Futebol feminino

História, preconceito, referências: a Itália e sua relação com o futebol feminino



Prosperidade. Não há palavra que melhor descreva o 2018 do futebol feminino na Itália. Se não foi o ano de maior relevância para a modalidade no país, certamente foi um dos mais importantes, em contraste com o contexto vivido no futebol masculino italiano na mesma época. Foi o ano em que os clubes, as entidades relacionadas ao esporte, a mídia, os torcedores e o mundo acenaram para o futebol praticado por mulheres dentro do Belpaese – por tanto tempo desprezado e, consequentemente, adormecido.

O ano teve diversas conquistas. A começar pela classificação da seleção feminina italiana para a Copa do Mundo depois de duas décadas de ausência, passando pelo fato de a federação voltar a olhar e cuidar da modalidade. Além disso, foram firmados contratos de direito de transmissão de jogos na TV e foram criadas equipes formadas por mulheres por parte das mais tradicionais e vitoriosas agremiações da Bota. Os apelos de tantos anos, enfim, foram ouvidos.

A Calciopédia procurou resgatar e destrinchar a trajetória percorrida pelas italianas no futebol desde os primeiros chutes no que elas chamam de pallone até o grande ano da evolução e os dias atuais. Dessa forma, o site traz, por meio desta reportagem, a história da modalidade, as referências das mulheres no esporte e um panorama da relação entre a Itália e o futebol feminino.

Página do periódico Il Calcio Illustrato (Reprodução)

O começo

Para se falar sobre o futebol feminino na Itália, é necessário voltar alguns anos, à época em que os movimentos totalitários pulsavam na Europa e o fogo do fascismo ardia na Bota. Acredita-se que a história de tantos capítulos da modalidade no país começa a se desenhar em meados de 1933, em Milão.

Um grupo de mulheres, intitulado como GFC, o Gruppo Femminile Calcistico, se reunia corriqueiramente no número 12 da Via Stoppani para jogar bola na capital lombarda. O número de jogadoras era de aproximadamente 30 jovens, com idades que giravam em torno de 14 a 20 anos. Na pelejas, elas costumavam trajar saias na altura dos joelhos em vez de calções.

As reuniões futebolísticas, no entanto, duraram apenas nove meses, quando teve início uma série de episódios que as compeliu a se afastarem do esporte. O então presidente do CONI (Comitê Olímpico Nacional Italiano), Leandro Arpinati, decidiu proibir que o GFC jogasse de uma forma que não fosse completamente sigilosa. Assim, as milanesas passaram a praticar o esporte sem a presença de público, sobretudo diante de homens. O fascismo, que aparelhava as instituições esportivas, não suportava a ideia de que o futebol jogado por mulheres pudesse atrair a atenção das pessoas.

Pouco tempo depois, o ex-secretário-geral da entidade que cuida do esporte olímpico italiano, Achille Starace, sucedeu Arpinati na presidência e foi ainda mais radical em relação ao grupo milanês e ao futebol feminino na Itália como um todo. Ele proibiu a prática da modalidade entre as mulheres a fim de impedir o surgimento de outros grupos.

Esse cenário arrastou-se por anos. O que acontecia com a modalidade na Itália era semelhante ao panorama do Reino Unido, o berço do esporte bretão masculino e feminino, que baniu suas cidadãs de jogarem bola por um tempo, e até mesmo ao do Brasil, em que o futebol jogado entre mulheres já foi considerado até atração circense.

O calcio femminile só volta a figurar na Itália no período pós-guerra, em 1946, quando sua narrativa, enfim, ganha corpo. O pontapé inicial foi dado oficialmente em Trieste, na região de Friul-Veneza Júlia, com o aparecimento de duas equipes compostas inteiramente por mulheres: a Triestina e as Ragazze di San Giusto.

Em 1950, após quatro anos do surgimento dos dois times, que viajavam por todo o país e jogavam contra equipes improvisadas de diversas regiões, a baronesa napolitana Angela Altini di Torralbo funda a AICF – Associação Italiana de Futebol Feminino, feito que antecedeu a eclosão de várias equipes de mulheres, como o Napoli, Vomerese, Secondigliano, Roma, Lazio, entre outras.

Eis que, em fevereiro de 1959, uma partida entre as equipes femininas da Roma e do Napoli, realizada em Messina, terminou em briga. Com isso, as atividades da AICF foram encerradas, e só depois de nove anos o futebol italiano voltou a ter uma entidade própria para regular a modalidade, com a criação da FICF – Federação Italiana de Futebol Feminino.

