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Polivalente, Igor Tudor viveu o auge de sua carreira meteórica na Juventus

Num time com Zinédine Zidane, David Trezeguet, Alessandro Del Piero e Didier Deschamps, até mesmo um zagueirão de 1,92cm poderia passar despercebido. De fato, Igor Tudor foi um coadjuvante numa Juventus estelar, mas passou longe de ser apenas “aquele iugoslavo alto”, como declarou o presidente Gianni Agnelli durante as tratativas por sua contratação. Com o tempo, o jogador fez o cartola descobrir que ele era, na verdade, croata. E dos bons: Tudor se consolidou em Turim graças a uma combinação de toque de bola qualificado, agilidade e senso tático acima da média.

Igor Tudor nasceu em Split, no ano de 1978, quando a Croácia ainda fazia parte do território iugoslavo – o que explica, em parte, a confusão de L’Avvocato Agnelli. O jovem zagueiro viu de perto os conflitos entre os atuais sérvios e croatas, que ajudaram a constituir sua personalidade. Aos 11 anos, entrou na base do clube local, o Hajduk, e por lá ficou durante uma década, passando por todas as categorias juvenis. Por indicação de Marcello Lippi, Tudor chegaria à Juventus logo após a Copa do Mundo de 1998, na qual o defensor viveu uma experiência notável, com o terceiro lugar dos croatas. Igor fez três partidas na competição.

A chegada do “gigante” obrigou a Juve a executar algumas mudanças – ao menos em sua academia. Isso porque Tudor mal cabia em alguns aparelhos. Apesar da insólita situação, Tudor aproveitou-se das lesões de alguns defensores e ganhou as primeiras oportunidades logo no início da temporada 1998-99. E já na estreia, no duelo contra o Perugia, o croata deixou sua marca: após cobrança de escanteio de Del Piero, anotou o segundo gol da incrível vitória da Vecchia Signora por 4 a 3.

Na primeira temporada, Igor acumulou 23 jogos. Entre eles, duelos contra grandes atacantes, como Gabriel Batistuta, da Fiorentina, que colocaram à prova a qualidade do zagueiro. Apesar de alguns vacilos e distrações por excesso de confiança, normais para um novato, o resultado foi altamente positivo e afastaram qualquer dúvida sobre o zagueiro grandalhão. Para a Juve, por outro lado, a temporada foi melancólica: longe do topo, a diretoria sacou Lippi na metade do campeonato.

Carlo Ancelotti chegou e as oportunidades para o defensor diminuíram, muito em função do novo esquema tático adotado, com três zagueiros. Também pesou o retorno de jogadores que estavam lesionados, como Gianluca Pessotto e Ciro Ferrara. Já em 2000-01, Tudor se destacou pela quantidade de gols. Em 25 jogos, marcou seis – a maioria de cabeça –, mostrando suas virtudes e se aproveitando de sua altura e impulsão. As atuações decisivas lhe valeram o prêmio de melhor jogador croata de 2001.

Em 2001-02, Lippi retornou à Juve, reencontrando o croata que indicara anos antes. Suas qualidades foram bem notadas pelo treinador, que usou o jogador não apenas no miolo de zaga. Devido à sua técnica, também atuou como lateral e até no meio campo, quando acabou comparado com o francês Marcel Desailly. “Decidi experimentar Tudor como meio-campista central. […] Acho que ele tem todas as qualidades para jogar bem mesmo ao lado de Alessio Tacchinardi: ele tem técnica, arranque, vai bem pelo alto, finaliza bem, tem condicionamento físico”, explicou o treinador, nos amistosos de pré-temporada.

Tudor e Zidane: duas peças de uma forte Juventus (Getty)

Tudor gostava da nova função e disse estar se divertindo por ter menores responsabilidades defensivas, mas alguns problemas físicos atrapalharam a sua sequência. Primeiro foi um nariz quebrado, depois uma lesão atípica no tornozelo. Relatos da época dão conta de que Lippi e Tudor teriam se desentendido pois o treinador insistira para que o jogador fosse a campo e o croata teria respondido que não entraria em campo lesionado. “O tornozelo é meu e eu cuido disso”, teria diro o jogador, depois de um jogo decisivo para a eliminação da Juventus na Champions League.

Os problemas físicos impediram Tudor de disputar sua segunda Copa do Mundo, em 2002. O fato foi lamentado por Zvonimir Boban, um dos grandes jogadores da história dos Vatreni. “Tudor faz mais falta na Croácia do que eu. Com ele, o verdadeiro mestre da defesa e também da equipe, tivemos apenas um gol sofrido em oito jogos”, afirmou. A sequência de lesões fez com que Igor ganhasse um apelido que nunca engoliu: “gigante de cristal”.

Seu retorno aos campos foi mais complicado do que o imaginado. Tudor tivera contrato renovado e iniciava 2002-03 com a expectativa era ser um pilar da equipe, mas isso não aconteceu. Por não ter realizado a pré-temporada e ter enfrentado dificuldades em retomar a condição física, por conta do tornozelo lesionado, o croata demorou a se firmar novamente e jogou pouco. Contudo, marcou um gol importantíssimo no jogo contra o Deportivo: com apenas 16 minutos em campo, deixou a sua marca nos acréscimos e garantiu o 3 a 2 que classificou o time de Turim às quartas da Champions League.

