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O sentido da vida de Franco Sensi foi a Roma

Foi nas arquibancadas do Campo Testaccio que um jovem Francesco Sensi começou a torcer pelo time que seu pai, Silvio Sensi, ajudou a fundar. Nascido em um 29 de julho de 1926, ele tinha apenas um ano quando a Associazione Sportiva Roma surgiu e deu o primeiro passo de uma trajetória que se confundiria com a daquele garoto ao longo das oito décadas seguintes. Um processo que se intensificaria no período de sua presidência, entre 1993 e 2008.

Silvio Sensi entendia tudo do Testaccio, o primeiro estádio da Roma, que tinha capacidade para 20 mil torcedores. Afinal, o engenheiro foi o responsável pelo projeto e pela construção da praça esportiva, que começou a ser erguida em 1928 e foi inaugurada no ano seguinte. Localizado no coração da Cidade Eterna, a algumas centenas de metros do Circo Massimo, do Coliseu e do boêmio bairro de Trastevere, o Testaccio foi utilizado pela Roma até 1940, quando a equipe se mudou para o Nacional (atual Flaminio) e a antiga construção foi demolida.

Em larga medida, o lado empreendedor do pai foi seguido por Franco. Ele se graduou em matemática, mas em 1959, criou a Italpetroli, companhia dedicada à exploração de petróleo e depois transformada em uma holding que passou a concentrar investimentos na sua atividade primária, mas também nos setores editorial, turístico, imobiliário e, por fim, esportivo. Com isso, o futebol teria papel fundamental na realização profissional de Sensi, representando a sua ascensão, a sua glória e, de certa forma, a sua ruína.

Entre os seus feitos na Roma, Sensi segurou Totti no clube e permitiu que crescesse sob as ordens de Zeman (AP)

A primeira passagem pela Roma

Apaixonado por seu clube do coração, Franco ingressou na Roma como conselheiro, ainda aos 28 anos. Na gestão de Anacleto Gianni, em 1960, substituiu o pai e assumiu o cargo de vice-presidente. Àquela altura, a agremiação capitolina tinha conquistado apenas uma vez o Campeonato Italiano, no início dos anos 1940 – e só. A escassez de taças foi quebrada após a sua entrada na diretoria do clube, dando início a uma curta era de conquistas. Já na temporada de estreia, a vitória sobre o Birmingham no Olímpico garantiu a Copa das Feiras, competição que antecedeu a Copa Uefa e a Liga Europa, mas que não era organizada pela confederação europeia.

Na temporada 1963-64, a Roma conquistou a sua primeira Coppa Italia ao bater o Torino. O time contava com jogadores importantes, como o capitão Giacomo Losi, o atacante argentino Pedro Manfredini e o brasileiro Angelo Sormani, mas Franco precisou segurar a emoção: o empate por 0 a 0 obrigou as equipes a disputarem um segundo jogo, quase dois meses depois. O gol de Bruno Nicolè, aos 85 minutos, garantiu a taça.

No ano seguinte, quando o xará Franco Evangelisti ascendeu ao cargo de presidente da Roma, substituindo Francesco Marini-Dettina, aconteceu a ruptura. O novo mandatário, que era político e ocupava um cargo na Câmara dos Deputados, pertencia ao mesmo partido ao qual Sensi era filiado: a Democracia Cristã. Porém, ambos pertenciam à corrente de Giulio Andreotti e as desavenças nos bastidores do clube se deram meramente por visões gerenciais opostas.

Através dos lucros da Italpetroli, Sensi se tornou um dos homens mais poderosos da Itália (imago/Granata Images)

Um homem de família

De volta às arquibancadas, Franco seguiu com seus negócios. Acima de tudo, o romano era um homem de família. Casou-se com Maria Nanni e teve três filhas: Cristina, Silvia e a primogênita Rosella, que mais tarde daria continuidade ao seu trabalho, tanto no futebol quanto fora dele.

No período em que se tornou um mero torcedor da Roma, o empresário foi prefeito de Visso, pequena comuna italiana localizada na província de Macerata, na região das Marcas – local que, no século XVII, teria sido a origem da família Sensi. Franco ocupou o cargo entre 1985 e 1995, a exemplo do pai, que o fez entre 1960 e 1970.

A ligação com o clube giallorosso, contudo, permaneceu estreita. “A Roma é parte da minha família. Ela senta na mesa conosco todos os dias. É o tema que mais discutimos apaixonadamente”, Franco afirmou certa vez.

Quase 30 anos depois de seu primeiro trabalho no clube, sua outra família o chamava.

O amor incondicional pela Roma fazia com que Franco fosse presença frequente no Olímpico (imago/IPA Photo)

A Era Sensi

Os tempos de glória haviam passado. A Roma não era mais o clube vitorioso dos anos 1980, quando brilhou na gestão de Dino Viola. De fato, em 1993, a Roma era assunto para as páginas policiais.

