Jogadores Técnicos

Lenda da Juve, Luis Monti foi o único a jogar finais de Copas do Mundo por países diferentes

Em seus primórdios, o futebol proporcionava situações impensáveis para os dias atuais. Você, leitor, imaginaria um atleta vinculado a duas equipes ao mesmo tempo, disputando dois campeonatos diferentes? Ou então, indo além, até o ponto mais alto da profissão, como encararia o fato de um mesmo jogador representar dois países distintos em finais de Copa do Mundo? Influenciado pela Belle Époque e expoente dos “anos loucos” na Europa, o ítalo-argentino Luis Monti  viveu tudo isso durante sua vitoriosa carreira como profissional.

A família Monti é italianíssima. No final do século XIX, os país de Luis deixaram a região da Romanha, no centro-norte da Itália, e emigraram para a Argentina. Luisito nasceu em Buenos Aires, em 1901, já inserido num contexto futebolístico – afinal, seu tio Juan era jogador do San Lorenzo. Isso contribuiu para que toda uma geração da linhagem fizesse carreira no esporte: os primos Antonio, Mario, Luis Pedro e Eusebio, além do irmão Enrique foram jogadores do futebol argentino. Nenhum deles, porém, chegou perto de ter o sucesso de Luisito.

Luis Monti iniciou sua carreira no General Mitre, em 1920. No clube auriazul, jogou com seu irmão Enrique e colaborou com o título da segunda divisão de uma das ligas de futebol do país – na época do amadorismo, os campeonatos não eram unificados. Depois que o Mitre se desfiliou da Confederação Argentina de Futebol, os irmãos Monti foram para o Huracán.

Luisito jogou somente sete partidas mas colaborou com conseguir o o primeiro título nacional da história do Globo. O livro “Huracán 100 Añoscomenta a passagem de Luis no clube: “No pouco tempo em que esteve em Parque Patricios, foi uma constante o seu excelente desempenho na metade do campo, posição que era quase seu habitat natural”, afirma a publicação produzida pelo jornal Clarín.

Monti chegou a se transferir para o Boca Juniors, mas uma lesão o impediu de jogar qualquer partida pelos xeneizes. Ainda em 1922 ele passou brevemente pelo Atlético Palermo e foi parar no San Lorenzo, maior rival do Huracán. No clube de Almagro, se tornou um dos principais jogadores de sua época – e isso enquanto também disputava campeonatos da outra liga do país por outros clubes, como o Alvear e o já citado Atlético Palermo. Tal expediente era aceito pelas entidades, desde que um atleta representasse apenas uma equipe de cada associação.

Meio-campista de muita consistência e personalidade, Monti se tornou o capitão do San Lorenzo. Em tempos em que os times não tinham o cargo de técnico, ele fazia a função de comandar os treinamentos e, claro, também liderava o Ciclón em campo, começando as jogadas ofensivas e ajudando na defesa. Assim, foi campeão argentino em 1923, marcando três gols, e vice em 1925. Por sua vez, o San Lorenzo de 1926 ficou 47 jogos invicto, mas perdeu para o campeão, o Independiente, e foi vice por um ponto.

Meia de muita marcação, Monti passou sete anos na Juventus e viveu uma das fases mais gloriosas do clube de Turim (Juventus.com)

A sua estreia na seleção argentina aconteceu em 1924, quando tinha 23 anos. No 0 a 0 no amistoso (ao menos no papel) contra o Uruguai, em agosto daquele ano, quem também estreou foi Raimundo Orsi, que seria seu colega por anos na albiceleste e depois na Juventus e na seleção italiana. Em 1927, Monti conseguiu seu primeiro título com a equipe nacional ao levantar a Copa América, disputada no Peru.

Graças ao troféu, a Argentina disputou a Olimpíada de 1928, em Amsterdã. Monti foi o capitão na expedição à Holanda, terminada com a medalha de prata para os portenhos. No segundo jogo da decisão, Luisito até marcou um gol, mas o rival Uruguai venceu por 2 a 1, ficou com o título e imortalizou a Celeste Olímpica.

Em 1930, os argentinos teriam a oportunidade de revanche, na primeira edição da Copa do Mundo, que acontecia na casa dos rivais. Antes de tudo, porém, seria necessário deixar outros adversários pelo caminho. A trajetória começou bem para Luisito, que colocou seu nome na história mais uma vez, ao marcar o primeiro gol argentino na história da competição – foi o pioneiro também em tentos em cobranças de falta. Dessa forma, Monti decretou a vitória sul-americana no 1 a 0 contra a França, no estádio Gran Parque Central.

