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Torcedor de time europeu no Brasil sofre para acompanhar notícias na grande imprensa

À medida que clubes do Velho Continente ganham mais torcedores no Brasil, a qualidade das notícias do futebol europeu reportadas pela grande imprensa esportiva do país cai consideravelmente. Na última semana, os principais sites de esportes do Brasil relataram em massa duas notícias envolvendo a dupla Inter e Milan. As imprecisões e os erros evidenciaram precariedade na apuração de jornalistas – e estagiários – nas redações.

Primeiro, os portais exploraram bastante o fato de que interistas e milanistas anunciaram que vão construir um estádio próprio e, assim, deixarão o Giuseppe Meazza – ou San Siro, depende de como você gosta de chamá-lo. A maioria dos veículos narrou a história a partir de uma declaração do presidente do Milan, Paolo Scaroni, à agência Ansa. “Teremos um novo San Siro ao lado do antigo, na mesma área da concessão. O antigo será derrubado e, em seu lugar, haverá novas construções”, informou Scaroni, em Lausanne, na Suíça. O CEO da Inter, Alessandro Antonello, endossou a afirmação do dirigente rival.

Porém, no mesmo dia (24 de junho) que os cartolas deram essa notícia, o prefeito de Milão, Giuseppe Sala, enfatizou à Sky Sport Italia que o San Siro continuará aberto por um longo tempo, no intuito de receber a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2026. No Brasil, a declaração de Sala não repercutiu tanto como a de Scaroni, gerando uma desinformação ao leitor e quebrando a uma regra básica do jornalismo: ouvir os dois lados da história. Afinal, o estádio é de propriedade da prefeitura, e não dos clubes.

Quatro dias depois, a “exclusão” do Milan da Liga Europa ganhou destaque na home dos sites esportivos do Brasil. A Uefa acatou o acordo que a diretoria milanista propôs à entidade – de o clube ser excluído da edição 2019-20 da competição – para acabar com as dívidas financeira referentes aos últimos dois triênios. O TAS (Tribunal Arbitral do Esporte) aceitou o trato e oficializou a saída do Milan da Liga Europa.

Em terra tupiniquim, os grandes sites reportaram a notícia de forma sensacionalista. No Twitter, um dos maiores portais de esportes do país usou uma foto de Lucas Paquetá junto com o link da matéria para disseminar o conteúdo. Como o meia é adorado pela “FlaTT”, alcunha que a torcida do Flamengo ganhou no Twitter, a ideia transmitida era a de que o garoto do Ninho não vai jogar competições europeias na próxima temporada. Grande parte dos veículos também noticiou que o Milan havia sido punido (ou seja, à sua revelia) e não que havia costurado um acordo para poder se recapitalizar.

Outro caso, cômico até, ocorreu há dois anos. No início de 2017, diversos meios de comunicação do Brasil e da Itália caíram numa pegadinha que foi inventada com o intuito de, supostamente, desmascarar o imediatismo como prática de maus jornalistas. Na ocasião, um perfil chamado Udine Notizia & Sport, informava (em um italiano grosseiro) que havia uma nota do Tuttomercatoweb sobre o interesse da Udinese no atacante Clayson, então na Ponte Preta. Depois que alguns veículos brasileiros noticiaram o boato (que incluía ainda o empréstimo de Samir), sites italianos repercutiram o falso negócio.

Evidentemente, essas mancadas não são exclusividade do Brasil. Como mostramos nesta reportagem, o jornalismo esportivo na Itália também comete suas gafes na tentativa de gerar caçar cliques. O “jornalismo miojo”, aquele em que os profissionais precisam apurar, redigir, revisar e publicar matérias o mais rápido possível, existe em todos os países cujo futebol é o esporte que causa mais audiência.

Biógrafo de Pep Guardiola, o jornalista Martí Perarnau lamenta, no livro “Pep Guardiola: A Evolução”, publicado no Brasil em 2017 pela Editora Grande Área, o que se tornou o mercado jornalístico com o passar dos últimos anos. “(…) Embora ainda existam excelentes meios de comunicação que praticam um jornalismo meticuloso, a tendência geral caminha em sentido contrário: os meios, agora, são uma indústria de geração de conteúdos velozes e sem profundidade. (…) Se um tweet já pode aparentar, às vezes, ser muito longo, qualquer manchete deve ser suficientemente enganosa e atraente para gerar um clique. (…)”, escreve.

Por que perder tempo fazendo uma matéria detalhando os fatos? Porque tempo é dinheiro. A indústria jornalística é um negócio capitalista e, portanto, precisa dar lucro. Em um momento em que esse mercado sobrevive aos trancos e barrancos, a tendência é vermos cada vez mais “notícias instantâneas”, como as citadas nos parágrafos acima, propagadas nos sites brasileiros. Quem sofre são os torcedores de clubes da Europa, sobretudo os que dependem da grande mídia esportiva brasileira para ficar por dentro das notícias de seu time.

2 comentários

  • Eu sou simpático ao time da Fiorentina e raramente achamo uma noticia desse time, uma pena pq eu tenho certeza que existem outras pessoas com interesse no time de Firenze.

  • Uma ótima fonte de informações que subitamente foi encerrada, era o ESPN FC, página de blogs sobre os principais times do Velho Continente e alguns clubes brasileiros. Uma pena…

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