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Andrea Ranocchia desponta como futuro titular da zaga italiana

Antes do início da Copa do Mundo de 2010, Fabio Cannavaro afirmou que ninguém sabe defender como os italianos. O elogio aos defensores da Itália tem base: após a geração de Maldini e Costacurta, os clubes da Serie A tiveram “somente”, além de Cannavaro, Nesta e Chiellini. A nova safra vem no embalo de um jogador com apenas cinco anos de carreira profissional, mas que já chegou ao clube pentacampeão italiano nos últimos cinco anos. O tranquilo Andrea Ranocchia tem tudo para ser o próximo grande zagueiro italiano.

Natural de Assisi, ele começou a jogar futebol na região de Basta Umbria. Era um campinho entre dois prédios e os vizinhos ficaram invocados porque ele costumava quebrar as vidraças de suas casas. O menino já era grandalhão à época do Bastia e não jogava na zaga. Em 2004, aos 16 anos, Ranocchia tinha Ronaldo como ídolo e atuava como trequartista e atacante.

O crescimento do jovem veio no Perugia. Entretanto, o clube declarou falência em 2005 e Ranocchia migrou para o Arezzo, com total aprovação do técnico do juvenil, Lorenzo Rubinacci. Fulvio Rondini, encarregado das categorias de base amaranto, já tinha visto o menino atuar no Campeonato Regional de Estudantes de Perugia. A opção de jogar pelo Arezzo se deu por conta da proximidade a sua casa. O jovem deve a profissão a Rondini e Rubinacci, que o motivaram a continuar jogando futebol. Ele havia ficado desapontado com o ocorrido no Perugia e quase “pendurou as chuteiras” prematuramente.

Chance no profissional
Após a disputa do Campeonato Nazionale Primavera 2005-06, Ranocchia foi levado para o time profissional sob orientação de Antonio Conte (“aquele que exige o melhor, especialmente dos jovens”, segundo o zagueiro). Fez sua estreia na Serie B com 18 anos, em 2006-07, e teve uma grande evolução nos atributos defensivos com a ajuda de Mirko Conte e Moris Carrozzieri. Ranocchia fez 24 jogos e marcou um gol em sua primeira temporada, a do rebaixamento.

Quando subiu à equipe A, Ranocchia afirmou que os jogos eram muito mais complicados dos que disputava no Campeonato Primavera, no sentido do nível técnico. Na temporada, o jogo mais difícil foi contra o Milan, pela Coppa Italia. Apesar de duelar contra Inzaghi por apenas seis minutos (o atacante entrou no segundo tempo e Ranocchia foi substituído na etapa final), o zagueiro afirmou que foi o goleador mais difícil de marcar, uma vez que o rossonero ficava atrás dos defensores.

Na Serie C1, apesar de sua equipe nem se classificar para o play-off, o titular chamou a atenção de Pierluigi Casiraghi. O técnico da sub-21 convocou Ranocchia, de 19 anos, para integrar o plantel da Nazionale em um amistoso contra a França, em 2007. Ele debutou ao entrar no lugar de Santacroce. Paralelamente aos passos na Nazionale, o Genoa comprou o atleta, porém, cedeu seus direitos para o Bari, onde reencontrou o “padrinho” Antonio Conte.

Na divisão de acesso, garantiu sua titularidade apenas no segundo turno do campeonato. Ranocchia conseguiu marcar um gol nas 17 partidas que fez na temporada, que culminou na promoção à Serie A e garantiu aos biancorossi a segunda melhor defesa da competição. As boas exibições levaram Casiraghi a convocar o beque para os Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim. Ele, porém, sequer foi relacionado para o banco de reservas nos jogos disputados pela Itália.

Eis, então, que se encontra pela primeira vez lado-a-lado com Leonardo Bonucci (ex-Pisa). O trabalho em conjunto deu ao Bari uma das defesas mais supreendentes da elite italiana em 2009-10. Eles formaram uma sólida zaga que freou a então tetracampeã Inter e o Milan, no Giuseppe Meazza, parou a Juventus e derrotou a Udinese – virou o ano como a segunda melhor defesa do campeonato.

