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Giuliano Sarti, o ‘goleiro de gelo’ que marcou época por Fiorentina e Inter



No esporte de alto rendimento, a máxima concentração durante os momentos competitivos não só é desejável como pode resultar decisiva nas disputas mais acirradas. No futebol, a compreensão de que o foco total em todos os instantes das partidas deve se estender a todos os atletas em campo é relativamente recente, mas goleiros sempre foram alvo dessa cobrança. Uma exigência que, quando correspondida, se transformava em admiração: quantos arqueiros não entraram para a história por conta de sua frieza, pela capacidade de não se abalar diante das maiores adversidades? Giuliano Sarti, que fez carreira nas décadas de 1950 e 1960, foi um deles.

Durante seus anos como profissional, Sarti foi apelidado de “goleiro de gelo”. A alcunha poderia ter-lhe sido atribuída por seu local de nascimento ser a província de Bolonha, que tem um dos invernos mais rigorosos da Itália, mas não: foi somente nos anos 1960 que Gianni Brera cunhou o apelido que o acompanhou na carreira, devido a seu posicionamento preciso, à sua sobriedade e aos gestos nada espalhafatosos ao executar defesas complicadas.

Quando garoto, o elemento natural que o acompanhava não era a água congelada, mas a argila. Giuliano nasceu em Castello d’Argile, cidadezinha que ganhou esse nome dos antigos romanos por causa do seu solo argiloso. E Sarti, tal qual uma escultura de barro que pouco a pouco vai ganhando forma nas mãos de um artista, foi se moldando por clubes amadores da região. Nos tempos de base, atuou pelo San Matteo della Decima; quando já tinha idade para integrar os profissionais, passou por Centese e Bondenese. Com quase 21 anos, o pétreo goleiro atravessou a cordilheira dos Apeninos e foi para a artística Florença, berço do Renascimento: fora contratado pela Fiorentina.

Sarti passou a temporada 1954-55 quase toda aprendendo com o titular, o veterano Leonardo Costagliola. O goleiro, que tinha convocações para a seleção italiana, se aposentaria ao fim da campanha viola e atuou como tutor do garoto, que estreou na 28ª rodada, contra o Napoli. Giuliano fez quatro partidas no total e, para o ano seguinte, ganhou a posição no time do técnico Fulvio Bernardini – uma formação que entraria para a história violeta.

A equipe treinada pelo Professore privilegiava um toque de bola envolvente e tinha um forte trio de ataque, formado por Giuseppe Virgili, Miguel Montuori e o brasileiro Julinho Botelho. Contudo, sua verdadeira virtude estava no sistema defensivo, comandado pelos zagueiros Sergio Cervato e Francesco Rosetta, além do volante Giuseppe Chiappella. Sarti ainda não era um líder do elenco, mas foi titular em 25 dos 34 jogos da campanha do primeiro scudetto da Fiorentina. Os gigliati ainda terminaram a Serie A com a melhor defesa, com apenas 20 gols sofridos.

Sarti passou nove anos na Fiorentina e vivenciou a melhor fase do clube de Florença (Arquivo/Fiorentina)

Em 1956-57, a Fiorentina ficou com o vice-campeonato nacional, venceu a Copa Grasshoppers e, sobretudo, foi a pioneira italiana em finais europeias. A equipe de Florença foi até o Santiago Bernabéu encarar o Real Madrid na decisão da Copa dos Campeões e resistiu à pesada artilharia de Raymond Kopa, Alfredo Di Stéfano e Francisco Gento até a parte final do segundo tempo, mas acabou levando 2 a o graças a gols dos dois últimos citados. Sarti foi titular na finalíssima e em grande parte da temporada, mas ainda revezava com Riccardo Toros.

Foi somente a partir de 1957-58, na derradeira temporada de Bernardini em Florença, que Giuliano se tornou absoluto na meta violeta. Até 1963, nunca foi questionado na posição e não caiu em descrédito com nenhum dos muitos treinadores que passaram pela Fiorentina naqueles anos – depois de Fuffo, foram seis. Ao contrário: Sarti foi uma constante no time que emendou quatro vice-campeonatos nacionais e dois vices da Coppa Italia entre 1957 e 1960. Em alta, o emiliano ganhou sua primeira convocação para a seleção em 1959, e estreou num empate por 1 a 1 contra a Hungria, em Florença.

Em 1960-61, o “goleiro de gelo” não atuou o quanto desejava, por conta de problemas físicos, e acabou participando muito pouco das conquistas do clube. Além da Coppa Italia, a Fiorentina levantou a taça da Recopa Europeia – que debutava naquela temporada – e foi a primeira equipe italiana a ganhar uma copa continental. Sarti assistiu tudo do banco: como a viola tinha um jovem e grande goleiro na reserva (Enrico Albertosi, outra lenda), não era necessário forçar a barra.

