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Artilheiro de sol e mar, Massimo Agostini foi ídolo do Cesena e campeão mundial pelo Milan

Alfredo Di Stéfano disse uma vez que “um jogo de futebol sem gols é como um domingo sem sol”. Massimo Agostini, nascido em Rimini, grande destino turístico de veraneio na Riviera Adriática, sempre rejeitou a ideia de um fim de semana nublado. Bom atacante que era, costumeiramente fazia com que os raios do astro-rei surgissem entre as nuvens.

Na época em que Agostini começou a dar seus primeiros passos no futebol, o Cesena era o time mais forte da Romanha. Era natural, portanto, que o atacante deixasse Rimini para integrar as divisões de base dos bianconeri, sediados na província vizinha, a 30 quilômetros do paraíso litorâneo. Massimo rapidamente impressionou e foi integrado ao plantel profissional em 1982, com 18 anos.

O Cesena acabou rebaixado para a Serie B e, com Walter Schachner vendido ao Torino, Agostini começou a ganhar espaço e aparições, já sendo titular em praticamente toda a temporada de 1984-85, na segundona. Em sua terceira disputa de segunda divisão, então com 22 anos, o riminês desabrochou e marcou 13 gols, levando o Cesena à oitava colocação e ganhando o apelido que iria lhe acompanhar o resto da carreira: Condor, devido ao oportunismo na grande área. Assim, o atacante em forma de ave de rapina foi contratado pela Roma e recebeu a oportunidade de brilhar na Serie A.

Sven-Göran Eriksson foi claro e pediu especificamente pela contratação do atacante de 1,80m, considerando seu potencial e seu estilo de jogo veloz. Contudo, a pressão foi grande demais para o jogador, que nunca conseguiu se afirmar no elenco romanista. Erros em chances claras o afetaram e sua confiança foi destruída: Agostini não teve resiliência suficiente para lidar com as críticas e com a torcida pedindo o que o ídolo Roberto Pruzzo, já veterano, atuasse em seu lugar.

Depois de 40 jogos e apenas seis gols, espalhados por um par de anos, Agostini retornou ao Cesena em uma troca envolvendo Ruggiero Rizzitelli, que fora enviado para a capital italiana. Na nova chance em seu antigo clube, que agora estava na Serie A e tinha os estrangeiros Hans Holmqvist e Davor Jozic, além de Alberto Bigon como treinador, Agostini finalmente voltou a exibir bom futebol, sendo o artilheiro isolado bianconero nas duas temporadas seguintes.

Nestes dois anos incríveis, o Condor fez 11 gols em cada temporada, marca que o colocou à frente na artilharia da Serie A de ícones como Diego Maradona, Lothar Matthäus e Rudi Völler, em 1989, e de Careca, em 1990. Nessa passagem pelo Cesena, Agostini fez 59 partidas e, na última delas, inclusive salvou  o time do rebaixamento, marcando contra o Hellas Verona aos 37 minutos do segundo tempo. Ao fim da campanha, o atacante resolveu não continuar na equipe bianconera, treinada na época por Marcello Lippi.

Em Roma, Agostini não conseguiu se firmar com seu estilo oportunista (Almanacco Giallorosso)

Por 6 bilhões de liras, Massimo foi vendido ao Milan e se reencontrou com Arrigo Sacchi, que fora seu técnico nas divisões de base do Cesena. O Diavolo precisava de um elenco robusto para poder competir em alto nível em várias competições e também para jogar no 4-4-2 característico de seu treinador, que demandava um condicionamento físico muito maior do que o padrão da época.

Assim, Agostini começou bem a temporada 1990-91, marcando o gol da vitória em suas partidas de estreia na Serie A e na Coppa Italia, em casa, contra o Genoa e Triestina, respectivamente. Porém, seu rendimento foi caindo e o jogador foi relegado a partidas contra adversários fracos da copa doméstica e aparições esporádicas na Serie A. Somando todos os campeonatos, foram 25 partidas e quatro singelos gols com a camisa do Milan.