“Na outra noite, redescobri a felicidade. Realmente, eu não acho que poderia ser tão feliz. O sofrimento não é suficiente para apagar um objetivo. Mas não me sentia assim há muitos meses”, disse o jogador, em entrevista à época. Outro jogo da competição que poderia significar a redenção para Tudor foi a final, ante o Milan. Entretanto, a sua participação durou poucos minutos. Após uma dividida com Andriy Shevchenko, o croata precisou ser substituído e de fora, viu a equipe bianconera ficar com o vice-campeonato.

Em 2003, a reformulação no elenco não atingiu o gigante croata, mas, mesmo assim, nas temporadas seguintes, Tudor passou a ser uma peça questionável do plantel. Convivendo com seguidas lesões, passou a ter sua condição física criticada e ser enxergado como um jogador lento demais para atuar em alto nível. Depois da participação na Eurocopa de 2004, o croata foi praticamente descartado por Fabio Capello. Sem jogar na primeira metade da temporada, Igor aproveitou a janela de inverno para sair por empréstimo ao Siena. O objetivo era um só: recuperar o ritmo de jogo.

Tudor ajudou os toscanos a se livrarem do rebaixamento, colaborando com uma segura campanha de um time cheio de figurinhas carimbadas. O elenco da Robur tinha, por exemplo, Alex Manninger, Bruno Cirillo, Daniele Portanova, Francesco Colonnese, Giovanni Pasquale, Simone Vergassola, Francesco Cozza, Massimo Maccarone, Enrico Chiesa, Tore André Flo, os brasileiros Fernando Menegazzo, Rodrigo Taddei e Alberto Valentim, além de Davide Nicola, Fabio Pecchia e Roberto D’Aversa, que hoje também são treinadores.

Maccarone, Vergassola, Tudor e Alberto: anos dourados do Siena na elite italiana (LaPresse)

No verão europeu de 2005, Tudor chegou a ser oferecido para a Lazio, mas foi rejeitado por Delio Rossi e acabou por estender sua permanência no Siena por mais um ano. Ficar na Toscana significaria a certeza de manter-se com frequência de jogo, algo imprescindível para quem almejava disputar a Copa do Mundo de 2006. E a decisão não poderia ser melhor. Tudor atuou em 24 oportunidades – naquela que foi sua temporada com mais minutos em campo desde 2000-01 – e, mais uma vez, ajudou os bianconeri a se livrarem do rebaixamento.

Antes de partir para o Mundial, o croata viu estourar o escândalo envolvendo a Juventus, que culminou no rebaixamento dos bianconeri à segunda divisão. Ainda assim, o croata não hesitou em querer retornar à equipe de Turim depois da decepcionante participação da Croácia na Alemanha. “Volto para a Juventus para essa grande oportunidade. Agora quero jogar ao lado de Robert Kovac [seu colega na seleção, adquirido em 2005 pela Juve]”.

Entretanto, novamente, Tudor foi acometido por lesões, dessa vez no menisco do joelho direito. A diretoria juventina até tentou rescindir seu contrato, mas acabou esperando o término do vínculo, o que aconteceria ao final da temporada: o croata deixou a Juventus sem jogar uma partida sequer em 2006-07 e encerrou sua passagem com 174 jogos e 21 gols anotados com a camisa bianconera. Sem mercado nos principais mercados europeus, Tudor retornou ao seu clube de formação, o Hajduk, para se despedir do futebol, de forma precoce, com apenas 30 anos.

Um ano após pendurar as chuteiras, começou sua carreira fora das quatro linhas, como assistente técnico de Edy Reja, no próprio Hajduk. Após passagem pelas categorias de base do clube e na comissão técnica do selecionado croata, Tudor teve sua primeira experiência como técnico efetivo em 2013, novamente no time que o projetou, e conquistou o título da Copa da Croácia. Depois disso, o ex-zagueiro comandou clubes da Grécia e da Turquia, entre eles o poderoso Galatasaray, até retornar à Itália, em 2018. Dessa vez a missão era salvar a Udinese do rebaixamento.

Tudor conseguiu manter os bianconeri na primeira divisão, mas a diretoria decidiu não efetivá-lo e mantê-lo para a temporada seguinte. Diante da péssima campanha sob o comando de Julio Velázquez, primeiro, e de Davide Nicola, seu ex-companheiro de Siena, depois, o croata foi chamado novamente para apagar o incêndio. Pela segunda vez, evitou o descenso dos friulanos e, dessa vez, teve o contrato renovado: será o técnico da Udinese em 2019-20. Se mantiver o alto rendimento das experiências anteriores, a campanha pode significar um salto para voos maiores: uma jornada que pode ter dimensões equivalentes à sua estatura.

Igor Tudor
Nascimento: 16 de abril de 1978, em Split, Croácia
Posição: zagueiro e volante
Clubes como jogador: Hajduk Split (1995-98 e 2007-08), Trogir (1996), Juventus (1998-2007) e Siena (2005-06)
Títulos como jogador: Serie A (2002 e 2003), Supercopa Italiana (2002 e 2003), Serie B (2007), Copa Intertoto (1999)
Clubes como treinador: Hajduk Split (2013-15), PAOK (2015-16), Karabükspor (2016-17), Galatasaray (2017) e Udinese (2018 e 2019-hoje)
Títulos como treinador: Copa da Croácia (2013)
Seleção croata: 55 jogos e 3 gols

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