No início da campanha seguinte, Sarti assumiria a faixa de capitão dos gigliati – que passara anteriormente pelos braços dos ex-colegas Rosetta, Cervato, Chiappella e Montuori. A temporada 1961-62 foi positiva para a equipe treinada por Nándor Hidegkuti: a Fiorentina ficou com a terceira posição da Serie A e o vice da Recopa, com Sarti sendo titular no campeonato nacional e cedendo espaço, nas copas, para o promissor Albertosi. Giuliano se mantinha em evidência ao mesmo tempo em que exercia na carreira do seu reserva o papel que Costagliola tinha desempenhado para si – o de tutor.

Em 1962-63, a Fiorentina não fez uma temporada brilhante, o que impulsionou o processo de reformulação em setores do elenco. O clube não se via obrigado a ceder Sarti, mas ao mesmo tempo não se furtaria a ouvir propostas pelo jogador, uma vez que já contava com um substituto à altura, seis anos mais jovem. Por sua vez, a Inter – detentora do scudetto – percebeu ali uma oportunidade de mercado: seu titular era Lorenzo Buffon, veterano que já convivia com problemas físicos, e o reserva imediato era o também envelhecido Ottavio Bugatti. Os nerazzurri precisavam de um novo titular e estavam em busca de um jogador já afirmado, confiável e que ainda tivesse lenha para queimar. Sarti era o nome ideal e Buffon acabou incluído no negócio como contrapartida – seria um reserva de luxo para Albertosi.

Giacomo Bulgarelli encara Sarti: duelo disputado entre Bologna e Inter pelo título italiano (Ansa)

Se já era reconhecido como um dos grandes goleiros italianos daqueles tempos graças a seus quase 250 jogos pela Fiorentina, Giuliano Sarti virou lenda na Lombardia, sendo pilar de conquistas marcantes no clube de Milão. A Grande Inter de Helenio Herrera se destacava por sua defesa fortíssima e pelo aperfeiçoamento do catenaccio. Autor de 198 jogos pela equipe nerazzurra, Sarti foi o “Hombre de la Revolución” de HH e encabeçou o sistema defensivo que contribuiu de forma decisiva para os bicampeonatos da Serie A, da Copa dos Campeões e do Mundial Interclubes.

Sarti foi absoluto nos quatro anos de auge daquela equipe mitológica. No quinquênio que ficou em Milão, o goleiro só não ficou entre os três primeiros colocados nas competições que disputou em três ocasiões: nas copas nacionais de 1963-64 e 1967-68 e na Serie A do último ano citado. No total foram 13 pódios e seis títulos conquistados, além de atuações que lhe lançaram de volta à seleção, pela qual, contudo, não disputou um grande torneio. Em 1966, Sarti vivia grande momento, mas o técnico Edmondo Fabbri levou Albertosi, Roberto Anzolin (Juventus) e Pierluigi Pizzaballa (Atalanta) para a fracassada expedição ao Mundial – em suas carreiras, os dois últimos somaram apenas uma partida pela Nazionale.

A Inter foi a seleção de Giuliano Sarti. Logo no primeiro ano de casa, o emiliano comandou a defesa formada por Tarcisio Burgnich, Aristide Guarneri, Armando Picchi e Giacinto Facchetti, que parou Everton, Monaco, Partizan, Borussia Dortmund e Real Madrid no caminho do título europeu – em nove partidas, a Inter sofreu apenas cinco gols. Dias depois da conquista continental, a Beneamata terminou a Serie A empatada em pontos com o Bologna de Bernardini. No desempate, dois gols no final deram a vitória ao time treinado pelo ex-técnico de Sarti.

A campanha de 1964-65 foi a mais frutífera daquela Inter e, consequentemente, da carreira do goleiro. Naquele ano, a equipe milanesa conquistou três troféus e por muito pouco não beliscou um quarto – perdeu a Coppa Italia para a Juventus graças a um magérrimo 1 a 0. Além da conquista da Serie A e do bi europeu (o Benfica de Eusébio foi vice), a equipe de Herrera venceu o Mundial Interclubes em cima do Independiente. Na ida, em Avellaneda, Sarti deixou uma bola fácil passar por entre as pernas e se recuperou antes de ela cruzar a linha, mas o árbitro brasileiro Armando Marques, pressionado pelos argentinos, validou o gol. No jogo de volta, o goleiro se redimiu com grandes defesas que contribuíram com a vitória nerazzurra por 2 a 0. No desempate, no campo neutro de Madrid, melhor para os italianos – 1 a 0.