De lá para cá, muita coisa aconteceu em termos de clubes e seleção, embora pudesse ter acontecido muito mais se a história do futebol praticado por mulheres no Belpaese não tivesse sido tão menosprezada. Por exemplo, a seleção feminina italiana só foi entrar em campo pela primeira vez em 1968, num jogo em que venceu a Checoslováquia por 2 a 1, na comuna toscana de Viareggio. De certo modo, a estreia da Nazionale femminile acompanhava a tendência dos movimentos libertários que aconteciam naquele ano por todo o continente europeu.

Foi neste mesmo ano que aconteceu o primeiro campeonato de futebol feminino na Itália, organizado pela FICF e faturado pela equipe do Genova. Já a primeira edição coordenada pela FIGC – Federação Italiana de Futebol só veio a ser realizada em 1986, quando as mulheres da Lazio conquistaram seu terceiro scudetto.

A primeira participação em Copa do Mundo também foi emblemática. A Itália marcou presença na edição de estreia do Mundial, em 1991, e nela conseguiu seu melhor resultado: foi até as quartas de final, quando foi eliminada pela Noruega em um dos confrontos mais emocionantes daquele torneio. Em 1999, as italianas voltaram a competir em uma edição do torneio. Desde então, por quatro vezes, seleções duelaram no certame que ocupa o degrau mais alto de relevância no futebol feminino internacional, e a Itália não esteve nessas disputas.

Depois de 20 anos de ostracismo mundial e de campanhas inexpressivas no Campeonato Europeu, as azzurre conseguiram se classificar, de maneira antecipada, para a Copa do Mundo de 2019, que será realizada na França. Isso aconteceu em junho do ano passado, quando a seleção comandada pela treinadora Milena Bertolini, que foi famosa zagueira entre os anos 1980 e 1990, bateu Portugal por 3 a 0 nas classificatórias.

Os muitos anos de batalhas travadas ajudam a explicar por que as italianas passaram tanto tempo na sombra, sobretudo em se tratando de Mundial. Lutas vividas não só pelas “donnas” da bola, mas também por todas as mulheres envolvidas no esporte, que reivindicam que suas vozes sejam ouvidas e a modalidade tenha o tratamento que merece.

Collovati tomou suspensão de duas semanas na Rai após fazer declaração machista (Rai)

Cultura do preconceito

No início do século XX, Guido Ara, meio-campista multicampeão pela Pro Vercelli, proferiu uma frase que teve enorme impacto na Itália e acabou virando sua bandeira: “Il calcio non è uno sport per signorine” (“o futebol não é um esporte para mocinhas”, em tradução livre).

Ainda que o destino da mensagem não tenha sido propriamente mulheres que praticam futebol, já que foi feita por volta de 1909, época em que ainda não existiam registros de futebol feminino na Bota, ela ilustra o que é tido como uma verdade por muitos italianos ainda hoje. Um tipo de pensamento perpetuado entre eles, e que reflete o senso comum da sociedade.

Uma prova disso é o comentário sexista do ex-zagueiro Fulvio Collovati  – campeão do mundo com a seleção italiana em 1982, famoso também por ter saído do Milan direto para a rival Inter. No programa Quelli che il Calcio, do canal Rai 2, no último dia 17 de fevereiro, ele simplesmente disse que mulheres não entendem de futebol.

“Quando ouço uma mulher falar de tática, até mesmo as esposas de jogadores, me revira o estômago. Se você falar sobre a partida, o que aconteceu, tudo bem. Mas não pode falar de tática, porque uma mulher não entende como um homem”, declarou. Por incrível que pareça, a plateia do auditório e até mesmo outras pessoas presentes na atração, incluindo duas mulheres, aplaudiram e riram do comentário – o vídeo pode ser visto aqui. Embora Fulvio tenha sido ironizado por alguns de seus interlocutores e confrontado, num segundo momento, manteve sua posição, irredutível.

A declaração de cunho machista de Collovati viralizou nas redes sociais e chegou aos trending topics do Twitter na Itália. Questionada na plataforma sobre o comentário, a esposa do ex-jogador, Caterina, uma ex-apresentadora de transmissões esportivas, endossou o raciocínio dele em resposta a uma seguidora.