Devido a seu baixo rendimento na Lombardia, Agostini acabou cedido ao Parma. E embora o time tenha vencido a Coppa Italia de 1992, o atacante fez apenas quatro tentos em 30 aparições. Tomas Brolin e Alessandro Melli eram jogadores espetaculares e deixaram pouco espaço para o centroavante poder desempenhar tudo aquilo que era conhecido por fazer. Depois de mais uma temporada decepcionante num clube ambicioso, o Condor resolveu redimensionar suas pretensões. Deixou a Emília-Romanha e retornou às raízes no ensolarado litoral adriático, agora para defender o Ancona, que acabara de ser promovido pea primeira vez para a divisão de elite nacional.

Com menos competição e mais tranquilidade para desempenhar sua função, Agostini reencontrou seu bom futebol, sendo mais uma vez artilheiro de seu time, dessa vez com 12 gols na Serie A 1992-93. O primeiro na competição beirou o antológico: na quinta rodada, aos 84 minutos da partida contra o Genoa, o lateral-esquerdo Felice Centofanti acertou uma meia-bicicleta no travessão e, no rebote, com o mesmo gesto técnico, o Condor decretou o 4 a 4 final. Contudo, mesmo com as grandes atuações do romanholo, o time marquesão sofreu e foi rebaixado com uma das piores campanhas do Italiano.

O jogador escolheu ficar para a segundona e na temporada de 1993-94, viveu um de seus momentos mais importantes da carreira. Aos 30 anos, fez incríveis 18 gols na Serie B e garantiu seu único prêmio de artilheiro numa competição nacional. Além disso, levou o Ancona para a final da Coppa Italia, passando pelo Torino de Andrea Silenzi nas semifinais. Na decisão, depois de um empate heroico sem gols em casa, perdeu de 6 a 1 para a Sampdoria de Ruud Gullit, Gianluca Pagliuca, Moreno Mannini e Roberto Mancini.

Mesmo com quase duas dezenas de gols do atacante, o Ancona conseguiu apenas uma oitava colocação e ficou quatro pontos atrás do Padova, último promovido à Serie A. Se os biancorossi não subiram, Agostini o fez, já que recebeu – e aceitou – uma proposta do Napoli, que havia acertado com o técnico Vincenzo Guerini, do próprio Ancona. Com mais uma chance de ouro no alto escalão do futebol italiano, chegou para reforçar o time, juntamente a Freddy Rincón e André Cruz.

Em três passagens pelo Cesena, Agostini se tornou um dos maiores ídolos do clube (Wikipedia)

Dessa vez, parecia que tudo seria diferente para Agostini num clube grande. A temporada de estreia do Condor foi excelente e ele se sagrou como artilheiro do time napolitano, com nove tentos na Serie A – 13, se considerarmos todas as competições. Entretanto, o Napoli enfrentava uma reformulação profunda e, em crise econômica, constantemente vendia e comprava jogadores. Tantas alterações refletiam em resultados sempre abaixo do esperado para os azzurri.

Em seu segundo ano na Campânia, Agostini foi vítima do caos nos bastidores da agremiação partenopea. O Napoli fez uma Serie A pífia e escapou do rebaixamento basicamente por conta da retranca armada pelo técnico Vujadin Boskov e pela fragilidade dos rivais. O ataque, pior do campeonato com apenas 28 gols marcados, não fustigava as defesas adversárias e o jogador não tinha a ajuda necessária para repetir as boas atuações do ano anterior. Ainda assim, o Condor fez quatro gols e foi o vice-artilheiro do time, com um a menos que Arturo Di Napoli.

