Copa do Mundo Jogos históricos Seleção italiana

O ‘Jogo do Século’ e o futebol que não pode ser explicado



Em junho de 1970, Itália e Alemanha Ocidental mostraram ao mundo que, por mais que existam estudos e muita dedicação para entender o futebol, nunca seremos capazes de explicar certos aspectos desse esporte tão apaixonante. Essa epifania tomou corpo no dia em que as duas seleções subiram ao gramado do Estádio Azteca no dia 17, diante de mais de 100 mil pessoas, e protagonizaram o que viria a ser chamado de “Jogo do Século”.

Havia toda uma expectativa em torno do duelo de escolas tradicionais do esporte, que ocorria justo numa semifinal de Copa do Mundo. Era uma tarde ensolarada no México, mas o fuso horário fazia com que a Europa se sentasse à frente da televisão perto da meia-noite de uma quarta-feira. Nesse contexto, italianos e alemães souberam distrair milhões de pessoas que teriam de acordar cedo no dia seguinte.

Treinada por Ferruccio Valcareggi, a Squadra Azzurra chegava à semifinal com muita confiança, tanto por conta do título europeu de 1968 quanto pela tranquila eliminação do México, anfitrião do Mundial, com uma vitória por 4 a 1 nas quartas. Já a Nationalmannschaft alemã não tinha conseguido vaga na fase final da Euro e buscava deixar uma boa impressão em solo mexicano. Depois de um bom desempenho na fase inicial da Copa do Mundo, a equipe treinada por Helmut Schön teve um jogo muito duro nas quartas, no qual acabaram eliminando a Inglaterra e concretizaram a revanche da polêmica final de 1966.

Os primeiros 45 minutos do jogo foram bastante condicionados pelo gol marcado por Roberto Boninsegna, aos oito minutos do primeiro tempo. As equipes ainda buscavam se estudar e ajustar o melhor posicionamento para seus sistemas defensivos quando Giancarlo De Sisti conduziu pelo centro do campo e encontrou Boninsegna de costas para a marcação. O camisa 20 (que foi à Copa porque Pietro Anastasi precisou operar os testículos) dominou, girou e partiu em direção ao gol, mas antes que pudesse finalizar um defensor alemão conseguiu o desarme. Para a sorte dos italianos, a bola voltou para o pé de Bonimba, que finalizou com força, venceu Sepp Maier e fez o primeiro gol da semifinal.

Depois do gol, o jogo começou a se moldar através da dinâmica de uma Alemanha Ocidental que cada vez mais precisaria se lançar ao ataque. Do outro lado, a Nationalelf tinha uma Itália que passaria a ter o cenário que mais lhe agrada: defender de maneira mais compacta e sair em velocidade para o ataque.

O onze inicial italiano na Cidade do México (Interleaning)

Para abordar aspectos táticos dessa partida, precisamos entender que o futebol era visto e jogado de uma outra maneira naquele período. Portanto, se hoje temos o espaço como referencia para organização defensiva das equipes, naquela altura o que predominava eram as referências individuais. Mas o que isso quer dizer na prática? Quer dizer que não podemos tratar aquelas equipes por concepções que temos hoje, como a leitura de esquemas táticos através de números e da identificação das linhas – três defensores, quatro defensores, cinco defensores.

Ao invés disso, temos que atentar às atribuições defensivas de cada jogador, ao modo como perseguições mais longas aconteciam e a como a concentração era fundamental para não deixar buracos no sistema de marcação e oferecer chances de gol para a equipe rival. A partir disso, é possível desenhar o que ocorreu no Jogo do Século.

No momento do primeiro gol da Itália, Boninsegna recebeu a bola pelo lado direito do ataque, sendo acompanhado por Willi Schulz. Poucos minutos depois, Giacinto Facchetti subiria para atacar pelo lado esquerdo e acionaria o mesmo Boninsegna, novamente perseguido de perto pelo zagueiro Schulz. Não existia definição de lado de campo entre os três defensores alemães, mas sim atribuições individuais: Berti Vogts marcava Luigi Riva, Schulz marcava Boninsegna e o milanista Karl-Heinz Schnellinger era o homem da sobra.

