Brasileiros no calcio

Zico: os bastidores da ida do mito rubro-negro à Udinese

“A torcida é uma coisa muito bonita, mas cadê a grana?”, resume José Antunes Coimbra, 82 anos. “A proposta da Udinese era fantástica”, emenda Matilde da Silva Coimbra, 63. As frases são do pai e da mãe de Arthur Antunes Coimbra, o Zico, em entrevista à Revista Veja de junho de 1983. O time friulano desejava – e muito – ter Zico em seu plantel. O sentimento do adeus era mútuo. O Flamengo também já sabia que não conseguiria prender o jogador por mais tempo. O craque achava a mesma coisa.

Ele nasceu Arthur, mas era chamado de Arthurzinho ou Arthurzico porque era franzino e pequeno. Ainda na infância, uma das primas dele, Ermelinda, reduziu o apelido para Zico. E pegou. Ajudado pelo radialista Celso Garcia, o jogador chegou ao Flamengo aos 13 anos, fez um teste na base sob supervisão de Modesto Bria e logo começou a fazer uma preparação física especial com o professor José Roberto Francalacci. Zico ganhou massa muscular para suportar os choques com os marcadores adversários. O resultado começou a ser escrito quatro anos depois, quando o meia entrou pela primeira vez em campo pelo time profissional. De 1971 a 1983, o habilidoso destro conquistou 22 títulos com o Rubro-Negro.

Uma exuberante quantia, porém, o separava da Itália. Zico recebeu um milhão de dólares na assinatura de um contrato válido por três anos com a Udinese, ao longo dos quais ganharia outro milhão, além de salários totalizando 540 mil dólares. Ao Flamengo, o clube de Údine pagou 4 milhões de dólares – valor muito alto para um clube que só havia voltado para a Serie A quatro anos antes. O presidente carioca, Antônio Augusto Dunshee de Abranches, simulou chorar frente às câmeras pela perda do craque de tantos gols (em suas duas passagens, Zico marcou 509 gols em 731 jogos pelo Mengo). Para acalmar o ânimo da torcida, o meia afirmou que era o clube que decidiria se ficaria; o dirigente jogou a bomba novamente para o jogador.

O técnico Carlos Alberto Torres tentou tranquilizar a massa rubro-negra dizendo que “Zico tinha que ir mesmo, pois a proposta era irrecusável”. O próprio jogador sabia que não podia recusar a oferta. Seu irmão, Edu Coimbra, abreviou a carreira porque no seu auge preferiu ficar no América (RJ) em vez de se transferir para o Corinthians.

Outro motivo da saída foi a lembrança da história de Dida, dono por muitos anos da camisa 10 do Flamengo. Em 1983, então auxiliar técnico da equipe infantil do clube carioca, disse: “Eu também tive uma oportunidade de me transferir para a Itália. Mas era Flamengo de coração, os diretores diziam que meu passe era inegociável e eu ficava orgulhoso. Perdi boas chances”. Zico seguiu os passos de Mazzola e desembarcou na Itália.

Porém, problemas conturbavam o aeroporto de Ronchi dei Legionari. Dirigentes da Roma, clube que chegou a sondar Zico, tentaram suspender a transferência por achar que a quantia era demasiado alta. A Federação Italiana, então, bloqueou as transações que levariam Zico ao Friuli e Toninho Cerezo à Roma. Àquele momento, Zico já havia disputado um amistoso com a camisa da Udinese, justamente contra o Flamengo.

Cerca de 10 mil pessoas foram a Piazza XX Settembre para manifestar contra esta manobra. O recado era claro: “Ou Zico ou Áustria” (em menção ao domínio austríaco que existiu no Friuli até 1866). Essa ameaça separatista foi levada muito a sério pelo então presidente italiano, Sandro Pertini, que interveio a favor da contratação. Por 6 bilhões de liras, a serem pagas por dois anos, Zico fechou com a Udinese – este documentário, em italiano, mostra bem a história.

Zico foi sondado pela Roma, que acabou ficando com o compatriota Falcão (Trivela)

Zico foi à Itália duas vezes. Na primeira, o frisson: duas mil pessoas esperavam o Galinho de Quintino no aeroporto local. Depois, com o cancelamento temporário da negociação, ele voltou ao Brasil, e depois da resolução do imbróglio, chegou ao país através do aeroporto de Milão – veja reportagem.

Já em Údine, outra festa calorosa. Na mesma praça em que o presidente Lamberto Mazza havia anunciado que seriam feitos esforços para que Zico aportasse em definitivo no Friuli, o jogador foi ovacionado. Franco Marin, dono do hotel Là di Moret, primeira casa do jogador em Údine, afirmou que parecia que o Papa estava acenando para a multidão tamanha a idolatria dos torcedores por Zico.

O nono lugar na primeira temporada foi ofuscado pela maravilhosa época individual que o jogador teve. Ele marcou 19 gols, apenas um atrás de Michel Platini, artilheiro do campeonato e da campeã Juventus, que jogou seis partidas a mais devido à lesão do brasileiro durante um amistoso contra o Brescia.

O Galinho ovacionado pelos torcedores em Údine (Storie di Calcio)

No Brasil ou na Itália, os goleiros temiam as cobranças de falta do jogador. A maestria da batida gerava discussões em programas esportivos nos canais de televisão. “Como evitar gols de Zico?”, diziam. Dos 27 gols marcados com a camisa bianconera, 17 foram de bola parada. Mas dois são lembrados em especial. E foram com a pelota rolando. Em 1983, o camisa 10 marcou aos 41 minutos do segundo tempo, o único gol da vitória sobre a então campeã Roma – que nunca havia sido derrotada pela Udinese. Na primeira partida no San Siro, contra o Milan, a equipe do Galinho perdeu por 3 a 2, mas ele deu assistência e marcou um gol de bicicleta.

