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Aron Winter trocou a perseguição em Roma pela estabilidade de Milão

Participar de sete competições internacionais por uma seleção tradicional como a da Holanda não é para qualquer um. Discreto e eficiente, Aron Winter conseguiu tal feito e, sem dúvidas, colocou seu nome no rol dos grandes da história da Oranje. Nos clubes em que atuou, o meio-campista nascido no Suriname também foi bem: além de brilhar pelo Ajax, teve passagens marcantes pelo futebol italiano, onde vestiu as camisas de Lazio e Inter.

Como tantos jogadores holandeses, Winter tem sua origem no Suriname, uma antiga colônia neerlandesa na América do Sul. Ainda criança, antes da independência do país em que nasceu, ele se mudou para a metrópole e começou a jogar bola em clubes amadores de Lelystad, cidade próxima à capital Amsterdam. Somente aos 19 anos o meio-campista foi descoberto pelo Ajax e começou sua carreira como profissional.

Winter rapidamente ganhou seu espaço no time titular dos Joden e foi escolhido como o melhor jovem do futebol holandês em 1986. O meia defensivo defendeu o Ajax por sete temporadas, nas quais obteve uma taça do campeonato local, a Eredivisie, duas copas holandesas e ainda duas glórias internacionais, na Recopa e na Copa Uefa. Com boa chegada ao ataque, Winter marcou 46 gols nesta primeira passagem pelos lanceiros e também cavou seu lugar na seleção.

O meia surinamês estreou pela Oranje em 1987, sob a batuta de Rinus Michels. Winter debutou diante da Grécia, pelas Eliminatórias para a Eurocopa, e, aos 21 anos, foi convocado pelo lendário treinador para a competição continental, vencida pela Laranja Mecânica. O volante não entrou em campo durante a campanha do único título internacional da Holanda, mas pode contribuir com algumas atuações nos dois torneios seguintes, a Copa do Mundo de 1990 e a Euro 1992. Após disputar seu segundo Europeu, o volante acertou com a Lazio, em junho.

Bergkamp, da Inter, e Winter, da Lazio, foram companheiros no Ajax (ANP)

O primeiro grande adversário de Winter na Itália foi o racismo de setores de ultra-direita da torcida da Lazio. Em seus primeiros treinamentos, o jogador foi ofendido com pixações nos muros do CT celeste. Acompanhada de suásticas, a frase “Winter Raus” (“fora, Winter”) remete à perseguição dos nazistas ao povo judeu durante o holocausto. Os ataques antissemitas eram motivados pelo primeiro nome do jogador (Aron), cuja origem é judaica. O meia era, ainda, o primeiro negro da história do clube.

O holandês representava a união entre os povos numa sociedade europeia em que a miscigenação era menos comum do que hoje em dia: Aron Mohamed Winter é filho de uma muçulmana indiana e de um surinamês com descendências judaica e chinesa. Carrega em seu nome uma referência a Arão, sumo sacerdote dos hebreus, e de Maomé, o profeta do Islã. Por tudo isto, ultras neofascistas prometeram que não deixariam o jogador em paz até que ele deixasse a Cidade Eterna: o ameaçavam com ligações telefônicas e discursos em programas de rádio voltados aos torcedores. Isto gerou manifestação de parlamentares italianos, que pediram providências ao governo sobre os atos de intolerância.

Parecia que Winter havia feito a pior escolha de sua vida ao aceitar a proposta da Lazio. Para tirar o foco de si, o holandês foi aconselhado a renegar suas raízes: precisou mentir e declarar à imprensa que seu nome era fruto apenas de uma escolha exótica. No entanto, o que – pouco a pouco – calou mesmo a covardia dos racistas e fez com que o jogador recuperasse a sua alegria foi o futebol. Foi jogando muita bola que Aron Mohamed Winter fez os preconceituosos recolherem-se à sua insignificância e terem de suportá-lo por quatro temporadas.

Winter foi titular absoluto no time de Dino Zoff que concluiu a campanha na quinta posição da Serie A 1992-93. Incansável no meio-campo, o holandês não ficava apenas postado à frente da defesa: chegava muito ao ataque e não à toa marcou seis gols naquele Italiano. O dinamismo era um dos fortes de Winter e foi o que o manteve intocável no onze inicial também em 1993-94, ano em que foi o jogador de linha que mais entrou em campo pela Lazio. O número de gols foi um pouco menor do que em seu debute (quatro contra seis), mas o time romano conseguiu melhorar a posição na tabela e encerrou o campeonato com o quarto lugar.

A maior vitória de Winter pela Lazio foi superar o racismo (Juha Tamminen)

No verão de 1994, Winter embarcou para os Estados Unidos, onde defenderia a Holanda na Copa do Mundo. O meia começou a competição entre os reservas, mas ganhou a titularidade na última partida da fase de grupos, diante de Marrocos, e a manteve até a eliminação da Oranje, nas quartas de final. No fatídico jogo contra o Brasil, em Dallas, Aron chegou a marcar o gol do momentâneo 2 a 2, mas Branco manteve a Seleção no caminho do tetra.

