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O gigante Kennet Andersson se tornou uma das mais célebres torres de Bolonha

Uma das cidades mais belas da Itália, Bolonha é conhecida pelo grande número de torres que figuram em seu horizonte. Estudiosos estimam que existiam cerca de 100 dessas estruturas durante a Baixa Idade Média, mas “apenas” 22 delas sobreviveram. As torres vizinhas de Asinelli e Garisenda são o símbolo do principal centro urbano da Emília-Romanha, mas nos anos 1990 foram ameaçadas por um gigante: o sueco Kennet Andersson, que virou ídolo bolonhês.

Revelado pelo IFK Eskilstuna, de sua cidade natal, após quatro anos como profissional na terceirona sueca, Andersson chegou ao IFK Gotemburgo, um dos maiores clubes do país. Com 1,93m de altura, ele se destacava, obviamente, pelo jogo aéreo: Kennet era um centroavante à moda antiga, que compensava a falta de velocidade e de técnica com os pés com a facilidade de tirar da cartola, nos momentos mais difíceis, gols e escoradas para os companheiros. A seleção sentiu falta dessas características na Copa de 1990, para a qual Andersson não foi chamado – o resultado foi a eliminação com três derrotas na fase de grupos.

Andersson começou a ser convocado com frequência após o Mundial e, em 1991, foi contratado pelo Mechelen. O sucesso obtido pelo Gotemburgo, com o qual conquistou dois títulos suecos e uma artilharia da Allsvenskan, não se repetiu na Bélgica e o gigante acabou sendo emprestado ao Norrköping, em 1993. Ao estabelecer mais uma ótima média de gols por jogo em sua pátria natal, Kennet recebeu a oportunidade de atuar num campeonato mais forte: o francês.

Em 1992, o atacante já havia chamado a atenção dos gauleses por causa do desempenho na Eurocopa. Na competição, disputada em casa, a Suécia foi capaz de eliminar a França e a Inglaterra na fase de grupos e, na semifinal, fez jogo duro contra a Alemanha: os germânicos venceram por 3 a 2, num jogo em que Andersson deixou sua marca. No Campeonato Francês, Kennet começou defendendo o Lille, em 1993-94, e ajudou a equipe a ficar no meio da tabela ao anotar 11 gols.

No verão de 1994, aconteceu o ponto de virada na carreira do grandalhão. Andersson fez parte do grupo da Suécia que ficou com a terceira colocação na Copa do Mundo dos Estados Unidos. O primeiro ato de Kennet foi anotar um golaço contra o Brasil, na fase de grupos. Depois, anotou uma doppietta nas oitavas de final sobre a Arábia Saudita e fez um gol decisivo, no fim da prorrogação, para empatar em 2 a 2 o jogo das quartas contra a Romênia. O gigante converteu seu pênalti e ainda deixou mais um na disputa pelo terceiro lugar. Com cinco gols, ficou atrás apenas de Oleg Salenko e Hristo Stoichkov na artilharia da competição.

Ao lado do compatriota Ingesson, atacante Andersson teve bons anos no Bologna (Cuori Rossoblù)

As glórias na Copa do Mundo não levaram Andersson a algum clube à sua altura. O sueco trocou o Lille pelo Caen, também da França, mas seus nove gols não foram suficientes para evitar a queda da equipe da Normandia para a segundona. Curiosamente, o insucesso no noroeste do país acabou alavancando a carreira do centroavante, que ganhou uma oportunidade no Campeonato Italiano, o mais forte naqueles tempos. O Bari foi o seu destino.

Na Apúlia, Kennet encontrou o meia Klas Ingesson, seu parceiro na seleção, e fez uma dupla infernal com o atacante Igor Protti, ídolo do clube barês. A torcida dos galletti, que já havia se entusiasmado pela contratação, foi ao delírio com o entrosamento entre Andersson e Protti: grande parte dos gols do “czar” Igor, artilheiro do campeonato, tiveram a participação do companheiro, que usava a altura e o tempo de bola para fazer o trabalho de pivô e garantir as assistências.

Andersson e Protti entraram em campo em 33 das 34 rodadas daquela Serie A. O sueco e o italiano foram responsáveis por quase 73,5% dos tentos da equipe (36 de 49), que teve o oitavo melhor ataque do campeonato, mas acabou rebaixada pela enorme quantidade de problemas defensivos. O gigante escandinavo anotou 12 gols: nove deles aconteceram a partir de lances em que tocou no máximo duas vezes na bola, na grande área ou em suas imediações. Dois surgiram de pancadas em cobranças de falta, outra peculiaridade de seu futebol.