A seleção argentina chegou à decisão depois de vencer os seus quatro adversários ao longo da competição e de superar, também as ameaça dos torcedores uruguaios. Na final, o placar foi de 4 a 2 para os anfitriões. O Uruguai, portanto, mais uma vez era o carrasco de Monti: nas 16 vezes em que entrou em campo pela Argentina, aliás, Luisito perdeu apenas duas vezes, ambas contra a Celeste em finais.

Na época, o meia chegou a ser acusado por parte da imprensa argentina como o culpado pela derrota. “Tive muito medo quando joguei essa partida, porque ameaçaram matar a mim e a minha mãe. Estava tão aterrorizado que nem pensei que estava jogando futebol. Lamentavelmente, prejudiquei meus companheiros”, declarou Monti em uma entrevista concedida depois de sua aposentadoria.

Apesar do clima de terror, Luisito permaneceu no futebol argentino por mais um ano. Em 1931, deixou o San Lorenzo depois de acumular três títulos nacionais, 202 jogos e 40 gols para passar rapidamente pelo Sportivo Palermo, um time de bairro de Buenos Aires. Foi apenas um estágio, já que Monti viajaria em julho daquele ano para a terra de seus pais, onde faria história pela Nazionale e pela Juventus.

Mario Pizziolo, Luis Monti e Luigi Bertolini antes da semifinal da Copa de 1934, diante da Áustria, em San Siro (Fifa)

A chegada de Monti à Itália tinha um avalista: Raimundo Orsi, que defendia a Juventus desde 1928. A pedido de Mumo, o clube investiu 5 mil dólares e comprou uma casa em Turim para acertar com Luisito, à época com 30 anos. Em tempos nos quais um futebolista tinha uma carreira muito mais curta do que nos dias atuais, Monti era considerado um veteraníssimo, teoricamente prestes a se aposentar. Além disso, o primeiro contato com a torcida foi decepcionante, já que o argentino estava fora de forma. Voluntariamente, Luisito decidiu treinar separado do elenco para perder 15 quilos.

Felizmente, para os juventinos, os italianos e os amantes do futebol, a primeira impressão nem sempre é a que fica. Monti aportava numa Juve que tinha o scudetto no peito, já que era a detentora do título nacional, e contribuiu para que ela se tornasse uma das equipes mais devastadoras da história do futebol. Até o Grande Torino dos anos 1940, a mais laureada e importante equipe italiana foi a Juve do Quinquennio d’Oro, primeira pentacampeã local. Monti foi peça-chave em quatro desses títulos.

Como já atuava em alto nível há anos, num futebol extremamente competitivo, como era o sul-americano daqueles anos, Luisito não precisou se adaptar. Logo que perdeu o peso extra, o baixinho de 1,67m se tornou dominante nos gramados da Itália. Afeito a deixar seus golzinhos e a servir os atacantes com lançamentos e passes em profundidade, Monti se destacava, porém, por seus atributos físicos. Robusto, resistente a trancos e a pancadas, o ítalo-argentino era um jogador muito duro. Por isso, colecionou entreveros com adversários durante a carreira – a lenda austríaca Matthias Sindelar e Angelo Schiavio, do Bologna, foram alguns daqueles com quem se desentendeu.

O conjunto de atributos técnicos e físicos de Monti ajudou a defesa bianconera ficar mais forte ainda. Nos quatro anos em que foi campeão, a Juventus teve um dos três melhores sistemas defensivos do país, levando a melhor em 1932-33 e 1934-35 – o primeiro torneio citado nominalmente é considerado o auge do time, por ter sido aquele em que a equipe teve desempenho mais sólido em todos os quesitos.

A Juventus do Quinquennio d’Oro, treinada por Carlo Carcano até 1934, foi base da seleção italiana que, em 1934, disputaria a sua primeira Copa do Mundo – e na condição de anfitriã. Da Velha Senhora, foram chamados Gianpiero Combi, Virginio Rosetta, Umberto Caligaris, Luigi Bertolini, Mario Varglien, Giovanni Ferrari e Felice Borel, italianos de nascimento, além de Orsi e Monti. Eles eram alguns dos “oriundi” convocados pelo técnico Vittorio Pozzo – entre os descendentes de italianos escolhidos pelo treinador estava também o brasileiro Filó, da Lazio.

Na época, a Fifa ainda permitia que um jogador atuasse por duas seleções, o que possibilitou que vários jogadores “virassem casaca”. Os sul-americanos que eram descendentes de italianos e disputavam a Serie A recorreram ao expediente com frequência, já que as federações nacionais do seu continente vetaram, por anos a fio, que atletas que jogassem no exterior fossem chamados. Assim como Monti, tantos outros se tornaram atletas da Itália.