“Querida, o meu marido estava falando de tática. A tática explicada por uma mulher não me convence”, sentenciou. “Quando apresentava as transmissões de futebol, eu nunca tive a pretensão de explicar o 4-4-2. A visão de mundo unissex não me pertence”, escreveu. “Tudo bem falar sobre futebol, mas a tática é outra coisa. Falar, todos nós podemos fazer; dizer as coisas certas é diferente. Saudações da esposa de um homem que respeita as mulheres mais que muitos outros. Isso sim que é uma certeza”, emendou a ex-apresentadora no desenrolar da conversa com o perfil @elisea1976.

Após o imbróglio ganhar proporções maiores, a Rai resolveu suspender Collovati de suas atividades na emissora por duas semanas, contando a partir do dia 19 de fevereiro.

Curiosamente, no mesmo dia em que Collovati fez esse comentário, outro ex-jogador conhecido no futebol mundial protagonizou um episódio semelhante. Cinco vezes campeão da Liga dos Campeões com o Milan, Alessandro Costacurta utilizou seu espaço como comentarista da Sky Sport para criticar Wanda Nara, esposa-agente do atacante interista Mauro Icardi.

“Se a minha mulher tivesse dito aquelas coisas [referindo-se às críticas de Wanda Nara a alguns jogadores da Inter], eu teria dito a ela: ‘Você não fala isso com eles ou te expulso de casa’. Ela desrespeitou seus companheiros de equipe”, disparou o ex-zagueiro, visivelmente bravo com o polêmico desabafo de Wanda ao programa Tiki Taka, da Mediaset, um dia antes.

O comentário que causou a fúria de Costacurta foi uma crítica de Wanda direcionada à diretoria da Inter: “na renovação de contrato eu prefiro um jogador que pode dar cinco bolas a Icardi”, disparou. O camisa 9 nerazzurro vive uma seca de gols em 2019, perdeu a braçadeira de capitão para o goleiro Samir Handanovic e tem seu nome ventilado na Juventus.

E como o que não faltam na Itália são exemplos para demonstrar como a cultura do país supervaloriza a figura masculina no futebol e desmerece a da mulher, uma outra situação muito repercutida aconteceu em 2015. O então presidente da Lega Nazionale Dilettanti, Felice Belloli, em declaração que, inclusive, teve também teor homofóbico, atacou a modalidade feminina ao afirmar que a federação deveria “parar de dar dinheiro para essas lésbicas”.

Os aspectos socioculturais são obstáculos muito grandes e colaboraram enormemente para o atraso da Itália na modalidade, sobretudo em relação às demais nações europeias que também possuem forte tradição no futebol em geral. À Calciopédia, a ex-jogadora e atual comentarista da Sky Sport, Katia Serra, elucida a questão.

“Na Itália, existe pouca cultura esportiva e as mulheres lutam para se firmar em muitas profissões, então esses dois aspectos contribuem decisivamente para impedir o desenvolvimento do futebol feminino e a afirmação das mulheres, em várias razões, em âmbito futebolístico”, esclarece.

O diretor de mídias sociais da Atalanta Mozzanica e criador do projeto Contropiede Rosa, Emanuele Garau, também falou com a reportagem sobre o tema. Vivenciando o dia a dia da modalidade na Itália desde a época em que colaborou para o canal do YouTube do ASD Torres, clube que coleciona mais scudetti na história do futebol feminino no país, ele tenta mudar esse cenário por meio da comunicação.

“Penso que a Itália precisa principalmente de tempo. Não acho que os italianos estejam prontos para viver o futebol feminino como um esporte específico ainda. Há muito preconceito, muita ignorância. Ainda hoje em dia, as mulheres não são vistas como jogadoras, como pessoas capazes de jogar futebol”, opina.

“É por isso que eu me disponho, através do Contropiede Rosa, a sensibilizar os italianos e a opinião pública para a questão do futebol feminino”, acrescenta. O projeto existe desde setembro de 2018 e consiste em informar e fazer análises sobre o esporte praticado por mulheres no Twitter. A conta, no entanto, tem sido monitorada ultimamente por uma amiga de Garau, Nicoletta Mancani, por uma questão de conflito de interesses, uma vez que ele trabalha para a equipe feminina da Atalanta.