Se transferirmos isso para a outro lado do campo, vamos ter cenário parecido no sistema defensivo da Itália. Roberto Rosato era o responsável por acompanhar Gerd Müller, Mario Bertini cuidava de Uwe Seeler e Pierluigi Cera era o homem da sobra. Jogando à frente dos três homens mais recuados da Mannschaft estava Franz Beckenbauer, que tinha uma liberdade de posicionamento muito grande e demonstrava uma postura de deixar qualquer um boquiaberto.

O camisa 4 da Alemanha era a peça responsável por levar a bola até o campo ofensivo, fosse conduzindo ou dispondo dos seus tradicionais lançamentos. Como sua qualidade já era muito conhecida àquela altura, Valcareggi não marcou bobeira e atribuiu a Sandro Mazzola – habitualmente com maior peso na construção ofensiva do que na marcação – a missão de vigiar de perto o craque rival e minimizar os danos do seu poder de criação.

Depois de abrir o placar, a Itália tentou truncar a partida contra a Alemanha Ocidental (imago)

O que tivemos no primeiro tempo foi uma Alemanha que buscava uma construção mais lenta e gradual, através da condução do seu capitão e da força de Jürgen Grabowski e Hannes Löhr pelos flancos, contra uma Itália que sabia se posicionar e guardar bem a entrada da sua área. A Nazionale, quando roubava a bola, também buscava definir a jogada em poucos toques, muitas vezes utilizando a ligação direta com o ataque. Nesse contexto, os alemães tiveram boas oportunidades para empatar a partida ainda no primeiro tempo: a melhor delas com Seeler, que recebeu nas costas de Bertini, mas acabou parando numa boa defesa de Enrico Albertosi.

Na volta para o segundo tempo, Valcareggi trocou Mazzola por Gianni Rivera, dando vez a um rodízio que costumava fazer entre os dois. Contra a Alemanha Ocidental, a busca era por aumentar a força de transição do seu meio-campo. O técnico manteria a ideia desse articulador central vigiar os passos de Beckenbauer, mas também queria ampliar o poder de fogo do seu ataque, que estava precisando de maior velocidade. E podemos dizer que a ideia do treinador italiano funcionou, já que sua equipe foi bem superior nos primeiros 10 minutos da segunda etapa. Dessa vez foi a vez de Maier aparecer e salvar os alemães do que seria o 2 a 0.

Vendo sua equipe perder terreno, Schön resolveu mudar a estrutura da Alemanha e, a partir deste momento, tivemos uma nova partida no Azteca. O treinador tirou Bernd Patzke e Löhr, colocando em campo os meio-campistas Reinhard Libuda e Sigfried Held. Com isso, seu time mudou completamente a dinâmica para atacar.

Vogts e Schulz permaneceram como os homens mais recuados, vigiando Riva e Boninsegna, mas Schnellinger deixou de ser o homem da sobra para ser responsável por iniciar as jogadas da Alemanha pelo lado direito. Por conta dessas modificações, o treinador deslocou Grabowski para o flanco esquerdo e formou por ali um forte conjunto de ataque, com Held, Beckenbauer, Wolfgang Overath e o próprio Grabowski. Assim, os alemães ocidentais evitariam o embate com Facchetti e se lançariam com tudo ao ataque.

Depois dessas mudanças, o jogo passou a ser completamente da Alemanha, que conseguiu atrapalhar completamente tudo que a Itália preparou para a partida. Se a ideia dos italianos na hora de defender estava diretamente ligada aos encaixes individuais, no momento em que a equipe germânica passou a dispor de muitas peças em campo ofensivo, era preciso que o lado azul tomasse uma decisão. Ou os jogadores da Nazionale recuavam para defender em igualdade numérica e abriam mão do seu poder ofensivo ou mantinham sua ideia de jogo, conscientes de que a todo o momento teriam menos defensores do que os adversários teriam atacantes.

Müller foi um perigo constante para a defesa italiana no Azteca (imago/Hartung)

Sem tempo para se acostumar com a nova realidade da partida, os italianos perderam rendimento e acabaram cada vez mais acuados frente a uma Alemanha que se lançava com todo o coração ao ataque. Beckenbauer era o líder técnico, Grabowski era o homem que tentava as jogadas quantas vezes fosse necessário e Müller estava apenas à espera de uma bola que lhe permitisse empatar a partida e levar o jogo para o tempo extra.

