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Coadjuvante em título mundial da França, Alain Boghossian construiu carreira na Itália

O Troféu da Copa do Mundo costuma ser visto na companhia de verdadeiras lendas do futebol, mas o prazer de levantá-lo não é exclusivo apenas de quem figura no rol de estrelas do esporte. A melhor geração da história da França, que venceu o Mundial em 1998, é um bom exemplo: tinha Zinédine Zidane, David Trezeguet e Thierry Henry, mas também Alain Boghossian. O meia não é tão lembrado, mas construiu sólida carreira no futebol italiano e participou de cinco partidas na inédita conquista francesa.

Assim como Youri Djorkaeff, ex-jogador da Inter e seu colega no elenco dos Bleus em 1998, Boghossian pertence à grande comunidade armênia que vive na França desde o Genocídio Armênio, ocorrido no início do século XX. Filho de imigrantes da república encravada na cordilheira do Cáucaso, Alain até chegou a ser sondado pela seleção do país, que declarou independência da União Soviética em 1991. No entanto, como a federação local ainda se estabelecia, em meados dos anos 1990, Boghossian nunca chegou a defender a Armênia.

Se era desejado pelos armênios, Boghossian era pouco visto pelos franceses. Nascido no sul do país, foi revelado pelo Marseille e jogou um bom tempo pelos reservas do Olympique até ser emprestado ao Istres, da segunda divisão, para ganhar experiência. De volta ao OM, o meio-campista teve uma boa temporada pela equipe, em 1993-94, e logo passou ao Napoli. Nunca mais voltaria a atuar no futebol francês e faria seu nome na Itália.

Boghossian foi uma das boas contratações que o Napoli fez em 1994. A equipe tentava superar um enfraquecimento em potencial, pelas saídas do técnico Marcello Lippi, do zagueiro Ciro Ferrara, do meia Jonas Thern e dos atacantes Paolo Di Canio e Daniel Fonseca. Chegaram, além do franco-armeno, o brasileiro André Cruz, o colombiano Fredy Rincón e os atacantes italianos Benito Carbone e Massimo Agostini. Nessa turma, porém, só Boghossian não se afirmou: fez oito jogos até romper os ligamentos do joelho, em dezembro de 1994.

Recuperado da grave lesão, Boghossian começou a temporada 1995-96 como titular do time treinado por Vujadin Boskov, mas sofreu uma recaída que fez o técnico reintegrá-lo aos poucos. Depois de se recobrar suas melhores condições físicas, foi bastante utilizado na campanha mediana dos azzurri, que concluíram a Serie A no meio da tabela.

Boghossian foi notado pelo técnico Jacquet pelas atuações na Sampdoria (Getty)

Em 1996-97, o francês de origem armênia teve a sua melhor temporada pelo Napoli. O ano começou lento para Boghossian, que só entrou em campo pela primeira vez como reserva na 5ª rodada da Serie A. Na 8ª, jogou pela segunda vez – desta vez como titular – e não saiu mais do time: formou o meio-campo com André Cruz e Fabio Pecchia e ajudou os campanos a ocuparem a vice-liderança da Serie A na pausa para as festas de fim de ano.

O Napoli teve queda vertiginosa no segundo turno e terminou o campeonato apenas alguns pontos acima da zona do rebaixamento. No entanto, Boghossian continuou a manter um bom nível e foi fundamental na Coppa Italia, competição na qual os partenopei ficaram com o vice. No jogo de volta das semifinais contra a Inter, terminado em 1 a 1, o meia central teve uma atuação de grande sacrifício. Além disso, converteu a última cobrança na disputa por pênaltis que levou os napolitanos à final contra o Vicenza.

O jogador acabou deixando o Napoli ao fim da campanha. Em enorme crise financeira, o clube do sul do Belpaese aceitou propostas por seus melhores atletas e encaminhou a venda do francês para a Sampdoria, que concluíra a Serie A na 6ª posição. Em Gênova, o meio-campista substituiu o compatriota Christian Karembeu e fez a grande temporada de sua carreira.