Sem título algum, o riminês fez suas malas e voltou para casa, mais uma vez para fazer história com o cavalo-marinho no peito. Em sua terceira passagem pelo Cesena, Agostini fez dupla com a lenda Dario Hübner. Sendo assim, os dois maiores artilheiros da história do clube jogaram juntos durante a temporada de 1996-97. O que era para ser uma temporada incrível, com a promoção dos bianconeri comandada por seus dois maiores ídolos, teve um final trágico: o Cesena caiu para a terceira divisão e Hübner foi para o Brescia, que acabara de ser promovido para a Serie A.

O Condor, naquele que parecia ser o seu derradeiro voo, ficou para a disputa da Serie C1 e devolveu o Cesena à segundona imediatamente. Dessa forma, terminou a sua linda história no time romanholo, com 67 gols em sete temporadas. Entre 1999 e 2003, o camisa 9 ainda teve breves passagens por Ravenna, na Serie B, e Spezia, Tivoli, Forlì e Real Cesenatico, nas divisões inferiores, até anunciar sua aposentadoria do futebol de campo.

Na trajetória do centroavante que viveu seus melhores momentos na Emília-Romanha, nas Marcas e na Campânia, a sua ótima relação com o mar e sol jamais será ignorada. Assim, o “rato de praia” começou um novo capítulo em sua história, agora jogando futebol de areia. Em pouco tempo, Massimo foi bicampeão nacional, convocado para a seleção italiana e em seu segundo ano já era treinador e jogador. Em 2005, levou os azzurri do beach soccer a um inédito título europeu da categoria.

Entretanto, aos 42 anos, Agostini resolveu suspender a aposentadoria do futebol profissional e foi contratado pelo Murata, de San Marino, para ser jogador e também treinador. Nem precisou se mudar, já que o minúsculo país fica encravado na Itália e é vizinho à província de Rimini. Em suas duas temporadas na nação conhecida por ser a mais antiga república do mundo, Massimo foi bicampeão samarinês.

Entre as camisas importantes que Agostini vestiu, está a do Parma (Score)

Em San Marino, também jogou a primeira fase dos play-offs da Liga dos Campeões e chegou a ser dono do recorde de jogador mais velho a entrar em campo – marca quebrada posteriormente por Marco Ballotta, goleiro da Lazio. Acumulou estas funções nas duas modalidades por duas temporadas, já que segundo ele, a paixão de jogar futebol ainda era superior a qualquer coisa em sua vida.

Em 2007, Agostini abandonou o beach soccer e no ano seguinte, se aposentou de forma definitiva dos gramados, aos 44 anos. O Condor, autor de 129 gols como profissional, decidiu se dedicar apenas à profissão de treinador de futebol de campo.

Nos seis anos seguintes, Massimo teve passagens treinando o Murata, a seleção sub-21 de San Marino, as categorias de base do Cesena e o Riviera di Romagna, time importante da Serie A feminina na Itália.

A praia, porém, o chamava de volta. Assim, Agostini novamente largou o futebol de campo e passou a treinar a seleção italiana de beach soccer, entre 2015 e 2017. Com bons resultados, mas sem títulos, no ano seguinte se tornou chefe de delegação, função que exerce até hoje. Sem dúvidas, o riminês fez da areia o seu escritório.

Massimo Agostini
Nascimento: 20 de janeiro de 1964, em Rimini, Itália
Posição: centroavante
Clubes como jogador: Cesena (1983-86, 1988-90 e 1996-98), Roma (1986-88), Milan (1990-91), Parma (1991-92), Ancona (1992-94), Napoli (1994-96), Ravenna (1999), Spezia (1999), Tivoli (2001), Forlì (2002), Real Cesenatico (2003) e Murata (2006-08)
Títulos como jogador: Supercopa Uefa (1990), Copa Intercontinental (1990), Coppa Italia (1992), Serie C1 (1998), Campeonato de San Marino (2006 e 2007), Copa de San Marino (2007) e Supercopa de San Marino (2007)
Clubes como técnico: Murata (2006-10), San Marino sub-21 (2009-10), Riviera di Romagna (2012-13; feminino)

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