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Attilio Ferraris, primeiro grande ídolo da Roma, era um fumante viciado em jogar futebol

A história de uma equipe de futebol pode ser contada por diferentes meios. Títulos, goleadas, escândalos, amor dos torcedores e jogadores são alguns exemplos. Atletas, porém, possuem diferenças. Alguns passam despercebidos, outros viram alvo de raiva eterna. Ídolos, no entanto, ficam marcados, recebem homenagens ao longo dos anos e se tornam parte do enredo de uma agremiação. Para tanto, alguém precisa ser o pioneiro e puxar a fila. No caso da Roma, essa pessoa foi Attilio Ferraris.

Nascido em 1904 em Roma, no distrito de Borgo, Attilio Ferraris era Tilio para a família e Ferraris IV para os outros. Dos quatro irmãos, era o mais novo e por isso passou a ter o “IV” acompanhado do seu sobrenome. A ideia era diferenciar Paolino, Gino, Fausto e Attilio – o ídolo giallorosso também teve quatro irmãs; Eleonora, Lucia, Maria e Iolanda. O apelido surgiu nos campinhos de várzea do bairro, onde o jovem praticava futebol com os irmãos. A família era humilde e a renda era originada da oficina de conserto de bonecas que seu pai tinha.

Criado com ensinamentos da igreja católica, Attilio Ferraris deu passos importantes para construir sua carreira após o término da I Guerra Mundial. A partir de 1919, o garoto começou a praticar futebol no Instituto Pio X, no Castelo de Sant’Angelo. Ferraris IV atuava como meia na Fortitudo, que viria a se tornar, na temporada 1921-22, seu primeiro clube profissional. Assim, iniciava indiretamente sua relação com a Roma, que seria fundada sete anos depois.

Na primeira campanha como profissional, com 18 anos, foi vice-campeão italiano. Ainda como meia da Fortitudo, perdeu o jogo de ida da final contra Pro Vercelli por 3 a 0, em Roma e na volta, o time da capital foi goleado por 5 a 2. Ferraris IV permaneceu na equipe romana até a temporada 1926-27. No período precisou deixar o futebol de lado para servir ao exército. Em 1923, enquanto prestava serviço militar em cidades italianas como Spoleto, Messina e Roma, tentava manter o amor pelo futebol em dia praticando o esporte de forma amistosa contra militares de outras nações, como a inglesa.

Conhecido por ter excelente qualidade técnica e um porte físico que o ajudava a aguentar uma partida completa de futebol, Ferraris IV se tornoum em 1927 o primeiro capitão da Roma – a braçadeira ficou com o italiano até o fim da sua primeira passagem pelo clube, em 1933-34. O clube giallorosso só foi fundado após a fusão entre Fortitudo, Alba Audace e Roman. A ideia de Italo Foschi, presidente da Fortitudo e preposto fascista no CONI, o Comitê Olímpico Italiano, era criar uma equipe forte para bater de frente contra os demais rivais da Itália. O acordo foi realizado no dia 7 de junho de 1927, conforme noticiado por diários como II Messaggero e Gazzetta dello Sport.

Ferraris, à direita, numa rara foto com a camisa da Fortitudo (Storia della Roma)

Ferraris IV e os outros atletas ligados às agremiações extintas pela fusão passaram a atuar pela Roma. O italiano iniciou sua carreira pelo time giallorosso na função de primeiroº volante, com Cesare Augusto Fasanelli, Pierino Rovida e Enrico Cappa à frente no meio-campo. Não demorou muito para reencontrar o grande amigo Fulvio Bernardini, ex-Lazio, que iniciou sua carreira como goleiro e depois passou a atuar no meio-campo. Ferraris IV e Bernardini atuaram juntos na Roma durante oito temporadas. Também marcaram seus nomes na história da seleção italiana. Foi Bernardini que assumiu a braçadeira de capitão romanista, após a saída de Ferraris IV, em 1933-34.

Dentro de campo, Ferraris IV ficou conhecido por ser um jogador polivalente e competitivo. Não gostava de perder nem de ficar de fora dos jogos, mas treinar não era seu forte. Durante sua passagem pela Roma, jogou como lateral direito, volante e existem registros de jogos em que ele atuou como meia. Fora de campo possuía gostos refinados. Se vestia bem, gostava de carros e de namorar. Foi viciado em pôquer, apostas em corridas de cavalos e sinuca. Quase sempre era visto fumando cigarro.