No ano seguinte, a Inter venceu o Independiente com mais tranquilidade, por 3 a 0 no placar agregado, e também teve mais folga na Serie A: o scudetto chegou com uma rodada de antecedência e, como era o décimo do clube, deu aos nerazzurri o direito de estampar uma estrela no seu uniforme. Por outro lado, a equipe de Herrera caiu nas semifinais da Coppa Italia para a Fiorentina e na mesma fase da Copa dos Campeões para o Real Madrid – os dois algozes acabaram como campeões. Como uma montanha nevada, Sarti continuava quase intransponível na meta nerazzurra.

Sarti foi o único goleiro italiano a disputar quatro finais da Copa dos Campeões e foi bicampeão intercontinental (Sempre Inter)

Segundo Sandro Mazzola, seu companheiro de vestiário, o goleiro tinha uma maneira muito particular de atuação, que condizia com sua tão falada frieza – e também denotava a sua agilidade. “Ele se movia um momento após o chute do adversário, pois queria ter a percepção do que acontecia até o final [da jogada]. E se encontrava sempre pronto [para reagir]”, declarou o craque nerazzurro numa entrevista ao site da Associação de Jogadores da Itália. Tal característica, porém, lhe deixava no limite entre intervenções espetaculares e falhas clamorosas.

No penúltimo ano em Milão, o nerazzurro teve participações opostas em dois vices. Primeiro, brilhou na derrota contra o Celtic, na quarta final europeia de sua carreira: não evitou a perda do título para os escoceses, mas entrou na história como o único goleiro italiano a disputar quatro decisões da Copa dos Campeões ou da Champions League, sua sucessora. Uma semana depois, cometeu um erro crasso no 1 a 0 diante do Mantova, na derradeira rodada, deixando passar um tiro cruzado de Beniamino Di Giacomo, ex-nerazzurro, e ficou arrasado – o homem de gelo, à beira de um colapso, teve de ser consolado por Facchetti. Afinal, a queda foi decisiva para que o scudetto acabasse entregue de bandeja para a Juve, que ultrapassou a sua arquirrival no photo finish.

As duas derrotas marcaram o fim da Grande Inter, que se desfez de atletas como Picchi, Guarneri e o brasileiro Jair da Costa como tentativa de se reformular para 1967-68. Herrera e Sarti ficaram por mais um ano, mas os resultados insatisfatórios geraram uma verdadeira revolução no clube – até mesmo o presidente Angelo Moratti cedeu a agremiação a Ivanoe Fraizzoli. Com quase 35 anos, o goleiro emiliano passou para a Juventus, onde seria reserva de Anzolin, que já havia lhe fechado as portas da Nazionale, anos antes. Foi sua última experiência num clube profissional: na temporada seguinte, se aposentou atuando na quarta divisão pela Unione Valdinievole, da Toscana.

Aposentado, Sarti se fixou em Florença e teve uma breve passagem como técnico da Lucchese, clube da região metropolitana. Embora tenha se dedicado à Audace Galluzzo, pequena agremiação semiprofissional florentina, sua vida fora dos campos teve pouca relação com o esporte. O ex-goleiro teve alguns momentos como comentarista de uma rádio local, mas atuou como comerciante e preferia mesmo passar seu tempo entre livros e filmes – hábito que já cultivava como jogador.

Giuliano Sarti faleceu em 2017, aos 83 anos. Ainda em vida, teve a felicidade de ser integrado ao Hall da Fama da Fiorentina, que homenageou suas maiores estrelas em 2012. Em Milão, o tributo foi póstumo: o ex-goleiro também figura na lista de nomes históricos da Inter, que a cada ano adiciona quatro jogadores à sua calçada de notáveis.

Giuliano Sarti
Nascimento: 2 de outubro de 1933, em Castello d’Argile, Itália
Morte: 5 de junho de 2017, em Florença, Itália
Posição: goleiro
Clubes como jogador: Centese (1950-52), Bondenese (1952-54), Fiorentina (1954-63), Inter (1963-68), Juventus (1968-69) e Unione Valdinievole (1969-70)
Títulos como jogador: Serie A (1956, 1965 e 1966), Coppa Italia (1961), Recopa Uefa (1961), Copa dos Campeões (1964 e 1965), Mundial Interclubes (1964 e 1965) e Copa Grasshoppers (1953)
Clube como treinador: Lucchese (1970)
Seleção italiana: 8 jogos



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