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Sergio Pellissier se tornou o maior ídolo do Chievo após 17 temporadas no clube

O futebol é repleto de histórias de jogadores que viraram ídolos de clubes não tão famosos e, por isso, recebem pouco reconhecimento. O atacante Sergio Pellissier, que se aposentou ao fim da temporada 2018-19, é uma dessas figuras. Longe dos holofotes, o veterano resolveu dedicar grande parte de sua carreira ao Chievo, convertendo-se em uma das maiores bandeiras da agremiação.

Se procurarmos por compilações de gols de Pellissier no YouTube, veremos como a maioria de seus gols saía de bolas enfiadas por seus companheiros ou aproveitando falha dos adversários no último terço do campo. E para superar o goleiro nesse tipo de jogada, três toques na pelota bastava. Tudo começou no Torino.

Pellissier cresceu em Aosta, uma cidade situada no noroeste da Itália, bem próximo aos Alpes franceses e suíços. Ele não precisou ir longe para iniciar sua trajetória no futebol. Na adolescência, entrou para as categorias de base do Toro e, em 1997, pouco antes de completar 18 anos, estreou profissionalmente: ingressou no segundo tempo e jogou 12 minutos na derrota por 2 a 1 para a Salernitana, fora de casa, pela Serie B. Pouco tempo depois, Pellissier foi convocado para cinco compromissos da seleção italiana sub-21. Os azzurrini venceram todas as partidas, mas o garoto não marcou gols.

Em 1998, o jovem ajudou o time sub-21 granata a conquistar a Copa Viareggio, mas no mesmo ano foi vendido ao Varese, que estava na Serie C1. A transferência fez bem à evolução de Pellissier, visto que ganhou mais tempo dentro das quatro linhas e mostrou seu potencial frente às redes adversárias. Em duas temporadas na Lombardia, marcou nove gols em 53 jogos.

O aproveitamento do atacante no Varese despertou o interesse do Chievo, que acertou a sua compra no verão europeu de 2000, através do diretor esportivo Giovanni Sartori. No entanto, o jogador não entrou em campo até o fim do ano e acabou emprestado à Spal. Ele ficou uma temporada e meia em Ferrara, e matou a pau na Serie C1 de 2001-02. Em 30 jogos pelo certame, nos quais atuou como meia, ponta e atacante, Pellissier estufou as redes 14 vezes e foi garçom em cinco gols. Seu rendimento não foi suficiente para levar os biancazzurri à segundona, mas garantiu a ele uma vaga no plantel do Chievo na época seguinte.

No clube veronês, Pellissier melhorou seu desempenho. Aguçou seu faro de gol e se tornou o principal bomber dos burros alados neste século. O camisa 31 iniciou a temporada 2002-03 no banco, mas logo ganhou a titularidade. O Chievo realizou uma boa campanha – dada as limitações da agremiação – naquela Serie A, terminando-a em sétimo lugar. Vale salientar que aquele elenco, gerido por Luigi Delneri, contava com as presenças de Oliver Bierhoff, Simone Perrotta, Eugenio Corini, Luciano, Moreno Longo e outros conhecidos do futebol italiano.

Pellissier ficou 17 anos no Chievo, 12 deles como capitão (Reuters)

Seu primeiro gol pelo Chievo ocorreu em novembro de 2002. Quinta opção para o ataque, atrás de Bierhoff, Federico Cossato (terminaria como artilheiro dos gialloblù no campeonato, com nove tentos), Luigi Beghetto e Massimo Marazzina, Pellissier saiu do banco para dar a vitória à sua equipe contra o Parma de Adrian Mutu, no Ennio Tardini, pela oitava rodada. Aproveitou a assistência de Daniele Franceschini, invadiu a área e soltou uma bomba com a canhota, no canto direito do goleiro Sébastien Frey.

O camisa 31 concluiu a temporada de retorno ao Chievo com cinco gols em 30 jogos – somando Serie A, Coppa Italia e Copa Uefa. O ano de 2004, futebolisticamente falando, não foi muito bom para o centroavante. Em 31 partidas disputadas no ano inteiro, balançara as redes apenas duas vezes. Fora de campo, por outro lado, ele havia alcançado uma grande vitória: casara-se com Gian Micaela Viadana, que tinha conhecido em Ferrara, quando estava cedido por empréstimo à Spal. Futuramente, eles teriam três filhos.

