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Mark van Bommel foi mais que ‘cão de guarda’ e se tornou pilar do último scudetto do Milan



Para muitos, ele não passava de um volante “botinudo”, que chegava a ser maldoso em algumas jogadas. Contudo, muitos treinadores e companheiros consideravam-no um dos melhores meias defensivos da geração que sucedeu Edgar Davids na Holanda. A realidade é que Mark van Bommel conquistou títulos por onde passou, com destaque por suas estadias em PSV Eindhoven, Bayern Munique e Milan. Ele chegou ao Diavolo já como um veterano, mas ajudou os rossoneri a conquistarem seu último scudetto e ganhou fama de “intransponível”.

Antes de aterrissar na Itália, Van Bommel se destacou na sua terra natal. Revelado pelo Fortuna Sittard, foi campeão da segundona holandesa e chegou à seleção sub-21 do país. Em 1999, passou ao PSV, ganhou prêmio de revelação do ano e chegou ao time principal da Oranje em 2000. Atuando pela equipe de Eindhoven, o volante foi tetracampeão da Eredivisie e faturou mais outras cinco taças locais, além de ter sido eleito como melhor jogador do país em 2001 e 2005.

Mark ganhou mais notoriedade internacional no famoso time dos boeren que chegou à semifinal da Champions League da temporada 2003-04, comandado por Guus Hiddink. Na ocasião, os holandeses foram eliminados justamente pelo Milan de Carlo Ancelotti, que viria a ser derrotado na final pelo Liverpool. Este duelo, aliás, foi o que elevou o nome de Van Bommel – sobretudo o primeiro confronto, o qual o time holandês venceu por 1 a 0.

O volante perdeu a Euro 2004, por lesão, mas no ano seguinte foi contratado pelo Barcelona. Sob o comando de seu compatriota Frank Rijkaard, a equipe blaugrana iniciaria a hegemonia estabelecida na década, mas Van Bommel não colheria tantos frutos na Catalunha. Apesar de ter atuado na maior parte da temporada 2005-06, jamais foi unanimidade para os torcedores. Principalmente porque era comparado a seus companheiros de equipe, como Thiago Motta e Xavi, muito mais técnicos e habilidosos.

Contudo, Van Bommel tinha lá seu talento e – não à toa – foi escolhido pelo Bayern Munique como o substituto de Michael Ballack, que trocaria os bávaros pelo Chelsea. “Ele não é um número 10 ou um armador que marca muitos gols. Mas é um meio-campista de alta qualidade e, acima de tudo, muita personalidade”, disse o diretor de futebol do Bayern, Karl-Heinz Rummenigge, na época da contratação do holandês. Antes de fechar com os Roten, Van Bommel já havia mostrado seu futebol em campos da Alemanha na Copa do Mundo de 2006.

Nos quase cinco anos em que jogou em Munique, Mark viveu seus melhores momentos da carreira. O holandês venceu a Bundesliga em duas temporadas e, mais do que isso, se tornou uma das referências do elenco e capitão daquele time. Van Bommel ocupou o posto entre 2008 e 2011, sucedendo a Oliver Kahn, e foi o primeiro jogador estrangeiro a usar a braçadeira bávara. Até hoje, é o único não alemão que teve tal honraria.

Van Bommel não perdoava nem mesmo o compatriota Sneijder (Getty)

Numa entrevista antes de um jogo pelo time de veteranos dos bávaros, Van Bommel descreveu a sua relação com o clube. “Não é segredo que eu era fã do Bayern quando criança. Joguei nesta agremiação por quatro anos e meio, fui o capitão. Não passei tanto tempo em nenhum outro lugar [fora da Holanda] durante minha carreira. Você pode ver que me senti muito, muito feliz aqui. A época em Munique foi ótima. Eu acompanho todos os jogos do Bayern! Ainda estou em contato com jogadores e fisioterapeutas. Quando estou na cidade, tento aparecer na Säbener Strasse [centro de treinamentos do clube alemão] e eles sempre me recebem de braços abertos”, declarou o ex-jogador.

Em seu período como titular do Bayern, Van Bommel poderia ter sido absoluto na seleção dos Países Baixos. Contudo, o jogador decidiu não atuar pela Oranje enquanto Marco van Basten, ídolo do Milan, continuasse no cargo. Assim, ficou de fora do grupo entre o fim do Mundial de 2006 e a eliminação laranja na Euro 2008. Somente após a saída do treinador e a contratação de Bert van Marwijk – seu sogro – é que o volante retornou às convocações holandesas. Como protagonista, atuou nos sete jogos da campanha do vice-campeonato da Holanda na Copa de 2010. Naquele sólido 4-2-3-1, ele sustentava o meio-campo (às vezes com força excessiva) ao lado de Nigel De Jong.

Alguns meses depois de ser vice-campeão na África do Sul, Van Bommel viu sua situação mudar no Bayern. Uma nova era começava em Munique, com as chegadas de Luiz Gustavo e Toni Kroos, e o volante holandês acabou perdendo espaço com Louis van Gaal, especialmente depois de um conflito entre ambos. Os desgastes resultaram na liberação do volante na janela de inverno, em janeiro de 2011, e Mark acabou rumando à Itália: foi negociado com o Milan por apenas um milhão e meio de euros.