Além da Roma, Ferraris IV fez história pela Itália. O jogador é considerado o primeiro romanista a jogar pela Squadra Azzurra. Sua relação com a seleção começou em 1923, ainda quando prestava serviço militar e também defendeu sua pátria jogando futebol contra aliados, em duelos amistosos. De forma profissional, estreou com a camisa azul em 1928. Nos Jogos Olímpicos daquele ano, disputados em Amsterdã, fez parte do elenco que conquistou o bronze, mas não foi utilizado em nenhuma partida.

Disputou amistosos e seguiu atuando pela Roma e pela seleção até 1934. Aos 30 anos, Ferraris IV era considerado um dos grandes jogadores da Itália. Por esse motivo, e pensando na seleção italiana, precisou abrir mão de algumas farras e se dedicou cada vez mais ao futebol. Foi convocado para o Mundial de 1934 e fez parte do elenco italiano que venceu a segunda edição da Copa do Mundo, disputada na Velha Bota.

O retorno a Roma, porém, marcou o início de uma grande polêmica. Ferraris IV mostrava sinais de que não conseguia manter suas grandes atuações e seu desempenho diminuía. As rusgas com o presidente Renato Sacerdoti aumentavam. Ao voltar para o clube, com o status de campeão mundial, recebeu uma proposta da rival Lazio. O jogador e a Roma aceitaram a proposta de 150 mil liras (moeda italiana da época) do time celeste.

Ferraris, como capitão da Roma, presenteia adversário com maço de flores (Arquivo/AS Roma)

No contrato com a Lazio, a Roma impôs uma cláusula: Ferraris IV não poderia jogar o Derby della Capitale. Se desrespeitada, a direção da rival teria que arcar com multa de 250 mil liras. O que ocorreu no primeiro encontro entre as equipes depois da negociação, no dia 18 de novembro de 1934. A partida terminou com empate por 1 a 1. Attilio foi homenageado de forma “carinhosa” pela torcida giallorossa, que durante cada toque do jogador o chamava de “vendido!”. Ironicamente, os torcedores da Lazio respondiam com o coro de “comprado!”.

Além de Ferraris IV, Attilio, depois de 1934, ganhou outro apelido. Em duelo amistoso entre Inglaterra e Itália, no Highbury, antigo campo do Arsenal, os donos da casa abriram 3 a 0 no primeiro tempo. Na volta do intervalo, liderados pelo jogador da Lazio, o time italiano marcou dois gols e ficou perto do empate. Os jornais italianos exaltaram a atuação de Tilio, que passou a também ser conhecido como um dos Leões de Highbury.

Ferraris IV atuou pela Lazio por duas temporadas, se transferiu para o Bari, onde permaneceu de 1936 a 1938, antes de voltar para a Roma. No primeiro ano como presidente giallorosso, Igino Betti procurou montar um elenco com velhos conhecidos do clube. O polivalente jogador foi um dos alvos do mercado e acabou contratado para sua temporada final, no clube. Fez apenas 12 jogos em 1938-39. Ao todo, Ferraris IV disputou 231 partidas pela Roma e marcou cinco gols em competições e oficiais e um em amistoso.

Após a segunda passagem pela Roma, Ferraris defendeu o Catania, na segunda divisão italiana de 1939-40, e depois vinculou-se à amadora Elettronica. Sua carreira terminou de forma agressiva. Durante uma partida entre Avai e Electronica, Ferraris IV agrediu o árbitro da partida e posteriormente foi banido do esporte.

Sem poder atuar, Ferraris IV abriu um bar em Roma com seu nome. O futebol, no entanto, foi seu grande amor. O ídolo giallorosso seguiu praticando o esporte de forma amigável com amigos. Isso, até 1947. No dia 8 de maio, durante uma partida entre ex-jogadores realizada em Montecatini Terme, na Toscana, o italiano teve um ataque cardíaco e morreu subitamente em campo. Ele foi enterrado na capital italiana, no cemitério de Verano.

Ferraris IV sempre foi lembrado pela vida desregrada extracampo e pela sua dedicação dentro dele. Sua história pela Roma lhe rendeu um lugar no Hall da Fama do clube: ele faz parte da geração 2013 da premiação, que foi criada no ano anterior. Ele é um dos 28 jogadores da Loba lembrados pelo clube – recentemente Francesco Totti se juntou aos demais ídolos giallorossi.

Attilio Ferraris
Nascimento: 26 de abril de 1904, em Roma, Itália
Morte: 8 de maio de 1947, em Montecatini Terme, Itália
Posição: volante e lateral-direito
Clubes: Fortitudo (1922-27), Roma (1927-34 e 1938-39), Lazio (1934-35), Bari (1936-38), Catania (1939-40) e Elettronica (1941-44)
Títulos conquistados: Copa Coni (1928), Copa do Mundo (1934) e Bronze Olímpico (1928)
Seleção italiana: 28 partidas

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