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A arte de gastar muito e não vencer nada

Nos últimos anos, a Juventus se especializou em negociações pouco rentáveis, como a de Martínez. O uruguaio custou €12 milhões e menos de um ano depois já está fora dos planos do clube (Getty Images)

Na última terça-feira, o meio-campista Jorge Martínez deu tchau para os companheiros juventinos e partiu rumo à Emília-Romanha, onde vai defender o Cesena durante um ano, por empréstimo. Até aí, nada de errado: o jogador não rendeu o esperado, ficou de fora dos planos do treinador e vai tentar se recuperar em outro lugar. O problema é que o uruguaio de 28 anos está entre os quatro jogadores mais caros que a Juve adquiriu no mercado do ano passado e não é exatamente jovem para conseguir recuperar sua melhor forma e recompensar aqueles 12 milhões de euros gastos nele. Ou seja, dinheiro (praticamente) perdido.

E pior: esse não é um caso pontual na Juventus. Nos últimos cinco anos, a equipe de Turim já gastou mais de 250 milhões de euros – muitos deles em jogadores de nível técnico altamente duvidoso – em transferências e o máximo que conseguiu foi chegar às oitavas-de-final da Liga dos Campeões, em 2008. Neste período pós-Calciopoli, um dos times mais vitoriosos do futebol italiano caiu de joelhos e acumulou resultados negativos jamais vistos na história do clube. E gastando muito.

Para a disputa da Serie B, em 2006-07, apenas o fraco Boumsong foi contratado, para suprir a saída de Cannavaro. A partir de 2007-08, então, o ano da volta à Serie A, os gastos por mercado aumentaram muito. No verão de 2007, chegaram Tiago (€13 mi), Iaquinta (€11 mi), Jorge Andrade (€10 mi) e Almirón (€9 mi). Na janela de janeiro, foi a vez de Sissoko desembarcar em Turim, por 11 milhões de euros. A equipe até conseguiu se classificar para a Liga dos Campeões naquela temporada, mas Sissoko foi o único recém-contratado que conseguiu vingar no time.

Tiago era o maior desejo de mercado do então treinador Claudio Ranieri, mas nunca conseguiu se firmar. Em seus três anos de contrato com a Juve, jogou apenas 42 vezes e não marcou nenhum gol, caindo no desgosto da torcida. O caso do seu conterrâneo Andrade é ainda mais marcante: contratado por 10 milhões de euros, o zagueiro acumulou várias lesões e em seus dois anos em Turim só fez quatro partidas. Em abril de 2009, a Juventus rescindiu seu contrato. Somados a esses €23 milhões, estavam os €9 milhões de Almirón, outro jogador que decepcionou e saiu do clube por preço bem menor do que foi comprado, depois de sucessivos empréstimos.

Voadora nele. É isso que alguns torcedores bianconeri queriam fazer com Christian Poulsen. O dinamarquês, que não deixa saudade, custou €10 milhões aos cofres do clube e foi vendido por apenas €4,5 milhões (Getty Images)

Em 2008-09, Amauri (€22,8 mi), Poulsen (€10 mi) e Knezevic (€0,7 mi) foram os reforços para a disputa da Liga dos Campeões. O primeiro ano do ítalo-brasileiro no clube até que foi bom, mas a falta de gols nas temporadas seguintes fizeram com que o atacante perdesse espaço e fosse colocado na lista de indesejados da diretoria. Nesta semana, ele recusou propostas de Marseille e Trabzonspor (a dos turcos foi de cerca de €10 milhões) e deve mesmo continuar no plantel, apesar de o técnico Conte já ter afirmado que não pretende usá-lo neste campeonato.

O lema da temporada 2009-10, então, era “melhor dois campeões do que um monte de jogadores medianos”. E assim chegaram Diego (€24,5 mi) e Felipe Melo (€25 mi), que, no entanto, nunca se mostraram verdadeiros campeões e naufragaram junto com a equipe que ficou de fora da Champions League. Diego saiu na temporada seguinte para o Wolfsburg, por €15,5 mi, e Felipe Melo deu adeus no último mês de julho, em contrato de empréstimo por €1,5 mi e opção de compra e 13 mi. O prejuízo com esses dois jogadores pode chegar, portanto, a 19,5 milhões de euros.

Em julho do ano passado foi a vez de o novo diretor esportivo Giuseppe Marotta começar (mais) um projeto para tentar reerguer o time na Itália e na Europa. O ex-doriano gastou cerca de €80 milhões em nove jogadores e fez mais um mercado para se esquecer. Martínez custou €12 milhões e menos de um ano depois já rumou para longe de Turim, Pepe (€10 mi) fez temporada regular, mas não está nos planos de Conte para este campeonato, Motta (€5 mi) nunca agradou e Bonucci (€15,5 mi) esteve perto de deixar o time no último mercado. E mais: a Juventus fez sua pior campanha nos últimos 20 anos e ficou de fora das competições europeias.

Assim, a pergunta que fica é se a diretoria bianconera finalmente acertou neste mercado ou se os torcedores podem esperar mais um ano decepcionante. Ao que parece, os mais de €50 milhões de euros gastos no último verão foram bem distribuídos. Jogadores mais experientes como Pirlo e Vucinic chegam para dar apoio aos mais novos e menos renomados como Vidal, Elia e Giaccherini. A mescla pode dar novo fôlego ao time, que, contudo, ainda tem que se livrar de alguns jogadores para deixar o elenco mais enxuto para o campeonato que começa na próxima semana.

Veja abaixo os gastos da Juventus nos últimos 5 anos:

2006-07 (€3,5 milhões)

Boumsong – €3,5 milhões

2007-08 (€54,4 milhões)

Tiago – €13 milhões

Iaquinta – €11 milhões

Sissoko – €11 milhões

Andrade – €10 mihões

Almiron – €9 milhões

Stendardo – €0,4 milhão

2008-09 (€33,5 milhões)

Amauri – €22,8 milhões

Poulsen – €10 milhões

Knezevic – €0,7 milhão

2009-10 (€51,5 milhões)

Felipe Melo – €25 milhões

Diego – €24,5 milhões

Grosso – €2 milhões

2010-11 (€81,2 milhões)

Matri – €18 milhões

Bonucci – €15,5 milhões

Quagliarella – €15 milhões

Martinez – €12 milhões

Pepe – €10 milhões

Motta – €5 milhões

Storari – €4,5 milhões

Traorè – €0,6 milhões

Rinaudo – €0,6 milhões

2011-12 (€54,5 milhões)

Vucinic – €15 milhões

Vidal – €12 milhões

Lichtsteiner – €12 milhões

Elia – €7 milhões

Pirlo – €5 milhões

Giaccherini – €3 milhões

Estigarribia – €500 mil (opção de compra por €5 milhões)

Ziegler – de graça (foi para o Fenerbahce, por empréstimo)

Pazienza – de graça

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