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O russo Igor Kolyvanov contribuiu com grandes azarões do futebol italiano

O Campeonato Italiano ocupou o lugar de principal torneio nacional da Europa no século XX, atingindo seu auge na década de 1980. O poder da Serie A era tão grande que até mesmo alguns jogadores oriundos de países do bloco comunista chegaram a receber autorização especial de seus governos, durante a Guerra Fria, para atravessar a chamada Cortina de Ferro e atuar na Itália. Poucos meses antes do fim da União Soviética, em 1991, o atacante Igor Kolyvanov foi um dos primeiros russos contratados por um time do Belpaese.

Os russos eram dois e o time que os contratou era o mesmo: o Foggia. Kolyvanov chegou à Apúlia junto ao compatriota Igor Shalimov para reforçar a equipe treinada por outra figura que havia deixado um país socialista para fazer carreira na Itália. Com Zdenek Zeman, os satanelli viveram seu período de ouro na Serie A.

Kolyvanov chamou a atenção da diretoria foggiana após cinco temporadas muito sólidas no disputado Campeonato Soviético, pelo Dynamo Moscou. O atacante canhoto começou sua carreira na academia do FShM Moscou e passou brevemente pelos reservas do Spartak, mas foi no rival moscovita que se destacou de verdade. Em cinco anos, Igor ajudou os Dinamiki a serem vice-campeões nacionais em 1986 e terceiros colocados na última edição da competição, em 1991.

O atleta do time associado ao serviço secreto também teve boas marcas individuais em 1989 (11 gols) e especialmente em sua temporada derradeira, quando foi artilheiro da Vysshaya Liga, com 18 tentos, e ainda foi eleito o melhor jogador soviético de 1991. Kolyvanov se destacou ainda em nível continental: na Euro sub-21 de 1990, fez um gol nas semifinais contra a Suécia e foi fundamental para o título da União Soviética. Aquela geração da URSS tinha ainda jogadores como Aleksandr Mostovoi, Andrei Kanchelskis e o já citado Shalimov.

Kolyvanov recebe o carinho de Barone e do compatriota Shalimov após um gol pelo Foggia (Alberto Mangano)

Os primeiros meses de Kolyvanov no Foggia foram complicados. A estafante rotina de treinamentos proposta por Zeman e algumas lesões fizeram com que sua adaptação demorasse de acontecer. Além disso, a concorrência de Giuseppe Signori e Francesco Baiano fez com que Igor, um atacante central, tivesse que atuar como ponta esquerda – num setor em que também revezava com Roberto Rambaudi e Shalimov.

Jogando mais afastado da área, Kolyvanov pode aperfeiçoar sua finalização de média e longa distâncias, que se tornaram uma característica de seu futebol. Apesar disso, o russo marcou seu primeiro gol apenas em março de 1992 e deixou mais dois num período de 30 dias. Encerrou a temporada de estreia com apenas 15 jogos e três tentos, mas ajudou os satanelli a conseguirem a 9ª posição na Serie A, a cinco pontos de uma vaga na Copa Uefa.

Em 1992, depois de representar a Comunidade dos Estados Independentes na Eurocopa, Kolyvanov retornou ao Foggia e encontrou um cenário diferente. A saída do quarteto de artilheiros acabou gerando mais espaço para o russo, que finalmente pode atuar centralizado. Apesar disso, as mudanças no elenco rossonero atrapalharam e a temporada foi complicada para o Foggia, que escapou do rebaixamento apenas no final do campeonato. O artilheiro do time na Serie A foi Paolo Bresciani, com 6 gols, seguido por Luigi Di Biagio, Oberdan Biagioni e o próprio Kolyvanov, com 5.

A terceira e última temporada sob o comando de Zeman foi a melhor de Kolyvanov pelo Foggia. Com os seis gols do atacante russo, os oito do meia-atacante italiano Giovanni Stroppa e os 12 do atacante holandês Bryan Roy, a equipe apuliana de novo bateu na trave por uma vaga na Copa Uefa: 9º lugar outra vez, a três pontos da zona europeia. Igor marcou gols contra o Milan (na ida e na volta) e ainda decidiu uma partida contra o outrora poderoso Parma, anotando dois na virada por 3 a 2.