A queda do Bari para a Serie B fez Andersson mudar de ares e a ótima temporada no calcanhar da Bota fez com que ele acertasse com uma equipe mais estruturada. Com quase 29 anos, Kenettone finalmente chegou ao Bologna, clube em que viveu os melhores momentos de sua carreira. Quando o sueco chegou, ao lado do russo Igor Kolyvanov, o clube rossoblù se reestruturava após um processo de falência e parecia estar no caminho certo, já que havia sido campeão da segundona e semifinalista da Coppa Italia.

Na cidade das torres, o grandalhão formou uma dupla de ataque insidiosa com Kolyvanov. Graças ao forte ataque (sexto mais positivo da Itália), o Bologna fechou a temporada da Serie A com a sétima posição, e ainda foi novamente semifinalista da copa. Voluntarioso, Andersson fazia o trabalho sujo no ataque do time de Renzo Ulivieri, mas também marcava seus gols – foram 11 na temporada, que lhe deixaram apenas um atrás de Kolyvanov.

Os rossoblù Kennet, Ingesson e Teddy Lucic posam com Daniel Andersson, do Bari, irmão de Patrik, ex-zagueiro de Bayern e Barcelona (SVT)

Em seu segundo ano em Bolonha, Kenettone se tornou ainda mais importante. A equipe ganhou o inesperado reforço de Roberto Baggio e ficou com um tridente ofensivo poderosíssimo, que novamente foi o sexto melhor da Itália e, dessa vez, levou os felsinei à Copa Intertoto – que dava vaga na Copa Uefa.

A temporada do sueco foi absurda. Os gols marcados foram 12, com direito a uma tripletta num 3 a 2 em Gênova, sobre a Sampdoria. O gigante também deixou dois gols contra Napoli, Piacenza e contra o Vicenza, vingando as duas expulsões sofridas contra os vicentinos no ano anterior, por atritos com o violento zagueiro Davide Belotti. Além disso, Andersson foi fundamental para que Baggio atingisse sua melhor marca de gols numa Serie A: dos 22 anotados pelo Divino Codino, cinco saíram de assistências diretas do sueco, que também cavou uma penca de faltas e pênaltis para o camisa 10 cobrar. Robi é um declarado fã de Kenettone.

Em 1998-99, o Bologna, agora comandado por Carlo Mazzone, venceu a Intertoto e chegou até as semifinais da Copa Uefa, caindo apenas para o Marseille. A equipe bolonhesa não tinha mais Baggio, que foi substituído por Giuseppe Signori, e o rendimento de Andersson caiu: mesmo com a chegada do colega Ingesson, Kennet marcou apenas seis gols no ano. No entanto, o camisa 19 continuava se dedicando ao máximo e acabou sendo contratado pela Lazio, então vice-campeã italiana.

A passagem por Roma durou apenas três partidas – tempo suficiente para conquistar a Supercopa Uefa. Não que Kennettone estivesse indo mal na Cidade Eterna; era o Bologna que não se acertava sem o sueco. Percebendo a besteira que havia feito ao liberar Andersson para a Lazio, o presidente Giuseppe Gazzoni Frascara agiu na janela de transferências que havia no mês de outubro e repatriou a sua torre. A temporada rossoblù foi mais modesta, mas o centroavante teve boa participação, garantindo sete gols e pontos contra Inter, Fiorentina, Perugia e Cagliari. Encerrava, assim, com 140 jogos e 38 gols, sua passagem pela equipe petroniana.

Com quase 33 anos, Andersson ainda disputou a última competição pela Suécia – a Euro 2000 – e concluiu sua trajetória na seleção com 83 partidas e 31 gols. Depois do torneio de seleções, se transferiu para o Fenerbahçe, clube pelo qual foi campeão turco. Em 2002, o centroavante se aposentou, mas acabou voltando aos gramados três anos depois, para dar uma ajudinha ao Gårda, da quinta divisão sueca.

Hoje em dia, Andersson não está mais ligado diretamente ao esporte. Está numa área afim: usando a cabeça, que sempre foi a sua especialidade, Kenettone atua como mental coach. De vez em quando, porém, retorna a Bolonha, onde ainda se sente em casa, ao lado de tantas torres.

Bernt Kennet Andersson
Nascimento: 6 de outubro de 1967, em Eskilstuna, Suécia
Posição: atacante
Clubes: IFK Eskilstuna (1985-88), IFK Gotemburgo (1989-91), Mechelen (1991-93), Norrköping (1993), Lille (1993-94), Caen (1994-95), Bari (1995-96), Bologna (1996-99 e 1999-2000) Lazio (1999), Fenerbahçe (2000-02) e Gårda (2005)
Títulos: Campeonato Sueco (1990 e 1991), Copa da Suécia (1991), Copa Intertoto (1998), Supercopa Uefa (1999) e Campeonato Turco (2001)
Seleção sueca: 83 jogos e 31 gols

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