Conforme a contrariedade de setores da torcida se apagava, Winter ganhava mais funções na Lazio. No 4-3-3 de Zdenek Zeman, atuou centralizado ou aberto pela direita, sempre com liberdade e intensidade. Enquanto Giuseppe Signori, Alen Boksic e Pierluigi Casiraghi decidiam na frente, Winter se aliava a Roberto Rambaudi, Diego Fuser e Roberto Di Matteo para sustentar o esquema tático zemaniano. Dessa forma, a equipe celeste foi vice-campeão italiana em 1994-95. O time ainda foi semifinalista da Coppa Italia e foi eliminado nas quartas da Copa Uefa.

O ano seguinte foi menos feliz nas copas e, no campeonato, o terceiro lugar não foi tão bem visto pela torcida: a Lazio caíra um pouco de rendimento e não conseguiu encantar tanto quanto em 1994-95. Winter, porém, continuava jogando bem e mantinha sua verve goleadora – com os sete tentos daquela temporada, chegou aos 27 em 155 partidas pelo time celeste. Após a disputa da Euro 1996, marcada pelo fracasso de uma Oranje com elenco rachado, Aron acertou com a Inter.

Winter passou três anos em Milão, onde não jogou tantas vezes, mas fez parte de um time ainda mais competitivo que o laziale. Na primeira temporada, a Inter não engrenava sob o comando de Roy Hodgson e o holandês era preterido por Paul Ince e Ciriaco Sforza. Apesar disso, os nerazzurri ficaram com a terceira posição na Serie A e foram finalistas da Copa Uefa, na qual Winter foi protagonista de maneira negativa, já que foi ele que perdeu o pênalti decisivo contra o Schalke 04.

Winter veste o marcante uniforme interista na Copa Uefa 1997-98 (Getty)

Aron, porém, passou de vilão a herói. Em 1997-98, com a chegada de Luigi Simoni, o holandês passou a atuar mais vezes, embora de forma mais recuada em relação aos momentos anteriores de sua carreira. Orientado a avançar pouco, Winter era um dos pilares de contenção da equipe, ao lado de Zé Elias e Diego Simeone. Com Ronaldo e Iván Zamorano brilhando no ataque, a Inter faturou a primeira Copa Uefa com final disputada em jogo único: na ocasião, a Beneamata bateu a Lazio, em Paris. A Beneamata ainda foi vice-campeã italiana e retornou à Champions League após quase uma década de ausência.

A temporada seguinte em Milão foi um desastre, motivado pela impaciência de Massimo Moratti. A equipe chegou a ter quatro treinadores e ficou apenas no meio da tabela na Serie A, além de ter caído nas quartas da Liga dos Campeões. Acabou sendo o último ato de Winter na Itália: dessa forma, ele se despediu do time nerazzurro com 119 jogos e apenas três gols marcados. Antes disso, o jogador emprestou sua versatilidade à Holanda em mais uma Copa do Mundo, a de 1998, na qual atuou como lateral direito.

De saída da Internazionale, Winter voltou a jogar no mesmo Ajax que o projetou. Aos 32 anos, seria um dos líderes do elenco dos Godenzonen, mas a equipe ficou apenas com a quinta colocação na Eredivisie 1999-2000. Aron ainda chegou a ser convocado para a Eurocopa e entrou em campo uma vez, tornando-se o jogador com mais partidas pela Oranje até aquele momento: 84. Desde então, foi superado e atualmente ocupa o 12º posto da lista.

Atritos com o técnico Co Adriaanse fizeram com que Winter gradativamente perdesse espaço no Ajax e deixasse a capital para atuar pelo Sparta Rotterdam, por empréstimo: à época, os gladiadores eram treinados por Frank Rijkaard, técnico da Holanda na Euro 2000 e seu ex-companheiro de equipe e seleção. A dupla não conseguiu livrar o time do rebaixamento e Winter retornou ao clube que o projetou. No entanto, fez apenas mais um jogo antes de decidir se aposentar, em janeiro de 2003, pouco antes de completar 36 anos.

Depois de pendurar as chuteiras, Winter continuou se dedicando ao Ajax. Embora tenha sido técnico do Toronto, do Canadá, e passado um breve período no comando da seleção sub-19 da Holanda, o ex-meia tem se destacado pelo trabalho nas categorias de base dos Ajacieden. Atualmente, Winter é auxiliar técnico da equipe alvirrubra, cargo que já havia ocupado anteriormente, entre 2005 e 2009.

Aron Mohamed Winter
Nascimento: 1º de março de 1967, em Paramaribo, Suriname
Posição: meio-campista
Clubes como jogador: Ajax (1986-92, 1999-2001 e 2002-03), Lazio (1992-96), Inter (1996-99) e Sparta Rotterdam (2001-02)
Títulos como jogador: Eurocopa (1988), Copa da Holanda (1986 e 1987), Recopa Uefa (1987), Eredivisie (1990) e Copa Uefa (1992 e 1998)
Carreira como treinador: Jong Ajax (2007-09 e 2016-17), Toronto FC (2011-12) e Holanda sub-19 (2014-16)
Títulos como treinador: Campeonato Canadense (2011 e 2012)
Seleção holandesa: 84 jogos e seis gols

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