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Francesco Morini foi tão eficaz em roubar bolas que ganhou o apelido de ‘pirata’

Uns nascem para marcar gols. Outros, para evitá-los. O zagueiro Francesco Morini se encaixa, com orgulho, no segundo grupo. Conhecido por ser um jogador ríspido e decidido, o toscano se destacou na Juventus dos anos 1970 e tem uma peculiaridade: a intimidade com as redes adversárias era tão baixa que ele nem mesmo se recorda ao certo se chegou a balançá-las alguma vez enquanto foi profissional. Os registros são conflitantes.

Francesco Morini nasceu em agosto de 1944, no fim da II Guerra Mundial. Embora seja oriundo da Toscana, o zagueiro começou profissionalmente numa região vizinha: a Ligúria. Com 1,85m, altura ideal para um zagueiro, Morini iniciou sua trajetória no futebol com a camisa da Sampdoria. Com 19 anos, em fevereiro de 1964, o defensor fez sua estreia em uma derrota para a Roma, por 2 a 0.

Menos de um mês depois, há registros de um gol do beque numa goleada por 5 a 1 sobre o Catania. Ele nem mesmo lembra. “Para ser honesto, marquei um gol numa Copa Anglo-Italiana, disputada há muitos anos num verão”, disse em entrevista ao site Tutto Juve, em 2013. Morini, porém, se enganou: no único jogo do torneio de que sua Juventus participou e foi às redes, contra o Sheffield Wednesday, anotaram Gianfranco Zigoni e Samuel Ellis, contra.

Antes de chegar a Turim, porém, Morini se destacou na Sampdoria. Naquela época, o time de Gênova não se destacava muito e rondava a metade inferior da tabela do campeonato. Em 1966, acabou rebaixado para a Serie B pela primeira vez na história, mas logo voltou à elite. Liderados por Morini, Pietro Battara, Mario Frustalupi, Giancarlo Salvi e Fulvio Francesconi, os dorianos foram campeões da categoria em 1967 e retornaram à primeira divisão. Titular indiscutível do time desde que estreou, Francesco fez 165 jogos em sete temporadas e chamou a atenção dos grandes clubes do país.

Com a saída de Giancarlo Bercellino, a Juventus viu em Morini o substituto ideal. A diretoria acertou em cheio, já que o rude zagueiro loiro escreveria uma bela história ao atuar como titular em 11 temporadas pelos bianconeri. No período, somando todas as competições, o toscano disputou 377 partidas.

Na final da Copa das Feiras, contra o Leeds, Morini e Fabio Capello marcam adversário (Getty)

Na Juventus, Morini ganhou o apelido de Morgan, em alusão ao corsário galês Henry Morgan, que saqueou o Caribe no século XVII com a aquiescência da coroa britânica. A sanha de pilhagem do pirata era análoga à capacidade que Francesco tinha de desarmar os adversários – raramente cometendo faltas ou levando cartões. O próprio zagueiro se definia como voluntarioso, aguerrido e pegajoso. A vida dos atacantes que precisavam enfrentá-lo não era fácil, porque – dentro das regras do jogo – Morini não media esforços e nem economizava na utilização dos cotovelos e de trancos para ganhar espaço.

Os sofridos duelos entre Morgan e os maiores atacantes da época ficaram na memória de quem os acompanhou. Entre eles, se destacam os combates com Roberto Boninsegna, ex-Inter e Juve, e Luigi Riva, ex-Cagliari. “Ele foi o pior defensor que eu já enfrentei. Ele era corajoso, implacavelmente competitivo, como deve ser um verdadeiro defensor moderno. Ninguém me deu tantos problemas como ele”, declarou Riva.

Apesar das qualidades, o pirata era criticado por não ter muita qualidade no passe. Algo que ele reconhecia. “Eu conhecia meus limites. Por isso, eu não tentava lançamentos milimétricos e preferia passar a bola para um companheiro mais próximo de mim”, disse Morini. Não tinha problema, pois ele compensava a pequena contribuição nas trocas de passes dos bianconeri com os desarmes, que efetuava como se fosse um polvo e tivesse tentáculos no lugar das pernas.

Nos 11 anos de Turim, Morini formou uma linha de defesa fortíssima, ao lado de Dino Zoff, Claudio Gentile, Gaetano Scirea, Antonio Cabrini e Antonello Cuccureddu. Morgan ajudou a Velha Senhora a conquistar cinco scudetti na década de 1970, além de uma Coppa Italia e a Copa Uefa de 1977, que foi o primeiro troféu internacional da Juve. Os bianconeri, contudo, poderiam ter levantado uma taça continental antes: foram vice-campeões da Copa das Feiras, em 1971, e também da Copa dos Campeões, em 1973. Morini jogou bem contra o Leeds United e o Ajax de Johan Cruyff – a quem marcou –, mas não o suficiente para evitar as derrotas.

Na época em que defendia a Juventus, Morini recebeu as primeiras convocações para a seleção italiana. Sua estreia ocorreu em fevereiro de 1973, numa vitória sobre a Turquia, em Istambul. O pirata manteve o lugar na Nazionale e esteve presente no elenco que disputou a Copa do Mundo de 1974. Morgan jogou as três partidas da Itália como titular, mas a Squadra Azzurra não passou da fase de grupos. O defensor fez 11 jogos pela seleção e, a partir de 1975, não voltou a ser chamado.

No fim dos anos 1970, Francesco dá agua para o filho Jacopo, que hoje é famoso na TV italiana (Wikipedia)

Morini vestiu a camisa da Juventus até 1980, quando decidiu deixar Turim, aos 35 anos. O loiro teve como seu substituto Sergio Brio, que ainda era um garoto na época. Morgan foi para o Canadá e defendeu o Toronto Blizzards por uma temporada da NASL, a liga de futebol que os Estados Unidos tinham no momento. Após 22 partidas pelos canadenses, se aposentou.

Sua carreira dentro de campo havia acabado, mas ainda havia desafios para Morini. Com as chuteiras penduradas, o pirata virou diretor esportivo da Juventus, cargo que ocupou na Juventus de 1981 até 1994. Sob sua gestão, a Juve levou três campeonatos italianos, duas copas locais e duas Copas Uefa, além de uma Copa dos Campeões, uma Supercopa Uefa e um Mundial de Clubes. Com essas conquistas, a Velha Senhora conseguiu vencer todas as competições de clubes organizadas pela entidade máxima do futebol europeu.

Depois que deixou a vida de cartola, Morini foi comentarista da Telelombardia. Também ficou perto do showbiz graças aos filhos, Andrea, que é cantor, e Jacopo, que é um dos titulares do Le Iene, programa jornalístico e humorístico famoso na TV italiana.

Sair de cena e deixar os holofotes para os filhos resume o espírito de Francesco Morini. Ele sempre ficou à margem dos craques e fez um trabalho menos vistoso para permitir que a equipe funcionasse. Fez o mesmo como dirigente. Nada mais apropriado para um ex-jogador que se empolgava por garantir que aqueles que deveria marcar não fizessem gols.

Francesco Morini
Nascimento: 12 de agosto de 1944 em San Giuliano Terme, Itália
Clubes: Sampdoria (1963-69), Juventus (1969-1980) e Toronto Blizzards (1980)
Títulos: Serie B (1967), Serie A (1972, 1973, 1975, 1977 e 1978), Coppa Italia (1979) e Copa Uefa (1977)
Seleção italiana: 11 jogos

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