Não foi exatamente dessas maneiras, mas de tanto insistir, a Alemanha chegou lá. Os germânicos poderiam tê-lo feito aos 71, quando perderam uma chance clara depois que Overath acionou Grabowski e Rosato cortou em cima da linha (no rebote, Müller chutou para fora). Ou no primeiro minuto de acréscimos, quando Seelercabeceou com perigo e Albertosi fez grande defesa. Porém, só balançaram as redes aos 47 minutos do segundo tempo.

No lance que esfriou os italianos, Held cobrou lateral, Grabowski já dominou colocando a bola na frente e cruzou na medida para Schnellinger. O jogador, conhecido como “Volkswagen”, apareceu como um verdadeiro centroavante e contou com falha de Bertini para vencer Albertosi, coroando todo o esforço de sua equipe. O tento do atleta do Milan (com passagens por Roma e Mantova) foi uma verdadeira surpresa, visto que em toda a sua carreira, o defensor só anotou 17 vezes. Pela seleção, aquela foi a única bola na rede.

Até esse momento do jogo, era possível compreender o que os treinadores poderiam estar planejando e avaliar como os jogadores buscavam executar essas ideias da melhor maneira – e como, dessa forma, eles entregaram 90 minutos extremamente tensos, e de altíssimo nível técnico e físico. Contudo, era difícil esperar que a prorrogação fosse ter a mesma qualidade. Se somavam ao cansaço acumulado dos dois lados, o desenho extremamente ofensivo da Nationalmannschaft naquela altura da partida e um baque sofrido por cada uma das seleções.

A Squadra Azzurra sofreu ao ver sua vaga na final ameaçada no último lance do jogo, enquanto a Alemanha Ocidental tinha um Beckenbauer longe das melhores condições físicas. O craque jogou mais de 20 minutos do segundo tempo com dores, por conta de uma queda sofrida numa falta de Cera, e foi constatado que ele havia deslocado o ombro. Eram permitidas apenas duas substituições à época e, como os germânicos já as haviam realizado, Franz teria de optar entre deixar o time com 10 ou atuar mais 30 minutos com uma vistosa atadura para aproximar o ombro do tórax, que o deixava com mobilidade ainda mais reduzida. Ele escolheu a segunda opção.

Abraçado à trave, Rivera se lamenta com Albertosi por gol de Müller (imago)

É também por momentos como aqueles 30 minutos que aconteceriam no Azteca que o futebol se transformou no que é ao redor do mundo. Muitas vezes as partidas se transformam em eventos desprovidos de qualquer lógica, que não são nem mesmo completamente traduzíveis em palavras. Para o amante do esporte, basta se entregar e terminar de assistir o jogo sem acreditar no que os seus olhos estão vendo.

Como num filme dirigido por Federico Fellini ou Werner Herzog, tudo que aconteceu no Azteca nos últimos 30 minutos daquele duelo foi mágico: uma sequência de acontecimentos que lhe rendeu a alcunha de “O Jogo do Século”. Não sendo possível igualar com nosso relato a grandeza dos momentos que as duas equipes proporcionaram, o que nos resta fazer é reproduzir o que aconteceu neste script que nem os melhores os melhores roteiristas do cinema mundial poderiam pensar em escrever.

Primeiro ato

Aos 4 minutos da prorrogação, Held recebeu a bola pelo lado esquerdo, deixou Angelo Domenghini na saudade e cruzou, à procura de Grabowski. O camisa 10 acabou colocando muita força no levantamento, que terminou com o corte de Facchetti para a linha de fundo – tínhamos ali o primeiro escanteio do tempo extra. Libuda cobrou buscando o segundo pau, Seeler escorou de cabeça e Fabrizio Poletti, que justamente havia entrado para acrescentar sangue novo à Squadra Azzurra, errou na hora de afastar a bola, permitindo que Müller marcasse o seu nono gol na Copa do Mundo, virando o jogo.