Na final de 1934, Pozzo conversa com Eraldo Monzeglio e Bertolini, enquanto Combi e Monti se aconselham com o auxiliar Carcano (Wikipedia)

Luisito era membro da Squadra Azzurra desde 1932. Pilar do método de Pozzo, o volante era presença certa na Copa de 1934 e foi titular em todas as partidas. A Itália conseguiu o títulos depois de uma vitória sofrida por 2 a 1 sobre a Checoslováquia e Monti, enfim, pode exorcizar os fantasmas anteriores – ainda que o Uruguai tenha recusado o convite para participar, como represália ao boicote da maior parte dos europeus à competição anterior. Com a presença contra os checoslovacos, Luis Monti se tornou o único atleta a ter jogado finais de Copa do Mundo por países diferentes como titular. Attilio Demaría também defendeu Argentina e Itália nos dois torneios, mas era reserva e não participou de nenhuma das decisões.

Depois do título mundial e do pentacampeonato italiano, Monti ainda celebrou a conquista da Copa Internacional, pelos azzurri, e da primeira Coppa Italia da história da Juventus, em 1938. No mesmo ano do título da copa local, Luisito sofreu uma grave lesão e decidiu se aposentar, aos 37 anos. No total, fez 261 partidas e 22 gols pela Juve, superando com louvor todas as desconfianças que suscitou em sua chegada à Itália.

Depois de se aposentar, Monti se tornou técnico de futebol. Em sua carreira como “professor”, Luisito dirigiu equipes de divisões inferiores da Itália, mas chegou a treinar Triestina e Atalanta na Serie A, além de ter sido interino da Juventus. No clube em que foi ídolo como atleta, conseguiu também um título de Coppa Italia como treinador. Na Argentina, comandou apenas o Huracán, mas ficou por pouco tempo: deixou a agremiação por desavenças com seus dirigentes.

Em 1950, Luis Monti abandonou a profissão. Convicto de que não queria mais trabalhar com futebol, concluiu o seu contrato com o Pisa e voltou a morar na Argentina, onde morreria em setembro de 1983, vítima de uma parada cardíaca, aos 82 anos. Monti, porém, deixou legado. Seu neto, Aldo Ammazzalorso, é treinador e tem uma longa carreira nas divisões inferiores da Itália: treinou Avellino, Catania, Ascoli, Salernitana e Pescara, mas teve mais sucesso no Treviso, clube pelo qual conquistou uma Supercopa da Serie C e um acesso à segunda divisão. A centenária história de Monti, portanto, continua viva – ainda que seu descendente mais famoso não repita façanhas tão ímpares.

A mais singular delas, porém, não orgulhava Luis Monti. Ele não se sentia bem por ter jogado duas finais mundiais seguidas por seleções diferentes. Acreditava que, nas decisões, não exerceu toda a capacidade que tinha, uma vez que sentiu a própria vida ameaçada caso ganhasse a primeira e perdesse a segunda. No Uruguai, pelas ameaças a ele e a sua mãe; na Itália por causa da sombra do fascismo: Benito Mussolini pressionava os atletas para que uma seleção vitoriosa mostrasse a força dos italianos e exaltasse o poder do seu povo. Luisito só queria sentir a liberdade de jogar futebol.

Luis Felipe Monti
Nascimento: 15 de maio de 1901, em Buenos Aires, Argentina
Morte: 9 de setembro de 1983, em Escobar, Argentina
Clubes como jogador: General Mitre (1920), Huracán (1921), Boca Juniors (1922), Atlético Palermo (1922 e 1924), San Lorenzo (1922-1931), Alvear (1923), Sportivo Palermo (1931) e Juventus (1931-1938)
Títulos como jogador: Campeonato Argentino (1921, 1923, 1924 e 1927), Copa América (1927), Serie A (1931, 1932, 1933, 1934), Copa do Mundo (1934), Copa Internacional (1935) e Coppa Italia (1938)
Clubes como treinador: Triestina (1939-1940), Juventus (1942), Varese (1942-1943 e 1944), Fossanesse (1945-46), Atalanta (1946), Vigevano (1947), Huracán (1947-1948) e Pisa (1949-1950)
Títulos como treinador: Coppa Italia (1942) e Serie C (1943)
Seleção argentina: 16 jogos e 5 gols
Seleção italiana: 18 jogos e 1 gol

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