Cecilia Salvai, Sara Gama, Daniela Sabatino e Alia Guagni celebram pela Nazionale (Getty)

A evolução e o caminho a trilhar

O futebol feminino italiano progrediu bastante nos últimos anos. Clubes grandes, como Juventus, Milan e Roma, criaram equipes para a disputa da Serie A Femminile e aproximam as jogadoras das torcedoras e dos torcedores através das redes sociais. Outro ponto positivo para o crescimento da modalidade na Velha Bota foi o já citado fato de a seleção italiana da categoria também ter se classificado com antecedência para a Copa do Mundo da França, a um ano do início do torneio.

Hoje, as jogadoras podem jogar em clubes organizados e receber uma compensação financeira para se manter, conforme recorda Katia Serra, meio-campista que esteve em atividade de 1986 a 2010. Outro aspecto incisivo de mudança no futebol feminino nas últimas décadas foi a criação de setores juvenis mistos ou apenas femininos dentro das agremiações, o que, inclusive, possibilitou a formação de seleções de base.

“Atualmente, nós também podemos estipular acordos econômicos plurianuais. Em caso de falência ou inatividade do clube, os reembolsos econômicos acordados são recuperados. Já em caso de gravidez, é fornecido à jogadora um bônus de maternidade”, conta a ex-jogadora a respeito dos direitos trabalhistas. Ela também chama atenção para o fato de que para dirigir um time na Serie A feminina, é necessária a licença de treinadores Uefa A.

Mas, segundo Katia, a modalidade ainda precisa de muito mais para seguir galgando espaço. “Continuidade dos espaços midiáticos para torná-la conhecida, investimento de recursos econômicos para a promoção, ensino na escola e a criação de modelos de referências – isto é, jogadoras ícones – são aspectos indispensáveis para [o futebol feminino] continuar crescendo”, sublinha.

Já Emanuele Garau acredita que, em algum momento, o futebol feminino se tornará “profissional para todos”, ainda que haja um longo caminho a ser percorrido na Itália. “Os clubes estão se organizando para ser mais fortes, mais competitivos. O calciomercato tem um papel importante nisso também. Há jogadoras de outras partes do mundo jogando na Itália e os números estão aumentando. Isso nos faz entender que os clubes querem se estruturar e querem que falem do campeonato feminino italiano no resto do mundo”, ressalta.

Milan e Juventus são dois dos melhores times da Serie A Femminile (Juventus FC/Getty)

Estrutura atual

A organização atual da Serie A Femminile é um pouco diferente da primeira divisão masculina. São 12 times que se enfrentam em 22 rodadas. As duas melhores equipes do campeonato se qualificam para a Liga dos Campeões feminina, ao passo que as duas últimas são rebaixados à segunda divisão. O sistema é o mesmo na Serie B, sendo que o primeiro e segundo colocado ascendem à elite, enquanto que os dois piores são mandados ao Campionato Interregionale.

Disputada desde 1986-87, a Serie A Femminile passou a ser gerenciada pela FIGC a partir da temporada atual. O órgão também assumiu as diretrizes da Serie B. Katia Serra vê com bons olhos a mudança, mas faz algumas ressalvas.

“Isso dá um calibre mais profissional, mas não dá para fazer uma comparação porque, na Itália, o futebol masculino é lei [lei n.91 de 1981]. Por outro lado, o feminino é amador e, por isso, não é reconhecido como um trabalho que carece de garantias fundamentais como, por exemplo, a segurança social e o INPS em caso de lesão”, informa.

Por mais que a situação tenha progredido nesta temporada, Katia faz um alerta: “Ainda há jogadoras que jogam no mais alto nível e, ao mesmo tempo, trabalham em outro lugar para se manter”.

Patrizia Panico é treinadora da seleção italiana masculina sub-16 (Getty)

Representatividade

Nos dias atuais, e até a produção desta reportagem, a Serie A Femminile conta com sete técnicos e cinco treinadoras nesta temporada. O cenário é ainda mais desigual em se tratando da Serie B. Só há uma mulher à frente de uma equipe da segunda divisão nacional feminina. No início de 2018-19 eram duas, mas o número foi reduzido quando Mara Morin foi exonerada do cargo no Genoa na nona rodada da competição e substituída por Stefano Piazzi.

Estão no comando de times da elite do futebol feminino italiano Rita Guarino (Juventus), Carolina Morace (Milan), Marianna Marini (Orobica), Elisabetta Bavagnoli (Roma) e Sara Di Filippo (Hellas Verona). Já na Serie B, Manuela Tesse realiza um trabalho com o time da Lazio. Todas as citadas são italianas e ex-jogadoras.