Aos 26 anos, o atacante chegava ao auge da carreira. No entanto, enfrentaria momentos de bastante dificuldade nas duas temporadas que se seguiriam. Em primeiro lugar, ficou de fora da Copa do Mundo de 1994, juntamente a colegas como Shalimov e Kanchelskis. Um grupo de 14 jogadores assinou uma carta exigindo que Pavel Sadyrin deixasse o comando da seleção da Rússia, em favor de Anatoliy Byshovets. A federação bancou o treinador e Kolyvanov não viajou para os Estados Unidos.

No Foggia, o cenário mudou com a saída de Zeman para a Lazio. Sem a Zemanlâdia, a equipe já teria de se adaptar a um novo treinador e Kolyvanov teria de se provar outra vez. O russo atraiu o interesse da Inter, que queria contratá-lo na antiga janela de outono, que acontecia em novembro. Antes disso, uma séria lesão o afastou dos gramados por seis meses, fazendo o negócio melar.

Quando voltou aos gramados, nas últimas rodadas do Campeonato Italiano, Kolyvanov não conseguiu ajudar os satanelli a escaparem do rebaixamento. O atacante até recebeu a promessa de que o time se reforçaria para buscar o imediato retorno à elite e ficou para a disputa da Serie B. No entanto, graves problemas financeiros atrapalharam a equipe, que flertou com um novo descenso e nem de perto brigou pela vaga na A.

Kolyvanov ajudou o Bologna a ser semifinalista da Copa Uefa (Reuters)

Devido à má fase do clube, a diretoria do Foggia autorizou a saída de Kolyvanov, seu maior artilheiro na Serie A: em quatro disputas, o atacante marcou 18 gols na elite. Ainda valorizado no futebol italiano, o russo reapareceu para o cenário internacional como camisa 9 da Rússia na Euro 1996. A seleção foi eliminada junto com a Itália no Grupo C, mas Igor fez boas atuações e, depois disso, assinou com o Bologna. No clube emiliano, o atacante voltou a viver momentos prodigiosos.

Em 1996, o Bologna retornava à elite após cinco anos difíceis, que envolveram um processo de falência e até a disputa da terceira divisão. Quando Kolyvanov chegou, o time rossoblù se recuperava: havia sido campeão da segundona e semifinalista da Coppa Italia. Buscando voltar a melhores tempos, o clube mais tradicional da Emília-Romanha se reforçou bem e reuniu os russos Kolyvanov e Shalimov, além de acertar com o gigante sueco Kennet Andersson, ex-Bari, e promover o retorno do experiente volante Giancarlo Marocchi, que estava na Juventus.

Com a camisa 10 do time, Kolyvanov fez uma excelente dupla de ataque com Andersson e foi o artilheiro bolonhês na temporada, com 12 gols – 11 deles na Serie A. O Bologna teve o sexto ataque mais positivo da primeira divisão, ficou na sétima posição do campeonato e parou nas semifinais da copa, sendo eliminado nas semifinais pelo Vicenza, que se sagraria campeão.

No segundo ano no time do Renato Dall’Ara, Kolyvanov deixou de usar a camisa 10, que passou para o neocontratado Roberto Baggio. Já com o 9 nas costas, o atacante russo integrou um fortíssimo tridente de ataque, que novamente teve o sexto melhor rendimento da Serie A e deu trabalho para as chamadas “sete irmãs” – grupo das equipes mais ricas da Itália na época, integrado por Juve, Inter, Milan, Roma, Lazio, Fiorentina e Parma. Igor anotou nove vezes naquela temporada e ajudou o Bologna a se classificar para a extinta Copa Intertoto.

O atacante russo fez parte de tridentes ofensivos muito fortes enquanto esteve em Bolonha (Ansa)

Como a Intertoto premiava seus vencedores com vagas na Copa Uefa, o Bologna teve de entrar em campo já em 18 de julho de 1998, seis dias após a final da Copa do Mundo. Embalado por Kolyvanov, o lateral Michele Paramatti e o atacante Giuseppe Signori, substituto de Baggio, o time felsineo eliminou até a Sampdoria no caminho para o título da competição.