O contrato era curto – de apenas seis meses. Porém, foi tempo suficiente para o holandês apresentar seus atributos em San Siro. Van Bommel estreou um dia depois de chegar – em vitória nas quartas de final da na Coppa Italia, contra a Sampdoria – e três dias depois fez seu primeiro jogo na Serie A, ante o Catania. Mark recebeu dois amarelos, foi expulso no início do segundo tempo e deu seu cartão de visitas à torcida. Os rossoneri acabaram fazendo 2 a 0 depois de o holandês ter ido para o chuveiro mais cedo.

Apesar da expulsão, Van Bommel se adaptou rapidamente ao futebol da Serie A e ao estilo de jogo proposto por Massimiliano Allegri, seu comandante em Milão. Afinal, o neerlandês oferecia a combinação exata do que os italianos chamam de “quantità e qualità” – ou seja, atributos físicos, úteis para marcação, e técnica para participar da construção das jogadas. Com isso, a importância de Mark para o time era proporcional ao número de cartões que ele acumulava.

Van Bommel foi um dos comandantes do meio-campo rossonero na conquista da Serie A 2010-11, atuando ao lado de Gennaro Gattuso e Clarence Seedorf, chegando a ficar à frente de Andrea Pirlo e Massimo Ambrosini na preferência do treinador. Como um dos pilares da melhor defesa da competição, Mark chamou a atenção do Manchester City, que começava sua fase multimilionária. Mas, feliz no Milan, o holandês aceitou uma renovação de contrato com o Diavolo e permaneceu em Milão.

O holandês se converteu num dos pilares do time rossonero de 2010-11 (Getty)

A temporada 2011-12, contudo, não saiu como o torcedor milanista esperava. O time começou ganhando a Supercopa Italiana, mas viu a Juventus lhe eliminar nas semifinais da copa e ficar com o scudetto – na Champions League, o Barcelona de Lionel Messi despachou o Milan nas quartas de final. O roteiro foi mais dolorido para a torcida porque o Diavolo chegou a entrar na 31ª rodada da Serie A na liderança, mas viu a Velha Senhora ultrapassá-lo depois de uma derrota para a Fiorentina. O sonho do bicampeonato terminava ali.

Van Bommel foi titular naquela campanha, com 34 aparições. Partidas em alto nível, que lhe garantiram espaço como capitão de sua seleção na Euro 2012 naquele verão europeu. Depois de disputar o torneio e se aposentar da Oranje, o volante também decidiu deixar o Milan: o clube lhe ofereceu um novo contrato e ele até queria estender o vínculo, mas falou mais alto a preferência por atender a um pedido dos familiares. “Tenho que respeitar os desejos de minha família. Tenho que voltar para a Holanda”, declarou o jogador. Para substitui-lo, o diretor esportivo Adriano Galliani foi buscar o também holandês De Jong, de características similares.

Mark deixou Milanello depois de 50 jogos, nenhum gol, 15 cartões amarelos e dois vermelhos no intuito de retornar ao PSV, clube que o projetou, para fazer sua última temporada como profissional. Apesar da curta passagem pela Itália, o volante nutriu grande carinho pelo rossonero. Em sua despedida da agremiação, o holandês deixou o lado “brucutu” de lado e chorou ao definir os colegas como “família”. Van Bommel também deixou claro que pretendia voltar um dia, dessa vez como treinador.

O retorno do holandês ao Milan chegou a ser ventilado ao final da temporada 2018-19. Com a iminente demissão de Gattuso, o ex-volante foi considerado para o cargo, mas a contratação acabou não se concretizando. Ao menos por enquanto, ele faz trabalho interessante no PSV: em Eindhoven, esteve à frente das categorias de base e, desde 2018, ocupa o posto de treinador do time principal. Como auxiliar, Van Bommel também teve experiências como auxiliar técnico de Van Marwijk no comando das seleções da Arábia Saudita e da Austrália.

Como atleta, é indubitável que Mark Van Bommel deixou sua marca – e não estamos falando daquelas nas canelas dos adversários, antes que os engraçadinhos se apressem em tirar essa conclusão. Mesmo contestado por alguns, o volante assumiu a função de líder por onde passou, sendo exemplo para os companheiros pela seriedade e por sua dedicação. Hoje, une a prática em campo com a teoria do esporte e vem colecionando resultados interessantes: ajudou, por exemplo, a eliminar a Inter da Liga dos Campeões em 2018, para deleite dos torcedores do Milan. Seu coração ainda está pintado de rubro-negro.

Mark Peter Gertruda Andreas van Bommel
Nascimento: 22 de abril de 1977, em Maasbracht, Países Baixos
Posição: volante
Clubes como jogador: Fortuna Sittard (1992-99), PSV Eindhoven (1999-2005 e 2012-13), Barcelona (2005-06), Bayern Munique (2006-11) e Milan (2011-12)
Títulos conquistados: Eerste Divisie (1995), Eredivisie (2000, 2001, 2003 e 2005), Supercopa da Holanda (2000, 2001, 2003 e 2012), Copa da Holanda (2005), Supercopa da Espanha (2005), Campeonato Espanhol (2006), Uefa Champions League (2006), Bundesliga (2008 e 2010), Copa da Alemanha (2008 e 2010), Serie A (2011) e Supercopa Italiana (2011)
Clubes como treinador: PSV Eindhoven (2018-atual)
Seleção holandesa: 79 jogos e 10 gols



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