A representatividade dentro da modalidade e a ocupação de espaços no meio do futebol são muito importantes. É por isso que o trabalho de Patrizia Panico nas seleções masculinas da Itália merece destaque. Ela foi auxiliar técnica da equipe sub-15 e hoje é treinadora do time sub-16. Apesar de não trabalhar com o futebol feminino propriamente dito, é uma mulher ocupando um cargo de extrema relevância no futebol de base.

Panico se tornou a primeira mulher a treinar uma seleção masculina na Itália. Ela torce para que haja mais presença feminina à frente de equipes masculinas. “Só espero que o meu exemplo possa se tornar normal, isso significaria que as mulheres alcançaram um nível significativo de emancipação no esporte. Espero que, com esse passo, apontemos o caminho”, disse a comandante, em entrevista à Gazzetta dello Sport em 2017.

Ela também é a recordista de aparições com a camisa da seleção italiana feminina, somando, ao todo, 204 partidas. Além disso, a ex-atacante é a mulher que mais marcou gols (110) com a camisa azzurra. Ela, que terminou como artilheira da Serie A Femminile 12 vezes, ingressou para o Hall da Fama do Futebol Italiano em 2015.

Cobertura da mídia aumentou com a classificação da seleção feminina para o Mundial (EFE)

O papel da mídia

A imprensa tem um papel fundamental no fomento do futebol feminino na Itália. Os três jornais esportivos do país, Gazzetta dello Sport, Corriere dello Sport e Tuttosport, fazem seu papel de mídia e dão destaque às meninas, ainda que os maiores espaços sejam reservados ao futebol masculino (leia-se Juventus, Inter, Milan, Napoli e Roma).

Mas os veículos que mais ajudam a disseminar a prática no Belpaese são os independentes. A L Football Magazine e o Contropiede Rosa, por exemplo, são duas mídias especializadas em futebol feminino. Os dois meios de comunicação abastecem as fãs e os fãs do esporte com atualizações diárias nas redes sociais, sobretudo no Twitter.

“Quando criei o Contropiede Rosa, em setembro de 2018, para promover o futebol feminino da Itália no Twitter, devo dizer que não esperava um engajamento tão legal por parte dos seguidores”, assegura Emanuele Garau. “O futebol feminino na Itália está obtendo mais atenção em relação aos anos anteriores e isso se deve, na minha opinião, ao papel da mídia e dos social media”, completa.

Por falar em social media, os maiores clubes da Itália estão dedicando muita atenção ao público que acompanha futebol feminino. Afinal, as redes sociais são uma excelente ferramenta para alcançar mais fãs. Por isso, eles buscam manter esse grupo sempre atualizado com informações, fotos, vídeos e outras maneiras de interação. Garau chama a atenção para o “estagiário” da Roma, que faz vários posts irreverentes no Twitter.

“Eu gosto muito do trabalho do social media da Roma, sobretudo quando eles condenam comentários machistas no perfil feminino. Acho que eles fazem muito bem fazendo isso. No perfil da Atalanta Mozzanica damos uma grande importância à interação com os torcedores e os seguidores em geral, em Twitter, Facebook e Instagram”, salienta.

Katia (à esq.) é comentarista de futebol feminino na Sky italiana (Acervo pessoal)

Público e audiência

A Sky Sport, principal canal esportivo da Itália, comprou os direitos de transmissão da Serie A feminina na temporada 2018-19 e mostra uma partida da competição por semana: aos domingos, às 12h30 (horário de Roma). Ademais, o canal reservou uma programação exclusiva sobre futebol feminino, com especialistas abordando o tema a fundo. Katia trabalha lá e, inclusive, comentou a Copa do Mundo de 2018, na Rússia.

“Esta temporada tivemos uma grande ajuda por parte da Sky, que transmite todo fim de semana uma partida ao vivo de futebol feminino. Isso é muito importante, porque dá a possibilidade para mais pessoas de assistirem aos jogos e demonstrar que o futebol é para todos”, destaca Garau.

