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Vítima de Superga, o artilheiro Guglielmo Gabetto entrou para a história de Juventus e Torino

Poucos jogadores conseguiram a simpatia das torcidas de Juventus e Torino como Guglielmo Gabetto. Considerado um dos melhores jogadores italianos das décadas de 1930 e 1940, o atacante carimbou seu nome nas páginas históricas dos dois principais clubes de Turim. Entrou para a lista dos dez maiores artilheiros da Vecchia Signora na Serie A e encantou o Belpaese na dianteira do Grande Torino. Ele poderia ter alcançados vários outros recordes, mas teve a vida ceifada tragicamente no dia 4 de maio de 1949, na Tragédia de Superga.

Gabetto recebeu até “título de nobreza” em sua vida: o ex-jogador ficou conhecido como Barone (“barão”, em português), devido à sua elegância e ao seu cabelo impecável. Natural de Turim, iniciou sua caminhada no futebol profissional em 1934, aos 18 anos, na Juventus. O bomber começava a fazer parte de uma equipe que vinha papando todos os títulos da Serie A, mas cuja média de idade estava bem elevada, com vários atletas na casa dos 30 anos. Os bianconeri ganharam mais um scudetto naquela temporada – o sétimo na história da agremiação –, e Gabetto celebrou seu primeiro título no profissional.

Depois de viver o Quinquennio d’oro, entretanto, a Juve viu o Bologna e a Ambrosiana-Inter (hoje Inter) revezarem na primeira posição da liga. Isso não impediu, porém, que o jovem atacante desandasse a fazer gols. Não por acaso, foi às redes 22 vezes em 25 partidas na temporada 1935-36. Em sete anos na Juventus, disputou 191 jogos e marcou 102 gols: tais números fazem do Barone o nono maior artilheiro juventino na Serie A (85 gols) e oitavo goleador máximo alvinegro na Coppa Italia (12).

Gabetto foi um dos grandes atacantes da Juve nos anos 1930 (Il Pallone Racconta)

Em 1941, o Barone foi comprado pelo Torino por 300 mil liras, um valor considerável àquela época. O Toro também investiu, no mesmo ano, nas contratações de Felice Borel e Alfredo Bodoira. Quando trocou de rival, o centroavante começou a ser chamado, em tom de brincadeira, de “a Santa Rita dos artilheiros”. O apelido era uma alusão aos gols difíceis que Gabe conseguia marcar, como os milagres atribuídos à santa.

Aliás, uma das maiores características do bomber era a capacidade de anotar tentos improváveis. Ele dispunha de muita habilidade para acertar lances acrobáticos. Estava realmente caminhando para ser um dos melhores da função na Itália. No Torino, ele chegou ao ápice de sua performance. Em um time munido de muita qualidade técnica, o Toro virou uma máquina: jogava para frente, encurralava os oponentes, marcava gols a rodo.

Ao lado de Valentino Mazzola, craque da equipe, e Ezio Loik, “motorzinho” granata, Gabetto se estabeleceu como um dos principais nomes daquele esquadrão. Voando baixo dentro de campo, era de se esperar que o piemontês fosse convocado para a seleção italiana. Sua primeira chance na Nazionale ocorreu no início de abril de 1942, em um amistoso contra a Croácia, em Gênova. Os italianos golearam por 4 a 0 e Guglielmo deixou a sua marca.

Vale ressaltar que, em meio aos louros obtidos jogando futebol, o atacante foi recrutado para servir na Segunda Guerra Mundial. Inclusive, o conflito que assolava, sobretudo, o norte e o centro da Bota paralisou a Serie A de 1943 a 1945. Nesse período, o atleta viveu uma grande experiência militar e fez amizade com o jornalista esportivo Giglio Panza. O Barone gozava de prestígio com os outros militares, já que era uma personalidade famosa.