Mas Zico não queria que a equipe dependesse apenas de si. A Udinese prometeu investir para lutar pelo scudetto, o que não aconteceu. Ele, então, começou a sonhar com o retorno ao Flamengo. Na segunda e última temporada do jogador na Itália, em 1984-85, Zico, vitimado por lesões, jogou somente 15 partidas. Na última delas, um confronto de peso e que já tinha acontecido várias vezes. Zico e Maradona se enfrentaram por Flamengo e Boca Juniors, Brasil e Argentina – inclusive em Copa do Mundo. Faltava o encontro por Udinese e Napoli, que aconteceu na última rodada daquele campeonato, em jogo de polêmica.

Maradona e Zico, na última partida do Galinho na Itália (Fantasista10)

No confronto de dois dos melhores camisas 10 da história – e dois dos três daquele período; o outro era Platini –, muita polêmica, apesar de a partida, terminada em 2 a 2, não valer nada. Zico participou dos dois gols do time friulano, enquanto Maradona marcou os dois dos azzurri – um, uma pintura, de falta, e o outro com a mão, antecipando a Mão de Deus, que aconteceria um ano depois na Copa do Mundo. As câmeras não pegaram o toque de mão do argentino, e nem mesmo o árbitro Giancarlo Pirandola (supostamente) viu. Para matar a curiosidade, veja aqui imagens daquele jogo.

Maradona assumiria a irregularidade anos depois, mas o fato é que Zico se despediu reclamando muito do árbitro, que apitara apenas seis partidas na vida pela Serie A, três delas contra a Udinese, com nenhuma vitória friulana. Depois das duras reclamações contra Pirandola, Zico recebeu seis jogos de suspensão no campeonato. Uma suspensão que nunca cumpriria, porque voltaria ao Flamengo em seguida. Após quatro anos na Gávea, iria jogar futebol no Japão, onde viraria ídolo e professor no Kashima Antlers e um exemplo para o desenvolvimento do futebol no arquipélago asiático.

O jornal italiano La Repubblica, em 2006, realizou uma pesquisa sobre os dez maiores jogadores brasileiros na Itália. O nome do ex-jogador, treinador e diretor de futebol rubro-negro aparece em primeiro, seguido por Falcão, Kaká e Careca. Três anos mais tarde, ele recebeu o título de cidadão honorário de Premiaracco. “Para nós, friulanos, Zico tem o mesmo significado de um motor da Ferrari colocado dentro de um fusca. Sentimo-nos os únicos no mundo a possuir um carro tão maravilhoso e absurdo”, afirmou Luigi Maffei, jornalista do “Il Gazzettino de Veneza”.

Arthur Antunes Coimbra, o Zico
Nascimento: 3 de março de 1953, no Rio de Janeiro
Posição: meia
Clubes como jogador: Flamengo (1971-83 e 1985-89), Udinese (1983-85), Kashima Antlers (1991-94)
Carreira como técnico: Kashima Antlers (1999), Seleção Japonesa (2002-06), Fenerbahçe (2006-08), Bunyodkor (2008-09), CSKA Moscou (2009), Olympiakos (2009-10)
Títulos como jogador: 9 Taça Guanabara (1972, 1973, 1978, 1979, 1980, 1981, 1982, 1988 e 1989), 7 Campeonatos Carioca (1972, 1974, 1978, 1979, 1979 – especial -, 1981 e 1986), 2 Troféus Ramón de Carranza (1979 e 1980), 4 Campeonatos Brasileiros (1980, 1982, 1983 e 1987), 1 Mundial Interclubes (1981), 1 Copa Libertadores da América (1981), 1 Copa Kirin (1988) e 1 Torneio Pré-Olímpico com a seleção brasileira (1971)
Títulos como técnico: Copa da Ásia (2004), Copa Kirin (2004), Campeonato Turco (2007), Supercopa da Turquia (2007), Copa Antalya (2007), Copa do Uzbequistão (2008), Campeonato Uzbeque (2008), Supercopa da Rússia (2009), Copa da Rússia (2009)
Seleção brasileira: 94 jogos e 68 gols

6 comentários

  • correção amigo: o jogo entre milan e udinese terminou empatado, zico ainda achou tempo para dar um passe que resultou no empate com o milan em pleno estádio de San siro.

    abraço!

  • Zico ainda ganhou outros titulos pela seleção. Titulos oficiais: Bi-Centenário dos Eua, uma espécie de mundialíto, organizado pela Concacaf, uma Copa do Atlantico, onde reunia a elite do futebol sulamericano,organizado pela antiga confederação sulamericana de futebol, hoje comembol e as taças de um jogo só: Taça Osvaldo Cruz, Brasil vs Paraguai, Taça Rio Branco, Brasil vs Uruguai, e Taça Roca Brasil vs Argentina, hoje conhecido como o super classico das Américas. além de ser campeão simbolico de elimunatórias, campeão e artilheiro das duas. eliminatorias das copas de 78 e 82.

  • Zico ainda ganhou outros titulos pela seleção. Titulos oficiais: Bi-Centenário dos Eua, uma espécie de mundialíto, organizado pela Concacaf, uma Copa do Atlantico, onde reunia a elite do futebol sulamericano,organizado pela antiga confederação sulamericana de futebol, hoje comembol e as taças de um jogo só: Taça Osvaldo Cruz, Brasil vs Paraguai, Taça Rio Branco, Brasil vs Uruguai, e Taça Roca Brasil vs Argentina, hoje conhecido como o super classico das Américas. além de ser campeão simbolico de elimunatórias, campeão e artilheiro das duas. eliminatorias das copas de 78 e 82.

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