primeira contratação que o treinador pediu ao presidente laziale à época, Sergio Cragnotti, foi Chamot, que havia realizado 33 jogos – todos como titular – pelos rossoneri. A diretoria da capital desembolsou 5 bilhões de velhas liras e comprou o polivalente jogador. Com o reforço de El Flaco, a Lazio descartou a aquisição de Ciro Ferrara, ídolo das torcidas do Napoli e da Juventus.

Assim como acontecera no Foggia, Chamot chegou jogando na Lazio. Na temporada 1994-95, o defensor ajudou o time laziale a alcançar o vice-campeonato italiano, as quartas de final da Copa Uefa e as semifinais da Coppa Italia. Marcou seu primeiro – e único – gol pelo clube italiano na goleada por 4 a 0 sobre o Genoa, no Olímpico, pela 24ª rodada da Serie A. Uma grande temporada para jogador e clube.

Em 1995, Chamot foi convocado para defender a seleção argentina, dessa vez sob a batuta de Daniel Passarella, na Copa Rey Fahd, competição que viria a ser conhecida como Copa das Confederações. Ele foi titular no torneio, realizado na Arábia Saudita. Jogando como lateral-esquerdo, marcou um gol e deu duas assistências na goleada por 5 a 1 sobre o Japão, na estreia do torneio. Os argentinos chegaram à final, mas El Flaco foi expulso aos 43 minutos do segundo tempo, e os argentinos acabaram derrotados pela Dinamarca por 2 a 0.

No mesmo ano, Chamot fez parte do plantel que viajou ao Uruguai para a Copa América. Ele seguiu sendo utilizado por Passarella na lateral esquerda. A Argentina sucumbiu nas quartas de final ante o Brasil: após 2 a 2 no tempo normal, a Canarinho levou a melhor nos pênaltis, vencendo por 4 a 2. Ele também participou dos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, sendo um dos três jogadores com idade acima de 23 anos. Nessa competição, a Albiceleste do artilheiro Hernán Crespo perdeu a final para a Nigéria e ficou com a medalha de prata.

O defensor não era muito de balançar as redes ou fazer o papel de garçom, gerando chances de gol para seus companheiros. Mas, uma vez ou outra, o atleta deixava sua marca. Em suas quatro temporadas pela Lazio, anotou dois gols. O primeiro foi relatado nos últimos parágrafos, e o segundo saiu bem no início da temporada 1995-96, contra o Lens, da França, pela primeira eliminatória da Copa Uefa. O tento deu a vitória magra de 1 a 0 para os biancocelesti. Nessa época, o camisa 6 foi utilizado em todas as posições da linha defensiva. Foi com sua versatilidade que Chamot contribuiu para que a equipe terminasse entre as quatro melhores colocadas da Serie A três vezes entre 1995 e 1997.

Versátil e sólido, Chamot integrou uma Lazio que surpreendeu gigantes nos anos 1990 (Getty)

Com a contratação do sueco Sven-Göran Eriksson antes do início da temporada 1997-98, Chamot perdeu espaço na Lazio. Apesar disso, o time da capital conquistou a Coppa Italia em cima do Milan. Naquela época, a competição era decidida em dois jogos. Na ida, em Milão, o defensor começou jogando e os laziali perderam por 1 a 0. Na volta, em Roma, ele não entrou em campo, porém a Lazio venceu a peleja por 3 a 1 e ficou com o troféu.

Embora não tenha sido aproveitado na reta final da época 1997-98, o versátil defensor tinha o prestígio de Passarella, técnico da Argentina. Por isso, seguiu sendo convocado para defender a Albiceleste, inclusive na Copa do Mundo de 1998. Os hermanos obtiveram 100% de aproveitamento na fase de grupos e caminharam até as quartas de final. Um 2 a 1 imposto pela Holanda de Dennis Bergkamp e Patrick Kluivert encerrou a participação da Argentina no Mundial da França.

No verão europeu de 1998, Chamot decidiu respirar novos ares. Voou para a Espanha e assinou contrato com o Atlético de Madrid. A passagem pelo time colchonero durou uma temporada e meia, na qual o defensor fez 64 partidas durante o período de enorme crise devido à gestão perdulária de Jesús Gil y Gil, que levou o Atleti ao rebaixamento, em 2000. Na virada do século, antes mesmo de o clube madrilenho cair, o Milan buscou o versátil defensor para reforçar sua retaguarda.

O sarrafo havia aumentado para Chamot, que vivera dias maravilhosos na Lazio e era titular no Atlético. Na equipe milanista, ele brigaria por posição com jogadores do naipe de Alessandro Costacurta, Paolo Maldini, Roberto Ayala, entre outros. Apesar disso, entre janeiro e junho de 2000, disputou 13 partidas no segundo turno da Serie A e ajudou os rossoneri a terminarem o campeonato na terceira posição.