Gabetto, ao centro, exibe uniforme alternativo da Juventus juntamente com colegas de clube (Wikipedia)

Outra história curiosa do jogador longe dos campos também envolveu autoridades. Após disputar um jogo em Trieste, o ônibus da delegação do Torino foi perseguido pela polícia enquanto voltava para Turim. É que o Barone havia enchido sua mala de cigarros contrabandeados. A polícia aprendeu a mercadoria e lhe tirou os documentos. Ele ganhou a liberação dos policiais graças à ajuda dos dirigentes granata. Foi um custo para o atacante recuperar seus documentos, pois os oficiais queriam que o atacante disputasse uma pelada com eles. Contudo, o jogador piemontês os convenceu que a partida que teria que realizar pelo Torino era mais importante.

No retorno da Serie A pós-guerra, o Torino continuou avassalador: à medida que alcançava recordes, o próprio time os quebrava nos anos seguintes. Foi aí que a equipe ganhou o apelido de Grande Torino. Gabetto teve muita importância nessa toada, uma vez que era o centroavante, principal responsável por balançar as redes. O Barone também era muito querido pela torcida, já que era um dos quatro únicos nascidos em Turim que participaram da formação do maior time da história grená.

Contudo, na tarde do dia 4 de maio de 1949, a vida de Gabetto foi interrompida. O avião que levava de volta para a Itália a delegação do Torino, após amistoso disputado com o Benfica, em Lisboa, se chocou com a basílica de Superga, perto de Turim. Todos os tripulantes da aeronave morreram. A história completa pode ser lida aqui.

O ciclo de Gabetto no Torino foi interrompido após 219 jogos e 122 gols, que o colocam como o quarto maior goleador da história grana, à frente até de Mazzola. Em sua carreira, o centroavante marcou mais de 10 vezes em quase todos os Campeonatos Italianos que disputou, entre 1935 e 1949 – somente em duas ocasiões passou perto, com nove e oito tentos. Gabe também é o segundo principal marcador do Derby della Mole, com 12 gols (sete pela Juventus e cinco pelo Toro), e é um dos três únicos que venceram o Campeonato Italiano pelas duas grandes equipes de Turim. Os outros foram Alfredo Bodoira e Eugenio Staccione.

O Barone chegou a usar a camisa 9 da seleção italiana (Calciomercato)

Com o Toro, Gabetto conquistou seis títulos: cinco scudetti e uma Coppa Italia. Aquele time era tão fantástico que só não ganhou mais taças porque, à época, não havia mais competições para disputar. Não fosse a tragédia, possivelmente o Grande Torino deveria fazer frente ao Real Madrid de Alfredo Di Stéfano na Copa dos Campeões nos anos seguintes.

A seleção italiana também sofreu os impactos da morte do supertime de Turim. Afinal, os jogadores do Torino eram a base da Squadra Azzurra. Tudo indicava que os italianos seriam, junto com os uruguaios, os favoritos para a Copa do Mundo de 1950, realizada no Brasil. Sem as estrelas do Toro, a Nazionale foi presa fácil na competição. Curiosamente, Gabetto figurou poucas vezes com a camisa azzurra: marcou cinco gols em seis amistosos. Se estivesse vivo, certamente estaria na lista de convocados do técnico Ferruccio Novo para a Copa do Brasil.

O Barone deixou esposa e um filho de 7 anos, Gigi Gabetto. O garoto cresceu e se tornou dirigente do Torino, ocupando o cargo de chefe das categorias de base entre os anos 1990 e início dos anos 2000.

Guglielmo Gabetto
Nascimento: 24 de fevereiro de 1916, em Turim, Itália
Morte: 4 de maio de 1949, em Turim, Itália
Posição: atacante
Clubes: Juventus (1934-41) e Torino (1941-49)
Títulos: Serie A (1935, 1943, 1946, 1947, 1948 e 1949) e Coppa Italia (1938 e 1943)
Seleção italiana: seis jogos e cinco gols

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