Segundo ato

Apenas quatro minutos depois do gol marcado por Müller, a Itália teve uma falta para cobrar na zona central do campo e o roteiro continuou imprevisível e magnífico. Rivera cavou a bola, buscando o centro da área, Held calculou mal o tempo entre pular e cabecear a pelota. Seu erro deixou Tarcisio Burgnich com o queijo e a faca na mão para completar para o gol e empatar novamente o duelo.

Terceiro ato

Seguindo firme e forte em seu roteiro inimaginável e espetacular, o Jogo do Século ia para os minutos finais do primeiro tempo da prorrogação quando a Alemanha teve falta para cobrar na entrada da área da Itália. Overath optou por rolar a bola para o seu lado direito, onde Beckenbauer apareceu para finalizar. Rivera conseguiu bloquear, mas a bola ainda permaneceu em posse dos alemães, com Libuda.

Rivera entrou no segundo tempo e determinou a vitória italiana (imago)

O meia da Alemanha deixou Domenghini sentado no chão, mas logo na sequência acabou desarmado por Rivera, que partiu em direção ao ataque, frente a um sistema defensivo bastante desorganizado. Domenghini, já em pé, foi acionado no flanco esquerdo pelo craque do Milan e só teve o trabalho de levantar a cabeça para colocar Riva, seu companheiro de Cagliari, na cara do gol. O atacante tirou Schnellinger para dançar, finalizou com maestria e deixou a Itália novamente no comando do placar.

Quarto ato

Na volta para os 15 minutos finais do espetáculo, um escanteio voltou a ser o ponto de partida do protagonismo da Mannschaft. Dessa vez, Grabowski cobrou curtinho para Libuda, que cruzou na cabeça de Seeler no segundo pau. O camisa 9 escorou para a pequena área e Müller apareceu para completar para o fundo da rede, entre Rivera e a trave. Com isso, o grande atacante alemão marcou seu décimo gol na Copa e empatou mais uma vez a partida.

Quinto ato

O momento derradeiro, o gol que selou o destino dessas duas equipes históricas e definiu o lado vencedor no jogo do século. Logo na saída de bola que sucedeu ao terceiro tento alemão, a seleção italiana trocou passes de maneira lateral, parecendo ainda atordoada por mais uma vez ver sua vantagem ir embora. Porém, quando Facchetti recebeu a bola pelo lado esquerdo do campo, um pouco à frente da linha central do gramado, tudo mudou.

O capitão da Squadra Azzurra optou pelo passe longo e encontrou Boninsegna no mano a mano com Schulz, seu vigia em toda a partida. No último suspiro de energia, o camisa 20 driblou o marcador, chegou até a linha de fundo e cruzou rasteiro para o centro da área, encontrando Rivera. Sob os olhares de um Beckenbauer exaurido, o milanista finalizou no canto inferior esquerdo de Maier para fazer o quarto gol italiano.

Aquele tento de Rivera encerrou as forças dos alemães, que não conseguiram empatar pela terceira vez. O Golden Boy manteve a hegemonia dos azzurri sobre os germânicos e, principalmente, colocou sua seleção numa final de Copa do Mundo, 32 anos depois do bicampeonato em Paris. O suficiente para tirar os italianos de casa e fazer a festa varar a madrugada no Belpaese.

Itália 4-3 Alemanha Ocidental

Itália: Albertosi; Rosato (Poletti), Burgnich, Cera, Facchetti; Domenghini, Bertini, De Sisti, Mazzola (Rivera); Boninsegna, Riva. Técnico: Ferruccio Valcareggi.
Alemanha Ocidental: Maier; Vogts, Schnellinger, Schulz, Patzke (Held); Beckenbauer, Overath; Grabowski, Müller, Seeler, Löhr (Libuda). Técnico: Helmut Schön.
Gols: Boninsegna (8′), Burgnich (98′), Riva (104′) e Rivera (111′); Schnellinger (90 + 2′), Müller (94′) e Müller (110′)
Local e data: estádio Azteca, na Cidade do México (México), em 17 de junho de 1970
Árbitro: Arturo Yamasaki (Peru/México)
Cartões amarelos: Rosato, Domenghini e Mazzola; Overath e Müller.



Deixe um comentário