A desatenção na marcação em algumas partidas na segunda divisão já não era mais vista em Ranocchia. A estatura do jogador também dava firmeza ao jogo aéreo do Bari. Apesar de magro, aprendeu a jogar com técnica para desarmar o adversário. Entretanto, a época acabou aos seis minutos do primeiro tempo do último jogo do primeiro turno. Contra a Fiorentina, no Artemio Franchi, o zagueiro sofreu uma lesão no ligamento cruzado anterior do joelho direito e ficou de fora do radar de Marcello Lippi para integrar o grupo italiano na Copa do Mundo de 2010.

A Inglaterra poderia ter sido o destino do atleta no fim do ano. Ainda no Arezzo, Ranocchia afirmou que não via problemas em jogar na Premiership, uma vez que muitos italianos ainda jovens tentam ganhar uma chance no país. Foi assim com Giuseppe Rossi e Federico Macheda, quando saíram do Parma e da Lazio, respectivamente, para integrar as categorias de base do Manchester United, e Vito Manonne, comprado pelo Arsenal junto à Atalanta, por exemplo. Os gunners sondaram Ranocchia e Bonucci, fato confirmado pelo diretor de futebol do Bari, Giorgio Perinetti. Mas a negociação não saiu…

Um rossonero em nerazzurro
Enquanto Bonucci foi transferência primária da Juventus de Andrea Agnelli e Giuseppe Marotta, Ranocchia voltou ao Genoa vendido à Inter. A transferência, contudo, previa que Ranocchia ficaria em Gênova por pelo menos mais uma temporada. O alto investimento do presidente Enrico Preziosi no mercado de inverno, entretanto, não deu muito certo: o técnico Gasperini não trouxe resultados satisfatórios e foi substituído por Ballardini na 11ª rodada. Ranocchia continuou presente em quase todos os jogos do Genoa. Ele foi o destaque da quarta melhor defesa do campeonato no primeiro turno de 2010-11. Prova disso é que a Inter antecipou sua chegada, pagando 12,5 milhões de euros pela totalidade de seus direitos.

A estreia do zagueiro com a camisa da Inter aconteceu nos últimos minutos de partida contra o Catania, na Serie A. Três dias depois, estrearia como titular exatamente contra o Genoa, pela Coppa Italia: vitória por 3 a 2. Com Walter Samuel lesionado, Leonardo procurava jogar com Chivu à esquerda, Maicon na lateral-direita e Lúcio como parceiro de Ranocchia no miolo da zaga. A estratégia deu certo em importantes vitórias no returno, como diante do Palermo, Roma e Bayern de Munique (o último pela Liga dos Campeões, na Alemanha). O alto rendimento que o zagueiro mantinha com a camisa nerazzurra rendeu a convocações para a Nazionale: Ranocchia tem duas convocações para a seleção principal de Cesare Prandelli (dois amistosos, contra Romênia e Alemanha).

Porém, nem tudo são motivos de aplausos na carreira do possível fuoriclasse. O primeiro jogo das quartas de final da Liga dos Campeões, contra o Schalke 04, foi uma lástima: péssima atuação e gol contra. Péssima não somente de Ranocchia, vale dizer, pois toda a equipe jogou muito abaixo do que sabe. Portanto, poderia um erro na carreira do zagueiro custar-lhe tudo o que já conquistou? Em cinco anos como profissional, ele tem crédito. Aliás, quem nunca errou? Giorgio Chiellini já; Paolo Maldini, também; Alessandro Nesta, ídolo de Ranocchia, também; e todos eles foram ou são grandíssimos. Não é possível cravar se ele será grande, mas tem bons exemplos para seguir.

Andrea Ranocchia
Nascimento: 12 de fevereiro de 1988, em Assisi, Itália
Posição: zagueiro
Clubes: Perugia (1998-2004), Arezzo (2004-08), Bari (2008-2010), Genoa (2010) e Internazionale (2011-hoje).
Seleções de base que defendeu: Itália sub-20, Itália sub-21, Itália sub-23
Seleção italiana: 2 jogos

Originalmente para o Olheiros.

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