Depois de flertar com o descenso em 2004-05 e ter conseguido a salvezza nas últimas rodadas, o Chievo se recuperou na temporada seguinte. Os burros alados arquitetaram uma boa campanha na Serie A e, beneficiados pelo escândalo do Calciopoli, finalizaram a liga na quarta posição, conquistando uma história e inédita vaga para a Liga dos Campeões. Pellissier teve grande parcela de contribuição no excelente campeonato do time veronês, uma vez que marcou 13 gols em 34 confrontos.

Contudo, o sonho de disputar a fase de grupos da Liga dos Campeões caiu por terra na terceira fase dos playoffs. O Chievo perdeu por 4 a 2 no agregado para o Levski Sofia, então campeão búlgaro, e foi para a Copa Uefa, competição em que levaram outra traulitada na fase preliminar: os gialloblù perderam em casa a classificação para a fase de grupos ao serem derrotados na prorrogação pelo Braga. Pellissier atuou nos dois combates contra o Levski Sofia, porém passou em branco. Em ambos os embates diante dos portugueses, o italiano acabou não sendo relacionado pelo técnico Giuseppe Pillon.

Os maus resultados acompanharam o Chievo na Serie A, e o clube de Verona sofreu seu primeiro rebaixamento. Pellissier, com nove gols e quatro assistências em 36 jogos, fez o que estava ao seu alcance – jogando como ponta, segundo atacante e centroavante –, mas a equipe estava fadada à queda. O camisa 31, que já era um dos principais nomes do grupo, permaneceu para jogar a Serie B, assumiu a capitania do time e gravou de vez seu nome na história do Ceo.

Pellissier liderou a equipe na trajetória que findou no título da segunda divisão, sendo o artilheiro dos burros alados, com 22 gols em 37 partidas. O número expressivo fez com que o aostano superasse Raffaele Cerbone e se tornasse o jogador que mais marcou tentos em uma só temporada pelo Chievo.

O atacante é dono de vários recordes com o Chievo e lidera a classificação em número de partidas e de gols pelo clube na elite (Getty)

Na volta à elite, o clube de Verona flertou com o rebaixamento novamente, mas Torino, Reggina e Lecce fizeram campanhas piores e carimbaram o passaporte à segundona. Pellissier, que pela primeira vez na carreira disputou todos os jogos na temporada, esteve na mira da Lazio, mas seguiu no Vêneto e subiu de produção após a chegada do técnico Domenico Di Carlo para o lugar de Giuseppe Iachini, em novembro de 2008.

Em 2009, o bom desempenho do bomber pelo Chievo resultou em um teste na seleção italiana. Sim, teste. É que o então treinador da Nazionale, Marcello Lippi, deixou de fora da lista 13 nomes que já estavam garantidos na Copa das Confederações. Sendo assim, ele deu chance a atletas que vinham atuando pouco ou que ainda não haviam recebido uma oportunidade pela Azzurra. Foi o caso de Pellissier, que iria defender a seleção pela primeira e única vez. No amistoso contra a Irlanda do Norte, em Pisa, realizado em junho, entrou aos 17 minutos do segundo tempo, na vaga de Giampaolo Pazzini, e fechou a conta: 3 a 0 para os donos da casa.

O ano de 2012 foi especial para Pellissier. O camisa 31 marcou seu centésimo gol pelo Chievo, na vitória por 2 a 1 sobre o Novara, no Marcantonio Bentegodi, em fevereiro, e realizou sua 300ª partida com a camisa gialloblù. Nela, teve direito a um tento no triunfo por 2 a 0 diante do Bologna, em casa, pela primeira rodada da Serie A 2012-13.

Tudo mudou, porém, na temporada seguinte. O então treinador clivense, Eugenio Corini – ex-companheiro de Pellissier em seus primeiros passos no Chievo –, tirou a titularidade do atacante e até o mandou treinar com os garotos da base. Quando o técnico o colocava em campo, era sempre nos minutos finais dos confrontos. Alberto Paloschi se tornara o titular da esquadra. Ao fim da temporada, a diretoria do clube renovou com Corini, e, assim, Sergio declarou que queria deixar Verona, já que entendia que o comandante não tinha confiança em seu futebol.