Giuseppe Ciarrapico, dono e presidente do clube, e o vice-presidente, Mauro Leone, foram acusados de emitirem notas fiscais frias em umas das empresas que comandavam. O escândalo financeiro levou os dois para a prisão e suas companhias à falência. Todo o cenário de caos, incerteza e confusão contábil também atingia o clube, que corria sérios riscos de rebaixamento e de bancarrota.

Era a hora de Franco Sensi voltar ao clube do coração. E assim o fez: junto com o amigo empresário Pietro Mezzaroma, comprou o clube de Ciarrapico e iniciou um lento processo de reconstrução financeira, de credibilidade e, mais profundamente, da alma romanista.

“Não havia clube quando cheguei. Muita gente ficava sentada de pernas para o alto”, descreveu o presidente. “Adquiri a Roma quando ela estava à beira da falência, pagando 20 bilhões de liras e, então, descobri que as dívidas passavam dos 100 bi,” completou.

Ainda assim, Sensi só precisou de alguns meses para comprar a parte de Mezzaroma e tornar-se o único comandante do maior projeto de sua vida. Lembrando o impacto imediato de sua primeira passagem, trouxe o técnico Carlo Mazzone, manteve o clube na Serie A, reestruturou as contas e deu saúde financeira à agremiação. Estava pronto para seguir em frente ao trazer o técnico Carlos Bianchi, em 1997.

O treinador argentino não se encaixou bem na equipe e pressionava pela negociação de uma joia romanista, nascida e lapidada na base do clube, que atendia pelo nome de Francesco Totti. Franco precisava fazer uma escolha: manter o técnico campeão mundial pelo Vélez Sarsfield ou apostar num garoto de 20 anos?

A história mostra que Sensi, calejado por uma vida cheia de batalhas, muitas vezes encaradas de forma solitária, fez a opção correta. “Graças a ele fiquei na Roma. Estava a caminho da Sampdoria, mas ele escolheu a mim em vez de Bianchi. Se tivesse ido, não teria voltado”, cravou Totti, o maior ídolo da história romanista. Sob o comando de Zdenek Zeman, o meia-atacante ganhou protagonismo e recebeu a faixa de capitão giallorosso.

Já debilitado, o dono da Roma é amparado por Totti e Spalletti: Sensi comandou o clube em momentos gloriosos (imago)

O scudetto de sua vida

O triunfo da Lazio na temporada 1999-2000 mexeu com Franco. Em sua visão, ver a capital pintada de azul e branco após o scudetto era inadmissível. Fabio Capello, contratado para a campanha que terminou com o título rival, continuou no comando do time, mas Franco mexeu na comissão técnica e fez um enorme investimento em novas peças, apostando todas as suas fichas para desbancar a adversária capitolina. Assim, a Roma contratou Walter Samuel, Emerson, Jonathan Zebina e Gabriel Batistuta – para isso, investiu 120 bilhões de liras, uma quantia astronômica para a época.

“Capello era um vencedor. Fortalecemos o time, mas não tínhamos muitas opções no banco. E também sofríamos com muitas lesões. Trazer Massimo Neri como preparador físico provou-se um ponto de inflexão. E Batistuta foi a cereja do bolo”, disse o presidente, em palavras relembradas pelo site oficial da Roma.

A vitória sobre o Parma, em 17 de junho de 2001, dentro de um Olímpico abarrotado, foi o passo derradeiro para a glória máxima: a euforia tomava o lado aurirrubro da capital 18 anos depois do scudetto anterior, conquistado por nomes como Nils Liedholm, Bruno Conti e Paulo Roberto Falcão. Franco Sensi entrava, definitivamente, para a história da Roma como um de seus maiores presidentes. Ao mesmo tempo, o romano realizava o sonho que começou a ser sonhado ainda nas arquibancadas do Testaccio, torcendo pelo time que seu pai ajudou a fundar.

O Testaccio, aliás, voltou a ter atividades na gestão de Sensi, já que o presidente articulou a reconstrução da praça, em sua localização original, com o prefeito Francesco Rutelli. Em 2000, o poder público entregou, nos arredores de uma área bastante arborizada, um campo de terra batida e de dimensões menores do que as de tempos remotos – diferentemente do que a Roma havia proposto. O suficiente para o uso em peladas e pelos fraldinhas romanistas, contudo. Oito anos depois, obras adicionais acabaram ocasionando problemas estruturais no terreno, que está abandonado desde então.

Sensi, porém, não viu a degradação acontecer e pode conservar lembranças melhores. “A vida é uma série de memórias. Papai foi um dos fundadores e agora que ganhamos esse scudetto, quero dedicá-lo a ele”, disse, em 2001.