As lesões dificultaram a vida de El Flaco no Milan. Porém, depois de muitos jogos perdidos devido às contusões, o jogador afirmou, em dezembro de 2001, que sua fé o ajudou. “Antes eu sofria com muitas lesões físicas. Sempre tive problemas nos tendões, muitos médicos me visitaram, mas, no final, Deus foi o melhor médico”, declarou, em entrevista coletiva.

Embora tenha se recuperado e terminado 2001-02 como titular da zaga ao lado de Costacurta, Chamot voltaria a sofrer com o calvário de lesões na época seguinte. Não à toa, o argentino entrou em campo quatro vezes na temporada inteira. Apesar das recorrentes contusões, ele viu o time treinado por Carlo Ancelotti superar as rivais Inter (semifinal) e Juventus (final) e faturar a taça da Liga dos Campeões, em 2003.

Peça útil ao Milan do início do século, Chamot conquistou uma Champions League pelos rossoneri (Getty)

Antes das conquistas pelo Milan, ainda que detonado pelas lesões, Chamot foi convocado para a Copa do Mundo de 2002. A Argentina teve uma campanha pífia e caiu na fase de grupos. O defensor ficou no banco contra Nigéria e Inglaterra, mas jogou os 90 minutos na última partida da primeira fase, diante da Suécia. Esta, inclusive, foi sua última partida com a camisa azul e branca. Ao todo, 42 jogos, dois gols e três Copas do Mundo pela seleção argentina. Um currículo internacional invejável.

A passagem de Chamot pelo Milan acabou no verão europeu de 2003. Foram 75 partidas e nenhuma bola na rede. Quer dizer, ele até estufou as redes com a “peita” rossonera, só que contra: o clássico contra a Juventus, em Turim, valendo pela 31ª rodada da Serie A 2001-02, foi decidido por um gol contra do camisa 16 (ele usou o número 19 em suas duas primeiras temporadas, mas depois mudou para o 16). Em cobrança de falta, Alessandro Del Piero jogou a bola no tumulto dentro da área, El Flaco dentou cortar e acabou mandando para as redes de Christian Abbiati.

“Infelizmente, eu cheguei ao Milan com algumas lesões. Uma pena”, lamentou Chamot, em entrevista ao MilanNews.it, em 2014. “Gostaria de ter chegado alguns anos antes, fisicamente mais intacto, mas a experiência foi ótima, especial. E eu conheci grandes campeões do calibre de Maldini e Costacurta”, acrescentou.

O clube seguinte de Chamot foi o Leganés. Porém, sua segunda experiência em solo espanhol não foi nada boa. Ele entrou em campo apenas uma vez e, em dezembro de 2003, rescindiu com a instituição. Ficou o restante da temporada parado. Até que recebeu uma proposta, no mercado de verão de 2004, do Rosario Central. O atleta aceitou a oferta, firmou vínculo com o clube que o projetou para o futebol e retornou a seu país natal. Em meados de 2006, com o corpo combalido pelas intermináveis lesões, pendurou as chuteiras.

Aposentado dos gramados, El Flaco investiu na profissão de treinador. De julho de 2009 até março de 2010, ele fez parte do grupo de auxiliares técnicos de Ariel Russo, no próprio Rosario Central. Cerca de um ano e meio depois, foi convidado por Matías Almeyda para ser auxiliar técnico no River Plate, que havia sido rebaixado para a segunda divisão. Após a volta do gigante argentino à elite, Almeyda, Chamot e outros integrantes da equipe técnica deixaram o clube, em novembro de 2012.

Chamot voltou à cena novamente em dezembro de 2015, quando assumiu o setor juvenil do Rosario Central. Ao fim da temporada 2017-18, tornou-se treinador interino da agremiação, após a saída de Leonardo Fernández. Em junho de 2018, concluiu o curso Uefa A, realizado em Coverciano, Florença, que qualifica profissionais a treinarem times juvenis e equipes da Serie C, além de poder ser auxiliar técnico na Serie B e na Serie A. Vale ressaltar que o ex-defensor se formou na mesma classe de Gabriel Batistuta, Paolo Cannavaro, Alberto Gilardino, Thiago Motta, Andrea Pirlo, entre outros. Hoje, Chamot é o treinador do Libertad, do Paraguai.

José Antonio Chamot Picart
Nascimento: 17 de maio de 1969, em Concepción del Uruguay, Argentina
Posição: lateral-esquerdo
Clubes como jogador: Rosario Central (1988-90 e 2004-06), Pisa (1990-93), Foggia (1993-94), Lazio (1994-98), Atlético de Madrid (1998-2000), Milan (2000-03) e Leganés (2003-04)
Títulos: Prata Olímpica (1996), Coppa Italia (1998 e 2003) e Liga dos Campões (2003)
Carreira como técnico: Rosario Central (2018) e Libertad (2019-hoje)
Seleção argentina: 42 jogos e dois gols

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