No dia 17 de fevereiro, a Juventus, líder do certame, venceu um “jogo de seis pontos” contra o Milan, terceiro colocado. A Vecchia Signora bateu o Diavolo por 2 a 0, no CT do clube, em Turim. A partida contou com um público de mais de 2 mil fãs, “o que é comparável à participação em um jogo de alto nível na Superliga Feminina Inglesa”, escreveu a atacante juventina atacante Eniola Aluko, de 32 anos, no jornal inglês The Guardian.

A camisa 9 da Juventus também destacou a transmissão do clássico pela Sky italiana: “Nossa vitória contra o Milan foi assistida por 135 mil pessoas na Sky Italia às 12h30, o que é significativamente mais do que assistir a um jogo da Premier League masculina inglesa na Itália no mesmo horário”.

Outra partida que atraiu grande público foi Atalanta Mozzanica e Juventus, que mediram forças no estádio Comunale di Mozzanica, em Bérgamo, pela 16ª rodada da Serie A Femminile, no dia 9 de fevereiro. Sob olhares de 1200 espectadores, as nerazzurre e as bianconere não saíram do zero. Apesar do placar em branco, o que valeu mesmo foi a forte presença de torcedores nas arquibancadas, os quais fizeram uma bonita festa e eram, em sua maioria, do lado da Juve.

“Foi muito legal ver tanta gente no estádio para ver a partida contra a Juventus. Não acontece sempre”, salienta Garau, que diz ser contra, no momento, a realização de duelos do campeonato em grandes arenas. “Acho que os jogos de futebol feminino devem ser realizados em estádios pequenos para atrair o maior público possível para depois serem feitos em estádios maiores”, explica.

Até a produção desta matéria, apenas dois jogos da Serie A Femminile foram disputados em estádios de grande porte: o duelo entre Tavagnacco e Juventus, no Friuli, em Udine, e aquele entre Pink Bari e Roma, no San Nicola, em Bari.

Camisa 10 do Milan acredita que futebol feminino envolve mais amor do que o masculino (Getty)

Um futebol com mais paixão

“No futebol feminino há mais paixão do que no dos homens”. É assim que Manuela Giugliano, talentosa meia do Milan e da seleção feminina italiana, quando entrevistada pela Gazzetta dello Sport, definiu a diferença entre o futebol feminino e o masculino. A camisa 10 milanista, de 21 anos, defende que “o nosso futebol não tem nada a invejar em relação ao masculino”.

Emanuele Garau compactua com a opinião de Giugliano. “É um esporte como qualquer um praticado por homens, não vejo diferença”, diz. O social media da Atalanta Mozzanica, aliás, prefere o calcio femminile ao masculino. A justificativa? A desordem e atos racistas recorrentes no futebol de homens.

“Eu prefiro o futebol jogado pelas mulheres, que é mais saudável em relação ao praticado pelos homens na Itália. O cenário futebolístico na Itália é cheio de coisas negativas, como violência nos estádios, intolerância nas arquibancadas, racismo. São coisas que, felizmente, não vemos nos estádios e nos campos em que jogam equipes femininas”, enfatiza.

Capitã da Inter, filha de Giuseppe Baresi foi a primeira jogadora italiana a assinar com a Adidas (Divulgação)

Figuras importantes

O legado dos Baresi na Itália não se limita apenas ao futebol masculino. Se os irmãos Franco e Giuseppe marcaram época defendendo Milan e Inter, respectivamente, Regina Baresi honra o DNA da família no futebol feminino. Filha de Giuseppe, ela fez história ao se tornar a primeira jogadora italiana a ser patrocinada pela Adidas. Além de atacante e capitã da Inter, Regina também é comentarista da Rai no programa La Domenica Sportiva, do qual participa pontualmente.

Com o acordo, firmado em 2018, ela se tornou a primeira mulher italiana a acertar um patrocínio pessoal. Embaixadora da Adidas, a atleta utiliza roupas e chuteiras da fornecedora alemã e promove conteúdos promocionais em suas redes sociais. “Em um ano com um objetivo tão importante no futebol como a promoção à Serie A, ser escolhida pela marca para uma parceria tornou minha temporada ainda mais estimulante e bonita”, afirmou Regina na época.

Com frequência, a jogadora nerazzurra também está envolvida em campanhas e ações voltadas para as mulheres no meio esportivo. Por exemplo, ela foi porta-voz da iniciativa chamada Un Rosso alla Violenza (“um cartão vermelho para a violência”, em livre tradução), na qual os atletas da Serie A entraram em campo com uma marca de batom vermelho no rosto, com o intuito de chamar atenção para os números alarmantes de violência contra a mulher no Belpaese.