Boghossian entrou em campo em 31 das 34 rodadas da Serie A 1997-98, na qual anotou seis gols. Sempre jogou como titular de uma Samp bem organizada, que ainda contava com o craque Juan Sebastián Verón e o útil Pierre Laigle no setor. A equipe ficou na 9ª colocação no campeonato e caiu nas primeiras fases de mata-mata da Copa Uefa e da Coppa Italia.

Em plena evolução como jogador, Boghossian recebeu chances na seleção da França, treinada por Aimé Jacquet. A primeira convocação aconteceu em outubro de 1997, depois que Boghossian marcou três gols nas cinco primeiras rodadas do Campeonato Italiano. A ascensão na Sampdoria veio no momento certo e o franco-armeno, não obstante a pequena experiência pelos Bleus, figurou na lista dos donos da casa para a Copa do Mundo.

Na competição, Jacquet utilizou o meia central como arma de segundo tempo; uma peça para controlar o ritmo das partidas. Alain foi titular contra a Arábia Saudita e saiu do banco em quatro outros jogos – inclusive na final, contra o Brasil. Boghossian pode não ter sido fundamental para a primeira conquista mundial da França, mas foi um dos jogadores que mais entraram em campo na campanha do título e saiu valorizado. Uma prova disso é que trocou a Sampdoria pelo endinheirado Parma.

O único clube pelo qual Boghossian comemorou títulos foi o Parma (Getty)

Boghossian chegou ao Parma juntamente com Verón. A dupla de ex-jogadores da Samp caiu como uma luva num meio-campo versátil e poderoso, que contava também com Dino Baggio, Diego Fuser e Stefano Fiore como opções. Titular da equipe treinada por Alberto Malesani, o francês deu sustentação ao setor e se desdobrou em três frentes, nas quais os crociati foram bem: o Parma conseguiu pela segunda vez em sua história os títulos da Copa Uefa e da Coppa Italia, além de ter ficado com a quarta colocação na Serie A. Boghossian foi importante na campanha europeia, na qual marcou um gol contra o Fenerbahçe e teve atuações de gala no 6 a 0 sobre o Bordeaux e no 3 a 0 sobre o Marseille, seu antigo clube, na final.

As duas temporadas seguintes foram terríveis para Boghossian, que se viu perseguido pelas lesões. Após começar 1999-2000 com a titularidade garantida, seu joelho voltou a lhe trair. Alain perdeu a Eurocopa e a chance de vencer mais um título com os Bleus e, em 2000-01, entrou ainda menos vezes em campo, por conta de novos problemas físicos.

O franco-armeno voltou a ocupar um papel importante no elenco parmense em 2001-02, ano que se revelou atribulado. O Parma teve três treinadores – Renzo Ulivieri, Daniel Passarella e Pietro Carmignani – e ficou apenas na 10ª posição da Serie A. No entanto, Boghossian pode participar da conquista da Coppa Italia, a última relevante na história dos ducali.

Alain Boghossian se despediu do Parma após o título e rumou para a Ásia, onde fez parte da terrível campanha da França na Copa do Mundo. As três atuações na fase de grupos foram as últimas com a camisa azul e também acabariam integrando a lista das derradeiras partidas da carreira do meio-campista. Depois do Mundial, Boghossian acertou com o Espanyol, mas, impossibilitado pelas crônicas lesões, só fez seis jogos pela equipe catalã.

Aposentado, Boghossian se dedicou a praticar golfe e até participou de torneios profissionais. Voltou ao futebol em 2008, quando foi nomeado como auxiliar de Raymond Domenech na seleção da França. O ex-meia continuou no cargo na gestão de Laurent Blanc, companheiro na conquista mundial, mas deixou a posição após a queda na Euro 2012. Atualmente, Boghossian faz parte do quadro de diretores do departamento técnico da Federação Francesa.

Alain Boghossian
Nascimento: 27 de outubro de 1970, em Digne, França
Posição: meio-campista
Clubes: Marseille (1988-92 e 1993-94), Istres (1992-93), Napoli (1994-97), Sampdoria (1997-98), Parma (1998-2002) e Espanyol (2002-03)
Títulos conquistados: Copa Uefa (1999), Coppa Italia (1992 e 2002), Supercopa Italiana (1999) e Copa do Mundo (1998)
Seleção francesa: 26 jogos e dois gols

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