Rosella Sensi recebeu do pai a tarefa de representá-lo no clube e, depois, virou presidenta (imago/Ulmer/Lingria)

A passagem de bastão

Apesar de sua paixão pela Roma, Franco fez incursões em outras agremiações. Em 1998, comprou ações do Foggia e do Nice, que disputava a segunda divisão francesa. A ideia era transformá-los em times-satélite da Roma, mas o projeto não funcionou e durou apenas alguns anos. O mesmo aconteceu com o Palermo: Sensi venceu a corrida contra Flávio Briatore (conhecido como chefe de equipe da Benetton e da Renault na Fórmula 1) e, de posse do clube rosanero, o levou da Serie C1 para a B. Em 2002, se desfez de suas cotas em outras praças e permaneceu apenas à frente da Loba.

Em 2004, a saúde já não era a mesma de outros tempos. Assim, Franco permaneceu no clube, mas entregou à sua filha Rosella a missão de, na função de principal executiva giallorossa, continuar o seu legado – que agora era, mais do que nunca, também de sua primogênita. Juntos, os Sensi levaram a Roma à conquista de outros troféus, como os da Coppa Italia e da Supercopa Italiana, ambos por duas vezes.

Em agosto de 2008, com problemas respiratórios, Franco foi internado no Hospital Agostino Gemelli, onde veio a falecer no dia 17 daquele mesmo mês, aos 82 anos. O velório, no Campidoglio, foi acompanhado por milhares de romanistas. Já o seu caixão, seguindo o rito tradicional, foi carregado por jogadores e membros do estafe técnico da época – como Totti, Christian Panucci, Stefano Okaka, Júlio Baptista e Luciano Spalletti.

Após a morte do patriarca, Rosella Sensi, então com 36 anos, ascendeu à presidência. Com isso, se tornou a segunda mulher a assumir tal cargo no futebol italiano, após Flora Viola, também na Roma. Enquanto a esposa de Dino desempenhou a função apenas por alguns meses, enquanto procurava um comprador para o clube, a filha mais velha de Franco se manteve firme em Trigoria. Afinal, era tão apaixonada pelo esporte quanto o pai e tinha experiência – uma vez que, desde 2006, era a vice-presidente da liga.

Rosella fez uma gestão de muita personalidade, regada a presenças frequentes tanto no Olímpico quanto no centro de treinamentos do clube. Próxima a Totti – a quem define como irmão mais novo – a presidenta teve bom convívio com o elenco giallorosso e conduziu uma Roma em dificuldades financeiras a vices na Supercopa Italiana, na Coppa Italia e no campeonato nacional. Nos bastidores, mostrando poder, também foi reeleita por seus pares na reformulação que transformou a antiga Lega Calcio na Liga Serie A, em 2010.

A família Sensi deixou a Roma há uma década, mas a sua sombra continua presente em Trigoria (imago)

O vácuo pós-Sensi

Para entender a Roma nos tempos de Sensi é preciso ter em mente que o clube não era independente. Família, trabalho, paixão, clube e negócios: tudo gravitava numa mesma órbita. Não havia como desvincular estes fatores.

Dessa forma, a venda do braço esportivo da Italpetroli era fundamental para salvar as finanças da holding, assim como, em 1993, a empresa foi crucial para garantir a sobrevivência do clube. Notícias da época indicavam que o rombo na petrolífera era de 360 milhões de euros. A “escolha de Sofia” tornava impossível salvar os dois. O fim da gestão dos Sensi parecia inevitável depois de contínuos sacrifícios financeiros, iniciados ainda naquele mágico 2001.

Franco não estava vivo para ver Rosella vender a Italpetroli e a Roma ao banco UniCredit e, em seguida, entregar o comando do clube ao norte-americano Thomas DiBenedetto, em 2011. Sem celebrar conquistas desde a Coppa Italia de 2007-08, o torcedor romanista ainda associa a família Sensi ao delicioso sabor dos tempos de glória – em contraste à época de vacas magras do gélido James Pallotta, que foi presidente do clube entre 2012 e 2020 e não deixou saudades.

A comunhão de Franco Sensi com a torcida foi sui generis. Na visão dos romanistas, não era apenas um dirigente tomando decisões, mas um torcedor entregando sua lealdade para o clube que amava incondicionalmente – algo que foi comum em décadas de um futebol romântico e tocado por mecenas. “Em seus 15 anos no clube, ele sempre passou por momentos difíceis e temporadas ruins, mas isso nunca impactou em seu grande carinho pelo clube”, definiu Bruno Conti.

Não importava ser empresário, bacharel em matemática ou condecorado como Cavaliere del Lavoro pela República Italiana. Antes de tudo, Franco Sensi, romano e romanista, foi uma alma imersa em amarelo e vermelho.

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