Outro exemplo de família famosa no futebol masculino que tem representação na modalidade feminina é o clã Gabbiadini, no qual a atacante Melania obteve mais relevância do que Manolo, seu irmão mais novo. Com quase 36 anos, ela se aposentou dos campos e passou a se dedicar ao futsal, mas antes disso foi grande parceira de Patrizia Panico e se firmou como ídolo do Bardolino Verona – hoje, vinculado ao Hellas. Atacante de mobilidade, ela foi pentacampeã nacional e eleita como melhor da modalidade feminina na Itália quatro vezes, entre 2012 e 2015. Pela seleção, fez 114 partidas e 45 gols.

Dentre as jogadoras do grupo atual da Nazionale, Daniela Sabatino (Milan) e Cristiana Girelli (Juve) podem até ser as grandes esperanças de gols, mas é provável que nenhuma das integrantes do elenco liderado por Milena Bertolini seja tão inspiradora quanto Sara Gama. Zagueira, como a sua comandante, ela já atuou por Tavagnacco, Brescia e Paris Saint-Germain até se tornar um dos pilares da Juve. Pela seleção, a defensora conta com quase 100 aparições e atualmente é a dona da braçadeira de capitã, além de conselheira da AIC – Associação Italiana de Jogadores junto à FIGC. Por si só, já seria uma história de relevo, mas há um componente importante em sua trajetória: Sara é negra.

Enquanto você, cara leitora ou caro leitor, imagina o bafafá que haveria caso a seleção masculina da Itália tivesse um capitão negro, contamos um pouco da história de Sara Gama. Nascida em 1989, em Trieste, ela é filha de uma italiana com um congolês originário de uma região do Congo que foi colonizada por portugueses – daí vem seu sobrenome, tão comum em Portugal e no Brasil.

Após anos galgando espaço no futebol, em março de 2018 ela foi uma das 17 mulheres escolhidas pela Mattel para serem homenageadas no Dia Internacional da Mulher como “personalidades femininas que se tornaram fonte de inspiração para as gerações de garotas que estão por vir”. A fabricante de brinquedos ainda criou uma boneca Barbie com as feições da única italiana da lista. Algo importante num mundo em que procuram-se bonecas pretas.

Se Regina, Melania e Sara são referências dentro e fora de campo, Katia Serra é uma personalidades que mais fomenta o futebol feminino fora das quatro linhas. A ex-jogadora promove o calcio femminile na TV contando suas peculiaridades. Também é uma das professoras de Coverciano que ensinam futebol feminino para futuros treinadores. Katia ainda leciona na catedral universitária de futebol feminino, no curso de graduação em Ciências Motoras na Universidade de San Raffaele.

Katia é uma das mulheres mais engajadas na promoção da categoria na Bota. Por isso, foi nomeada responsável pelo setor de futebol feminino da AIC, o sindicato de referência, com o qual entrou em vários conflitos nos últimos anos, reivindicando direitos, oportunidade de prática e profissionalização das atletas.

Milena Bertolini, técnica da seleção feminina italiana, nos braços das azzurre (FIGC)

Mundial

Milena Bertolini tirou de letra a tarefa cercada de pressão que constituía em substituir Antonio Cabrini no comando da Nazionale. O técnico passou cinco temporadas à frente da equipe feminina italiana, e, depois de uma firme decisão da FIGC, precedida por uma campanha pífia por partes das azzurre na Eurocopa de 2017, a ex-defensora assumiu o posto de treinadora.

O passaporte carimbado com um ano de antecedência para a Copa do Mundo de 2019 deu à seleção feminina tranquilidade para trabalhar enquanto seus adversários não eram definidos. Em dezembro, contudo, Bertolini e suas comandadas conheceram os oponentes de sua chave. A Itália caiu no o Grupo C, o qual é composto também por Austrália, Brasil e Jamaica, e, a partir do sorteio de grupos, um novo desafio foi entregue à técnica, que terá a árdua tarefa de superar as australianas e as brasileiras para sonhar com o mata-mata.

Desde junho, encontros esporádicos entre as selecionadas acontecem em Coverciano, além de amistosos para preparar a equipe para enfrentar, no Mundial, seleções mais tarimbadas e mais estabelecidas no cenário do futebol feminino internacional, com exceção da inexpressiva Jamaica.



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