No entanto, após maus resultados no início da época 2014-15, a cúpula dos burros alados decidiu demitir Corini. Rolando Maran chegou para seu lugar, deu mais minutos a Pellissier e o atacante mudou de ideia em relação à saída do clube. Em abril de 2016, balançou duas vezes as redes do Frosinone, no Bentegodi, e se tornou o jogador mais velho do Chievo a marcar na Serie A (37 anos e oito dias). Em dezembro do mesmo ano, passou a régua no 2 a 0 contra o Palermo, no Renzo Barbera, e alcançou a marca de 100 gols na primeira divisão da Itália.

A temporada 2017-18 não foi boa para Pellissier. Findou a época com apenas duas bolas na rede em 18 duelos. Um desses tentos, entretanto, foi mais do que especial. Ao carimbar a meta do Hellas Verona, num Derby della Scala inédito na Coppa Italia, o camisa 31 deixou para trás Federico Cossato e virou o máximo goleador do dérbi citadino, com quatro gols. A classificação, todavia, ficou com os butei, que venceram nos pênaltis por 5 a 4. Nas cobranças, Pellissier, que antes tinha sido o herói, foi o vilão: errou sua cobrança e permitiu a classificação do rival às oitavas de final do torneio.

“Se escreve Sergio, leia-se Chievo: obrigado, capitão”, afirmou a torcida gialloblù (Ansa)

Ainda em 2017, o jogador fechou a churrascaria Porto Alegre, que administrava junto com o brasileiro Luciano, seu ex-colega de equipe, em Verona. Em julho de 2018, o centroavante estendeu contrato com o Chievo até o fim da temporada 2018-19, na qual jogou pouco, mas de forma razoável, com gols importantes – e espaço para algumas polêmicas, como quando declarou que “Mussolini fez coisas boas e ruins pela Itália”. Em maio de 2019, anunciou que penduraria as chuteiras após o último jogo dos clivensi na Serie A. Em coletiva de imprensa, o presidente gialloblù, Luca Campedelli, anunciou a aposentadoria da camisa 31.

A despedida de Pellissier no Bentegodi, na penúltima jornada da Serie A, foi emocionante. Embora não tenha conseguido ir às redes nem em Verona ou na sua partida final, em Frosinone, recebeu muitas homenagens e foi ovacionado pelos torcedores. Pudera: o atacante é, sem dúvidas, o maior jogador da história do Chievo. É o atleta com mais partidas pelos burros alados no geral (517) e na primeira divisão (459), além de liderar em gols na elite – no campeonato, fez 112 dos 139 pelo clube. Por fim, com 39 anos e 290 dias, foi o mais velho clivense a balançar as redes no Italiano. Números que dificilmente serão superados.

Agora ex-jogador, Sergio deve assumir um cargo na diretoria do Ceo, que fez uma campanha horripilante na Serie A e foi rebaixado com rodadas de antecedências. Mas, bandeira que é, não quer fazer apenas presença na cúpula clivense. “Se houver quaisquer tarefas no clube, estarei bem disponível, mas apenas se forem funções de responsabilidade e não simplesmente simbólicas, porque eu não quero roubar o dinheiro. Caso contrário, sairei de férias com a minha família”, avisou o ex-atacante, em entrevista coletiva.

Pellissier não tinha o status de Paolo Maldini, Alessandro Del Piero, Javier Zanetti ou Francesco Totti. Mas, para a torcida gialloblù, era tão ídolo quanto. Afinal, ficar 17 anos em um clube, com mais de 500 partidas e mais de 100 gols, não é para qualquer um. De todo modo, a Serie A perde mais uma grande bandeira. Quem será o próximo?

Sergio Pellissier
Nascimento: 12 de abril de 1979, em Aosta, Itália
Posição: atacante
Clubes: Torino (1996-98), Varese (1998-2000), Spal (2000-02) e Chievo (2002-2019)
Títulos: Copa Viareggio (1998) e Serie B (2008)
Seleção italiana: 1 jogo e 1 gol

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