Sobrecarregado pelo fato de ter três competições para disputar, o Bologna não se intimidou. Os veltri mantiveram um bom nível na Serie A, competição em que Kolyvanov marcou seis gols, e ficaram com a nova colocação. No mata-mata italiano e no europeu, o desempenho foi melhor ainda: os rossoblù foram semifinalistas da Coppa Italia e da Copa Uefa. Até hoje, é a melhor temporada do Bologna em termos gerais desde que o time conquistou a Coppa Italia, em 1974.

Na competição local, o time da Emília-Romanha parou apenas na Fiorentina, enquanto no torneio continental deixou para trás equipes como Sporting, Betis (com Denílson no elenco) e Lyon, caindo apenas aos 42 do segundo tempo do jogo e volta para o Marseille. Na ocasião, Laurent Blanc converteu um pênalti e, com o 1 a 1 na Itália, deu a vaga na final aos franceses por causa do gol feito fora de casa. Kolyvanov foi utilizado mais justamente nas copas (no Campeonato Italiano, foi reserva), mas terminou a temporada como vice-artilheiro da equipe, com 12 gols – Signori, com 23, liderou.

Após igualar sua melhor temporada em números pelo Bologna e no futebol italiano, Kolyvanov praticamente não jogou mais futebol. Um problema nas costas fez com que o atacante fosse operado e perdesse metade da campanha petroniana em 1999-2000. O russo voltou aos gramados em janeiro de 2000, mas só entrou em campo oito vezes no campeonato. Os problemas se agravaram e o atacante não esteve disponível durante a disputa da Serie A posterior: com isso, com 33 anos recém-completados, decidiu se aposentar e recebeu uma homenagem na 31ª rodada do certame, ao entrar em campo no último minuto do jogo contra a Juventus para ser aplaudido pela torcida.

Depois de confirmar a aposentadoria, Igor Kolyvanov começou a se dedicar à carreira de treinador. Em sete anos como técnico das seleções de base russas, o ex-atacante conseguiu o título da Euro sub-17, em 2006 – seu único troféu até agora. Em nível de clubes, Kolyvanov conduziu o jovem time do Ufa da terceira à primeira divisão do seu país e, atualmente, comanda o Torpedo Moscou na terceirona.

Mesmo depois de tanto tempo distante da Itália, Kolyvanov ainda não foi esquecido. Em 2010, a torcida do Foggia – agremiação com a qual mais se identificou – provou isso durante os festejos pelos 90 anos de fundação do clube. Além de ter sido homenageado no estádio Pino Zaccheria, o russo não conseguia dar um passo na cidade da Apúlia sem ser celebrado e parado para dar autógrafos – fato que o motivou a escrever uma carta, publicada no site oficial dos satanelli. “Não esperava uma recepção tão bela. Deixo a cidade com lágrimas nos olhos, consciente de quanto vocês me querem bem e de quanto este sentimento é recíproco”, afirmou o ex-jogador.

Igor Vladimirovich Kolyvanov
Nascimento: 6 de março de 1968, em Moscou, Rússia (antiga União Soviética)
Posição: atacante
Clubes como jogador: FShM Moscou (1985), Spartak Moscou (1985), Dynamo Moscou (1986-91), Foggia (1991-96) e Bologna (1996-2001)
Títulos como jogador: Euro sub-21 (1990) e Copa Intertoto (1998)
Carreira como treinador: Seleção russa sub-17 (2003-06), Seleção russa sub-19 (2006-08), Seleção russa sub-21 (2008-10), Ufa (2012-15), Torpedo Moscou (2017-hoje)
Títulos como treinador: Euro sub-17 (2006)
Seleção soviética: 19 jogos e 2 gols
Seleção da Comunidade dos Estados Independentes: 5 jogos e 1 gol
Seleção russa: 35 jogos e 12 gols

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